“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Fenômenos Anômalos Não Identificados

quarta-feira, 4 de março de 2026

A designação oficial utilizada por agências governamentais dos Estados Unidos, incluindo a NASA e o Departamento de Defesa, para se referir a observações de objetos ou eventos no céu, no mar ou no espaço que não podem ser imediatamente identificados ou explicados é Fenômeno Anômalo Não Identificado (UAP, do inglês Unidentified Anomalous Phenomena).

Essa terminologia substituiu o termo mais antigo "OVNI" (Objeto Voador Não Identificado) para abranger uma gama mais ampla de fenômenos que podem não ser estritamente "objetos" ou "voadores". A mudança reflete uma abordagem mais científica e rigorosa para estudar esses eventos, removendo o estigma associado ao termo OVNI. Embora com uma incidência bem menor de UAP do que os Estados Unidos, já ocorreram certos fenômenos ufológicos no Brasil mundialmente famosos. Alguns foram citados aqui.

Além da Operação Prato e do Caso Varginha, também merece destaque o Caso Cláudio. Era o ano de 2008 e, nesse município do interior de Minas Gerais, diversos relatos demandaram diversas viaturas policiais. Além de testemunharem os fenômenos, os policiais perseguiram as luzes e fotografaram alguns objetos. O ponto mais marcante se deu na noite de 20 de novembro, numa área rural, quando a guarnição liderada pelo tenente Austríaco avistou dois seres luminosos, de aparência humanoide, que aparentemente coletavam amostras do solo. Os agentes tentaram se aproximar, mas sentiram dores de cabeça e peso no corpo, além de uma sensação de tempo perdido - o que eles acreditaram ter sido 30 a 40 minutos, na verdade, foram mais de duas horas.

Para o historiador, não vem ao caso provar se tais relatos são autênticos ou fraudulentos, mas sim mostrar seus impactos sociais, culturais e políticos. Em Varginha, por exemplo, os avistamentos de supostas naves e extraterrestres já foi objeto de escárnio, mas hoje alimenta o turismo na cidade. No passado, os políticos se silenciavam quanto a tais casos, ou mesmo os negavam, mas hoje testemunhamos a "Era do Desacobertamento" (estamos aqui fazendo referência ao documentário The Age of Disclosure, lançado em 2025 e disponível no Amazon Prime Video).

Extraordinárias vidas comuns

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 


Quando falamos em história, é comum pensarmos em imperadores, reis, nobres e generais. Apesar de quase um século de grandes transformações historiográficas inauguradas pela Escola dos Annales, o peso da historiografia positivista ainda é sentido. Os historiadores da corrente inaugurada por Leopold von Ranke e Barthold Niebuhr recorriam apenas a fontes escritas e oficiais, tratavam apenas de temas políticos e militares e não se descolavam da "curta duração". No afã por escrever uma história neutra, acabaram reforçando o papel das elites e o estigma social dos menos favorecidos.

Mas as pessoas comuns são extraordinárias. Como afirmou G. K. Chesterton, "a coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns." Não é por terem deixado menos fontes ao longo do tempo - ou terem sido menos preservadas, uma vez que a prioridade normalmente foi guardar a memória da elite - que não valha a pena o esforço por estudar as pessoas simples. Um dos historiadores citado em vários posts aqui no blog, Martin Gilbert, sempre deu voz a essas personagens - seja em sua obra sobre a história do século XX, sobre a Segunda Guerra Mundial ou sua história de Israel.

Se você, assim como eu, vive uma vida comum, alegre-se. Muitos poderosos invejam uma vida no anonimato - de Diocleciano (leia aqui) a Nikolai Romanov (o último czar russo, após a abdicação; testemunhas disseram que ele nunca fora tão feliz, cuidando da sua família, longe do poder). Os nossos dias passam-se demasiado rapidamente para que possamos nos dar ao luxo de não aproveitá-los intensamente. 

Ivanov e o "humanzee"

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Na década de 1920, o biólogo russo/soviético Ilya Ivanovich Ivanov (1870-1932) planejou e tentou inseminar mulheres com sêmen de macacos (especificamente chimpanzés ou orangotangos). Isso fazia parte de experimentos para criar um híbrido humano-macaco - o "humanzee". O patrocinador das pesquisas era o governo soviético, e o objetivo era provar a teoria da evolução de Darwin e enfraquecer a influência religiosa (além de especulações, nunca comprovadas, sobre criar "super-soldados" para Stalin).

Os planos de Ivanov de criar híbridos humano-macaco já eram apresentados em congressos científicos em 1910. Vale lembrar que ele era pioneiro em inseminação artificial - uma técnica que revolucionou a criação de cavalos e outros animais.

Em 1926-27, na Guiné Francesa (África), ele inseminou artificialmente três fêmeas de chimpanzé com sêmen humano. Nenhuma delas engravidou, e o experimento falhou.

Porém, Ivanov não desistiu. Então, ele planejou o inverso: inseminar mulheres africanas com sêmen de macacos, sem o consentimento delas. O pretexto seria fazer exames ginecológicos em um hospital local. O governador colonial francês vetou o plano por razões éticas e políticas.

De volta à União Soviética, em Sukhumi, atual Abkhazia, o cientista recrutou voluntárias - pelo menos cinco mulheres, atraídas pela propaganda comunista de "ciência progressista". A ideia era inseminá-las com o sêmen de um orangotango chamado Tarzan. Porém, ele morreu antes da coleta do sêmen, e Ivanov perdeu apoio científico e político, sendo criticado pela Academia de Ciências Soviética.

Em 1930, Ivanov foi acusado de sabotagem, no contexto da purga stalinista. Exilado no Cazaquistão, morreu em 1932. Nenhum híbrido de humanos e macacos nasceu, e esse episódio é um dos mais bizarros e antiéticos da história da ciência - hoje é considerado um crime contra a humanidade e violação total da bioética.  

Voltaire e o Caso Calas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A prisão de Calas, 1879, óleo sobre tela de Casimir Destrem (1844-1918).

Em outubro de 1761, o filho mais velho do comerciante de tecidos huguenote Jacques Calas foi encontrado enforcado, o que desencadeou um surto de histeria anti-huguenote entre a população católica romana local. Calas foi preso e acusado de ter assassinado o filho para impedi-lo ou puni-lo por sua conversão ao catolicismo; sua execução ocorreu em março do ano seguinte. Voltaire, ao saber do caso, elegeu-o como símbolo da intolerância e do fanatismo e deu início a uma vigorosa campanha, convencendo amplos segmentos da opinião pública europeia de que o veredito dos juízes fora influenciado por seus sentimentos pessoais anti-huguenotes. Assim, em 1765, o Conselho real reabilitou Calas, pagando uma indenização à família.

O caso Calas fortaleceu o movimento pela tolerância religiosa e pela reforma do código criminal na França, mas tal reforma só ocorreria na década de 1780. Quanto a Voltaire, graças à sua intervenção no caso, tornou-se a consciência ativa de sua época, o profeta da justiça e da razão - e não sob uma forma abstrata, mas concreta e pessoal, em defesa de um huguenote assassinado pelo sistema judicário francês, claramente vítima do sacerdotalismo e seus acessórios legais, políticos e sociais.     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 428. Adaptado. 

Incertezas após a Vitória

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Desde agosto de 1945, o mundo vive uma era de incertezas.

Pela primeira vez na história, o advento das armas nucleares tornou possível para um único ser humano destruir dezenas - talvez centenas - de milhões de vidas, e os avanços tecnológicos possibilitam que isso seja feito em apenas alguns minutos. Nenhuma das figuras mais assustadoras da história - Gêngis Khan; Alexandre, o Grande; Adolf Hitler - tinha qualquer coisa parecida. Se no século XIII Khan decidisse esmagar um império ou Estado, isso levaria algum tempo. Se esse território fosse enorme - como a China -, essa empreitada, provavelmente, levaria décadas. No entanto, se o presidente Richard Nixon, em 1969, decidisse lançar um ataque nuclear no mesmo local, poderia ter aniquilado 100 milhões de chineses em uma tarde.

Se a humanidade tratasse essa nova arma da maneira que tratou todas as outras armas eficazes já inventadas antes, a próxima guerra mundial veria uma capacidade destrutiva quase divina. Muitas das centenas de pessoas que testemunharam o nascimento da era atômica perceberam isso no minuto em que viram o teste da Trinity no deserto. "Agora eu sou a morte, a destruidora de mundos", disse Oppenheimer.

Assim como com os cientistas, as reações dos norte-americanos foram variadas. Se você está envolvido em uma guerra mundial e seu lado adquire uma superarma, isso sem dúvida será visto de maneira positiva. Em seu livro In the Shadow of War, o historiador Michael S. Sherry descreve as reações variadas dos americanos após o anúncio do presidente Truman na televisão informando ao seu povo, e ao mundo, que a bomba havia sido lançada e explicando o que era essa nova arma e por que havia sido usada. "Alguns enfatizaram o orgulho pelas conquistas e a satisfação em obterem vingança contra os japoneses." Certas pessoas lamentaram que mais bombas não fossem jogadas sobre o Japão. "Outros - em especial, soldados que presumiram que a invasão do Japão era a única alternativa ao uso da arma - saudaram a paz que a bomba havia trazido mais depressa, e a própria bomba como uma ferramenta para manter a paz."

Outros viram a questão de maneira completamente diferente - para eles, a bomba era evidência do flagelo da guerra moderna. Houve quem sentisse que era um augúrio sobre o que o futuro nos reserva. O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, disse o seguinte: "É raro, senão inédito, uma guerra terminar deixando os vencedores como um sentimento tão intenso de incerteza e medo - com o conhecimento de que o futuro é incerto e que a sobrevivência não é garantida."

CARLIN, Dan. O fim está sempre próximo: momentos apocalípticos, do colapso da Idade do Bronze até ameaças nucleares. Tradução de Flora Pinheiro. Rio de Janeiro: Happer Collins, 2020, p. 168-169.

De Imperador a Agricultor

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

 

Em 305 d.C., Diocleciano entrou para a história como o primeiro dos imperadores romanos a abdicar do poder voluntariamente. Em seu retiro, em Salona (atual Split, Croácia), o ex-imperador dedicou-se ao cultivo de hortaliças, especialmente repolhos. 

Quando Maximiano e Galério lhe pediram para reassumir o trono, Diocleciano recusou como se repelisse uma peste: "Se pudésseis ver em Salona os vegetais plantados por minhas próprias mãos, jamais consideraríeis adequado que eu voltasse a ser imperador." Sextus Aurelius Victor. Epitome de Caesaribus, 39.6.

Jihad contra o Ocidente

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A ideia de jihad como uma guerra contra o Ocidente teve na obra de Sayyid Qutb (1906-1966) uma de suas formulações mais influentes. Qutb, sobre quem há uma obra disponível aqui, buscava promover uma revolução moral e religiosa. O ideólogo contribuiu para isso promovendo uma crítica profunda ao Ocidente (seria materialista, imoral e destrutivo). Essa crítica fomentou a noção de que o Islã deveria resistir à influência ocidental, não apenas militarmente, mas cultural e espiritualmente. O Ocidente representaria uma pressão que desviava os muçulmanos de Deus.

Nesse sentido, a jihad seria um instrumento de libertação. Ela não constituiria mero ataque militar, mas um esforço para retirar a humanidade do domínio humano e colocá-la sob domínio de Deus. Ou seja, para Qutb, a jihad era "guerra contra sistemas humanos opressores", que ele via no Ocidente e em governos muçulmanos seculares. Por fim, Qutb defendia que uma elite fiel (tali'a) deveria iniciar uma transformação de cima para baixo, semelhante à dos primeiros companheiros de Maomé. Essa ideia de "vanguarda" inspirou movimentos que passaram a pensar em lutas revolucionárias contra Estados estabelecidos, especialmente aqueles ligados ao Ocidente.

Após a execução de Qutb pelo governo egípcio, em 1966, suas obras foram apropriadas por militantes que exageraram o aspecto militar de sua teoria, ignoraram suas advertências éticas contra violência indiscriminada e transformaram a "libertação humana" em retórica de guerra.