“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Justiça Árabe x Justiça Ocidental

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Para entender o contexto abaixo, leia: Um Duelo Medieval 

Nada mais natural que essa indignação do emir, pois para os árabes do século XII a justiça é uma coisa séria. Os juízes, os cádis [acima], eram personagens altamente respeitados, que, antes de pronunciar sua sentença, têm a obrigação de seguir um procedimento definido, estabelecido pelo Alcorão: acusação, defesa, testemunhos. O "juízo de Deus", ao qual os ocidentais frequentemente recorrem, lhes parece uma farsa macabra. O duelo descrito pelo cronista é apenas uma forma de ordálio. A prova do fogo é outra. E também o suplício da água, que Osama descobre com horror:

Um grande tonel cheio de água tinha sido instalado. O jovem que era objeto de suspeita foi amarrado, suspenso pelas omoplatas a uma corda e colocado no tonel. Se ele fosse inocente, eles diziam, ele afundaria na água e seria retirado por meio da corda. Se ele fosse culpado, não conseguiria mergulhar na água. O infeliz, quando atirado no tonel, se esforçou para ir ao fundo, mas não conseguiu e precisou se submeter aos rigores da lei, que Deus os amaldiçoe! Então enfiaram em seus olhos um buril de prata incandescente e o cegaram.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149.

Um Duelo Medieval

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Leia a continuação, aqui

Em Nablus, ele [o cronista árabe Osama] conta, tive a ocasião de assistir a um curioso espetáculo. Dois homens deviam se enfrentar em combate singular. O motivo era o seguinte: bandidos muçulmanos tinham invadido uma aldeia vizinha e se suspeitava que um cultivador lhes servira de guia. Ele fugira, mas logo precisara voltar, pois o rei Fulque mandara prender seus filhos. "Trate-me com equidade", pedira o cultivador, "e permita que eu enfrente aquele que me acusou." O rei dissera então ao senhor que recebera a aldeia como feudo: "Traga o adversário". O senhor escolhera um ferreiro que trabalhava na aldeia, dizendo-lhe: "É você que lutará em duelo". O possuidor do feudo não queria que um de seus camponeses fosse morto, com medo de que seus cultivos fossem prejudicados. Vi então esse ferreiro. Era um jovem forte, mas que, ao caminhar ou se sentar, sempre sentia necessidade de pedir algo para beber. O acusado, por sua vez, era um velho corajoso que estalava dedos em sinal de desafio. O visconde, governador de Nablus, se aproximou e deu a cada um uma lança e um escudo, fazendo com que os espectadores ficassem em círculo em volta deles.

A luta começou, continua Osama. O velho empurra o ferreiro para trás, na direção da multidão, depois voltava para o meio da arena. Houve uma troca de golpes, tão violenta que os rivais pareciam formar uma única coluna de sangue. O combate se prolongou, apesar das exortações do visconde, que queria apressar seu desfecho. "Mais rápido!", ele gritava. Por fim, o velho ficou exausto, e o ferreiro, tirando proveito de sua experiência em manejar o martelo, acertou-o com um golpe que o derrubou e o fez soltar a lança. Depois, ele se agachou sobre ele para enfiar os dedos em seus olhos, mas não conseguiu por causa do sangue que jorrava. O ferreiro se levantou e matou o adversário com um golpe de lança. Imediatamente, amarram ao pescoço do cadáver uma corda com a qual o arrastaram até o cadafalso, onde o enforcaram. Veja, através deste exemplo, como é a justiça dos franj [cruzados]!

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 148-149.

A Batalha de Tagina (552)

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

 

Em julho de 552, foi travada a Batalha de Tagina, também conhecida como Batalha das Tumbas dos Galos (Busta Gallorum), perto da atual Gualdo Tadino, Itália.

As forças do Império Romano do Oriente (ou Bizantino) foram comandadas por Narses, ao passo que os ostrogodos foram liderados pelo seu rei, Tótila. Narses utilizou uma tática defensiva forte, posicionando a sua infantaria germânica no centro, em formação densa e flanqueando-a com tropas bizantinas e 4 mil arqueiros em cada ala.

Após uma vitória decisiva dos bizantinos, os ostrogodos abandonaram a formação e fugiram no início da noite. Tótila foi morto, provavelmente durante o tumulto da fuga, e o caminho se abriu para a conquista bizantina total da Península Itálica.

A vitória de Narses em Tagina foi decisiva, marcando um ponto crucial da Guerra Gótica (535-554). Embora os ostrogodos ainda tenham tentado reagrupar-se sob o sucessor de Tótila, Teia, a derrota final na Batalha de Mons Lactarius, no ano seguinte, marcou o fim do domínio ostrogótico na Itália.

Basílio II Bulgaróctono

terça-feira, 30 de setembro de 2025

 

Basílio II, imperador bizantino de 976 a 1025, ficou conhecido como Bulgaróctono ("o Matador de Búlgaros"). Nascido em 958, tornou-se imperador muito jovem, o que permitiu que regentes e generais poderosos como os irmãos Bardas Esclero e Bardas Focas exercessem grande influência na corte. Assim, Basílio II assumiu o controle efetivo por volta de 985 d.C.

A maior fama de seu reinado advém das guerras travadas contra o Primeiro Império Búlgaro. A campanha durou décadas. Após a batalha de Clídion (1014), cerca de 15 mil soldados búlgaros capturados foram cegados e enviados de volta ao czar Samuel, o que valeu a Basílio II a alcunha de Bulgaróctono. A guerra terminou em 1018, com a completa incorporação da Bulgária ao Império Bizantino.

Também obteve vitórias contras árabes, georgianos e outras forças orientais, consolidando as fronteiras. Graças à sua disciplina fiscal, legou ao império um dos maiores tesouros de sua história. A Igreja foi mantida sob controle do Estado, e a nobreza terratenente foi limitada; por outro lado, favoreceu os camponeses soldados (stratiotes), fundamentais para o exército bizantino.

O reinado de Basílio II assinalou o auge do poder militar e financeiro da civilização bizantina, que alcançou sua máxima extensão territorial desde Justiniano. Contudo, Basílio não deixou herdeiros diretos, e o poder passou a irmãos e parentes menos capazes, iniciando assim o lento declínio do Império Bizantino após 1025.

A Dinastia Fatímida (909-1171)

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A Dinastia Fatímida estabeleceu um Califado xiita ismaelita que governou uma vasta área do Norte da África e do Oriente Médio. A dinastia foi fundada em 909, por Abedalá Almadi Bilá, na Ifríquia (atual Tunísia) após derrubarem a dinastia Aglábida. Sua capital foi Mádia e, além da ação militar, a difusão da sua fé pelo Norte da África, pela ação de missionários ismaelitas, resultou na consolidação do seu poder pelo Magrebe.

Em 969, os fatímidas (que têm esse nome porque alegavam descender de Ali e sua mulher Fátima, filha do profeta Maomé) conquistaram o Egito. Eles fundaram o Cairo, que se tornou sua nova capital, além de um grande centro de cultura, comércio e aprendizado islâmico. A partir dali o seu controle se expandiu para a Palestina, a Síria e, por um tempo, partes da Arábia, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina. A rivalidade com o Califado Abássida, sunita, foi marcante. A partir do século X, os fatímidas se enfraqueceram, devido a crises internas, disputas pelo poder, crises econômicas e a ascensão de novas potências, como os Seljúcidas. Em 1171, o vizir Saladino dissolveu o Califado Fatímida, restaurando o Islã sunita no Egito e fundando a Dinastia Aiúbida.

Guerreiros Árabes

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

 

Por séculos, os guerreiros do Islã dominaram os campos de batalha, da Arábia à Ásia Central, do Norte de África à Espanha. Se é verdade que rápida expansão dos árabes, a partir do século VII, não pode ser explicada sem que consideremos o enfraquecimento dos impérios Bizantino e Sassânida, bem como a indiferença dos citadinos quanto a quem os governaria, também é verdade que a coragem, a força e o senso de unidade dos árabes era reconhecido até pelos seus inimigos. Tudo isso nos remete a uma antiga profecia, que consta no primeiro livro bíblico:

"E ele será homem selvagem; sua mão será contra todo homem, e a mão de todo homem contra ele; e ele habitará na presença de todos os seus irmãos." Gênesis 16:12 (KJV)

Justo, o Monge

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Uma ilustração do séc. XII relativa à vida de São Cuteberto (634-687).

Vivia lá [no mosteiro de Gregório, o Grande] um monge chamado Justo, especialista em medicina. Justo caiu doente sem esperança de cura e foi assistido pelo seu irmão carnal Copioso, também ele médico. Justo confessou ao irmão que escondera três moedas de ouro a este mais não pôde fazer do que informar os monges.

Encontraram as moedas de ouro escondidas com os medicamentos. Contaram isto a Gregório que reagiu vivamente, pois a regra do mosteiro estipulava que os monges tivessem tudo em comum. Gregório, perturbado, perguntou-se o que poderia fazer de útil ao mesmo tempo para a "purgação" do moribundo e para edificação dos monges. Proibiu aos monges que respondessem aos apelos do moribundo se este os desejasse junto de si e ordenou a Copioso que dissesse ao irmão que os monges, sabendo do seu ato, sentiam por ele repulsa, até que se arrependesse no momento de morrer. E quando o seu corpo estivesse morto não seria enterrado no cemitério dos monges mas lançado para um buraco do lixo e os monges atirariam para sobre o seu corpo as três moedas de ouro, gritando: "Que o teu dinheiro fique contigo, para tua perdição."

Tudo se passou e foi feito como previsto. Os monges, aterrados, evitaram todos os atos repreensíveis. Trinta dias depois da morte de Justo, Gregório pôs-se a pensar com tristeza nos suplícios que devia estar a sofrer o monge defunto e ordenou que, durante os trinta dias seguintes, fosse celebrada diariamente uma missa em sua intenção. Ao fim de trinta dias, o morto apareceu ao irmão, de noite, e disse-lhe que até àquele dia tinha sofrido, mas que acabava de ser admitido à comunhão (dos eleitos). Foi evidente que o morto escapara aos tormentos graças à hóstia salutar.     

LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. Tradução de Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo. Lisboa: Estampa, 1993, p. 113. 

As Invasões Bárbaras dos Sécs. IX-X

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Após 896, os ataques navais dos escandinavos e dos muçulmanos ocidentais foram imitados, por terra, pelos magiares com suas incursões de cavalaria. (Os nômades magiares eurasianos, empurrados em direção ao oeste pelos pechenegues, ainda mais ferozes, haviam ocupado, em 896, o vazio criado pelo extermínio dos ávaros no enclave de uma região de estepe no país que é hoje a Hungria.)

As invasões bárbaras dos séculos IX e X foram talvez mais atrozes para a Cristandade Ocidental do que os séculos V e VI. A tentativa de Carlos Magno de reerguer o Império Romano Ocidental parecia ter sido contraproducente. No entanto, mais uma vez uma sociedade europeia ocidental, que parecia rebaixada quando vista de dentro, parecia fascinante aos bárbaros que haviam caído sobre ela. Em 911, Carlos o Simples, o Rei carolíngio da Frância Ocidental, concordou, forçado, com a instalação permanente de um bando de vagabundos do mar escandinavo onde é hoje a Normandia, com a condição de que eles se convertessem ao cristianismo. Tornou-se então evidente que o trabalho cultural de Carlos Magno havia sido mais importante que a construção do seu Império. Os normandos foram cativados pela civilização em cujo domínio haviam forçado a entrada. Adotaram entusiasticamente a língua, as maneiras e os costumes, assim como a religião, do pedaço das terras carolíngias que haviam tornado sua propriedade.  

TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a Mãe-Terra - Uma História Narrativa do Mundo. Tradução de Helena Maria C. M. Pereira e Alzira S. da Rocha. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 496-497.

Os Festivais Medievais

quinta-feira, 8 de junho de 2023

 

O homem moderno é livre de procurar individualmente, quando lhe apraz, as suas distrações favoritas; nos livros, na música, na arte ou na natureza. Por outro lado, nos tempos em que os prazeres de caráter elevado não eram acessíveis nem muitos, o povo sentia a necessidade destes divertimentos coletivos que são as festas. Quanto mais opressora é a miséria da vida cotidiana mais fortes têm de ser os estímulos necessários a produzir essa intoxicação feita de arte e alegria, e sem que a vida se tornaria insuportável. O século XV, profundamente pessimista, inclinado à depressão, não podia dispensar estas afirmações enfáticas da vida tal como lhe eram dadas nas esplêndidas e solenes festas coletivas. Os livros eram custosíssimos, o campo cheio de perigos, a arte rara; o indivíduo dispunha de escassos meios de distração. Todos os divertimentos literários, musicais e artísticos estavam mais ou menos ligados aos festivais.

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 259. 

Extravagâncias Religiosas do Medievo

terça-feira, 6 de junho de 2023

Colette de Corbie (1381-1447), santa padroeira das mulheres que procuram engravidar.

A Igreja na Idade Média tolerava muitas extravagâncias religiosas desde que não conduzissem a novidade de espécie revolucionária em pontos de moral ou de doutrina. Enquanto se confinasse dentro dos limites das fantasias hiperbólicas e dos êxtases a emoção superabundante não constituía perigo. Por isso muitos santos eram notórios pela sua reverência fanática pela virgindade, que tomava a formava de verdadeiro horror por tudo quanto se relacionasse com o sexo. Santa Colette é um exemplo. Ela apresenta todas as particularidades daquilo a que William James chamou "a condição teopática". A sua sensibilidade era imensa. Não podia suportar nem a luz nem o calor do fogo, apenas a luz das velas. Tinha uma aversão exagerada pelas moscas, lesmas e formigas, pelo lixo e maus cheiros. A sua repugnância pelas funções sexuais inspirava-lhe grande desgosto pelos santos que se haviam casado e levou-a a só admitir virgens na sua congregação. A Igreja louvou sempre estas tendências, tendo-as por edificantes e meritórias.  

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 202. 

Devoção e Mundanidade no Medievo

domingo, 4 de junho de 2023

 

Filipe, o Bom (1396-1467), duque da Borgonha. Retrato de c. 1455, por Rogier van der Weyden (1399/1400-1464).

Alguns dos príncipes do século XV são de um tipo inconcebível pela mistura de devoção e de deboche. Luís de Orleães, um amante insensato do luxo e do prazer, dado ainda por cima à necromancia, tem a sua cela no dormitório comum dos Celestinos, onde compartilha as privações e dos deveres da vida monástica, levantando-se à meia-noite e ouvindo às vezes cinco e seis missas por dia.

A coexistência da devoção e da mundanidade na mesma pessoa é uma das características e da mundanidade na mesma pessoa é uma das características de Filipe, o Bom. O duque, famoso pela sua moult belle compagnie de bastardos, as suas festas extravagantes, a sua política ambiciosa, e ainda pelo seu orgulho não menos violento do que o seu temperamento, é ao mesmo tempo profundamente devoto. Tem o costume de permanecer no oratório depois da missa durante muito tempo e de ficar a pão e água quatro dias por semana e durante as vigílias de Nossa Senhora e dos Apóstolos. Muitas vezes conservava-se em jejum até às quatro horas da tarde. Dá grandes esmolas em segredo. Depois da tomada de Luxemburgo demorou-se tanto rezando as suas horas e as suas orações em ação de graças que a sua escolta, que o esperava a cavalo, perdeu a paciência, pois o combate ainda não estava terminado. Ao ser avisado do perigo, o duque respondeu: "Se Deus me concedeu a vitória, há-de guardar-ma."  

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 188. 

O Desprezo pelo Clero na Idade Média

quinta-feira, 1 de junho de 2023

 

Monges em um porão, 1873, pintura de Joseph Haier (1816-1891).

De todas as contradições que a vida religiosa desse período apresenta a de mais difícil solução é a do confessado desprezo pelo clero, um desprezo que, como uma corrente não visível à superfície, se desenvolve paralelamente com o maior respeito pela santidade da vida sacerdotal. A alma das massas, ainda não inteiramente cristianizada, nunca esquecera a aversão que o selvagem sente contra o homem que não tem de lutar e que deve permanecer casto. O orgulho feudal do cavaleiro, campeão da coragem e do amor, fazia corpo, neste ponto, com o instinto primitivo do povo. A mundanidade dos mais categorizados membros do clero e a deterioração dos de mais baixo grau fizeram o resto. Daqui provinha que os nobres, os burgueses e os vilãos tivessem desde há muito alimentado esse ódio com sarcasmos dirigidos aos monges incontinentes e aos padres beberrões. Ódio é a palavra exata a usar neste contexto, pois de ódio se tratava, latente, geral e persistente. Nunca o povo se cansava de ouvir criticar os vícios do clero. Quando um pregador ataca o clero pode estar certo de ser aplaudido. "Mal um deles começa a falar deste assunto", diz Bernardino de Siena, "os ouvintes esquecem tudo o mais; não há maneira mais eficaz de reavivar a atenção quando os ouvintes começam a adormecer ou sofrem de calor ou de frio. Todos, instantaneamente, ficam atentos e bem dispostos."

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 186. 

A Sacrílega Idade Média

quarta-feira, 31 de maio de 2023

 

À esquerda, um monge (que segura um saco de dinheiro) joga cartas com uma freira. A cena é uma denúncia à hipocrisia da Igreja, no contexto da Reforma Protestante. 10 de Copas, c. 1535, de Hans Schäufelein (c. 1480-c. 1540), The Playing Cards of Hans Schäufelein. Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg.

Nos dias de festa, conta Nicolau de Clemanges, pouca gente ia à missa. Não se mantinham lá até ao fim e contentavam-se com aspergir-se de água benta, ajoelhar diante de Nossa Senhora ou beijar a imagem de certo santo. Se ficavam até ao erguer da hóstia gabavam-se do fato como se tivessem prestado um favor a Cristo. Nas matinas e vésperas o padre e o ajudante eram as únicas pessoas presentes. O cavaleiro da aldeia faz o padre esperar que ele a mulher se levantem e se vistam para começar a dizer missa. As festividades mais sagradas, mesmo a noite de Natal, segundo Gerson, são passadas no deboche, jogando as cartas, jurando e blasfemando. Quando são repreendidas, as pessoas apontam o exemplo da nobreza e do clero, que se comportam da mesma maneira com impunidade. "Também nas vigílias", diz Clemanges, "se entoam canções lascivas, e danças, mesmo na igreja; os padres dão o exemplo jogando os dados e observando".

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 167. 

A Ordem da Paixão

sexta-feira, 19 de maio de 2023

 

Philippe de Mézières (c. 1327-1405), fundador da Ordem da Paixão de Jesus Cristo, entrega o seu livro ao rei Ricardo II (r. 1377-1399).

Nos séculos XIV e XV a real importância das ordens de cavalaria, que existiam em grande número, era muito pequena, mas as aspirações professadas ao fundá-las eram sempre as do mais alto idealismo ético e político. Philippe de Mézières, sonhador político sem igual, desejava remediar todos os males do século por meio de uma nova ordem de cavalaria, a da Paixão, destinada a unir a Cristandade num esforço comum para expulsar os turcos. Burgueses e trabalhadores podiam entrar nela, ombro a ombro com os nobres. Os três votos monásticos seriam modificados por motivos práticos: em lugar do celibato apenas se requeria a fidelidade conjugal. Mézières juntou-lhe um quarto voto, desconhecido nas precedentes ordens, o da perfeição moral individual, summa perfectio. Ele confiou a tarefa de propagar a Militia Passionis Jhesu Christi a quatro messaiges de Dieu et de chevalerie (entre os quais se contava o célebre Othe de Granson), que deviam ir a "diversas terras e reinos pregar e anunciar a santa cavalaria referida como quatro evangelistas". 

HUIZINGA, Johan. O Declínio da Idade Média. 2ª edição. Tradução de Augusto Abelaira. Lousã, Coimbra: Ulisseia, s/d, p. 88. 

A Disputatio Medieval

domingo, 23 de abril de 2023

 

Após formar um vasto império, Carlos Magno (r. 800-814) decidiu valorizar a educação como forma de desenvolver e unificar os seus domínios. Para tanto, reuniu os grandes intelectuais da época e formou um programa de estudos fundamentado nas sete artes liberais: Trivium (Lógica, Gramática, Retórica) e Quadrivium (Aritmética, Música, Geometria e Astronomia). Após a aquisição do domínio das Artes Liberais, obtinha-se o título de bacharel. Com o tempo, este terá três funções: (i) Legere, lecionar; (ii) Disputatio, realizar disputas, e (iii) praedicare, pregar o evangelho. Em seguida, o bacharel estava preparado para aprender as artes liberais superiores: Teologia, Medicina e Direito. Concluído o estudo de uma dessas disciplinas, recebia o título de Magister, ou seja, apto a ensinar.

Foi essa estrutura pedagógica que deu origem às universidades. Elas surgiram em Bologna (1088), Paris (1150), Oxford (1167), e em muitos outros lugares. Nessas instituições, o progresso mais notável foi no campo da lógica. O método de estudo até então era a glossa do texto, consistindo em explicar o sentido de cada palavra, fosse ela das Escrituras, fosse dos escritos dos padres da Igreja. O resultado era a construção de sentenças, frases concisas de uma dada teoria teológica. Pedro Lombardo (1100-1160), um padre com formação em Teologia e Filosofia, recolheu essas sentenças e as expôs de forma sistemática na obra Quatro Livros das Sentenças. Assim, a teologia tornou-se um comentário das sentenças compiladas por Pedro Lombardo. Havia, contudo, um problema: como conciliar algumas sentenças aparentemente divergentes? Aí entra a colaboração de um dos autores mais conhecidos da Idade Média: São Tomás de Aquino (1225-1274).

Tomás de Aquino criou um novo método: a questão (quaestio). Depois de um texto ser lido e glosado, eram apontadas dúvidas e divergências entre as passagens. Criava-se então uma questão, a qual impelia o autor a desfazer as divergências. É assim que São Tomás subverte o modo vigente de se fazer teologia, aquele pautado pelos comentários das Sentenças, e incorpora a quaestio, o que permite a elaboração pessoal do autor. Foi nesse ambiente do século XIII que surgiu a ritualização institucional da disputatio. A disputatio marcou o início de uma mudança importante no ensino medieval, essencialmente livresco, regulado por um conjunto de textos pré-determinados a serem lidos (lectio) pelo mestre para a assimilação e sistematização coerente de um saber já constituído: as disputationes são um contraponto à atitude educacional estritamente passiva, despertando a atividade intelectual dos alunos.

A disputatio fez da universidade medieval o palco de um vivo debate de magistri (mestres) dispostos a encarar os desafios intelectuais que lhes eram propostos por seus alunos e colegas de cátedra. Divididas em quatro modalidades, as disputationes podiam ser ordinárias, nas quais o mestre formulava o tema da disputatio ou quaestio, assistia à respectiva discussão e terminava por formular a resolução; gerais ou de quodlibet, que versavam sobre temas livres, mais solenes; magistrais, entre dois mestres, sustentando cada um o seu modo de ver; e sophismata, que eram justas dialéticas para a demonstração ou refutação de paralogismos.

A partir da fórmula pro, contra e solutio, à questão (ou tese) inicial, expunham-se as razões afirmativas (pro), seguidas da posição contrária (contra) e, por fim, a elaboração de uma possível solução (solutio) ao problema apresentado. As quatro modalidades de disputationes nos apresentam aspectos relevantes destes eventos.

As "disputas ordinárias", por terem a participação do mestre e dos alunos, tinham uma função formativa: provocado pelo mestre, que apresentava uma questão (ou tese) e os argumentos favoráveis (pro), o aluno reagia construindo objeções (contra) e, ao final, o docente tomava a palavra e discorria sobre argumentos pro e contra a fim de desenhar uma resolução geral do embate (solutio). As outras três modalidades ultrapassavam o objetivo formativo, apesar de não prescindirem dele: (i) as disputas gerais ou quaestiones de quodlibet (questões sobre temas livres), (ii) as entre dois mestres e as (iii) sophismata, demonstração ou refutação de raciocínios falsos.

Quando ocorria uma disputatio, todos os cursos eram suspensos: os bacharéis eram obrigados a assistir ao debate, assim como os estudantes do mestre que disputava, atraindo indivíduos de todas as regiões. Ao final, depois de transcrito e organizado, o debate deveria ser depositado na faculdade em que acontecia, sob pena de multa. 

Adaptado de Offlattes.

Estilos de Cabelo Feminino em Bizâncio

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

 

A Disputa de Tortosa

segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

No início de 1412, em Castela, São Vicente Ferrer conseguiu impor um novo estatuto dos judeus, o estatuto de Valladolid. Entre outras coisas, eles foram proibidos de vender ou oferecer produtos alimentícios aos cristãos, fazer com que estes lavrassem para eles os campos ou mudar de domicílio. Quanto a suas roupas, seu feitio deveria ser humilde, de tecido grosseiro e comportar naturalmente um signo distintivo bem visível. Daí para a frente, em todos esses pontos, Castela passaria a seguir a tendência antijudaica do resto da Europa.

Nessa época, o papa Benedito XIII, de quem Vicente Ferrer era confessor, encontrava-se numa situação difícil devido ao Grande Cisma. Em 1412, tomou a decisão de converter todos os judeus em bloco. A demonstração que ele preparou ficou na história como a Disputa de Tortosa.

A demonstração durou perto de dois anos, e o campeão do cristianismo foi o erudito Josué de Lorca. Ele foi enfrentado por catorze rabinos. Muita sutileza foi gasta de ambos os aldos, mas o verdadeiro espetáculo estava no auditório. Entre mil e dois mil espectadores assistiam a cada sessão, sendo uma parte deles judeus que, seguindo um combinado prévio, se levantavam ao fim de cada colóquio para declarar que haviam se convencido dos argumentos de Lorca. Então, pediam para ser batizados ali mesmo. Três mil judeus passaram pelos batistérios de Tortosa entre janeiro de 1413 e novembro de 1414.

Atormentados e ameaçados, a maioria dos rabinos desistiram e suplicaram que se lhes permitissem voltar para casa no verão de 1414. Apenas dois rabinos seguiram até o fim na disputa.

Pouco depois, Benedito XIII foi condenado pela Cristandade no Concílio de Constança. Porém, ele podia se gabar de que, de Perpignan a Cádiz, os judeus novamente se convertiam em massa. Nas crônicas judaicas, 1391 ficou como "o ano das perseguições e da opressão", ao passo que 1413-14 é "o ano da apostasia".     

Adaptado de POLIAKOV, Léon. De Maomé aos Marranos. Tradução de Ana M. Goldberger Coelho e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1984, p. 140-142.

A Espanha das Três Religiões

terça-feira, 7 de junho de 2022

 

Na Espanha das Três Religiões (catolicismo, islã e judaísmo), onde todos os cultos eram respeitados, a passagem de um culto para outro era proibida ou muito dificultada, pois mesmo as conversões ao cristianismo de judeus ou mouros sofriam vários entraves.

O exercício de cada culto era oficialmente protegido pelo poder e até mesmo regulamentado por ele. Assim, pela vontade do monarca e da lei cristã, a observância do Shabat e das festas eram obrigatórias aos judeus. Em tudo, o judeu devia comportar-se como bom judeu, sendo que até a Igreja espanhola o proibia de se converter ao Islã, assim como o inverso.

No que diz respeito às conversões ao cristianismo, a situação era mais complexa. A igreja espanhola não podia deixar de querer a conversão dos infiéis, mas, ao menos antes do surto no séc. XIII das grandes ordens de pregadores franciscanos e dominicanos, e dos esforços desenvolvidos por estes em Aragão, ela quase não a procurava na prática. Consequentemente, nada era feito para levar o judeu ao batismo, e muitas coisas contribuíram para afastá-lo deste.    

Adaptado de POLIAKOV, Léon. De Maomé aos Marranos. Tradução de Ana M. Goldberger Coelho e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1984, p. 102-103.

A Culpa das Pestes

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ratos devoram corpos de vítimas da peste. Le Miroir Historial, séc. XV, Museu Condé, França.

Entre o Medievo e a Idade Moderna, era comum circularem três explicações para as pestes que assolavam o Velho continente:

1ª) Eruditos

Eles atribuíam a epidemia a uma corrupção do ar, ela própria provocada por fenômenos celestes (aparição de cometas, conjunção de planetas, etc.), por diferentes emanações pútridos, ou então por ambos.

2ª) Multidão

Semeadores de contágio espalhavam voluntariamente a doença; era preciso procurá-los e puni-los.

3ª) Igreja

Assegurava que Deus, irritado com os pecados de uma população inteira, decidira vingar-se; portanto, convinha apaziguá-Lo fazendo penitência.

De origens diferentes, esses três esquemas explicativos não deixavam de interferir nos espíritos. Deus podia anunciar sua vingança próxima por meio de sinais nos céus. Segundo os teólogos, na ocasião os demônios e feiticeiros se tornavam os "carrascos" do Altíssimo e os agentes de Sua justiça.

A opinião corrente, portanto, procurava encontrar o máximo de causas possíveis para tão grande desgraça. No século XVI, Fracastoro e Bassiano Landi lançaram a noção de contágio, rejeitada obstinadamente pelos eruditos. Estes insistiam nas explicações "naturais" pelos astros e pelo ar viciado.

Assim, ainda em 1721, o médico do rei da Prússia dizia que a peste era provocada "por máculas morbíficas, concebidas e procriadas por exalações pútridas da terra ou pela maligna influência dos astros." Espíritos críticos, contudo, preferiam deixar aos técnicos a responsabilidade dessas qualificações, sem se pronunciar sobre elas. Boccaccio, sempre prudente, lembrou que fosse qual fosse a causa da Peste Negra, ela se manifestara, alguns anos antes, nos países do Oriente.

A outra explicação "natural" (não contraditória com a precedente) fazia derivar a peste de exalações malignas emanadas de cadáveres não enterrados, de depósitos de lixo, até das profundezas do solo.

Se a epidemia era uma punição, era preciso procurar bodes expiatórios que seriam acusados inconscientemente dos pecados da coletividade. Na Europa dos séculos XIV-XVIII, as populações repetiram por várias vezes, involuntariamente, a sangrenta liturgia das civilizações antigas de procurar apaziguar a divindade encolerizada. Essa necessidade de aplacar a cólera das potências supra-humanas conjugava-se com o desrecalque de uma agressividade que a angústia fazia nascer em todo grupo humano acometido pela epidemia. Não existe um relato de peste que não evoque essas violentas descargas coletivas.

A agressividade coletiva era descarregada em primeiro lugar sobre os estrangeiros, os viajantes, os marginais e todos aqueles que não se integraram bem a uma comunidade (judeus, leprosos, indivíduos provenientes de outros lugares).

A Peste Negra surgiu numa atmosfera já carregada de antissemitismo. De início suspeitos de querer dizimar os cristãos pelo veneno, em seguida os judeus foram bem rapidamente acusados de ter semeado o contágio por meio desses envenenamentos. 

Ocorreram diversos pogroms na Espanha e em outras partes da Europa, onde os judeus eram cada vez mais vistos como os maiores responsáveis pela "morte negra".

Adaptado de DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 201-220.

Judeus e Cristãos da Idade Média

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

  

A Festa da Páscoa, 1464-67, óleo sobre painel de Dieric Bouts (c. 1415-1475).

"É verdade que os judeus da Idade Média frequentemente moravam nas proximidades da sinagoga, mas não residiam em um gueto fechado. E os bairros judeus também costumavam ficar bem perto da catedral e dos mercados da cidade. Os contatos com o mundo cristão não eram raros no móvel da vida cotidiana, e em certos lugares iam além das meras relações comerciais. Muitos judeus tinham conhecimento dos costumes e práticas cristãs, assim como alguns cristãos o tinham dos costumes e práticas judaicas. E, embora as duas comunidades rejeitassem a religião da outra, havia uma transferência subliminar de influência. Os costumes judaicos para o início do ano letivo nas escolas se assemelhavam às práticas cristãs, alguns temas litúrgicos dos cruzados entraram com leves modificações nas crônicas dos mártires judeus, e o culto dos lugares santos era parecido nas duas religiões. O Sêfer hassidim, o livro mais importante para os pietistas judeus alemães do século XIII - os Hassidê Ashquenaz - , estava repleto de polêmicas anticristãs, mas ao mesmo tempo dava testemunho de numerosos contatos entre os judeus e os cristãos."

BRENNER, Michael. Breve História dos Judeus. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013, p. 102-103.