“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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A Vitória de Pirro de Ramsés III

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Múmia de Ramsés III, o último grande faraó do Egito antigo.

Em 1177 a.C., os egípcios foram vitoriosos, como já haviam sido em 1207 a.C. Os Povos do Mar não voltaram ao Egito uma terceira vez. Ramsés alardeou que o inimigo foi "abalroado e afundou no lugar em que estava". "Seus corações", ele escreve, "são levados; sua alma voa para longe. Suas armas são abandonadas no mar." Contudo, é uma vitória de Pirro. Embora o Egito sob Ramsés III fosse a única grande potência capaz de resistir de maneira exitosa aos ataques furiosos dos Povos do Mar, o Novo Império Egípcio nunca mais voltou a ser o mesmo, em grande parte devido a outros problemas enfrentados por toda a região mediterrânea durante esse período, como veremos adiante. Os faraós posteriores, durante o restante do segundo milênio a.C., tiveram de se contentar em governar um país com influência e poder bem menores. O Egito se tornou um império de segunda categoria, mera sombra do que já havia sido outrora. Foi somente na época do faraó Shoshenq, um líbio que fundou a XXII dinastia, cerca de 954 a.C. - e que é provavelmente identificado como o faraó Shishak da Bíblia hebraica - que o Egito voltou a ganhar importância.  


CLINE, Eric H1177 a.C: o ano em que a civilização entrou em colapso. Tradução de Fábio alberti. São Paulo: Avis Rara, 2023, p. 26-27.

A Construção da Pirâmide de Quéops

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

LIVRO II

CXXIV. Os sacerdotes meus informantes acrescentaram que, até Rampsinito, tinha-se visto florescer a justiça e reinar a abundância em todo o Egito, mas que não houve maldade que não praticasse Quéops, seu sucessor. Este soberano, depois de mandar fechar todos os templos e proibir os sacrifícios entre os egípcios, pô-los todos a trabalhar para ele. Grande número de egípcios foi empregado na tarefa de cavar as pedreiras da montanha da Arábia e arrastar dali até o Nilo as pedras que iam retirando, levando-as, em seguida, para a outra margem do rio, onde novos trabalhadores recebiam-nas e transportavam-nas para a montanha da Líbia. Utilizavam-se, de três em três meses, cem mil nesse trabalho. Para avaliar-se o suplício a que foi tão longamente submetido esse povo, basta dizer que se consumiram dez anos na construção da calçada por onde deviam ser arrastadas as pedras. Na minha opinião, essa calçada é uma obra não menos considerável do que a pirâmide, pois mede cinco estádios de comprimento por dez braças de largura e oito de altura nos seus pontos mais elevados; é feita de pedras polidas e ornadas de figuras de animais. Aos dez anos gastos para construí-la, convém acrescentar o tempo empregado nas obras da colina sobre a qual se elevam as pirâmides, e nas construções subterrâneas destinadas a servir de sepultura e realizadas numa ilha cortada por um canal e formada pelas águas do Nilo. A pirâmide, em si, consumiu vinte anos de labuta. É quadrada, medindo cada uma das faces oito pletras de largura, e é construída, em grande parte, de pedras polidas e bem unidas umas às outras, não tendo nenhuma delas menos de trinta pés.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 122. 

Egípcios, citas e líbios x porcos

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

LIVRO II

XLVII. Os egípcios olham os porcos como animais imundos. Se alguém toca inadvertidamente num deles, ainda que seja de leve, vai logo mergulhar no rio, mesmo vestido. Os guardadores de porcos, embora egípcios de nascença, são os únicos que não podem entrar em nenhum templo do Egito.

Ninguém lhes quer dar as filhas em casamento, nem desposar as filhas deles. São, por isso, obrigados a casar-se entre eles, isto é, com gente da mesma categoria.

Não é permitido aos egípcios sacrificar porcos a outros deuses que não à Lua e a Baco, realizando-se a cerimônia sempre no plenilúnio. Nessa ocasião lhe é permitido comer a carne.


LIVRO IV

LXIII. É assim que esses povos [os citas] sacrificam animais e criaturas humanas às divindades de sua predileção. Nunca, porém, imolam porcos e nem deles se alimentam. 

CLXXXVI. Toda a região que se estende do Egito ao lago Tritônis é habitada pelos líbios nômades, que se alimentam exclusivamente de carne e de leite, jamais comendo, como se dá também com os egípcios, vacas ou porcos. As mulheres de Cirenes não se julgam, também, com permissão para comer carne de vaca, por causa da deusa Ísis, adorada no Egito. Chegam a jejuar, e celebram em sua honra. As mulheres de Barcéia também não comem carne de vaca e nem de porco.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 102, 204 e 233. 

A Praga das Moscas

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

LIVRO II

XCV. Vê-se no país uma quantidade prodigiosa de moscas, mas os egípcios encontram meios para se defenderem delas. Os que habitam ao norte dos pântanos põem-se ao abrigo desses incômodos insetos, dormindo no alto de uma torre, pois o vento impede-as de voar muito alto. Os que ocupam a parte pantanosa servem-se de outro meio: a rede. Todos ali possuem uma rede. De dia, utilizam-na para apanhar peixes; à noite, estendem-na sobre o leito, à guisa de cortinado.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 113. 

O Thalamegos de Ptolomeu IV

domingo, 9 de abril de 2023

 

Ilustração do Thalamegos, o palácio flutuante do rei Ptolomeu IV Filópator (r. 224-205 a.C.). A embarcação de luxo foi construída para os passeios curtos de cruzeiro do monarca no Lago Mareotis, perto de Alexandria, e nos canais do Nilo.

Medindo cerca de 90 metros, o Thalamegos tinha várias câmaras para o soberano e sua corte, além de salas e um templo dedicado a Dionísio.

Visita Virtual à Grande Pirâmide de Gizé

quinta-feira, 6 de abril de 2023

 

Graças a um projeto da Universidade de Havard, é possível explorar num passeio virtual o interior da Grande Pirâmide de Gizé. O cadastro é rápido e simples. Simplesmente incrível!

Acesse: giza.mused.org 

A anexação romana do Egito

domingo, 1 de maio de 2022

 

O Egito era um reino rico, mas o custo de manter os romanos satisfeitos quase levou o estado à falência. Porém, nem mesmo o massivo suborno pago pelos egípcios impediu que os romanos lhes tomassem Chipre, em 58 a.C. Essa ilha tomada pela potência em ascensão no Mediterrâneo foi o último de uma série de reveses para o reino que já havia dominado grande parte do Oriente Médio. Esse era um declínio que Cleópatra VII, da dinastia ptolomaica, estava determinada a reverter.

Cleópatra herdou o trono aos 17 anos, em 51 a.C. Obrigada a se casar com seu irmão, Ptolomeu XIII, ela nunca foi especialmente popular com seus súditos. Quando uma seca e uma fome se bateu sobre o país, as autoridades palacianas planejaram um golpe. Ela, então, precisou deixar o palácio para a sua segurança pessoal.

Em 48 a.C., a República romana foi derrotada em Farsalos, e Júlio César tornou-se o mestre do mundo romano. Ptolomeu, líder do partido derrotado, fugiu para o Egito, onde foi assassinado ainda na barca que o levava para a praia. Quatro dias depois do assassinato, César chegou à terra dos faraós com três mil legionários. Instalou-se no palácio, em Alexandria, para onde Cleópatra furtivamente retornou.

Sentindo-se traído, Ptolomeu XIII tentou fugir para incitar uma rebelião popular, mas foi levado de volta ao trono pelos homens de César. A seguir, foi forçado a uma "reconciliação" com a irmã. Os regentes que, até então, governavam em nome de Ptolomeu, reuniram um exército contra o nome mandatário de facto do Egito. A guerra civil que se seguiu foi difícil para César, mas, de certo modo, foi ainda mais dolorosa para os egípcios: a grande Biblioteca de Alexandria foi incendiada.

Com a vitória romana, Ptolomeu bateu em retirada e acabou afogando-se. Cleópatra, a nova amante de César, uniu-se formalmente com outro de seus irmãos, que assumiu com Ptolomeu XIV. Pouco depois de deixar o Egito, o filho de César com Cleópatra, Cesário, nasceu em junho de 47 a.C. Uma das irmãs da rainha, Arsínoe, por ter apoiado a facção pró-Ptolomeu XIII, foi capturada pelos romanos e levada para o triunfo de César em Roma, no ano 46 a.C.

Em março de 44 a.C., César foi assassinado no Senado. A seguir, Cleópatra assassinou o marido-irmão e passou a governar com consorte de seu filho Cesário. Suas habilidades diplomáticas foram testadas ao máximo na guerra civil que se seguiu à morte do dictator romano. Em 42 a.C., o conflito terminou e formou-se o segundo triunvirato. Marco Antônio escolheu governar o Oriente, onde acabou se apaixonando pela rainha do Egito.

Apesar disso, e de Cleópatra ter engravidado de Antônio, este partiu para ajudar a esposa, Fúlvia, que iniciara uma rebelião contra Otaviano, seu colega triúnviro. A seguir, Antônio enviuvou e se casou com a irmã de Otaviano. No Oriente, as campanhas militares iniciadas por ordem de Antônio iam bem, e ele partiu para lá. Cleópatra foi convidada, no papel de monarca aliada, e em retribuição por seu esforço recebeu terras na Síria, Cilícia e Judeia, territórios que já haviam sido parte dos domínios ptolomaicos. Por sua vez, o ressentido Herodes, o Grande tornou-se secretamente partidário de Otaviano.

A campanha parte de Antônio não foi bem, mas ele tentou recuperar algum crédito ao saquear depois a Armênia. No final de 36 a.C., ele chegou à Síria. No ano seguinte, junto com Cleópatra, retornou ao Egito. Em Alexandria, em seus tronos, foram chamados de encarnações de Dionísio e de Ísis. Em 32 a.C., como se não bastasse o escândalo das "Doações de Alexandria", Antônio se divorciou de Otávia, a irmã de Otaviano, e se casou com Cleópatra. Otaviano, então, declarou guerra à rainha do Egito.

O conflito seria travado na Grécia. Assim que a guerra civil recomeçou em Roma, um dado curioso chamou a atenção: Otaviano, um general indiferente, soube escolher subordinados competentes; Antônio, por sua vez, embora fosse tão experiente na guerra, amargou brigas e divisão no seu comando. O lado de Otaviano, então, cortou o suprimento de água do exército de Antônio, enquanto ele estava acampado perto de um promotório chamado Ácio.

Cleópatra trouxe seus navios para evacuar os homens. Em 2 de setembro de 31 a.C., sob o comando de Agripa, a força naval de Otaviano atacou a marinha egípcia. A luta seguia equilibrada, quando Cleópatra subitamente fraquejou e decidiu zarpar para o mar aberto. Antônio então abandonou o seu exército e a sua frota. A frota lutou até cerca das 16h, quando decidiu se render. Em terra, o exército lutou até que Canídio os abandonou.

A fuga para o Egito foi desastrosa. Otaviano se atrasou, devido a demandas de seu novo império. Porém, finalmente chegou para se apossar do reino que logo seria uma província romana. Marco Antônio se suicidou e, pouco depois, foi seguido por Cleópatra. Cesário, traído pelo seu tutor, foi morto por ordem de Otaviano. Era o fim do Egito ptolomaico.    

Bibliografia consultada: MATYSZAK, Philip. Os inimigos de Roma - de Aníbal a Átila, o Huno. Tradução de Sonia Augusto. Barueri, SP: Manole, 2013, p. 121-134. 

Volta ao Passado: Egito Antigo

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

 

Ramsés II e Hórus

quinta-feira, 21 de março de 2019

A escultura acima foi feita em um único bloco de granito, entre 1293 e 1185 a.C., e atualmente encontra-se no Museu Egípcio. Mede 2,30 metros e foi escavada na antiga cidade de Tanis, capital do Egito durante as XXI e XXII dinastias. 

Quando essa obra foi encontrada, faltava-lhe o rosto do falcão, que foi feito em outra pedra. Felizmente, esse rosto também foi encontrado, separado do conjunto. A personagem agachada é Ramsés II, da XIX dinastia, faraó entre 1279 e 1213 a.C. Seu reinado foi um dos mais prestigiosos e longos da história do antigo Egito, destacando-se por diversas campanhas militares vitoriosas. 

A cor dessa escultura é escura, próxima do ocre; é lisa, mas com linhas cavadas na pedra. Há um pássaro em pé, de grande estatura, e à sua frente está Ramsés. Ele tem uma das mãos no queixo e a outra segura um pequeno cajado. 

O falcão representava Hórus, "deus dos Céus", uma das mais importantes divindades egípcias: era um deus solar, filho de Osíris e Ísis, considerado a manifestação do poder do Sol. Hórus era representado pelo falcão, pois sua vista é tão poderosa que ele é o único animal que pode fixar o Sol. Na escultura em questão, o falcão tem um aspecto sereno e adota uma postura segura, sólida e equilibrada. Ao representar um deus, encarnas seus poderes e qualidades. 

Ramsés, por sua vez, é representado agachado e com um dedo encostado na boca, como se fosse uma criança, o que denota certa fragilidade. Ele leva à cabeça uma coroa ornada com um disco solar e leva um caniço na mão, símbolo do poder real. 

A associação entre o faraó e o falcão, representação do deus Hórus, expressa a proteção para o faraó e confere um caráter divino à monarquia. A relação estreita de Ramsés com Hórus parece evidenciar a natureza divina e solar do faraó, dando a entender que a divindade governava por meio do rei. A coroa de disco solar afirma ainda mais a identidade entre o jovem rei e o falcão. 

A intenção do escultor pode ter sido registrar que o faraó governou protegido pelo deus Hórus. Isso legitimava seu governo e transmitia a ideia de que o faraó era representante de Hórus na Terra, sua imagem, reflexo e encarnação.

VICENTINO, Cláudio & VICENTINO, José Bruno. Olhares da História: Brasil e Mundo. Colaboração de Severio Lavorato Júnior. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2016,  p. 327.   

«O Egito no tempo de Ramsés»

sábado, 13 de outubro de 2018

Arqueólogo renomado, Pierre Montet (1885-1966) reconstituiu nesse livro o dia-a-dia dos habitantes das cidades e do campo do Egito antigo. Para esta visão do cotidiano egípcio, foi escolhido o período dos Séthi e dos Ramsés - de 1320 a.C. a 1100 a.C., ainda que o autor tenha recorrido com frequência a fontes mais antigas e ao relato de historiadores e biógrafos, como Heródoto e Plutarco. 

Nesta apresentação, destacarei alguns pontos da introdução da obra. Os antigos egípcios eram para com os deuses e para com os mortos muito mais exigentes que para com eles próprios. Nada era mais belo ou mais sólido que seus templos ou suas "casas da eternidade". Assim, os templos e os túmulos duraram mais que as cidades. Como, então, nessas condições, descrever a vida cotidiana dos súditos do faraó sem se limitar à superficialidade? Como evitar os julgamentos pueris dos viajantes gregos e romanos? 

A população que se reunia à beira dos pântanos dedicava-se sobretudo à caça e à pesca. O papiro fornecia-lhes os materiais necessários para construir cabanas e, principalmente, canoas leves e cômodos que lhes permitiam seguir, por entre as plantas aquáticas, o crocodilo e o hipopótamo. O cultivador semeava a lavoura, colhia o linho, ceifava e amarrava os feixes. Jumentos transportavam-nos à aldeia, onde eram espalhados para serem pisoteados por bois e jumentos. 

Os artesãos trabalhavam o barro, a pedra, a madeira e os metais. Como a madeira era rara, os utensílios de que necessitavam os agricultores, os vinhateiros, os cervejeiros, os padeiros e os cozinheiros eram de terracota. O serviço de mesa era de pedra (sobretudo o granito, o xisto e o alabastro). Os egípcios apreciavam os adornos. Da oficina de ourivesaria saíam colares, braceletes, anéis, diademas, peitorais e amuletos. 

MONTET, Pierre. O Egito no tempo de Ramsés. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Companhia das Letras / Círculo do Livro, 1989.   

Piramidologia

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Esfinge, no primeiro plano, e a pirâmide de Quéops, também conhecida como a Grande Pirâmide. Planalto de Gizé, Egito.

A piramidologia é um dos ramos da egiptologia mais atraentes para os estudantes e para o público em geral. Trata-se, por outro lado, de uma área egiptológica que é muito propícia a devaneios de "especialistas" avulsos e de perscrutadores deletérios do oculto. 

As pirâmides começaram por ser votadas ao abandono ainda mesmo no Império Antigo. Uns 500 anos depois do reinado de Khufu ou Quéops (2551-2528 a.C.), o templo da sua pirâmide, bem como os templos dos seus sucessores, já haviam perdido os seus relevos. Alguns blocos e outras partes foram usados na construção da base da pirâmide de Amenemhat I (1976-1947 a.C.), da XII dinastia, e a própria pirâmide deste rei foi posteriormente abandonada, ainda antes do Império Novo, tal como as dos outros monarcas do Império Médio. As pirâmides passaram a ser vistas como relíquias do passado - as suas pedras foram reutilizadas para a construção de outros edifícios e os seus templos ficaram em ruínas. Apesar disso, os nomes e a sequência dos faraós que as construíram eram conhecidos através das listas reais. 

Por vezes, os próprios egípcios fizeram tentativas para recuperar os veneráveis monumentos dos antepassados. Khaemuaset, por volta de 1250 a.C., filho de Ramsés II (1279-1213 a.C.), e sumo sacerdote de Ptah no templo da Esfinge em Mênfis, parece ter realizado algum trabalho de restauro nas pirâmides de Sakara e de Abusir, das V e VI dinastias, bem como noutros túmulos do Império Antigo.

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 298-299.

Introdução à Arte Egípcia

sábado, 2 de junho de 2018

O friso com os "gansos de Meidum", datados da IV dinastia (2613-2495 a.C.), originalmente estavam no túmulo de Nefermaet e de sua esposa Itet. Essa obra praticamente preserva as cores originais e atualmente se encontra exposto no Museu Egípcio do Cairo. 

A fim de tornar prática e objetiva esta brevíssima introdução à arte egípcia, destacarei sete pontos:

1. A arte egípcia não se confunde com as produções artísticas de outros povos, assentando-se sobre a geografia e a paisagem, a religião e a ideologia política, submetendo-se a duas forças basilares e firmemente interligadas: a religião e a realeza. 

2. Os antigos egípcios jamais criaram em sua gramática uma palavra que definisse "arte". Isso não significa que eles não fruíssem, admirassem e apreciassem a arte. 

3. No Egito faraônico também não havia a noção de arte pela arte. Tampouco existia o artista como hoje o entendemos (e como já os gregos o entendiam). 

4. A representação do corpo humano nos relevos esculpidos nas paredes de templos e de túmulos privilegiava a aspectividade, isto é, a decomposição da figura em duas dimensões, com o rosto de perfil, o olho e o peito de frente, com uma torção corporal que mostra os braços e as pernas de perfil. 

5. Os artistas egípcios preferiam representar as coisas tal como elas são (que é a geometria projetiva) em vez de as figurar tal como elas surgem (a geometria perspectiva), mesmo quando na apreciação final o resultado fosse uma figura com dois pés esquerdos, por exemplo. 

6. Sob Tutmés IV (XVIII dinastia) ocorreu o apogeu da pintura. Nessa época, além das cores que já vinham das épocas anteriores (por exemplo, o azul, sempre presente no céu e no rio; o verde exuberante da paisagem; o amarelo das montanhas, dos cereais maduros e do sol; o preto, cor dos hieróglifos e do lodo escuro das margens do Nilo), os pintores criaram novos tons de cinzento, de rosa e de carmim. Ocorreram também algumas inovações nas posições de algumas figuras femininas. 

7. Os egípcios também produziram uma imensa quantidade de objetos, desde o mobiliário a joias, destacando-se a produção de materiais destinados ao túmulo - sarcófagos, máscaras funerárias, vasos de vísceras, estatuetas funerárias, amuletos e escaravelhos.

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 169-199.

#15Fatos Templos e Sacerdotes Egípcios

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pátio de Ramsés II no Templo de Luxor.

1. Os templos egípcios eram animados por muitos sacerdotes (hemu-netjer) e outros servidores do deus - escribas, guardas, capatazes, artesãos ligados à produção de alfaias litúrgicas e de objetos funerários, especialistas na preparação de bebidas e alimentos destinados ao deus, cantoras (chemait), dançarinas (khebait) e músicas (hesit ou ihit). 

2. As mulheres que atuavam no templo normalmente eram esposas dos sacerdotes. Um importante núcleo de servidoras divinas integrava o harém (kheneret) de deuses como Amon e Min. No entanto, embora se integrassem a essas instituições, nunca existiu prostituição sagrada no antigo Egito. 

Tanto essas mulheres como os sacerdotes, após cumprirem o seu mês de serviço no templo, regressavam às suas atividades normais fora do espaço sagrado. As funções sacerdotais eram cumpridas, portanto, de forma cíclica e rotativa. 

3. Os sacerdotes egípcios não eram líderes espirituais da população ou devotos evangelizadores: eram "servos do deus", serviam no templo e estavam integrados à comunidade em que viviam. Assim, normalmente desempenhavam outras atividades além do serviço no templo, e pouquíssimos viviam em reclusão conventual. 

4. Um templo egípcio não permitia o acesso a qualquer pessoa. Apenas os membros do clero ou personagens de alguma importância social lá podiam entrar. O templo, um espaço reservado, era a casa do deus (hut-netjer). 

5. O primeiro momento do culto diário no templo se dava ao alvorecer. No templo de Amon, o sumo sacerdote clamava perante a estátua divina: 

"Tu, que despertas tranquilo, desperta em paz! Desperta Amon-Rá, senhor do trono das Duas Terras, desperta em paz!" 

Ao meio dia e ao entardecer ocorriam os outros momentos do culto. Ao crepúsculo, então, o clérigo oficiante fechava as portas do santuário e a estátua divina adormecia, para ser despertada no alvorecer seguinte. 

6. No caso da clerezia amoniana e noutras de peso considerável, o sacerdote principal e líder do corpo de servidores divinos assegurava a celebração do culto em nome do faraó e superintendia a administração dos bens do templo. 

7. Caso se ausentasse, o sacerdote principal transferia as suas atividades dirigentes para o segundo sacerdote. Nessas ocasiões, este último desempenhava sobretudo funções de caráter administrativo, que incluíam a gestão dos campos, do gado, das oficinas e dos armazéns. Por sua vez, era assessorado pelos terceiro e quarto sacerdotes, e mesmo outros membros do clero. 

8. No baixo clero, integravam-se os sacerdotes "puros" ou uebu (plural de ueb), que cuidavam das alfaias litúrgicas e dos objetos sagrados, além de manter limpos os templos e os objetos de culto (inclusive a barca sagrada processional e a estátua do deus, que era diariamente lavada, alimentada, vestida e recebia incenso).

9. Também existiam os sacerdotes leitores (kheriu-hebet), que ordenavam as cerimônias segundo o ritual e recitavam em alta voz os hinos sagrados durante o culto, lendo textos. Acreditava-se que possuíam poderes mágicos pelo conhecimento das fórmulas contidas no rituais. 

10. Existiam outras funções sacerdotais: os que ocupavam o cargo de imi-seté se encarregavam do transporte de objetos dentro do templo; os horólogos calculavam as horas a que determinadas cerimônias deviam acontecer; os astrônomos previam os dias fastos ou nefastos para a realização de cultos; os sacerdotes funerários ocupavam-se da destacada tarefa de providenciar o culto aos mortos (e, dentre eles, o sacerdote ut cuidava das tarefas de mumificação e de embalsamamento). Existiam ainda sacerdotes músicos e cantores que, em geral, eram cegos. 

11. Não era necessário ter preparação especial ou uma vocação de tipo evangelizador para exercer uma função sacerdotal. No entanto, o domínio dos vários tipos de escrita - hieroglífica, hierática (desde a Época Arcaica) e a demótica (na Época Baixa)  - era indispensável.

12. Existiam escolas ligadas aos templos, uma base indispensável à formação letrada dos futuros sacerdotes. Fora isso, também contavam a ambiência familiar e até a tradição profissional - conhecem-se genealogias sacerdotais. 

13. Há casos de sacerdotes que saíram dos templos a fim de exercer as mais diversas funções como, por exemplo, o comando de expedições militares ou outras para extrair a pedra destinada a obras arquitetônicas ou para o fabrico de estátuas. 

14. Alguns corpos sacerdotais tinham em comum a iniciação feita no templo. Primeiro o iniciado fazia um percurso ritual e esotérico que ia desde o grande portão do pilone de entrada até ao santuário recôndito do espaço divino. Ele então obtinha certos conhecimentos que o colocavam acima de toda a população. Mas, era em seu próprio templo interior, onde se completavam e se harmonizavam o seu coração físico (hati) e seu coração moral (ib), que o sacerdote granjeava a sabedoria que o elevava acima dos outros. 

15. No Egito faraônico, o clero não gozou de uma popularidade uniforme ao longo dos séculos. No Império Antigo, os sacerdotes ainda não usufruíam de um status social elevado. Sua importância perante a sociedade só foi crescendo no período do Império Médio, e só no Império Novo adquiriu uma expressão de grande destaque.      

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 153-160. 

O Sincretismo na Antiga Religião Egípcia

terça-feira, 29 de maio de 2018

O sincretismo resultava da necessidade de robustecer uma divindade com os predicados de outra, conciliando assim a unidade do divino com a pluralidade das suas formas, sem que ocorresse verdadeiramente uma fusão. Assim, a divindade sincrética chamada Amon-Rá, numa clara tentativa de solarizar o deus tebano (Amon), não fez desaparecer outra divindade chamada Amon, que continuou a ter o seu papel autônomo de "rei dos deuses". De forma semelhante, Rá prosseguiu o seu curso celestial (ainda que ele possa ser visto como Khepri na alvorada e como Atum no crepúsculo). O sincretismo ainda podia unir três deuses, como Ptah-Sokar-Osíris, reunindo um deus ligado à criação (Ptah), outro ligado à morte (Sokar) e, finalmente, um ligado à ressurreição (Osíris), formando o ciclo completo.    

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 136.

A Monolatria no Egito Antigo

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Akhenaton em forma de esfinge adorando a Aton. 
Localização: Kestner Museum, Hanover, Alemanha. 

Sob Amen-hotep IV (depois transformado em Akhenaton) surgiu o culto de tipo exclusivista de Aton, nome do disco solar. A rápida popularização de Aton, que já se notava nos reinados anteriores de Tutmés IV e Amen-hotep III, foi sobretudo motivada por causas políticas. A intenção era reduzir a proeminência do clero de Amon, então numa fase de grande poderio, depois de generosas doações concedidas por Hatchepsut e Tutmés III no século anterior (o XV a.C.). 

O disco solar atoniano, visto essencialmente como uma fonte de luz, de calor e de vida, foi a dura resposta encontrada por Akhenaton, ao mesmo tempo que encerrava o grande templo de Karnak e o privava dos rendimentos que até então recebia. Integrado na sua política contra o clero de Amon, promoveu alterações na arte e mesmo na forma de utilização da escrita hieroglífica, passando a registrar-se por escrito o neoegípcio que então se falava. E foi nesta forma de linguagem que o próprio monarca "herético" redigiu o Hino a Aton. Nele se pode ler: 

"Tu, deus único, fora do qual não há nenhum!" 

Akhenaton mudou a capital egípcia de Tebas-Uaset para Akhetaton, edificada em pouco tempo num território virgem na margem direita do Nilo (atual Amarna). Assim que procedeu a essa mudança, ele logo pensou os espaços de culto para a sua divindade "única" Aton, a começar pelo grande templo dedicado ao deus solar - o Per-Aton-em-Akhetaton (a "casa de Aton em Akhetaton"). O templo mantêm a axialidade clássica no essencial, mas contou com inovações como a ausência de tetos devido ao culto do disco solar (Aton), e nele foi instalado um grande altar com escadaria de acesso. 

É importante destacar, no entanto, que o mesmo tipo de inovações "monoteístas" se aplicava a outras divindades, a começar por Amon, pelo que Aton era tão "único" como "único" era Amon, Rá, e todos os outros deuses "únicos" que também era criadores. A criação prodigalizada por Aton era cotidiana, marcada pelo ciclo do "nascer" e do pôr do sol. No entanto, com o desaparecimento do rei e da sua esposa Nefertiti, o culto de Amon regressou em força e o seu clero readquiriu a sua pujança anterior.    

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 132-133 e 149.

«Cleópatra»

domingo, 27 de maio de 2018


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Famílias das Divindades Egípcias

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Estatueta de ouro e lápis-lazúli de Hórus, Osíris e Ísis. Artefato produzido entre 874 e 850 a.C. (período da 22ª dinastia) e atualmente disponível no Museu do Louvre.

Como em outras civilizações politeístas pré-clássicas, no antigo Egito os sacerdotes procuraram organizar de forma compreensível a perturbante multidão de divindades que se iam acumulando. Assim, eles sincretizaram e fundiram, e foram organizando famílias divinas com pai, mãe e filho (por vezes uma filha), num esforço de sistematização simples espontânea. A própria Enéade, saída do sêmen de Atum, teve uma organização familiar e geracional: o casal Chu e Tefnut (irmãos e esposos) gerou um novo casal (Geb e Nut), do qual nasceram quatro filhos: Osíris, Ísis, Set e Néftis. Destes rebentos surgiu o mais famoso casal divino, Osíris e Ísis. Seu filho Hórus, era o protetor da realeza, ou melhor, a própria realeza, uma vez que o faraó no trono era um Hórus vivo reinando sobre a terra (e quando morria se tornava Osíris no outro mundo). 

A propensão para originar famílias era tal que, com exceção do caso excepcional de Aton, até os deuses demiurgos, que estavam sozinhos por ocasião da criação, receberam paredras e filhos.  

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 135.

Conceitos da Religião Egípcia Antiga

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A partir do Império Novo, o ba passou a ser representado por uma ave com cabeça humana que poderia ter tanto o corpo de um jabiru como de um falcão. Acima, um ba do Período Ptolomaico (332-30 a.C.). Créditos do Metmuseum.

Em primeiro lugar, uma investigação da antiga religião egípcia precisa considerar o termo egípcio netjer. Embora, via de regra seja traduzido por "deus", não necessariamente se enquadra no nosso conceito de "deus". Isso é uma amostra de quão desafiador é compreender os conceitos fundamentais da antiga religião egípcia. Portanto, sistematizar os conceitos de timbre antropológico e ideológico que os antigos egípcios designavam por maet, kaba akh é uma tarefa complexa. Felizmente, nem os escribas do Egito faraônico se preocupavam com isso. Em todo caso, vamos a uma tentativa de esclarecer os termos maet, kaba akh

1. Maet é a noção de base do pensamento egípcio, uma noção avançada que comporta um elevado grau de abstração e de sentido. Entre outras altas virtualidades, permitiu a redação de muitos textos sapienciais e guindou a cultura do Egito faraônico a um elevado plano. Os antigos egípcios usavam o conceito de maet, personificado na bela deusa Maet, para referir a ordem cósmica que surgiu no momento da criação, quando o caos foi repelido. A existência perene da maet deve-se ao fato de que o caos não foi definitivamente afastado. 

A palavra maet, entretanto, abrange outras noções, como a justiça e a verdade. Significa, por consequência, a oposição à maldade (isefet), à mentira e ao caos. Maet era considerado como o mais importante princípio do mundo, aquele que garantia a justiça e a ordem; fazia parte dos deveres do rei sempre essa ordem maética. Assim, o soberano devia fazer ofertas aos deuses para que estes impedissem o regresso do caos (tanto cósmico quanto social) ao Egito e ao mundo. A maet era afinal uma maneira de conceber o mundo que não separava claramente a teologia da ciência, o cosmos da sociedade, a religião da administração. 

2. ka concorria para a manutenção da ordem cósmica maética (maet), que pretendia manter o mudo como os deuses o haviam criado, para deter o avanço sempre ameaçador do caos.

ka era um elemento componente do ser humano - a força vital e sexual do indivíduo, capaz de se manter atuante e dinâmico pela eternidade. Quando alguém morria, dizia-se que tinha passado ao seu ka, e a sua estátua funerária era a estátua do ka. Era enfim o ka que permitia aos defuntos que se compraziam no Além, trabalhando nos campos de Osíris, uma vida sexual intensa, com o concurso do ba

3. O ba é do domínio psíquico e, para alguns, o conceito que mais poderia aproximar-se da ideia corrente de "alma". Como "alma" exterior, poderia agir pela sua força particular no mundo material. Outros contestam essa interpretação, e apontam que o ba era a totalidade, e não uma parte da força espiritual do indivíduo. Embora fosse da esfera psíquica, o ba comportava todos os aspectos do indivíduo no domínio da personalidade e do desejo sexual. 

Inicialmente o ba seria apenas um dom dos deuses, permitindo que eles livremente se movessem e tomassem diferentes formas. Em geral, é representado por uma ave pernalta, o jabiru, conferindo ao defunto a capacidade de movimento. A partir do Primeiro Período Intermediário, além dos deuses e do faraó, todos passaram a ter o direito ao ba. O ba representa a consciência do indivíduo, que inculcava uma vida de acordo com as normas da maet, praticando o bem e a solidariedade, sendo justo, tolerante e sensato, para que o Além ficasse garantido. 

4. O akh é um elemento psíquico componente do ser humano que, uma vez passado pelo julgamento de Osíris, atingiu o Além, transformando-se ele próprio num ser luminoso e osirificado. O corpo humano, transformado e glorificado para poder fruir a vida eterna no outro mundo na ditosa companhia dos deuses, torna-se um akh, e o defunto passa a ser um deus - um fenômeno desconhecido nas outras religiões universais. 

Tanto os deuses quanto os defuntos osirificados são designados como akh chepesu, fórmula traduzível por "espíritos gloriosos". A palavra akh transmite as ideias de glória, claridade, magnificência e também eficácia.  

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 121-126.

A Teocracia Egípcia

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Detalhe do sarcófago de Tutancâmon (c. 1336-1327 a.C.), filho de Aquenáton (XVIII dinastia) faraó do Antigo Império. Acredita-se que ele quebrou a perna e desenvolveu uma infecção pouco antes de morrer. 

"A civilização do antigo Egito tinha um forte cariz religioso, e essa particularidade fica bem demonstrada pelo facto de o faraó senhor do Alto e do Baixo Egito, ser considerado um deus vivo. Ele era também o grande fator de coesão das duas partes do país, um mecenas das artes e das atividades de construção e produção, tendo ao seu serviço uma eficiente máquina administrativa que tudo geria, de uma forma metódica e disciplinada."   

ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 119.

A Imortalidade da Alma no Egito Antigo

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ilustração do processo da mumificação no Egito Antigo: preparativos para a passagem para o Além.

A crença na vida eterna foi uma notável invenção do antigo Egito. Mas, para que o defunto atingisse o paraíso, onde poderia fruir a imortalidade, era preciso que ressuscitasse. A crença na ressurreição foi outra "precípua criação do espírito egípcio" (Araújo, 2015: p. 119) - para que o novo ser, munido do seu Ka e do seu ba, transformando num ser luminoso (akh), vivesse para sempre, com estes três componentes vitais do corpo humano, como um deus, um netjer

Segundo os textos funerários, o defunto queria viajar no céu na sua bela barca solar, equiparado a um deus, para poder alcançar o paraíso - e não só. Ele pretendia sair de lá para navegar pelo cosmos e ao paraíso regressar em eterna viagem. Viajar, sem limites, pela eternidade a bordo da barca solar - eis o derradeiro anseio dos egípcios que almejavam a outra vida. Nos velhos Textos das Pirâmides, o mundo do Além (Duat) era referido como se estivesse no céu. O rei falecido é chamado a subir ao céu por uma escada, uma ténue nuvem de poeira ou num redemoinho de vento, podendo ainda alcançar o Além sob a forma de uma ave. 

Ao longo do tempo, acumularam-se no Egito as mais diversas crenças de vida eterna e concepções acerca do outro mundo que não eram idênticas em todos os locais. Nenhuma das ideias sobre a vida eterna eliminou as outras, antes se misturaram. Assim, afinal, o morto estava ao mesmo tempo no céu, na barca do deus, debaixo de terra a laborar os Campos de Taru (o paraíso de Osíris), na sua tumba a desfrutar das suas provisões; por vezes até podia retornar à Terra para rever os locais onde vivera, e poderia aproveitar para prejudicar alguém de quem não gostasse. Estabeleceu-se, então, um compromisso: de dia o morto ficava no seu túmulo, sendo possível viajar para o mundo dos vivos (na sua forma de Ka ou de ba); de noite acompanhava a viagem da barca solar como um akh, parando, por momentos, nos campos de Osíris; voltava o dia e o defunto regressava ao seu túmulo, para aí reencontrar "a sombra e a frescura".  

Bibliografia consultada: ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 119-121.