“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Os Piliers de Tutelle

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Origens

Os Piliers de Tutelle eram um monumental edifício da Burdigala romana, construído provavelmente entre o final do século II e o século III d.C., durante a dinastia dos Severos. Durante muito tempo, sua função exata foi objeto de discussão entre os historiadores e arqueólogos.

O edifício possuía 30 metros de comprimento, 20 metros de largura e cerca de 26 metros de altura. Era constituído por 24 grandes colunas coríntias, dispostas sobre um amplo embasamento. Sobre as colunas havia um arquitrave e um sistema superior de arcadas decorado com numerosas figuras escultóricas, incluindo cariátides.

Durante séculos, acreditou-se que se tratava de um templo. Pesquisas arqueológicas mais recentes, entretanto, modificaram algumas interpretações sobre sua função e configuração. Ele pode ter sido parte monumental do fórum ou outro edifício público.

Da sobrevivência à demolição

Os Piliers de Tutelle permaneciam extraordinariamente visíveis no tecido urbano de Bordeaux, em pleno século XVII. Grande parte das construções romanas da cidade, em contraposição, havia desaparecido ou sido incorporada às edificações posteriores.

Entre 1648 e 1653, Bordeaux participou da Fronde. Quando o rei Luís XIV consolidou o seu poder, o Château Trompette adquiriu importância muito maior, sendo instrumento de controle da cidade.

Nesse sentido, o rei decidiu ampliar e fortalecer o Château Trompette. Para que uma fortificação de artilharia funcionasse adequadamente, era necessário criar uma ampla área aberta ao redor das muralhas (o glacis). Como existiam várias construções nessa área, incluindo os Piliers.

Assim, em 1677, por ordem de Luís XIV, os Piliers de Tutelle foram demolidos para liberar espaço para o glacis do Château Trompette. O episódio revela um traço importante do Estado absolutista francês: sob a justificativa da segurança e da autoridade, ele se via no direito de produzir uma transformação profunda do espaço urbano.

Atualmente, os Piliers de Tutelle praticamente desapareceram da paisagem de Bordeaux. Alguns fragmentos arquitetônicos sobreviveram e são conservados no Musée d'Aquitaine.

Vasco da Gama, o tirano

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Embora os portugueses estivessem convencidos de que as operações voltadas contra eles no mar Vermelho e no litoral da Índia no início do século XVI eram o resultado de uma grande aliança orquestrada por Veneza, na verdade os egípcios precisavam de pouco incentivo para tentar impor controle sobre as próprias rotas marítimas. A visão do aumento do número de navios portugueses fora mal recebida, entre outras coisas porque os recém-chegados eram muito agressivos. Em certa ocasião, o próprio Vasco da Gama capturou um navio com centenas de muçulmanos voltando para a Índia após a peregrinação a Meca. Ignorando as desesperadas e generosas ofertas daqueles a bordo de pagar um resgate, ordenou que o navio fosse incendiado, num ato tão grotesco que um observador admitiu: "Vou lembrar do que aconteceu todo santo dia da minha vida." As mulheres mostravam suas joias para implorar misericórdia, em meio às chamas ou na água, enquanto outras erguiam seus filhos para tentar salvá-los. Vasco da Gama observou impassível, "cruelmente, sem nenhuma piedade", até o último passageiro e membro da tripulação se afogar diante de seus olhos.

FRANKOPAN, Peter. O Coração do Mundo: Uma nova história universal a partir da Rota da Seda, o encontro do Oriente com o Ocidente. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta, 2019, p. 256.

Voltaire e o Caso Calas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A prisão de Calas, 1879, óleo sobre tela de Casimir Destrem (1844-1918).

Em outubro de 1761, o filho mais velho do comerciante de tecidos huguenote Jacques Calas foi encontrado enforcado, o que desencadeou um surto de histeria anti-huguenote entre a população católica romana local. Calas foi preso e acusado de ter assassinado o filho para impedi-lo ou puni-lo por sua conversão ao catolicismo; sua execução ocorreu em março do ano seguinte. Voltaire, ao saber do caso, elegeu-o como símbolo da intolerância e do fanatismo e deu início a uma vigorosa campanha, convencendo amplos segmentos da opinião pública europeia de que o veredito dos juízes fora influenciado por seus sentimentos pessoais anti-huguenotes. Assim, em 1765, o Conselho real reabilitou Calas, pagando uma indenização à família.

O caso Calas fortaleceu o movimento pela tolerância religiosa e pela reforma do código criminal na França, mas tal reforma só ocorreria na década de 1780. Quanto a Voltaire, graças à sua intervenção no caso, tornou-se a consciência ativa de sua época, o profeta da justiça e da razão - e não sob uma forma abstrata, mas concreta e pessoal, em defesa de um huguenote assassinado pelo sistema judicário francês, claramente vítima do sacerdotalismo e seus acessórios legais, políticos e sociais.     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 428. Adaptado. 

Itália durante a ascensão dos Bórgias

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Três Religiões Estatais (séc. XVI)

domingo, 28 de abril de 2024

                                                Europa, c. 1560. Clique no mapa.

Em meados do século XVI, portanto, havia três variedades de religião estatal no Ocidente: o catolicismo papal, o cristianismo estatal (luteranismo) e a teocracia calvinista. As três, ao menos em teoria, eram universalistas em seus objetivos: anteviam um futuro e até certo ponto trabalhavam por ele, em que suas doutrinas e instituições seriam impostas a toda a cristandade. Cada qual apresentava um vínculo orgânico com o Estado em que existia. Todas eram religiões compulsórias, reivindicando o monopólio do ministério cristão onde quer que tivessem poder. Lutero, como heresiarca, havia começado pedindo tolerância, insistindo na (esta era uma nova expressão) "liberdade de consciência". Não queria "triunfar pelo fogo, mas pelos escritos". Entre suas proposições condenadas por Roma, figurava: "queimar hereges é contrário à vontade do espírito". O poder secular deveria "ocupar-se de seus próprios negócios, deixando que cada qual acredite no que puder e optar, não se valendo de qualquer força com ninguém a esse respeito". Chegou mesmo, a princípio, a instar que os príncipes fossem tolerantes com os milenaristas, anabatistas e outros do tipo de Munster, "por ser necessário que haja seitas e a palavra de Deus seja alistada e se engaje nas batalhas". Essa moderação inicial não sobreviveu à crescente dependência de Lutero em relação aos príncipes. Com sua doutrina estabelecida como religião estatal, todas as demais formas de cristianismo tiveram de ser eliminadas, ao menos em sua expressão aberta.     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 347.

O arquipélago das Molucas - Banda

domingo, 5 de março de 2023

 

Os turistas, ao visitarem esse paraíso que são as Ilhas Banda, não imaginam que no século XVII esse mesmo lugar foi transformado num cemitério pelos neerlandeses. 

Os holandeses também assumiram o controle das Ilhas Banda, na intenção de monopolizar a mácide e a noz-moscada. As Ilhas Banda, porém, eram organizadas de modo diferente de Amboína. Elas eram compostas de várias pequenas cidades-Estado autônomas, onde não havia hierarquia social nem estrutura política. Esses pequenos Estados, que na verdade não eram mais do que vilarejos, eram administrados por assembleias compostas pelos cidadãos locais. Não havia autoridade central que os holandeses pudessem coagir a assinar um tratado de monopólio e nenhum sistema de tributos que pudessem assumir para pôr as mãos em todo o suprimento de mácide e noz-moscada. De início, isso significou que os holandeses precisaram concorrer com mercadores ingleses, portugueses, indianos e chineses, perdendo para seus concorrentes quando não pagavam preços altos. Os planos iniciais de estabelecer um monopólio de mácide e noz-moscada naufragaram, e o governador holandês da Batávia, Jan Pieterszoon Coen, propôs um plano alternativo. Coen fundou a Batávia, na Ilha de Java, que em 1618 se tornou a nova capital da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em 1621, ele navegou até as Ilhas Banda com uma frota e começou um massacre de quase toda a população das ilhas, provavelmente cerca de 15 mil pessoas. Todos os líderes foram executados, e só algumas pessoas foram deixadas vivas, o suficiente para preservar o conhecimento da produção de mácide e noz-moscada. Depois que o genocídio estava completo, Coen criou a estrutura política e econômica necessária para seu plano: uma sociedade de plantations. As Ilhas foram divididas em 68 domínios, que foram entregues a 68 holandeses, quase todos empregados ou ex-empregados da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Esses novos latifundiários aprenderam a produzir especiarias com os poucos habitantes originários sobreviventes e compraram escravizados da Companhia Britânica das Índias Orientais para povoar as ilhas esvaziadas e produzir especiarias, que seriam vendidas a preços fixos para a própria companhia.

As instituições extrativistas criadas pelos holandeses nas Ilhas das Especiarias tiveram os efeitos desejados, mas em Banda isso aconteceu ao custo de 15 mil vidas inocentes e ao estabelecimento de um conjunto de instituições econômicas e políticas que condenariam as ilhas ao subdesenvolvimento. No fim do século XVII, os holandeses haviam reduzido a oferta mundial dessas especiarias em cerca de 60%, e o preço da noz-moscada dobrara.

Os holandeses disseminaram a estratégia aperfeiçoada nas Molucas por toda a região, trazendo consequências profundas para as instituições econômicas e políticas do restante do Sudeste Asiático. A longa expansão comercial de diversos Estados na área, iniciada no século XIV, começou a retroceder. 

ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 276-278. 

O arquipélago das Molucas - Amboína

sexta-feira, 3 de março de 2023

O arquipélago das Molucas, na atual Indonésia, é composto de três grupos de ilhas. No início do século XVII, as Molucas do Norte abrigavam os reinos independentes de Tidore, Ternate e Bacan. As Molucas Médias abrigavam o reino insular de Amboína. No sul havia as Ilhas Banda, um pequeno arquipélago que ainda não havia sido unificado politicamente. Embora hoje pareçam remotas, na época as Molucas eram centrais para o comércio internacional por serem as únicas produtoras das especiarias cravo-da-índia, mácide e noz-moscada. Dessas, a mácide e a noz-moscada só podiam ser encontradas nas Ilhas Banda. Os habitantes das ilhas produziam e exportavam essas especiarias raras em troca de comida e de bens manufaturados que chegavam de Java, do entreposto de Malaca, na península Malaia, e da Índia, da China e da Arábia.

O primeiro contato que tiveram com os europeus com os portugueses, que capturaram Malaca em 1511. Estrategicamente situada na porção ocidental da península Malaia, a região recebia mercadores de todo o Sudeste Asiático que iam vender suas especiarias a outros mercadores - indianos, chineses e árabes -, que depois as enviavam para o Ocidente. Então, com o domínio de Malaca, os portugueses tentaram sistematicamente conquistar um monopólio do valioso comércio de especiarias. Não conseguiram.

Os adversários eram consideráveis. Desde o século XIV, o enorme desenvolvimento econômico no Sudeste Asiático baseado no comércio de especiarias levou cidades-Estado como Aceh, Banten, Malaca, Macáçar, Pegu e Brunei a se expandirem rápido, produzindo e exportando especiarias junto com outros produtos, como madeiras de lei. A partir do século XVI, a presença dos europeus aumentou e passou a ter muito mais impacto com a chegada dos holandeses, que logo se deram conta de que monopolizar a oferta das valiosas especiarias das Molucas seria muito mais lucrativo do que competir contra outros comerciantes locais e europeus. Em 1600, convenceram o governante de Amboína a assinar um acordo de exclusividade que lhes dava o monopólio sobre o comércio do cravo-da-índia na ilha. Com a fundação da Companhia das Índias Orientais, em 1602, as tentativas dos holandeses de dominar o comércio de especiarias e eliminar seus concorrentes lhes renderam bons frutos, prejudicando imensamente o Sudeste Asiático. Graças ao seu poder militar, a companhia permitiu aos holandeses eliminar qualquer possível obstáculo e garantir que seu tratado com o governante de Amboína fosse respeitado. Em 1605, capturaram um forte importante que estava em mãos portuguesas e, a seguir, removeram à força todos os demais comerciantes. Depois, expandiram sua atuação para as Molucas do Norte.

Em Amboína, os súditos deviam tributos ao governante e eram obrigados a fazer trabalhos forçados. Os holandeses assumiram e intensificaram esses sistemas para obter mais mão de obra e mais cravo-da-índia. Os holandeses determinaram que os moradores de cada casa estavam presos a um pedaço de terra e deviam cultivar um certo número de árvores de cravo-da-índia. As famílias também eram obrigadas a prestar trabalhos forçados.

Adaptado de ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 272-276. 

O Ensino nos Colégios dos Jesuítas

domingo, 9 de outubro de 2022

 

Palácio Anchieta, em 1909. O prédio foi construído em 1551, por Afonso Brás, para ser o Colégio dos Meninos de Jesus e a Igreja de São Tiago.

Um colégio jesuíta compreendia cinco classes: três classes de gramática, uma classe de humanidades (correspondente à Quarta) e uma classe de retórica (correspondente à Quinta). Os alunos tinham quase sete horas de aula por dia: duas horas e meia de manhã, duas horas e media à tarde, uma hora e três quartos após o jantar. Nos grandes colégios, como o de Paris, fundado por volta de 1560 e que tomou, sob Luís XIV, o nome de Colégio Luís o Grande, as classes estavam superlotadas: frequentemente 200 alunos. O professor era ajudado por alguns alunos nos quais ele tinha confiança e que se chamavam os decuriões. Cada um tinha autoridade sobre nove de seus colegas: sentavam os dez no mesmo banco. "Os decuriões, diz o Regulamento, serão encarregados pelo mestre de fazer recitar as lições, de recolher as cópias, anotar num caderno os erros de recitação, apontar os que não entregaram o dever e todas as outras coisas que o mestre lhes ordenar."

Os jesuítas desenvolviam em seus alunos o sentimento de emulação. No Colégio da Flecha, os alunos mais bem classificados em composição recebiam respectivamente os títulos de: Imperador, Ditador, Cônsul, Tribuno, Senador, Cavaleiro, Decurião, Edil. "Os primeiros nas composições", diz o Regulamento, "ocuparão as magistraturas mais elevadas... a fim de excitar a emulação pode-se dividir a classe em dois campos; cada um terá seus magistrados que serão reciprocamente opostos uns aos outros, e cada aluno terá um adversário que lhe será designado. Os primeiros magistrados dos dois campos sentarão nos primeiros lugares."

O latim era a única língua empregada no colégio e, mesmo entre si, os alunos deviam falar em latim.

ALBA, André. Tempos Modernos. Tradução de Elzon Lenardon. São Paulo: Mestre Jou, 1968, p. 52-53. 

Europa Regina

domingo, 18 de setembro de 2022

 

Este mapa, criado em 1537 por Johannes Putsch (1516-1542), foi o primeiro a representar a Europa como uma rainha (regina, em latim). Putsch também o denominava de "a Europa como a Virgem".  

«O Homem Que Não Vendeu Sua Alma»

domingo, 4 de setembro de 2022

 

Assista aqui.

A peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt, estreou em Londres em 1960 e, por várias razões, repetiu o sucesso em Nova York, no ano seguinte. Na época, a combinação de tolerância, indiferença religiosa e a generosa personalidade do papa João XXIII colocaram o catolicismo no centro das atenções. As plateias estavam prontas para a história de um mártir heroico consciencioso lutando contra o poder de um tirano, e Bolt lhes deu isso. De Paul Scofield, no papel de Thomas More, transpirava uma veemente integridade e uma presença impressionante - para não falar de sua voz irresistível.

Em 1966, a versão cinematográfica da peça, admiravelmente dirigida por Fred Zinnemann, correu o mundo, ganhou vários prêmios da Academia de Hollywood e popularizou o nome de More (outra vez interpretado por Paul Scofield). O filme dava ao espectador a confortável sensação de ficar sabendo tudo sobre More. Ele tornou-se um Abraão Lincoln católico, um ícone de pureza e de princípios capaz de provocar reverência e afeição. Porém, Bolt nos deu um More que a sua própria época mal reconheceria, um More escandaloso demais talvez para o próprio More.

Alguns erros e distorções do filme são concessões inofensivas ao seu conteúdo teatral, outros inferências plausíveis do Life of More escrita por seu genro, William Roper, cerca de vinte anos após a decapitação do prelado. Aquele que eventualmente traiu More, Richard Riche (John Hurt), compõe um vilão incrivelmente asqueroso (é verdade que, de fato, ele morreu rico, como barão, em 1567). Não há dúvidas de que Riche foi um carreirista e sem dúvida conquistou favores reais com o seu depoimento, mas o exame dos fragmentados registros históricos da época mostra que o papel verdadeiro de Riche foi muito mais ambíguo: o seu testemunho no julgamento de More foi muito menos malicioso.

O filme, da mesma forma, avilta Cromwell, cujo papel em toda a questão fica contudo menos claro. Outros erros históricos, embora abundantes, constituem uma aceitável licença dramática. Menos fácil é desculpar a idolatria de Bolt à personalidade de More. O filme adere ao argumento de Roper de que More se opunha ao então ministro da Justiça, o cardeal Thomas Wolsey (Orson Welles), inclusive dentro do Parlamento. Porém, evidências da época mostram que More não passava de um dócil servo de Wolsey. Ele contava com Wolsey para progredir, e nunca fez nada que ofendesse o cardeal, até que Wolsey caiu em desgraça por não conseguir a aceitação do papa para o divórcio do rei. O filme também silencia sobre o primeiro discurso de More no Parlamento como titular da Justiça, quando atacou o cardeal de forma cruel e vingativa.

O More de Bolt recusa-se a deixar que a filha Margaret se case com Roper até mesmo depois de o noivo renegar seu ligeiro flerte com o luteranismo (embora isso, quase com certeza, aconteceu após o seu casamento). De resto, o filme pinta um retrato açucarado da religião de More e do seu ódio insano contra os protestantes. O More histórico chegou a produzir centenas de páginas clamando de maneira ofensiva e polêmica pelo sangue dos protestantes. Quando algum herege era queimado, More exultava.

Em nenhum momento do filme aparece o More que continuou produzindo obras contra a heresia até mesmo quando o rei tentava negociar uma aliança com os protestantes. Os conselheiros do rei tiveram que fazer More desistir à força de suas ominosas exigências para que Henrique VIII exercesse o seu dever contra os hereges.

Em nenhum momento do filme aparece o More que queria ver o ódio que tinha aos hereges inscrito em seu próprio túmulo. E, a propósito, More não era um papista como o filme mostra. Ele achava que os papas haviam errado, que melhor que o papa seria um conselho geral de bispos, que esse conselho devia ter autoridade para depor o papa pelas razões que bem entendesse e que a Igreja podia até, talvez, passar sem papa.

Henrique VIII, monarca inglês de 1509 a 1547, era, sem dúvida, extremamente egoísta. Contudo, nem de longe foi o maníaco esbravejante retratado na obra de Zinnemann. Nos seus últimos anos de vida, incapaz de curar uma ferida na perna, ele perdia às vezes o autocontrole, e gritava com os outros. Quando frustrado, às vezes chorava. Mas, em público, especialmente na juventude, sabia ser viperino na sua astúcia. Henrique permaneceu amigo pessoal, até quase a morte, de muitos daqueles que destruiu - entre eles, Cromwell e o cardeal Thomas Wolsey. 

O homem que não vendeu sua alma nos mostra um More que morreu heroicamente em nome da sua consciência. O filme extrai dessa consciência o conteúdo mais duvidoso e nos priva assim da tragédia - e da catarse - representada pelo verdadeiro Thomas More. Deixa-nos não purificados e pensativos, mas sim radiantes e confiantes de que qualquer um de nós teria votado a favor do herói. Na verdade, a maioria de nós teria seguido a família de More e prestado o juramento que ele se recusou a prestar. Também teríamos votado - talvez forçosamente - em favor da morte dele, para que a Inglaterra continuasse a prosperar sem ameaça de invasões estrangeiras ou de guerra civil.  

Bibliografia consultada: CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito - a história no cinema. Tradução de José Guilherme Correa. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 70-73.   

A Expulsão dos Judeus da Espanha

quarta-feira, 15 de junho de 2022

 

A expulsão dos judeus de Sevilha, obra de Joaquín Turina y Areal (1847-1903). 


Em 2 de janeiro de 1492, os Reis Católicos, Fernando e Isabel, entraram solenemente em Granada; a Reconquista estava completa. Em 31 de março do mesmo ano, decretavam a expulsão dos judeus da Espanha. Dava-se quatro meses para que os judeus liquidassem seus negócios e vendessem seus bens móveis e imóveis; mas a exportação de dinheiro e metais preciosos lhes era interdita. Em 2 de agosto, apenas dois após após o prazo para que os judeus deixassem a Espanha, Cristóvão Colombo partiu com as suas três caravelas que chegariam à América no dia 12 de outubro.

Os judeus, que ainda contavam com representantes poderosos na corte, tentaram obter a revogação do edito ou uma prorrogação do prazo. Contudo, seus esforços foram vãos, apesar de terem oferecido imensas somas de dinheiro ao tesouro. Um batismo de última hora era o único expediente que permitia remanescer no solo da mãe pátria. Nas últimas semanas que restaram aos judeus na Espanha, o clero espanhol lançou-se a uma ativa propaganda missionária, amiúde coroada de êxito. Segundo uma testemunha judia, muitos judeus, "grandes e pequenos", e até mesmo rabinos, preferiram ficar na Espanha, convertendo-se ao catolicismo.

As estimativas mais sérias dão a entender que quase 150 mil judeus aceitaram o exílio (a maioria foi para Portugal). Apenas 50 mil preferiram uma conversão de última hora. Um verdadeiro êxtase apoderou-se dos corações, e a provação era comparada à saída do Egito. Dizia-se que ela seria seguida de uma terra prometida de glória e honras. Outros acreditavam que a Espanha logo chamaria de volta seus filhos, de modo que certos exilados, depois de terem vendido seus bens, enterravam o dinheiro no solo da mãe pátria.

Segundo Bernaldez, em alguns meses os judeus venderam tudo o que puderam. Davam uma casa em troca de um asno, uma vinha por um pedaço de tecido ou tela. Antes de partir, casavam entre si todos os seus filhos de mais de doze anos, para que cada menina tivesse a companhia de um marido. A seguir, partiram no seu duro êxodo, enfrentando a fome e a sede, a doença ou inúmeras outras dificuldades. Quanto aos cristãos, em sua grande maioria, não se comoveram muito com a partida dos judeus.

O epílogo do drama foi representado em Portugal. O rei D. João II admitiu os exilados, mediante a taxa de oito cruzados por cabeça e sob a condição de deixarem o país no prazo de oito meses. Uma parte deles, de fato, seguiu para a África. A maioria, porém, não pôde ou não se resolveu a fazê-lo. Findo o prazo, o monarca começou a vender esses judeus como escravos. Seu sucessor, D. Manuel I, ordenou que eles fossem libertados. Pouco depois, porém, um projeto de casamento entre ele e a infanta da Espanha tomou corpo. Os Reis Católicos passaram a lhe exigir, então, a completa cristianização de Portugal.

Ora, uma expulsão teria sido um desastre imediato para a vida econômica do país. O batismo forçado passou a ser a única saída vislumbrada pela administração portuguesa. Na Páscoa de 1497, a coisas se precipitaram. As crianças eram tomadas de seus pais e levadas às pias batismais; os pais que não as seguiram de boa vontade eram arrastados à força. Vários milhares foram batizados durante algumas semanas (inclusive judeus portugueses). Os suicídios foram numerosos, bem como outros incidentes atrozes. O papa Alexandre Bórgia esforçou-se para limitar os estragos e, afinal, os judeus batizados tiveram, em Portugal, plena licença para levar uma vida de judeus, a ponto de serem autorizados a se reunirem em culto. Podiam também enriquecer, o que interessava ao tesouro real, que lhes extorquia de tempos em tempos. Isso durou meio século.

A população portuguesa reagia com fúria, atacando os judeus em terríveis pogroms, como o de Lisboa, em 1506, que causou mais de mil vítimas. Finalmente, a Inquisição copiada da Espanha foi adotada em Portugal, de conformidade com um breve pontifical de 1536, e começou a grassar com a mesma implacabilidade de seu modelo.  

Adaptado de POLIAKOV, Léon. De Maomé aos Marranos. Tradução de Ana M. Goldberger Coelho e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1984, p. 166-170.

Castelo de Chambord, França

domingo, 5 de junho de 2022

 

Um Projeto de Sociedade

domingo, 30 de janeiro de 2022

 

Entardecer: uma cena na Westminster Union (workhouse), 1878, óleo sobre tela de Sir Hubert von Herkomer (1849-1914).

Foi quando a Reforma Protestante e a Contrarreforma se estabilizaram que a "polícia cristã" se tornou mais "pesada" na Europa. Em primeiro lugar, consideremos a luta contra as festas "pagãs". Elas constituíram outro grande capítulo da ação tenaz e multiforme para cristianizar a vida cotidiana por via autoritária e operar de maneira radical a necessária separação - necessária aos olhos da elite no poder - entre o sagrado e o profano. Essa ação, assim como a ação contra a blasfêmia, foi inseparável do combate conduzido ao mesmo tempo contra a feitiçaria e todos os inimigos declarados o encobertos do nome cristão. Satã introduzira-se nos divertimentos, pervertera-os, paganizara-os, servindo-se deles além disso para confundir as hierarquias e perturbar a ordem social.

Compreende-se melhor, a partir daí, que as fogueiras de são João tenham sido objeto da hostilidade ou, ao menos, da suspeita comum das autoridades católicas e protestantes. Calvino as eliminou de Genebra. Em país católico, os bispos que não ousaram proibir as fogueiras de são João esforçaram-se em fazê-las estreitamente controladas pelos eclesiásticos do lugar, pois assim seriam despaganizadas.

As suspeitas das igrejas se voltaram igualmente para as algazarras. Nas segundas núpcias, por exemplo, deveriam se eliminar o "alarido", o "tumulto" e "ruídos escandalosos". "Insolências", "indecências", desordens festivas tornaram-se como tais repreensíveis aos olhos das autoridades religiosas, católicas ou protestantes. Desde então, esse enquadramento da festa valeu tanto para o primeiro casamento como para os demais.

Embora, em vários países, a legislação civil tenha continuado a tolerar as fogueiras de são João e o carnaval (ao qual a Igreja tridentina tentou opor as "Quarenta Horas"), no entanto, a partir do século XVI, o poder eclesiástico e o poder civil apoiaram-se mutuamente para melhor vigiar a conduta religiosa e moral das populações.

A loucura se tornou, senão para Erasmo, ao menos para muitos espíritos cultivados de seu tempo, uma verdadeira obsessão. Ligada à tentação, ao pecado, aos pesadelos e à morte, ela então tomou uma forma de perigo público. Assim, convinha dominá-la, colocando-a fora do circuito, atrás das altas muralhas de estabelecimentos correcionais. No século XVII, em Paris ou em Bicêtre, os loucos serão colocados entre os "bons pobres" ou entre os "maus pobres". Afirmando-se como necessidade de ordem, a modernidade europeia dessacralizou a loucura. Na Idade Média, o louco e o pobre eram como peregrinos de Deus. Durante o período seguinte, apareceram como seres decaídos, suspeitos e inquietantes, que perturbavam a paz pública.

Outrora imagem de Cristo, a partir do século XIV o pobre se torna um ser que provoca medo. Os crescimentos demográficos, a alta dos preços, a pauperização salarial, o desemprego crescente, a monopolização das terras, a passagem dos homens de guerra acumulam nas cidades ou lançam nas estradas contingentes continuamente mais densos de "vagabundos agressivos, desprovidos de terra e de salário", em desocupação sazonal ou permanente. Eles são, desde então, acusados de todos os pecados capitais. Considerados ociosos, ei-los acusados de transportar a peste e a heresia.

Em primeiro lugar, tentou-se em numerosas cidades do Ocidente, no século XVI, recensear e registrar os mendigos. Esse preliminar permitiria em seguida, graças a uma taxa urbana e à ação de "agências de pobres" e de "esmolas gerais", alimentar os inválidos, dar trabalho aos saudáveis, colocar as crianças em aprendizagem, expulsar os "malandros" e proibir a mendicância. Esse primeiro tipo de organização administrativa da caridade encontra sua expressão mais acabada numa lei inglesa de 1598, que permaneceu em vigor até 1834. Uma taxa estabelecida no nível paroquial devia fornecer os fundos de ajuda aos pobres. Os pobres idosos ou inválidos eram socorridos, os filhos dos ex-mendigos eram colocados como aprendizes.

Um aperfeiçoamento desse sistema consistiu em separar os mendigos do resto da sociedade, confinando-os. Tal solução foi descoberta simultaneamente no final do século XVI pelos papas da Reforma Católica e pelos magistrados das Províncias Unidas protestantes. Em Amsterdã, nessa época, surgiu uma Spinhuis ("casa onde se fia"), que alberga mendigos, prostitutas e esposas que os maridos internam por má conduta. Por outro lado, um Rasphuis impõe a seus pensionistas raspar pau-brasil: daí seu nome. Nessa instituição, o pobre que se recusasse a trabalhar era encerrado em um porão que se enchia lentamente de água. Ele só escapava do afogamento bombeando sem descanso. Esperava-se assim dar-lhe o gosto pelo trabalho.

A fórmula faz escola. Em 1614, em Lyon, na França, surgiu o primeiro asilo geral destinado ao encerramento dos pobres. Em 1621, Bruxelas é dotada de um Tuchthuys no qual os pobres fabricavam tecidos. Na Inglaterra, casas de correção, municipais ou de condado existiam desde o final do século XVI. Mas, um século depois, surgiram as workhouses, casas de trabalho municipais que têm sua instituição generalizada por um Act de Jorge I em 1722. Do mesmo modo, "casas de correção" para os "sem trabalho" foram abertas em Hamburgo (1620), em Basileia (1667), em Breslau (1668), em Frankfurt e em Spandau (1684), em Königsberg (1691). Ao longo do século XVIII, elas se multiplicaram no norte da Europa.

Os aspectos higiênicos, políticos e econômicos dessa luta contra a vagabundagem são evidentes: trata-se de sanear as cidades nelas diminuindo os vetores de contágio, de reduzir o bando dos amotinadores potenciais, de remediar o desemprego, de utilizar na produção e nas "obras públicas uma mão de obra disponível. Porém, mais ainda, trata-se de uma obra de alcance moral e religioso. A ociosidade dos preguiçosos e os pecados que se seguem chamam a cólera de Deus: ele arrisca-se a punir os Estados que os toleram. Para os ociosos voluntários a casa de detenção constitui, portanto, um justo e necessário "castigo"; e para todos os mendigos que ali estão reclusos ela é um meio de redenção. 

Adaptado de DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 607-621.

A Culpa das Pestes

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ratos devoram corpos de vítimas da peste. Le Miroir Historial, séc. XV, Museu Condé, França.

Entre o Medievo e a Idade Moderna, era comum circularem três explicações para as pestes que assolavam o Velho continente:

1ª) Eruditos

Eles atribuíam a epidemia a uma corrupção do ar, ela própria provocada por fenômenos celestes (aparição de cometas, conjunção de planetas, etc.), por diferentes emanações pútridos, ou então por ambos.

2ª) Multidão

Semeadores de contágio espalhavam voluntariamente a doença; era preciso procurá-los e puni-los.

3ª) Igreja

Assegurava que Deus, irritado com os pecados de uma população inteira, decidira vingar-se; portanto, convinha apaziguá-Lo fazendo penitência.

De origens diferentes, esses três esquemas explicativos não deixavam de interferir nos espíritos. Deus podia anunciar sua vingança próxima por meio de sinais nos céus. Segundo os teólogos, na ocasião os demônios e feiticeiros se tornavam os "carrascos" do Altíssimo e os agentes de Sua justiça.

A opinião corrente, portanto, procurava encontrar o máximo de causas possíveis para tão grande desgraça. No século XVI, Fracastoro e Bassiano Landi lançaram a noção de contágio, rejeitada obstinadamente pelos eruditos. Estes insistiam nas explicações "naturais" pelos astros e pelo ar viciado.

Assim, ainda em 1721, o médico do rei da Prússia dizia que a peste era provocada "por máculas morbíficas, concebidas e procriadas por exalações pútridas da terra ou pela maligna influência dos astros." Espíritos críticos, contudo, preferiam deixar aos técnicos a responsabilidade dessas qualificações, sem se pronunciar sobre elas. Boccaccio, sempre prudente, lembrou que fosse qual fosse a causa da Peste Negra, ela se manifestara, alguns anos antes, nos países do Oriente.

A outra explicação "natural" (não contraditória com a precedente) fazia derivar a peste de exalações malignas emanadas de cadáveres não enterrados, de depósitos de lixo, até das profundezas do solo.

Se a epidemia era uma punição, era preciso procurar bodes expiatórios que seriam acusados inconscientemente dos pecados da coletividade. Na Europa dos séculos XIV-XVIII, as populações repetiram por várias vezes, involuntariamente, a sangrenta liturgia das civilizações antigas de procurar apaziguar a divindade encolerizada. Essa necessidade de aplacar a cólera das potências supra-humanas conjugava-se com o desrecalque de uma agressividade que a angústia fazia nascer em todo grupo humano acometido pela epidemia. Não existe um relato de peste que não evoque essas violentas descargas coletivas.

A agressividade coletiva era descarregada em primeiro lugar sobre os estrangeiros, os viajantes, os marginais e todos aqueles que não se integraram bem a uma comunidade (judeus, leprosos, indivíduos provenientes de outros lugares).

A Peste Negra surgiu numa atmosfera já carregada de antissemitismo. De início suspeitos de querer dizimar os cristãos pelo veneno, em seguida os judeus foram bem rapidamente acusados de ter semeado o contágio por meio desses envenenamentos. 

Ocorreram diversos pogroms na Espanha e em outras partes da Europa, onde os judeus eram cada vez mais vistos como os maiores responsáveis pela "morte negra".

Adaptado de DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300-1800. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 201-220.

Chmielnicki e os Judeus Polacos

terça-feira, 19 de outubro de 2021

 

Retrato anônino de Bohdan Chmielnicki, c. 1560.

Bohdan Chmielnicki (c. 1595-1657) desencadeou uma revolta contra o domínio dos magnatas poloneses, em 1648. Um de seus alvos também foram os judeus, intermediários entre a maioria dos camponeses ucranianos e os donos efetivos das terras que cultivavam. Centenas de comunidades judaicas foram arrasadas, e dezenas de milhares de judeus foram mortos ou vendidos como escravos. Até o século XX, esse foi o massacre mais sangrento da história dos judeus.

Assim, os judeus saíram da Polônia e voltaram para os diversos territórios alemães, Amsterdã ou para o Império Otomano. É importante como logo a comunidade judaica se recuperou desses horrores. Em meados do século XVIII, chegou a ter 750 mil pessoas, quase metade da população urbana do país.

Adaptado de BRENNER, Michael. Breve História dos Judeus. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013, p. 145.

A Sodomia na Florença Renascentista

domingo, 4 de abril de 2021

 

Batalha dos Centauros, 1492, escultura de Michelangelo (1475-1564). Uma das primeiras obras do gênio renascentista, essa escultura mitológica reflete o ambiente homoerótico e faccioso da cidade de Florença.

A sodomia era surpreendentemente comum em Florença. Segundo Michael Rocke, no fim do século XV, na época em que chegavam à idade de trinta anos, pelo menos metade dos jovens de Florença tinha sido formalmente implicada em atos de sodomia, e isso só pelo tribunal do qual os arquivos ele pesquisou. Aos quarenta anos, pelo menos dois terços dos homens tinham sido indiciados.

O problema atingiu até mesmo a família do grande Michelangelo. O pai deste, Lodovico Buonarroti, tentou fazer o melhor pelos filhos quanto à educação. Talvez com a perspectiva de fazer de Lionardo trabalhar com o tio Francesco, que era cambista, ele o enviou a um dos mais destacados professores de ábaco da cidade de Florença, Raffaello di Giovanni Canacci (1456-1504/5), autor de um tratado de álgebra, uma raridade na Idade Média tardia. Apesar de bem-intencionado, o intento de Lodovico acabou horrivelmente mal.

Em 8 de abril de 1483, Raffaello Canacci denunciou a si próprio por ter sodomizado cinco meninos. Dois dias depois, Lodovico denunciou-o por ter sodomizado seu filho, em sua escola. Canacci então confessou que tinha praticado o vício "muitas e muitas vezes com Lionardo, filho do mencionado Lodovico." Foi condenado a pagar uma multa de vinte florins e a um ano de cadeia, mas esta última parte da sentença foi comutada porque ele tinha confessado. Considerando que tecnicamente a pena para sodomia era ser queimado vivo, Canacci se deu bem. Na prática, apenas criminosos mais renitentes e escandalosos sofriam punições mais severas.

As consequências desses estupros para o menino de dez anos só podem ser imaginadas. Daí em diante, ele praticamente desapareceu dos registros familiares. Quando adulto, fez-se frade dominicano. Em 1497, procurou o ateliê de Michelangelo em Roma; estava sem dinheiro e havia perdido o hábito. O irmão lhe deu um ducado para a viagem de volta a Florença, para ele um bom negócio mais que uma dádiva generosa. Sua breve referência ao "frei Lionardo" não demonstra muito afeto nem muito interesse.

Uma carta de Niccolò di Braccio Guicciardini a seu primo Piero Guicciardini, data de 7 de abril de 1492, revela pânico por causa da repressão ao vício da sodomia. Niccolò explica que Savonarola e outros pregadores tinham profetizado uma maldição apocalíptica sobre Florença se a prática da sodomia prosseguisse. Dois dias antes, a queda parcial da estrutura do Duomo, graças a um raio, fora interpretada como sinal do apocalipse. Obviamente, governantes do estado sentiram a mesma coisa, e passaram a empreender buscas em tabernas. Qualquer homem que estivesse em companhia de um jovem era preso.

Os florentinos mostravam-se extremamente preocupados com a questão, como indica a carta de Niccolò Guicciardini. Os pregadores denunciavam a sodomia com regularidade; acreditava-se que ela atrairia a ira de Deus sobre a cidade. A preocupação dos cidadãos com o assunto culminou, em 1432, com a criação dos oficiais da noite, uma equipe de magistrados dedicada à erradicação da sodomia. Eram a tais oficiais que os florentinos sodomitas eram denunciados ou aos quais eles próprios se denunciavam para evitar penas mais severas (como vimos, este foi o caso Raffaello di Giovanni Canacci, professor de Lionardo, irmão de Michelangelo).

Paradoxalmente, a sodomia em Florença era considerada abominável, mas ainda assim era disseminada. Assim, os florentinos medievais e renascentistas eram cristãos devotos e acreditavam que o sexo entre pessoas do mesmo era pecado. Por outro lado, durante a maior parte do tempo aderiam a algo muito semelhante ao código moral da Roma antiga, onde a sodomia não era estigmatizada, desde que que a praticasse não assumisse a posição passiva.

Não há informações precisas sobre a vida sexual de Michelangelo, mas é certo que ele viveu num meio impregnado pelo homoerotismo. Em 1492, 1494 e 1496, Andrea, um jovem que, assim como Michelangelo, também trabalhou na bottega de Ghirlandaio, foi denunciado aos oficiais da noite. Dizia-se que ele havia sido sodomizado com frequência por um pintor chamado Giglio. Em 1502, o pintor Botticelli, mais velho que Michelangelo e conhecido dele, também foi denunciado aos oficiais da noite por ter um amante jovem. Até o patrono de Michelangelo, Lourenço de Medici, foi alvo de boatos, embora ele fosse famoso por seus casos heterossexuais.

Adaptado de GAYFORD, Martin. Michelangelo - Uma Vida Épica. Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 59-60 e 115-116.

Michelangelo e a Cabeça do Fauno

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O dia em que o adolescente Michelangelo entrou no jardim das esculturas de Lourenço de Medici (1449-92), na Piazza San Marco, mudou sua vida e o curso da arte ocidental. Era apenas um dos diversos lugares onde se guardava a enorme coleção de obras de arte dos Medici. Lourenço tinha mais de quarenta esculturas clássicas, um número ainda maior de fragmentos arquitetônicos, 5527 moedas, sessenta e três jarros de pedra, 127 gemas, além de obras de todo tipo, entre elas esculturas de Donatello, Verrochio e Bertoldo di Giovanni, este o especialista particular de Lourenço em arte escultórica.

Michelangelo, em algum momento, deparou-se com a cabeça de um velho fauno, risonho e barbudo, na coleção do jardim. Estava desgastada e danificada, mas mesmo assim, ela lhe agradou muito. Ele resolveu então imitar o trabalho que o fascinara e, ao mesmo tempo, tentar aperfeiçoá-lo.

Havia no jardim alguns pedreiros preparando blocos de pedra para um novo edifício que abrigaria a Biblioteca Medici (só efetivamente construída décadas mais tarde, segundo um projeto de Michelangelo). O adolescente pediu uma sobra de mármore aos pedreiros que ali trabalhavam e tomou-lhes emprestado um jogo de ferramentas. Com isso lançou-se ao trabalho de copiar o fauno, com tanta atenção e esmero que em poucos dias levou-o à perfeição, suprindo com sua imaginação o que faltava à peça antiga, sobretudo a boca aberta, como um homem rindo.

De tempos em tempos, Lourenço aparecia para inspecionar a construção da Biblioteca. Segundo uma fonte, "encontrou o moço ocupado com o polimento da cabeça do fauno; e, chegando mais perto, primeiro considerou como era bom o trabalho, e, tendo em conta a idade do menino, ficou maravilhado". Mas Lourenço, tão brincalhão quanto intelectual, disse-lhe: "Fizeste esse fauno velho, mas lhe deixaste todos os dentes. Não achas que a criaturas dessa idade devem faltar alguns dentes?"

Michelangelo, competitivo e perfeccionista como era, não achou graça. Assim que Lourenço saiu, lançou-se ao trabalho e tirou um ou outro dente da boca de sua escultura, fazendo um buraco na gengiva para dar a impressão de que tinha saído pela raiz. Depois desse trabalho odontológico no mármore, "aguardou ansiosamente pela chegada do Magnífico" no dia seguinte.

Lourenço achou graça na reação do rapaz, mas impressionou-se com o fato de ele ter realizado uma obra daquela em tão tenra idade; então decidiu ajudá-lo e favorecê-lo, levando-o para sua própria casa. Assim, Michelangelo deixou o ateliê de um artista (Domenico Ghirlandaio) e se instalou na corte não oficial de Florença.    

Adaptado de GAYFORD, Martin. Michelangelo - Uma Vida Épica. Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 83-84 e 92-94.

O Processo Civilizatório do Ocidente

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Imagem do século XV. Revela traços do individualismo crescente nos hábitos à mesa desse período.

Num importante estudo, o sociólogo Norbert Elias defende que o século XVI foi um período crucial no Ocidente devido àquilo a que chama "processo civilizacional", ou, por outras palavras, o aperfeiçoamento do autodomínio, referindo, entre muitas outras demonstrações, os trabalhos de Erasmo e do bispo italiano Giovanni Della Casa sobre boa educação, ambos regularmente impressos em várias línguas. Há poucas dúvidas de que a preocupação com o comportamento civilizado à mesa (evitando cuspir, lavando as mãos antes das refeições, e assim por diante) era, naquele tempo, vastamente partilhada - pelo menos em alguns meios -, mas (como o autor admite) é impossível traçar uma linha precisa entre o Renascimento e a Idade Média. Os livros sobre "cortesia" remontam até o século X. 

BURKE, Peter. O Renascimento. Tradução de Rita C. Mendes. Lisboa: Texto & Grafia, 2008, p. 98-99.

Saiba mais: O Refinamento das Maneiras à Mesa

Os Judeus da Corte

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Joseph Süss Oppenheimer (1698-1738). Autor desconhecido.

O judeu da corte (Hofjude) surgiu na cena alemã moderna, deixando a sua marca. Cada corte real ou principesca teve o seu: o judeu, novo Midas, tinha a reputação de transformar em ouro tudo o que tocava... Certos contrastes são extremamente significativos. Em 1670, o imperador Leopoldo expulsou desapiedadamente os judeus de Viena; as corporações reclamavam desde há muito tal expulsão, e um aborto da imperatriz, de que se precisou torná-los responsáveis, foi o pretexto. No entanto, em 1673, o mesmo imperador chamou um judeu de Heidelberg, Samuel Oppenheimer, e o encarregou de reabastecer seus exércitos; durante trinta anos, ele se desincumbiu da tarefa com singular felicidade, em particular quando do ataque dos turcos a Viena, em 1683, assim como decurso das intermináveis guerras contra a França; Max de Baden escreveu que, sem ele, o exército austríaco teria sido aniquilado, e o príncipe Eugênio recusava-se a dispensar seus serviços.

Por trás do tinido das armas, ou do jogo sutil das intrigas diplomáticas, por toda a parte, nesta época, encontra-se o judeu da corte; assim, foi o judeu da corte Leffman Beherens que buscou e transportou em barricas de álcool os subsídios que Luís XIV deu ao Duque de Hanover; foi o judeu da corte Bernd Lehmann que conseguiu eleger rei da Polônia seu príncipe, Augusto da Saxônia, graças a judiciosas distribuições de propinas; foi o judeu da corte Süss Oppenheimer dito "Jud Süss", o mais célebre de todos, que, favorito do Duque Carlos Alexandre, reorganizou a administração e as finanças do Ducado de Württemberg e tornou-se o homem mais poderoso da região, antes de acabar no patíbulo...

Pouco importava que a corte fosse protestante ou católica, que o príncipe fosse tartufo ou libertino; encontramos "agentes", "corretores" ou "comissários" judeus junto às cortes dirigidas pelos jesuítas, como os encontramos junto a bispos e cardeais. Suas atribuições eram vastas e diversificadas ao máximo; administravam as finanças, eram empregados de abastecer os exércitos, de cunhar dinheiro, de fornecer à corte tecidos e pedras preciosas, de introduzir novas indústrias, de fabricar artigos têxteis ou de couro, de arrendar o monopólio de tabaco ou do sal, e assim por diante.

Às vezes, os judeus da corte mantinham verdadeiras relações de amizade com seus comitentes e senhores, que se estabeleciam tanto mais facilmente quanto, se o judeu vivia à margem da sociedade, o príncipe, planando a uma altura inacessível, lhe permanecia por sua vez estranho; eles se compreendiam mais facilmente quando ambos levavam uma existência à margem. Grão-senhores, célebres capitães, e até altezas reais comiam à mesa dos judeus, dormiam em suas casas quando em viagem, recebiam-nos em seus palácios, assistiam a seus casamentos.

Sem dúvida, a amizade só durava enquanto o judeu permanecia útil e rico. Ora, ele sempre estava à mercê de um golpe de sorte ou de um capricho, e seu bom fado é algo precário: nenhum desses judeus da corte fundou uma dinastia; ao contrário, numerosos foram aqueles que terminaram os seus dias na miséria. Os filhos de Bernd Lehmann foram expulsos da Saxônia; os netos de Leffman Behrens passaram longos anos na prisão por dívidas; e o processo de "Jud Süss", a alegria que suscitou a sua queda através da Alemanha inteira, seu retorno de última hora ao judaísmo e seu fim trágico são como o símbolo do destino de um judeu da corte.

Talvez a seguinte estória, que se atribui a Frederico Guilherme, o rei soldado, pinta bem sua situação e o interesse que se lhes dedica. De passagem por uma cidade da Prússia, foi solicitado a conceder audiência a uma delegação de judeus. "Nunca receberei estes canalhas que crucificaram Nosso Senhor!", exclama ele. Um camareiro lhe murmura ao ouvido que estes judeus tinham lhe trazido um valioso presente. "de fato, deixai-os entrar, reconsidera ele. Afinal de contas, eles não estavam lá quando o crucificaram...". Verdadeira ou falsa, a anedota reflete justamente os sentimentos nuançados que suscitavam os judeus no século do barroco.   

Adaptado de POLIAKOV, Léon. De Cristo aos Judeus de Corte. Tradução de Jair Korn e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva: 1979, p. 196-199.

A Reconquista da Península Ibérica

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Com o declínio do Império Romano do Ocidente, os visigodos se instalaram na Hispânia (Península Ibérica), onde fundaram seu reino. Como uma minoria de conquistadores arianos, dominando uma população majoritariamente católica, seus desafios eram grandes, até que o rei Recaredo converteu-se ao catolicismo (c. 586). Pouco depois, foi celebrado o III Concílio de Toledo. Com isso, o cristianismo trinitário enraizou-se entre os hispanos.

O mundo medieval é normalmente visto como o resultado da fusão de elementos germânicos e romanos em transformação. Isso é particularmente verdade no caso da Espanha visigótica, onde o legado do direito escrito romano foi unido ao direito consuetudinário hispânico e germânico em meados do século VII. No início do século VIII, no entanto, a conquista muçulmana varreria o Reino Visigodo do mapa. Em apenas dez anos, apenas as partes setentrionais da Península Ibérica não estariam sob domínio mouro.

A conversão generalizada e a arabização cultural da península ganharam ritmo no século X. As relações intercomunitárias na região baseavam-se nas três religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Apesar dos atritos, ocorreram grandes avanços culturais a partir do diálogo que então se estabeleceu, sobretudo na região da Andaluzia.

A conquista muçulmana foi acompanhada, desde o início, pela resistência cristã. O cristianismo, de fato, tornou-se o mais importante vínculo de resistência contra o domínio muçulmano. Os novos reinos cristãos que lentamente foram surgindo no contexto da reconquista adotaram a lex gothica. Em 801, foi criado o condado de Barcelona para controlar os territórios de ambos os lados da cordilheira até a Provença. Em finais do século X, a fragmentação do Império Carolíngio tornou esse condado autônomo. Em consequência, houve a emergência da língua catalã.

A Reconquista cristã da Península Ibérica produziu novas formas de identidade coletiva ao longo do eixo norte-sul da expansão a partir das Astúrias (o refúgio dos visigodos). A Galícia veio a se integrar a Leão, que se associou a Castela em 1037; em 1230 houve a união formal entre ambos. A Catalunha associou-se ao reino de Aragão em 1150. Portugal (condado Portucalense) tornou-se independente em 1139. Navarra, separada de Leão em 1134, perdeu o território ao sul dos Pireneus, conquistado em 1512 por Fernando, rei de Castela e de Aragão.

A Reconquista cristã foi legitimada pelo papa como Cruzada nos séculos XII-XIII. Muitos francos, borgonheses ou ingleses se tornaram governantes e bispos da região. O ritual visigodo foi substituído pelo romano e a colonização dos territórios reconquistados foi reforçada pelos recém-chegados. Esses novos imigrantes envolveram-se na conquista de cidades importantes e, no geral, integraram-se prontamente às entidades políticas cristãs.

À reconquista seguiu-se a recristianização. O status dos muçulmanos após a conquista cristã variou de comunidade para comunidade - de pilhagem, massacre e escravidão, a rendição e um pacto (o que, em geral, ocorreu). Leis de segregação e uma pressão religiosa irresistível provocaram um declínio acentuado, ao longo de dois séculos, das comunidades muçulmanas na Península Ibérica ocidental e central. Com a queda de Granada, em 1492, teve fim a presença muçulmana na Península Ibérica enquanto potência política. Como comunidade religiosa distinta, os muçulmanos persistiram até 1502 (em Granada) e 1526 (em Aragão).    

Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 53-56.