“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Centro de Vitória: Prestígio e Decadência

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Palácio da Cultura Sônia Cabral, na Cidade Alta, Centro de Vitória.

Uma das mais antigas cidades do Brasil, Vitória possui no Centro a expressão de sua história ao longo dos séculos, que vai desde a Capela de Santa Luzia, construção do século XVI e tombada pelo IPHAN, passando por obras ecléticas, como a neogótica Catedral Metropolitana, a moderna Rodoviária do arquiteto Carlos Fayet, até chegar em obras contemporâneas como o Tancredão, centro esportivo cujo projeto arquitetônico foi escolhido em concurso organizado pelo IAB/ES.

Tendo vivido seu auge até a década de 1960, quando as cidades ainda se caracterizavam por serem monocentrais, o Centro assistiu incólume à expansão urbana da cidade e à chegada do modelo policentral, quando polos comerciais e instituições públicas se espalharam ao longo do território urbano; a consequência foi um contínuo processo de esvaziamento. Como ponto de partida desta “decadência” se considera o Novo Arrabalde, plano urbanístico do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito que propunha um novo vetor de crescimento projetado para Vitória, onde atualmente é a região da Praia do Canto.

De lá pra cá, famílias, empresas e instituições foram pouco a pouco saindo do Centro, de tal modo que hoje são muitos os imóveis vazios na região, muitos deles com excelente padrão construtivo e até mesmo preço baixo para compra ou locação. Uma das questões que contribuem para tal paradoxo são as vagas de estacionamento, pois são edificações de uma época na qual o automóvel ainda não gozava do prestígio alcançado nas décadas seguintes.

Recentemente o Sebrae inaugurou sua nova sede na Enseada do Suá, contribuindo assim para o esvaziamento do Centro. E em breve serão a Receita Federal e o Ministério Público Federal, além do Fórum e parte do Judiciário que também pretendem fazer o mesmo movimento. Há também casos como a Alfandega, já que o número de funcionários diminuiu e encontra-se com pouca atividade após o fim do Fundap.

Em contrapartida, temos os equipamentos culturais, turísticos e de lazer, tais como o SESC Glória, o Theatro Carlos Gomes e o recém inaugurado Palácio da Cultura Sônia Cabral. A eles, se juntará logo a FAFI, uma vez que suas obras de restauração se encontram em fase final. Há ainda que se considerar o agito noturno dos bares e restaurantes das ruas Sete de Setembro e Gama Rosa, movimento que se soma aos saraus e lançamentos literários promovidos pela Editora Cousa e exposições no Palácio Anchieta e no Arquivo Público.

Sempre se aponta a vocação turística e cultural do Centro como alternativa econômica para seu esvaziamento. Isso seria muito bom se a população gozasse de mais tempo livre e orçamento para gastos com lazer, ou até mesmo interesse pela cultura histórica, o que, como se sabe, não é verdade.

A atividade comercial, de caráter mais popular, ainda vem mantendo certo nível de dinamismo na região, mas é importante ter em mente que cada vez mais o comércio presencial vem perdendo espaço para as compras on line. E a tudo isso se soma o problema da violência urbana, que fez uma loja de departamentos de uma rede nacional ser arrombada diversas vezes em pouco tempo; não será surpresa se ela vier a fechar em breve, e assim eliminando empregos na região.

Trata-se de um quadro geral não muito diferente de outras cidades brasileiras, nas quais suas áreas centrais apresentam tal dicotomia entre prestígio histórico e decadência econômica. Será necessário um esforço institucional coletivo se quisermos preservar parte da memória urbana do Centro, tornando-o economicamente sustentável. 

Tarcisio Bahia. Publicado no Gazeta Online, dia 4 de julho de 2018.

#Minorias Hereges

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Hereges representados como demônios atacando a Trindade cristã. De um manuscrito inglês do século XIII. 
Créditos da British Library.

1. Do século XI ao século XIV, desenvolveu-se um mesmo modelo que levava à heresia: um líder carismático inspirava a criação de um grupo que defendia pontos de vista apostólicos. Então - por razões variadas -, não conseguindo reconhecimento, o grupo era impelido para a oposição. 

2. Na sequência, o grupo adotava pontos de vista cada vez mais anti-hierárquicos e anti-sacerdotais, sendo escorraçado e castigado pela Igreja até a submissão ou extinção. Ou, ainda, era forçado a sair para buscar sobreviver como seita herege perseguida. Somente num caso, o do catarismo, havia um sistema de crenças não-cristãs importado.     

3. Em sua maior parte, a heresia medieval tratava-se, de dissensão religiosa popular. A atração pela heresia não tinha base de classe; ela podia atrair todas as classes. A dissolução dos antigos laços comunitários e de família - um subproduto do crescimento urbano - podia ser compensada pela comunidade em grupos heréticos. Muitas mulheres, por sua vez, aderiram a seitas heréticas na esperança de obter status e autoridade nas novas comunidades. 

É importante destacar que, por norma, a heresia não foi fruto das discordâncias intelectuais sobre a fé. Uma exceção notável foi o lolardismo, movimento inspirado nas ideias de John Wyclif, na Inglaterra. 

4. Entre 970 e 1018, registraram-se apenas quatro casos de heresia no Ocidente medieval. Houve uma lufada herética entre 1018 e 1050; a partir de então, as fontes se silenciaram até 1100. Como características comuns desses movimentos, podemos citar a preocupação com a pureza, a rejeição do sexo e do materialismo e, finalmente, a negação das estruturas e práticas da Igreja. Essas ondas de puritanismo coincidem mais ou menos com as irrupções de violência contra os judeus.  

5. O retorno da heresia, no começo do século XII, era uma resposta a esse milenarismo subjacente e ao movimento de reforma eclesiástica. Muitos dos pregadores, como Marberto de Xanten e Roberto de Arbrissel, eram completamente ortodoxos. Mas outros eram muito mais críticos e abertamente anticlericais. O quadro geral na Igreja era de corrupção e negligência. 

6. Os primeiros heresiarcas da época, o monge Henrique de Lausanne e o Padre Pedro de Bruys, baseavam suas ideias com honestidade no Novo Testamento, visando comunidades de fé, regulando-se a si mesmas. Era a negação total do papel institucional da Igreja. A heresia albigense floresceu justamente nas áreas em que eles foram precursores.  

7. A tradição da piedade leiga foi um dos elementos mais duráveis e inspiradores da Reforma Medieval. O exemplo mais notável talvez tenha sido o dos valdenses. Eles eram seguidores de Pedro Valdo, outrora um rico comerciante de Lyon que traduziu o Evangelho para o vernáculo. Por sua influência, os "Pobres de Lyon" renunciaram à propriedade pessoal, viviam da caridade e buscavam prosélitos. Em 1184, foram condenados como hereges. Não tinham um clero ordenado. Só reconheciam três sacramentos - batismo de crianças, casamento e eucaristia. Defendiam a observância dos domingos e eram inteiramente ortodoxos do ponto de vista doutrinário. Mas rejeitavam a Igreja Católica e a hierarquia estabelecida. Os valdenses foram a única seita do século XII a sobreviver numa comunidade sem rupturas, ainda que tivessem sido ferozmente perseguidos.

8. Em meados do século XII, a tradição apostólica importou o maniqueísmo, religião persa do século III. O verdadeiro maniqueísta era celibatário, pacifista e vegetariano. No século X, na Bulgária, surgiu um tipo de heresia maniqueísta - a dos bogomilos. A primeira evidência da chegada da doutrina bogomila no Ocidente data de 1143.

9. Existiam divisões internas e diferenças doutrinárias entre os cátaros (como os adeptos da seita maniqueísta do sul da França ficaram conhecidos). Negavam o purgatório, as missas pelos mortos, a transubstanciação e o batismo de crianças. A seita tinha pouco apelo intelectual, mas imenso apelo popular. A reação da Igreja diante da ameaça de dissensão e de heresia pode ser sintetizada em três atos: persuasão, repressão e satanização.  

10. O papa Lúcio III e o imperador Frederico Barba-Ruiva selaram um acordo de política conjunta de repressão secular e eclesiástica. No Concílio de Verona (1184), foi publicada a bula Ad abolendam, a primeira tentativa nesse século de lidar com a heresia em bases supracionais. Por ter um alcance tão amplo, ela não funcionou. O papa Inocêncio III então mudou a estratégia. Ele introduziu uma política mais flexível e esclarecida em relação aos reformadores. Vários grupos de valdenses se reconciliaram com a Igreja em condições semelhantes aos humiliati da Lombardia.

11. A principal "arma" do papado na luta contra os hereges foi os frades, sobretudo os franciscanos e os dominicanos. Os primeiros foram reconhecidos em 1210. Os frades tornaram-se um elemento essencial na criação da mentalidade burguesa e na implementação do plano dos mendicantes para moralizar e purificar a sociedade urbana. Deram enorme contribuição para a vida intelectual da Igreja, provendo as universidades de pessoal e harmonizando o catolicismo com as novas ideias filosóficas (veja, por exemplo, a obra de São Tomás de Aquino).

12. Os frades atacavam não somente a heresia, mas também o "materialismo dogmático" (o interesse pelo dia de hoje - dinheiro, sexo e promoção). Os mendicantes se concentraram na confissão, na penitência e no arrependimento, e propiciaram o tipo de clima emocional e espiritual no qual a heresia poderia ser desbaratada. 

13. Em 1199, Inocêncio III equiparou pela primeira vez a heresia à traição, e ameaçou com deserdação perpétua os herdeiros dos hereges. Em 1208, ele proclamou a Cruzada dos Albigenses. A cidade de Béziers foi pilhada e queimada; sua população foi massacrada. Na discussão sobre como distinguir os hereges dos católicos, Arnaldo Amauri, abade de Cister e líder espiritual da cruzada, declarou: "Mate-os todos; pois o Senhor conhecerá aqueles que são Seus." Apesar disso, a cruzada arrastou-se inconclusivamente durante anos. Na França, o último cátaro foi queimado em 1326.

14. A Inquisição foi fundada em 1233, inicialmente para combater o catarismo, e seus poderes eram amplos. Contudo, uma autoridade coordenadora centralizada só surgiu em 1542, quando o papa Paulo III criou o Santo Ofício. O objetivo da Inquisição era estabelecer a culpa ou a inocência através de extensos interrogatórios, e tentar persuadir os infratores a retratar-se. Se fracassassem, entregavam os infratores às autoridades seculares para punição. A Inquisição agia através de denúncias e em segredo. Empregava agentes a tempo integral, informantes esporádicos e hereges arrependidos. 

15. A perseguição era acompanhada pela satanização, na forma de propaganda que estigmatizava os hereges como desviantes sexuais e orgiastas. Isso ocorria porque os católicos viam os hereges como hipócritas e muitas vezes interpretavam, de forma genuína ou deliberadamente errônea, que muitos grupos criam que era possível atingir um estado de libertação do pecado. A vinculação entre o culto ao Diabo e orgias sexuais já era clássica desde o surgimento da heresia no Ocidente medieval. Como os hereges eram, por natureza, hipócritas e, invariavelmente, pregavam a castidade pessoal, aos olhos dos seus inimigos eles deviam realizar orgias. 

Bibliografia consultada: RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação - as minorias na Idade Média. Tradução de Marco Antônio Esteves da Rocha e Francisco José Silva Gomes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

#Minorias Leprosos

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Mulher leprosa com um sino (sobre isso, ver o tópico 8, infra). 
Inglaterra, século XIV, British Library.

1. A lepra é uma doença infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, o qual é parente da bactéria da tuberculose. Ela se dissemina através do contato pessoal, abrasões e mordidas de insetos. Tem um período de incubação longo, chegando às vezes a anos, e existe uma resistência natural alta a ela. Esta resistência natural pode ser minada por uma dieta pobre, habitação ruim e condições de vida insalubres; daí a incidência da doença na Europa medieval e áreas de países subdesenvolvidos atualmente. Hoje, felizmente, a lepra pode ser curada. Na Idade Média, era incurável.

2. Talvez não exista na história nenhuma doença que tenha causado tanto medo e asco quanto a lepra. O próprio termo "leproso" tornou-se sinônimo de rejeitado. Na Idade Média, esta reação derivava em parte das deformidades físicas, das feridas supurativas e do odor mefítico causados pela doença. Mas derivava mais ainda da convicção de que a lepra era o sinal externo e visível de uma alma corroída pelo pecado e, em particular, pelo pecado sexual.    

3. Para que alguém fosse identificado como leproso, o procedimento normal era a denúncia formal, geralmente por vizinhos, e depois uma investigação. No começo da Idade Média, isto era realizado sob os auspícios das autoridades da Igreja. No entanto, à medida que as cidades e vilas foram crescendo e desenvolveram mecanismos de auto-regulamentação, no período central da Idade Média, o procedimento era frequentemente assumido pelos magistrados locais. No início da Idade Média, não era garantido que um médico participasse do procedimento; com o tempo, no entanto, tornou-se cada vez mais comum que os médicos averiguassem a denúncia.   

4. Como havia grande risco de confinar alguém num hospital de leprosos erroneamente, e os médicos queriam ter certeza de que seu diagnóstico estava correto, Gui de Chauliac presceveu quatro procedimentos alternativos para os investigadores - um deles incluía o confinamento em suas casas se apresentassem os sintomas iniciais. A cautela dos médicos parece ter rendido frutos - dados (arqueológicos, inclusive) sugerem que a maioria dos leprosos nos hospitais era composta genuinamente de pessoas acometidas da lepra.   

5. A lepra não respeitava distinções sociais - podia acometer tanto os de mais alta posição quanto os mais humildes. Os reis Balduíno IV e Magno II, de Jerusalém e da Noruega, respectivamente, o abade Ricardo de St. Albans e os condes Teobaldo VI de Chartres e Raul de Vermandois, morreram todos, segundo se relata, leprosos. É possível, todavia, que alguns deles sofressem de doença venérea ao invés de lepra propriamente dita. A ordem da cavalaria de são Lázaro foi fundada em 1120, na Terra Santa, para abrigar cavaleiros leprosos e para cuidar de outros leprosos.

6. O medo da doença era baseado particularmente em seu contágio. O homem medieval compreendia bem que a transmissão de uma infecção de uma pessoa para outra se dava através do manuseio de objetos tocados pela pessoa doente, por contato sexual ou pela inspiração de hálito infectado. Assim, a segregação para longe dos outros, a proibição de leprosos tirarem água dos poços (pelo medo de que suas mãos infectassem as cordas das cacimbas) e o tampar da boca para evitar a emissão do hálito infecto eram princípios bem estabelecidos.  

7. Na Baixa Idade Média, provavelmente houve um aumento do número de leprosos na sociedade proporcional ao crescimento da população. Mas, com a maior mobilidade social e o crescimento das cidades e vilas, que agiam como pólos de atração para os desenraizados, eles também se tornaram mais visíveis. O crescimento das fundações de caridade para atendê-los pode ser visto como um aspecto do desenvolvimento do individualismo religioso. O Terceiro Concílio Lateranense (1179), presidido pelo papa Alexandre III, assumiu, ao invés de introduzir, o processo de segregação. Ele autorizou a provisão de capelas especiais, capelães e cemitérios específicos para leprosos em seus locais de confinamento e os isentou do pagamento de dízimos sobre seus produtos e animais.  

8. A exigência de roupas distintivas colocou os leprosos na mesma situação dos judeus, prostitutas e hereges regenerados. Em alguns lugares eles deviam vestir-se de branco, em outros deviam usar uma peça de material vermelho em suas vestes. Na França, eles deviam usar cinza ou preto com a letra L bordada na roupa. Alguns hospitais de leprosos possuíram uniformes distintivos para seus internos. Mas ainda mais significativo e universal do que suas vestes era o sinal, o guizo, sino ou trompa através do qual se exigia que anunciassem sua aproximação. Tudo isso simbolizava o fato de o leproso ser membro de uma minoria distinta, uma pessoa à parte. 

9. Ainda mais simbólico de seu isolamento da sociedade era a cerimônia formal de confinamento, pela qual eles eram declarados mortos para o mundo. Isso se desenvolveu nos séculos XII e XIII. Era uma ocasião de reverência. O leproso era conduzido pelo padre para a igreja. Era aspergido com água benta e se confessava. Ajoelhava-se sob um pano negro apoiado numa armação, enquanto o padre rezava a missa. Em seguida, o padre espalhava três pás cheias de terra, aos seus pés ou sobre sua cabeça, declarando: "Sede morto para o mundo, mas vivo novamente diante de Deus." A seguir, o leproso era conduzido para os campos, e o padre concluía com o conjunto de proibições.  

10. A exclusão formal da sociedade privava o leproso de seus direitos civis. Ele se tornava uma não-pessoa, impossibilitado de legar ou herdar propriedade, de defender suas demandas em tribunal, etc., embora a igreja reiterasse sistematicamente que a lepra não era motivo para a dissolução do casamento. Como os leprosos não podiam ser admitidos em hospitais comuns, o custeio de hospitais de leprosos passou a ser visto como uma atitude notável de caridade. Muitos desses hospitais de leprosos eram dedicados a são Lázaro, daí os termos lázaro e lazareto para leproso e hospital de leprosos.  

11. Na Inglaterra, no período central da Idade Média, foram fundadas mais de duzentas casas de leprosos. Eles foram estabelecidas sempre fora das cidades e longe dos centros de atividade, e variavam de tamanho. Na França, no século XIII, existiam dois mil hospitais de leprosos. A população da França era quatro vezes maior do que a da Inglaterra, mas é impossível dizer se a discrepância entre os números de casas de leprosários da França e da Inglaterra representa uma diferença no tamanho da população dos leprosos, ou meramente que eles eram tratados mais caridosamente na França. 

12. Embora presidisse a sua exclusão da sociedade, a Igreja ensinava que os leprosos deveriam ser tratados com compaixão. Divulgava a ideia de que os leprosos eram, em certo sentido, particularmente favorecidos por Deus, porque permitia que sofressem nesta vida, como Cristo havia sofrido. Histórias de santos cuidando, lavando e beijando leprosos fazia parte do folclore hagiográfico da Idade Média. Tal compaixão do santo pelo leproso foi um tema recorrente na arte medieval. No entanto, a Igreja nunca pôde superar o asco instintivo pelos leprosos que a maioria das pessoas trazia em si. 

13. Como a Igreja, as autoridades seculares tomavam medidas para assegurar a reclusão dos leprosos em relação ao meio social. A Coroa, em particular, interveio num momento em que a monarquia estava se tornando cada vez mais consciente do seu papel de guardiã da ordem pública, da saúde pública e da decência pública. Em 1346, o rei Eduardo III emitiu uma ordem proibindo a entrada de leprosos em Londres, a qual acentuava não apenas o perigo do contágio em geral, mas especificamente de contágio sexual. Em 1375, os guardas dos portões de Londres eram instruídos a proibir a entrada na cidade de leprosos e prendê-los se tentassem entrar.

14. Apesar dos esforços, a recorrência das instruções sugere que os regulamentos quanto à presença dos leprosos eram amplamente ignorados. Nem todos os leprosos estavam confinados em leprosários, e muitos vagueavam mendigando para sua subsistência. A mesma situação parece ter ocorrido em Paris. Isso preocupava as autoridades eclesiásticas, municipais e reais, que temiam o contágio tanto por sua conotação médica quanto moral. A tradição bíblica já associava a lepra ao pecado.  

A segregação e exclusão dos leprosos pelas autoridades precisa, portanto, ser vista também em termos de uma vontade de isolar da sociedade em geral um símbolo vivo da lascívia e da promiscuidade e de evitar que ele infecte esta sociedade com sua sexualidade excessiva. 

15. A partir da primavera de 1321, disseminou-se pela França o boato de que leprosos estavam envenenando poços. Leprosos de Périgueux e de outros locais foram torturados e queimados na fogueira e até mesmo em suas casas. Em Estang, Pamiers, o líder da colônia de leprosos, após ser preso e torturado, confessou uma conspiração dos leprosos para envenenar todos os poços da Cristandade e matar as pessoas saudáveis ou transformá-las em leprosos. Os judeus estariam envolvidos. O rei muçulmano de Granada e o sultão da Babilônia haviam prometido riquezas e honras como recompensa aos leprosos, caso tivessem êxito. Leprosos que confessaram a culpa foram queimados vivos; aqueles que não confessassem espontaneamente deveriam ser torturados. Em 1322, o rei Carlos V ordenou que todos os leprosos sobreviventes fossem aprisionados permanentemente. Nesse mesmo ano, os judeus foram expulsos da França. 
  
De qualquer modo, qualquer que tenha sido a escala da doença nos séculos XII e XIII, parece que sua incidência já estava em declínio no século XIV. No século XVII, a doença já estava mais ou menos extinta na Europa ocidental.

Bibliografia consultada: RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação - as minorias na Idade Média. Tradução de Marco Antônio Esteves da Rocha e Francisco José Silva Gomes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

#Minorias Homossexuais

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Homossexuais destinados ao Inferno. Inferno, de Dante, Canto XV. Aqui Dante reconhece seu antigo professor Brunetto e Latini e outros florentinos condenados por crime de sodomia.

1. O estudo mais erudito sobre o papel da homossexualidade no mundo cristão é o trabalho de John Boswell, Christianity, Social Tolerance and Homossexuality (1980). Uma vez que, segundo os ensinamentos cristãos, o sexo foi dado ao homem unicamente para os propósitos da reprodução e por nenhuma outra razão, qualquer atividade sexual que não levasse ou não pudesse levar à procriação era um pecado contra a natureza.

2. O Antigo Testamento (Levítico 18:22; 20:13) declarou a homossexualidade uma abominação passível de pena de morte. Jesus nada disse especificamente sobre a homossexualidade, mas é razoável concluir que a reprovasse, ainda que tratasse o pecador com amor, como agiu em relação à mulher adúltera. O apóstolo Paulo (Romanos 1: 26-27; 1 Coríntios 6:9; 1 Timóteo 1:10) condenou claramente a homossexualidade. Ele só concebia atos homossexuais cometidos por pessoas heterossexuais. Os primeiros padres da Igreja - Clemente, Jerônimo, Orígenes e Agostinho - estabeleceram um código abrangente de ética sexual.  

3. Mais tarde, na Idade Média, a era da reforma eclesiástica e a onda de espiritualidade ascética, juntamente com a revitalização das cidades e da vida urbana, intensificaram a sensibilidade geral em relação à homossexualidade e criaram a percepção de um "problema homossexual". Três grupos eram regularmente mencionados como envolvidos em atividades homossexuais - a nobreza, particularmente a nobreza jovem (a homossexualidade, por exemplo, teria florescido nas cortes de Roberto, duque da Normandia, e do rei Guilherme II da Inglaterra); o clero, tanto o regular quanto o secular, e, finalmente, estudantes (os da Universidade de Paris, em especial, eram notórios por seu envolvimento nela).     

4. Se existiam pessoas inconscientes do pecado da homossexualidade no século XI, elas passariam a ter poucas dúvidas sobre o assunto no século XIII. Nessa altura, foi publicada uma rica literatura oferecendo textos em prosa e verso dos fundadores da Igreja, dos concílios da Igreja, dos Antigo e Novo Testamentos, o conjunto enfatizando o caráter hediondo desta prática.

5. Santo Alberto Magno (1206-1280) considerava a sodomia o pior pecado contra a natureza, e a definia como a prática do sexo entre homens ou entre mulheres. Para ele, o pecado se distinguia por sua "imundície repugnante", e era, apesar disso, mais recorrente entre pessoas de alto nível do que de baixo nível. Aqueles que se viciavam nessa perversão raramente conseguiam dela escapar; tal pecado era contagioso como uma doença.

6. O tratamento mais sistemático da homossexualidade encontra-se na Summa Theologiae, de São Tomás de Aquino (c. 1266). Ele a via como uma forma inatural de devassidão. Por ordem crescente de gravidade, os pecados contra a natureza eram: masturbação, relação inatural com o sexo oposto, relação homossexual e bestialidade. Estas concepções eram amplamente disseminadas, e Dante reservou aos homossexuais e aos violentos o Sétimo Círculo do Inferno.  

7. O Concílio de Nablus (1120), celebrado no reino cruzado de Jerusalém, estabeleceu que um adulto do sexo masculino que persistisse no pecado da sodomia seria queimado pelas autoridades civis. Desde da queda do Império Romano, foi a primeira vez que a pena capital foi evocada para os homossexuais, que foram equiparados a hereges, assassinos e traidores. O rigor se explicava pelo temor de uma onda de homossexualidade, devido à escassez de mulheres cristãs, pelo contato com os muçulmanos (que, segundo a propaganda cristã, eram viciados em pederastia) e o elevado número de normandos na Terra Santa - diziam que eles estavam manchados por esse pecado.

8. Concílios posteriores também lidaram de forma rígida com a homossexualidade, ainda que não tenham seguido a rígida orientação do Concílio de Nablus. O papa Gregório IX, no século XIII, enviou inquisidores dominicanos para erradicar a sodomia na Alemanha. No final do século XII, a sodomia transformou-se em crime reservado, e só os bispos ou os seus representantes podiam lidar. Nessa época, dominicanos, cartusianos e cistercienses exigiram a construção de prisões para encarcerar os sodomitas juntamente com os ladrões, falsificadores, assassinos e incendiários. 

9. No século XIII, a redescoberta do direito romano, que determinava um papel moral aos legistas da monarquia e impunha sentenças capitais, teve um significativo impacto sobre os legisladores. O direito romano era visto pelos monarcas centralizadores como um caminho ideal para impor a uniformidade nacional e enfatizar o papel do monarca como fonte da justiça. O código de Justiniano havia prescrito a execução pública na fogueira para os homossexuais, e isto configurou como o modelo para os códigos de leis introduzidos pelas monarquias nacionais.   

10. Um episódio que contribuiu grandemente para a satanização dos homossexuais foi o processo contra os templários. Após a perda da Terra Santa, em 1291, essa ordem monástica de cavalaria retirou-se para a França. Lá eles estabeleceram seu quartel-general em Paris, numa fortaleza denominada O Templo. Ricos, poderosos, arrogantes e crescentemente impopulares, eles atraíram a atenção do rei Filipe IV da França. Presos, os templários foram acusados dos piores crimes - rejeitar o Cristo e cuspir na cruz, fazer oferendas a ídolos, adorar gatos (uma imagem usual do Diabo), praticar ritos obscenos de iniciação e atos homossexuais. Trinta e seis templários morreram sob tortura e pelo menos setenta e dois outros foram queimados. Apenas três admitiram a participação em atos homossexuais. Tribunais designados para investigar a culpa dos templários fora da França os consideraram inocentes, ou arquivaram o caso por falta de provas.  

11. As cidades, sob a crescente influência puritana e moralista das ordens mendicantes, mobilizaram-se para reprimir a homossexualidade. As campanhas dos mendicantes envolvia a denúncia do jogo, da bebida, da prostituição e da sodomia. Ao longo dos séculos XIII e XIV, uma cidade após a outra decretou a morte na fogueira e, em alguns casos, a decapitação e confisco das propriedades dos sodomitas habituais - por exemplo, Ancona, Belluno, Cremona, Faenza, Florença, Modena, Parma, Siena, Todi, Urbino. Frequentemente, aplicavam-se penas mais leves para menores e infratores esporádicos, de modo a levá-los ao arrependimento antes que fosse muito tarde.

12. Em Veneza e em Florença, os homossexuais se tornaram bodes expiatórios para a peste e para o declínio populacional, e eram claramente vistos como um ultraje para o código da respeitabilidade burguesa, recém-estabelecido e influenciado pelas ordens mendicantes. Até que ponto os homossexuais foram processados em outras regiões ainda não está inteiramente claro. Entre 1420 e 1518, apenas um entre 21 mil réus diante dos Tribunais da Igreja de Londres foi acusado de sodomia.  

13. A partir do século XII, a propaganda antimuçulmana ressaltava o predomínio da homossexualidade entre eles e destacava histórias de atrocidades homossexuais contra cristãos, crianças e clérigos. A sodomia também era associada à heresia e, em alguns casos, a propaganda funcionou. Uma vez que o Islã era a principal ameaça externa, e a heresia, a principal ameaça interna, e dado que ambas eram associadas à sodomia, a homofobia recebeu um poderoso impulso.

14. O puritanismo da revitalização evangélica dos séculos XI e XII inspirou tentativas sistemáticas de definir e lidar com pecados, gerando uma preocupação crescente de policiar a vida moral tanto do clero quanto do laicado. À medida que uma subcultura homossexual tornou-se mais visível nas cidades em expansão, a Igreja, a Coroa e as autoridades municipais, fortemente influenciadas pelo direito romano e pela espiritualidade pregada pelas ordens mendicantes, mobilizaram-se para reprimi-la.  

15. O cristianismo é fundamentalmente hostil à homossexualidade. No período inicial da Idade Média, a punição era a penitência; no período posterior, a fogueira. Assim, a mudança não foi um deslocamento da tolerância para a intolerância por razões não-intrínsecas às crenças cristãs, mas uma alteração nos meios de lidar com a questão.  

Bibliografia consultada: RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação - as minorias na Idade Média. Tradução de Marco Antônio Esteves da Rocha e Francisco José Silva Gomes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

Fotos de Fatos

domingo, 26 de agosto de 2018

Este blog apoia toda iniciativa que busca popularizar o conhecimento histórico e cultural. Assim, tenho a honra de lhes apresentar o projeto Fotos de Fatos (@FotosDeFatos), que diariamente publica no Twitter documentos históricos da maior importância. As publicações normalmente são relativos à história contemporânea, mas há também tweets de outros períodos históricos. 

Como toda pesquisa séria, o projeto Fotos de Fatos demanda tempo e recursos. Assim, quem quiser apoiar financeiramente a iniciativa, os dados são os seguintes: 

Banco do Brasil 
Agência 1819-8 
Conta Corrente: 48613-2 
Titular: Jhony R. Albanese

Joaquim Nabuco (1849-1910)

domingo, 19 de agosto de 2018

Joaquim Nabuco em 1902.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo 
Recife, 1849 - Washington, 1910. 

Nascido no Recife no dia 19 de agosto (razão pela qual se lembra, hoje, o Dia do Historiador) de 1849, era filho do jurista e político José Tomás Nabuco de Araújo Filho e de Ana Benigna de Sá Barreto de Araújo. Até os oito anos, Joaquim Nabuco conviveu com os escravos no Engenho Massangana, propriedade dos seus padrinhos. Lá ele testemunhou os sofrimentos dos negros, o que foi crucial para a sua formação moral, incorporando um sentimento de repugnância que norteou sua futura luta política. 

Em 1857, Nabuco foi para a Corte, onde juntou-se aos pais e irmãos. Após passar pelo colégio do barão de Tautphocus, em Nova Friburgo, ingressou no Colégio Pedro II, onde se bacharelou em Letras, em 1865. No ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, onde conviveu com Ruy Barbosa e Castro Alves. Lá ele participou da fundação dos jornais A Independência e A Tribuna Liberal. Após três anos nessa faculdade, seguiu para o Recife, onde concluiu o curso na Faculdade de Direito local (28 de janeiro de 1870). 

Em viagem à Europa, em 1873, conheceu Eufrásia Teixeira Leite, jovem bonita e rica, com a qual viveu um intrincado caso de amor. Engajando-se no serviço diplomático, atuou em Washington (1876) e Londres (1878). Com a morte do pai, em 1878, retornou ao Brasil, elegendo-se deputado geral por Pernambuco. Protagonista de debates legislativos, demonstrou grande preparo intelectual e admiráveis dotes de oratória. 

Em setembro de 1880, tornou-se presidente da recém-inaugurada Sociedade Brasileira contra a Escravidão, lançando em seguida o jornal O Abolicionista. Sendo o primeiro representante do abolicionismo no Parlamento, desempenhou seu papel com extrema competência, granjeando o respeito tanto de seus pares quanto de seus adversários. Quando não estava na tribuna, escrevia artigos para a imprensa e fazia palestras. Seu empenho e prestígio, no entanto, não foram suficientes para lhe garantir a reeleição. Seguiu então para Londres, onde foi recebido com homenagens pela Anti-Slavery Society e onde escreveu O abolicionismo

Em 1884, de volta ao Brasil, dedicou-se novamente à política. No ano seguinte, foi eleito deputado por Pernambuco; em 1886, perdeu a eleição e, em 1887, foi reeleito. Participou da campanha que culminou com a emancipação dos escravos, sendo muito festejado pelo povo por ocasião das comemorações do 13 de maio de 1888. 

Em 28 de abril de 1889, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro, com quem teve cinco filhos. Monarquista, retirou-se da vida pública com o golpe da República, em novembro de 1889. Foi morar em Londres em 1892, tendo se dedicado ao jornalismo, à sua obra e aos estudos. Escreveu Um estadista do Império, biografia de seu pai, e, posteriormente, suas memórias - Minha formação. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 

Atendendo aos apelos do presidente Campos Salles, foi enviado como representante do governo brasileiro em Londres (1900), onde passou a exercer a função de embaixador do Brasil (1901). Em 1905, foi nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Um ano depois, presidiu a III Conferência Pan-Americana, realizada no Rio de Janeiro. Nabuco faleceu em Washington, em 1910, e foi enterrado em sua terra natal, com todas as honras pelos serviços prestados ao país.    

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Fonte: ERMAKOFF, George (org.). Dicionário Biográfico Ilustrado de Personalidades da História do Brasil. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2012, p. 902-903.

A Corrida Espacial

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Durante a Guerra Fria, as duas superpotências - Estados Unidos e União Soviética - esforçavam-se para mostrar a força de suas ideologias e sistemas socioeconômicos, além de seu alto grau de desenvolvimento tecnológico. Essa rivalidade, expressa de forma destacada na corrida espacial, foi particularmente intensa entre 1957 e 1975. O objetivo era assumir a frente na exploração do espaço, algo visto como símbolo de uma superioridade tecnológica e um elemento importante para a segurança nacional. Do lado soviético, o impulsionador dessa corrida foi Nikita Khruschov, ditador do país entre 1953 e 1964; do lado americano, Dwight D. Eisenhower e John F. Kennedy, presidentes nos períodos de 1953-1961 e 1961-1963, respectivamente, merecem destaque.  

Um testemunho dessa disputa pode ser visto acima. Trata-se da capa da revista estadunidense Time, publicada no dia 19 de janeiro de 1959. A imagem faz alusão à época dos lançamentos dos satélites soviéticos e estadunidenses ao espaço: a Lua "assusta-se" com a presença dessa tecnologia e um dos satélites, provavelmente o Sputnik 1, lançado pelos soviéticos em 4 de outubro de 1957, está preocupado em "filmar" a Lua; esse tipo de registro era importantíssimo para comprovar a superioridade tecnológica e servia como peça de propaganda do Estado. 

O lançamento do Sputnik assombrou os norte-americanos. O satélite, em si, era inofensivo. Contudo, temia-se que o foguete que o lançou ao espaço poderia transportar uma ogiva nuclear para atacar os Estados Unidos. Menos de um mês depois, no dia 3 de novembro, a nave espacial Sputnik 2 levou ao espaço o primeiro ser vivo - a cadela Laika, que morreu horas após o início da viagem. A fim de não ficarem para trás, os Estados Unidos lançaram ao espaço seu primeiro satélite, o Explorer I, em 31 de janeiro de 1958. Em julho de 1958, foi dado um importante passo na coordenação dos esforços espaciais estadunidenses: foi criada a agência espacial dos Estados Unidos, a NASA. Com tamanho empenho na corrida espacial pelos envolvidos na Guerra Fria, nos anos seguintes a quantidade de satélites artificiais terrestres e de sondas espaciais lançados pelos Estados Unidos e pela União Soviética se multiplicou.  

Os soviéticos voltariam a brilhar na corrida espacial em 12 de abril de 1961. Nesse dia, lançaram o primeiro homem ao espaço: o cosmonauta Yuri Gagarin (1934-1968). Em maio desse ano, o primeiro astronauta americano seria lançado ao espaço, Alain Shepard (1923-1998), fazendo um voo sub-orbital. Apesar do atraso inicial, os americanos passaram à frente dos soviéticos e pousaram a Missão Apollo 11 na superfície lunar em 20 de julho de 1969. Neil Armstrong (1930-2012) tornou-se o primeiro homem a pisar na Lua, e nem os soviéticos e nem qualquer outro povo conseguiu igualar o feito.  

#15Fatos D. Pedro II, o Magnânimo

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Pedro II em 1865, aos 39 anos de idade.

1. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga nasceu no dia 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro. Sendo o filho mais novo de D. Pedro I e da imperatriz Leopoldina de Áustria, que já possuíam quatro filhas, tornou-se o príncipe herdeiro de todas as esperanças nacionais. O príncipe era o oitavo duque de Bragança, e ainda trazia no sangue a herança dos Bourbons e Habsburgos da Áustria. 

2. Os pais do futuro D. Pedro II não viviam bem, e dez dias após o primeiro aniversário do príncipe, sua mãe morreu. Logo circularam boatos de que D. Pedro I teria espancado a imperatriz, que era traída e vivia amargurada. Lenda ou não, o fato é que Dona Maria Leopoldina sucumbiu a um parto prematuro, o que contribuiu ainda mais para a construção popular da imagem do "mártir da nação". No dia 7 de abril de 1831, D. Pedro I, após profunda crise política e econômica, abdicou do trono em favor do seu filho. Partiu, então, para Portugal, deixando para trás o príncipe d. Pedro, com pouco mais de cinco anos, e as princesas imperiais d. Januária e d. Francisca.   

3. Os príncipes foram confiados pelo imperador a José Bonifácio de Andrada e Silva, seu antigo inimigo político dos últimos anos. Contudo, Andrada acabou substituído pelo marquês de Itanhaém, e entraram em cena então os três personagens mais influentes da juventude de d. Pedro II: D. Mariana de Verna, a camareira-mor; Paulo Barbosa, o mordomo-mor; e Aureliano Coutinho, que exercia uma espécie de professorado político. D. Pedro II foi por eles educado para ser de todo diferente do pai, no caráter, na educação e sobretudo na personalidade.   

4. O tedioso cotidiano do jovem herdeiro e as regras estritas, seguidas com a precisão de um relógio, mantinham d. Pedro afastado de seus súditos. O novo imperador era um mito antes de ser realidade: seria justo mesmo se não o fosse, culto mesmo sem inteligência criativa, de moral elevada mesmo tendo amantes. D. Pedro II foi meticulosamente construído como rei, e os limites entre o visível e o invisível esfumavam-se no ar. Longe da tranquilidade e do controle que pareciam reinar no Paço, rebeliões eclodiam em diferentes províncias. Por essa razão, a antecipação da maioridade assumiu ares de salvação nacional. Assim, ainda que faltassem três anos e meio para d. Pedro II completar 18 anos e assumir o governo, ele foi entronizado.   

5. Uma vez no trono, procurar uma noiva para o jovem imperador passou a ser uma preocupação. A escolhida foi Dona Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, com a qual D. Pedro II se casou por procuração em 30 de maio de 1843. No dia 3 de setembro, a fragata Constituição, que a trouxe ao Brasil, atracou próximo ao forte de Villegagnon. Dizem que a reação do imperador, assim que viu sua esposa, não foi das melhores. E todo caso, ele cumpriu sua missão de Estado: em 1845, nasceu d. Afonso, o primeiro filho do casal que morreu de febre amarela com um ano; em 1846, nasceu Isabel e, no ano seguinte, Leopoldina. 

Enquanto isso, nessa época, a Europa vivia uma onda de revoluções, o Brasil era um oásis em meio à também conturbada situação latino-americana. A entrada do café brasileiro no mercado internacional estabilizou a economia e a criação do cargo de "presidente do conselho de ministros", em 1847, garantiu maior poder de intervenção do imperador no governo.  

6. Em 1850, o gabinete conservador aprovou a lei antitráfico negreiro. Consequentemente, uma massa de recursos apareceu do dia para a noite. A década conheceu um surto industrial e a figura central do período foi o banqueiro e empresário barão de Mauá. No Rio de Janeiro, a rua do Ouvidor transformou-se no símbolo de uma nova forma de vida em que se pretendia, nos trópicos, imitar os boulevares europeus. Na capital também se criou uma febre de bailes, concertos, reuniões e festas. Na política, entre 1853 e 1857 o gabinete da "conciliação" misturou representantes dos luzias (liberais) e dos saquaremas (conservadores). Fora esse período, eles se revezaram no poder.  

7. Com a construção de um novo palácio no alto da Serra dos Órgãos, as idas de D. Pedro II à fazenda Santa Cruz foram rareando. Logo, não apenas o palácio, mas toda uma cidade à sua imagem e semelhança seria construída: Petrópolis, a "cidade de Pedro". O projeto esteve sob a superintendência do major engenheiro Frederico Koeler, e para povoar a região deserta foi criada uma colônia de imigrantes alemães. A cidade tornou-se uma espécie de vila europeia, e lá todos viviam como se estivessem "na civilização". Assim, Petrópolis tornou-se o local predileto do monarca - ele passou, no total, quarenta verões na cidade, durantes as férias da Câmara e do Senado. 

8. No apogeu do império, nem tudo eram festas. Em 1864 estourou a Questão Uruguaia - uma guerra civil entre os partidos Colorado, de Venâncio Flores, liberal, e Blanco, do presidente Aguirre, ruralista. Tanto o presidente argentino, Bartolomé Mitre, e o imperador D. Pedro II apoiaram os Colorados. As forças de Flores e do Brasil cercaram Montevidéu, e em fevereiro de 1865 o senador Villalba assinou a paz com os invasores. Flores assumiu a presidência. 

No entanto, a guerra recomeçaria. O ditador paraguaio Solano López, em protesto contra a invasão do Brasil no Uruguai, aprisionou o vapor Marquês de Olinda, em Assunção (10 de novembro de 1864) e, no mês seguinte, declarou guerra ao Brasil e invadiu o Mato Grosso. Dessa forma, mais uma imagem acabou se adicionando à figura do monarca: a de "rei guerreiro", que participaria de modo ativo nos conflitos do Prata, especialmente na Guerra do Paraguai (1864-1870). 

9. Terminada a guerra, reapareceram pressões pelo fim da escravidão, e as fugas e quilombos se multiplicaram. D. Pedro II era favorável à abolição total, mas temiam-se perturbações sociais. O caminho encontrado foi uma reforma gradual e controlada. Os proprietários de escravos começaram então a se voltar contra o monarca, mas o momento era favorável ao império. Cada vez mais afastado das festas oficiais, dos bailes da elite carioca e mesmo das festas populares, D. Pedro II começava a se portar e a se vestir como um "monarca cidadão", inspirado no seu contraparente Luís Filipe I (1773-1850), o "rei-cidadão" da França entre 1830 e 1848.  

10. Apresentando-se como um "monarca moderno", na década de 1870 Pedro II renunciou ao título de soberano (porque a soberania era do povo). Em 1871, deixou de lado o costume português do beija-mão; manteve a liberdade de imprensa e rejeitou títulos e estátuas. D. Pedro II tinha junto ao trono uma biblioteca, um museu, além de um laboratório e seu famoso observatório astronômico, isso sem falar do Colégio Pedro II, a grande predileção do monarca. Na verdade, o imperador dissimulava o poder que efetivamente dispunha. Ele utilizou com muita frequência o Poder Moderador, destituindo ministérios ou dissolvendo o Parlamento. 

11. Até a década de 1870, Pedro II não havia saído do país, embora conhecesse parte significativa do seu império. Após decretar o luto pela morte da princesa Leopoldina de Saxe-Coburgo, vítima de febre tifoide aos 23 anos, o monarca partiu em 25 de maio de 1871 rumo à Europa e ao Oriente Médio. Isabel se tornou regente provisória pela primeira vez aos 24 anos. 

De Portugal, o imperador prosseguiu pela Espanha, França, Grã-Bretanha, Bélgica, Alemanha (onde evitou Bismarck, mas não perdeu a chance de conhecer Richard Wagner, um de seus compositores prediletos) e Itália. De lá seguiu para o Egito, onde ganhou um sarcófago; prosseguiu para a Palestina, para a Ásia Menor e, finalmente, retornou à França. Em março de 1872, retornava ao Brasil, acompanhado do duque de Saxe, viúvo de d. Leopoldina e de seus dois filhos, Pedro Augusto e Augusto Leopoldo.     

12. Após a volta da viagem, o monarca revelava sinais de cansaço e tédio por sua missão como governante. Assim, em 1876, planejou uma segunda viagem ao exterior. Depois de escalas em Salvador, Recife e Belém, seu vapor chegou a Nova York, onde uma comissão o recebeu em grande estilo. Era a primeira vez que um monarca pisava o território norte-americano e se tratava sobre tudo do the only American Monarch. Além de inaugurar, junto com o presidente Grant, a Exposição da Filadélfia, Pedro II conheceu Alexander Graham Bell. 

Dos Estados Unidos, a comitiva seguiu para a Europa onde, desta vez, incluiu uma passagem pelos países bálticos. A imperatriz ficou em Gastein, na Áustria, para se tratar. Após passar pela Turquia e Grécia, a viagem seguiu para a Palestina, e Pedro II passou seu aniversário em Belém. Datam dessa época os rumores sobre as relações entre o imperador e a condessa de Barral, tutora das filhas do monarca e sua companheira de viagem. 

13. A partir de sua segunda viagem, o imperador mais parecia um estrangeiro em terras próprias, assistindo de camarote aos movimentos políticos. Data dessa época o aparecimento das primeiras caricaturas, que descreviam um "Pedro Banana", um "Pedro Caju", e assim o imperador era um dos alvos mais constantes de ataques e desenhos satíricos. O período era adverso e as contradições se sobressaíam - a agricultura de exportações gerava 70% das rendas, via impostos, o que resultava num claro compromisso da Coroa com os agricultores. Em 1885, um novo surto de cólera dizimou a população da corte. Quanto ao imperador, um sexagenário que mais parecia um velho consumido, adoeceu em 1887 (e também em 1888), pelo que decidiu retornar à Europa. Mais uma vez, a princesa Isabel assumiu o trono como regente, gerando apreensão, uma vez que o conde D'Eu, seu esposo, se tornara bastante impopular. Enquanto isso, o movimento abolicionista ganhava as ruas.  

14. Para Isabel e seus conselheiros, a única saída era se antecipar ao inevitável. Assim, no dia 13 de maio de 1888, ela assinou a Lei Áurea, extinguindo a escravidão no Brasil. Com os augúrios do ato que selou a história da escravidão, d. Pedro voltou ao Brasil. Voltava enfermo, assim como a realeza como instituição. Desde 1874, devido à prisão dos bispos d. Vital e d. Macedo Costas, um abismo separava a Igreja do Estado. 

Apesar disso, o ano de 1889 pareceu começar bem. No dia 9 de novembro, o governo imperial ofereceu à Marinha do Chile o famoso Baile da Ilha Fiscal. Enquanto isso, militares se reuniam em seu clube para combinar os últimos detalhes do golpe para derrubar a monarquia. Jovens oficiais positivistas, liderados por Benjamin Constant, atraíram para o complô o marechal Deodoro da Fonseca, que havia sido demitido do cargo de comandante de armas do Rio Grande do Sul. Com a deposição do imperador, ele e a família imperial foram enviados para o exílio na madrugada de 17 de novembro de 1889.   

15. Além da expulsão, o decreto de 23 de dezembro de 1889 proibia que a família imperial tivesse imóveis no país. Apesar do tratamento rude do novo regime, para a população negra, porém, a monarquia continuou a representar, mesmo que metaforicamente, a libertação. Para a ex-família imperial, o exílio começou de maneira penosa, seja porque o príncipe Pedro Augusto dava sinais de pertubação mental, sendo internado depois em um sanatório em Viena, seja pelo falecimento de Teresa Cristina, em 28 de dezembro de 1889, aos 67 anos, seja pelas dificuldades financeiras - Pedro de Alcântara recusou a ajuda financeira do governo brasileiro, e vivia com a ajuda de amigos mais abastados. Enfraquecido, d. Pedro morreu à meia-noite do dia 5 de dezembro de 1891. Em seu caixão, a seu próprio pedido, foi colocado um pacote lacrado que continha terra trazida do Brasil.

Bibliografia consultada: SCHWARCZ, Lilia Moritz & SPACCA. As Barbas do Imperador - D. Pedro II, a História de um Monarca em Quadrinhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

Mulheres Romanas Correntes

domingo, 12 de agosto de 2018

Mulheres romanas. Afresco de Pompeia, Casa do Cirurgião (VI, 1, 10, ambiente 19). Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália.

Há numerosas provas do papel ativo das mulheres correntes em suas próprias vidas, nas vidas de suas famílias e na vida fora do âmbito familiar, incluindo contratos comerciais, propriedade e administração de terras e atividades sociais e religiosas públicas. Em sua cultura não eram meras produtoras de bebês ou simples adornos. Suas atividades estavam claramente entretecidas em cada centímetro do tecido cultural. Exatamente como caberia esperar. 

A elite podia fazer, e de fato fazia, todo o possível para que as mulheres fossem acessórios no lugar de companheiras. Por outro lado, no mundo da gente corrente, os homens não podiam se permitir o luxo de que as mulheres estivessem guardadas em uma urna. Todas as mãos eram poucas para que o lar funcionasse adequadamente (se as circunstâncias fossem propícias) e para ganhar o suficiente para melhorar de vida (no caso de estreiteza). A franqueza das mulheres, a influência que exerciam de diferentes formas nas vidas de seus maridos, suas contribuições econômicas e o papel que desempenhavam na socialização da geração seguinte, ainda que tivessem que existir no seio de uma cultura de dominação masculina, lhes proporcionavam uma grande margem de ação e influência. Falar de "liberação", no entanto, resultaria excessivo, já que, desde qualquer perspectiva moderna, a cultura greco-romana não poderia ser considerada liberal. 

Sem dúvida, como ocorre em outras sociedades pré-industriais, as mulheres correntes tinham muito peso, exerciam grande influência e eram importantes companheiras de seus maridos e outros varões quando era preciso tomar decisões vitais.      

Bibliografia consultada: KNAPP, Robert C. Los Olvidados de Roma - Prostitutas, forajidos, esclavos, gladiadores y gente corriente. Traducción de Jorge Paredes. Barcelona: Editorial Planeta, 2011, p. 113-114.

O Romano "Comum"

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Músicos andarilhos de Pompeia.

A elite do Império Romano produziu praticamente a totalidade da literatura e do extraordinário material cultural que se conhece habitualmente como "romano". Consequentemente, o termo "romano" implica aplicar a visão do mundo e a cultura da elite para descrever o mundo romano em sua totalidade (o mesmo acontece quando escrevemos sobre a "civilização romana"). Neste post, pretendo abordar um esboço da gente corrente, aqui entendida como qualquer pessoa livre abaixo da elite e acima dos pobres jornaleiros ou camponeses. Ainda que em alguns aspectos fundamentais sua mentalidade era a mesma que a da elite - ao fim e ao cabo ambas formavam parte de uma cultura global - , em geral suas perspectivas e as atitudes se diferenciavam de forma significativa. 

Abaixo da camada dos extremamente ricos da sociedade romana existia um respeitável número de pessoas que dispunham de muito menos recursos em comparação com os mais abastados, mas, no pior dos casos, podiam assegurar o pão de cada dia e, no melhor dos casos, podiam gozar de um estilo de vida que lhes deixava tempo livre suficiente para cultivar certos interesses sociais, políticos e culturais. Esses eram modestos proprietários de terras, mercadores, artesãos, soldados bem-sucedidos, professores profissionais, médicos, arquitetos e outros. Esses homens e suas famílias representavam uns 25% da população romana. Toda essa gente apreciava o trabalho. 

Vivendo em um mundo absolutamente estratificado, a classe média estava estava impregnada de uma das atitudes básicas dessa forma de vida: tratar aos iguais como iguais, aproveitar-se dos membros das classes inferiores quando era possível e respeitar sempre a quem estava acima na pirâmide social. Nesse mundo tão segmentado, nascer livre era a condição preferida. 

Em geral, a superstição dominava a vida dessa gente. Os arqueólogos encontravam inumeráveis amuletos; acreditava-se que pulseiras, colares e anéis atuavam como talismãs eficazes frente ao desconhecido. As pessoas normais encontravam a muitas outras dispostas a dissipar as suas inquietações. Os sacerdotes nos templos, os abastecedores de amuletos e poções nas ruas e em pequenos quiosques, os magos profissionais preparados para elaborar feitiços ante qualquer necessidade, os intérpretes de sonhos ansiosos para que se lhe dessem a oportunidade de revelar o significado das imagens oníricas. 

Esses adivinhos estavam disponíveis porque existia uma profunda necessidade de encontrar sentido ao mundo e, de alguma forma, reconciliar o mundo pessoal com os ataques que recebia do mundo exterior. Todos estavam de acordo que o futuro estava escrito e, portanto, podia ser conhecido. Uma vez que se entendia que os agentes divinos estavam ao dispor, todos concordavam que se podia ter acesso aos seus poderes mediante preces, sacrifícios, feitiços e magia. 

A análise de sonhos revela que, em primeiro lugar, a morte era a preocupação mais habitual. A enfermidade também estava presente de forma constante entre as preocupações dos homens. Em relação à vida financeira, o homem corrente, por definição, possuía o suficiente para sobreviver, mas se preocupava se disporia de mais recursos, melhorando assim a sua vida. Em primeiro lugar, preocupava-se com o êxito financeiro. Entre os romanos "comuns", existiam muitos homens sem trabalho ou com empregos instáveis ou eventuais, e essa perspectiva atemorizava. 

Outra preocupação dizia respeito ao matrimônio, aos filhos e aos parentes. O amor romântico, todavia, era pouco lembrado. O "amor" até poderia ser uma parte da vida de um homem, mas não constituía uma preocupação primordial. Assim, muito mais preocupante era a estabilidade da união matrimonial. A essência de um bom matrimônio eram os filhos; não tê-los ou tê-los em pequeno número era uma das maiores desgraças da vida. Aparentemente, os romanos correntes preocupavam-se bastante com a libertinagem tanto do homem quanto da mulher - assim como hoje, é claro que existiam esposas licenciosas. De modo geral, parece que esse grupo da sociedade romana estavam mais comprometidos com o matrimônio e tinham uma tendência maior a se mostrar crítico em relação a práticas homossexuais. 

Em relação ao sistema legal, sobram provas de que o homem corrente não o utilizava e inclusive o evitava, e de maneira bastante sistemática. Num mundo em que os contatos pessoais e a riqueza davam acesso a tudo o que valia a pena ter, uma pessoa se encontrava em grande desvantagem se estava situada nos postos mais baixos da escala socioeconômica. Assim, recorrer ao sistema legal era sempre arriscado e a gente comum o evitava.      

Bibliografia consultada: KNAPP, Robert C. Los Olvidados de Roma - Prostitutas, forajidos, esclavos, gladiadores y gente corriente. Traducción de Jorge Paredes. Barcelona: Editorial Planeta, 2011, p. 11-66.

A Rendição do Japão

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O ministro dos Negócios Estrangeiros japonês, Mamoru Shigemitsu assina o termo de rendição do Japão, no dia 2 de setembro de 1945. À sua frente, de branco, está o general estadunidense Richard K. Sutherland.

Os soviéticos romperam o Pacto de Neutralidade Nipo-Soviético em 5 de abril de 1945. Na sequência, no mês de junho, romperam relações diplomáticas com o Japão. Os japoneses então resistiam desesperadamente ao avanço norte-americano, com destaque para os pilotos suicidas (kamikaze) que se lançavam como mísseis contra os navios de guerra estadunidenses. No dia 11 de julho, em Potsdam, Alemanha, os líderes aliados exigiram a rendição incondicional de todas as forças do Japão.  

Graças ao Projeto Manhattan, os Estados Unidos tornaram-se a primeira nação a ter a bomba atômica. Com a justificativa de acelerar o fim do conflito e poupar vidas de ambos os lados, no dia 6 de agosto de 1945 o bombardeiro B-29, batizado como Enola Gay, despejou a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima. No dia 7, os soviéticos iniciaram a invasão da Manchúria, e acabariam por derrotar rapidamente o Exército Imperial Japonês que ocupava essa região da China, bem como a Península da Coreia. 

Ainda assim, os japoneses não se renderam. Os americanos planejaram lançar uma segunda bomba atômica no Japão, em 11 de agosto, caso eles não apresentassem sua rendição incondicional. Dadas as previsões de mau tempo, contudo, a data foi antecipada em dois dias. Foi então que num dia 9 de agosto, tal como hoje, os americanos lançaram seu segundo ataque nuclear, dessa vez contra Nagasaki. A bomba foi detonada 500 metros acima da cidade, matando em instantes 40 mil pessoas. Passados trinta anos, o número total de mortos de Nagasaki era calculado em 48.857. 

Apesar de toda a devastação, e também das duas bombas atômicas que os Estados Unidos ainda poderiam usar, o conselho japonês de guerra deteve-se num impasse. Foi a declaração soviética de guerra, do dia 7, que finalmente convenceu metade do conselho a votar pela rendição. Com o empate (três generais a favor da rendição e três a favor da continuação da guerra), o imperador Hirohito desempatou a votação, decidindo encerrar a guerra. Segundo ele, "continuar na guerra levará somente ao aniquilamento do povo japonês e ao prolongar dos sofrimentos de toda a humanidade." 

Na manhã do dia 10 de agosto, enquanto começavam os contatos diplomáticos, o presidente norte-americano Harry Truman deu ordens para que não fossem lançadas novas bombas atômicas. Enquanto isso, na Manchúria, o Exército Vermelho avançava contra os japoneses num duro combate. No dia 11 de agosto, as forças da marinha soviética iniciavam um bombardeamento à região sul da ilha de Sakhalin. No dia seguinte, os japoneses utilizaram soldados de infantaria suicidas para tentar deter os tanques soviéticos. No dia 13 de agosto, no entanto, os tanques conseguiram atingir os reforços de infantaria, em Hualin, matando 900 homens que pudessem escapar dos vagões. 

Na manhã do dia 14 de agosto, mais de 800 bombardeiros americanos atacaram instalações militares japonesas na ilha de Honshu. Na noite desse dia, mais de mil militares japoneses atacaram o palácio imperial, na esperança de descobrir uma gravação do imperador que comunicaria a rendição de seu país. Tudo o que conseguiram, no entanto, foi assassinar o comandante da guarda imperial. Por volta da meia-noite de 14 de agosto, as forças soviéticas haviam avançado mais de 400 quilômetros pelo interior da Manchúria. Sem qualquer condição de continuar resistindo, o governo japonês anunciou a rendição no dia 15 de agosto. 

A cerimônia oficial de rendição do Japão aconteceu no dia 2 de setembro de 1945, a bordo do navio de guerra norte-americano USS Missouri, na Baía de Tóquio. Além do Japão, o documento foi firmado pelos representantes dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, do Governo Provisório da França, da União Soviética, dos Países Baixos, da China, da Austrália e da Nova Zelândia.   
Bibliografia consultada: GILBERT, Martin. A Segunda Guerra Mundial - os 2174 dias que mudaram o mundo. Tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014, p. 877-887.