“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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O Sofrimento dos Animais

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

"(...) A única fronteira legítima para a nossa consideração pelos interesses de outros seres é aquela em que não é mais verdadeiro afirmar que o outro ser tem interesses. Para ter interesses, em sentido estrito e não metafórico, um ser precisa ser capaz de sofrer ou de sentir prazer. Se ele sofre, não pode haver justificativa moral desconsiderar esse sofrimento ou para nos recusar a lhe atribuir um peso igual ao do padecimento de qualquer outro ser."


SINGER, Peter. Libertação Animal. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p. 251-252.

Desafios dos Sobreviventes da Shoá

quarta-feira, 31 de julho de 2024

 

Soldados alemães capturados removem corpos de dentro de um quartel em Gunskirchen, campo de concentração austríaco onde Edith Eva Eger e que foi libertado por soldados do 3º Exército dos EUA. 7 de maio de 1945. Créditos do US Holocaust Memorial Museum.

Aprendi a diferença entre liberdade negativa e liberdade positiva em maio de 1945, aos 17 anos. Eu estava caída na lama, junto a uma pilha de pessoas mortas e moribundas, quando a 71ª Infantaria chegou para libertar o campo. Lembro-me dos olhares horrorizados dos soldados, com o rosto coberto por lenço para não sentirem o cheiro de carne podre. Naquelas primeiras horas de liberdade, vi meus colegas ex-prisioneiros - aqueles que conseguiam andar - saírem pelos portões da prisão e, momentos depois, voltarem para se sentar na grama encharcada ou no chão sujo dos barracões, incapazes de seguir adiante. Viktor Frankl percebeu o mesmo fenômeno quando as forças soviéticas libertaram Auschwitz. Não estávamos mais presos, mas muitos não conseguiam reconhecer, física ou mentalmente, a liberdade. Corroídos por doenças, pela fome e pelo trauma, não tínhamos capacidade de assumir a responsabilidade por nossa vida. Mal conseguíamos nos lembrar de como ser nós mesmos.

Tínhamos finalmente sido libertados dos nazistas. Mas ainda não estávamos livres.

Hoje reconheço que a prisão mais nociva está em nossa mente, mas sei que a chave está em nosso bolso. Não importa o tamanho do sofrimento ou do portão das celas, é possível nos libertarmos de qualquer coisa que esteja nos aprisionando.

Não é fácil, mas vale muito a pena.     

EGER, Edith Eva. A Liberdade é uma Escolha. Tradução de Débora Chaves. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2021, Introdução. 

Progressismo, Autoglorificação e Fuga

sexta-feira, 10 de maio de 2024

As pessoas que se reconhecem como "progressistas" não afirmam apenas que são favoráveis às mudanças, mas que essas mudanças são sobretudo benéficas, ou seja, promovem o progresso. Contudo, outras pessoas que também defendam mudanças, mas de naturezas um tanto quanto diferentes, podem, da mesma forma, dizer que suas mudanças são para melhor. Em outras palavras, todo mundo é progressista, segundo sua própria ótica. O fato de algumas pessoas se imaginarem peculiarmente inclinadas ao progresso não constitui apenas mais um exemplo de autoglorificação, mas também representa uma fuga. Tenta-se escapar da prova ao não mostrar, com base em evidência e análise, onde e por que suas propostas particulares de mudança produziriam melhores resultados do que as mudanças propostas por outras pessoas. Em vez de percorrer todo esse processo investigativo, desqualificam-se os adversários, sem maiores critérios de análise e de prova, dizendo, como fez John Dewey, que são "apologistas do status quo".     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 164.

A Visão do Intelectual Ungido

sexta-feira, 26 de abril de 2024

A visão do intelectual ungido não é somente uma visão de sociedade, mas também se comporta como uma visão autoelogiosa dos próprios intelectuais e uma mentalidade de que eles não estão dispostos a abrir mão. Um "respeito decente pelas opiniões da humanidade" - a frase usada na Declaração de Independência dos EUA - não tem hoje mais lugar num mundo pautado pela visão do intelectual ungido. Pelo contrário, pois desafiar o "clamor público" tornou-se um distintivo de honra e a certificação de ser um membro dos intelectuais ungidos. Os protestos das massas não são tratados como avisos importantes, mas como evidências redobradas da superioridade do insight do sujeito, que é compartilhado por outros "bem pensantes". Essa é uma das muitas maneiras pela qual a visão é blindada, afastando-a dos desafios que vêm das experiências mundanas de milhões de pessoas. Além disso, as impetuosas suposições e aspirações do intelectual ungido são amplamente consideradas, por eles e por outros, como o mais nobre idealismo, em vez de egocêntricas indulgências.

Que o mundo seja obrigado a apresentar um cenário que se encaixe em suas preconcepções - caso contrário existe algo de errado com o mundo - não constitui apenas um adorno da intelligentsia, mas se apresenta como base para o estabelecimento de cotas em corporações e em universidades, as quais procuram criar tais cenários, assim como interferir na condução das leis em casos em que se usa a muleta da discriminação sempre que a realidade não se encaixa com o cenário idealizado.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 456.

Cacoetes dos Intelectuais

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Leandro Karnal, "intelectual público" famoso por comentar sobre tudo e rotular aqueles dos quais discorda.

Certamente que muitos intelectuais públicos, ao comentarem sobre questões e eventos que estão fora do escopo de suas respectivas especialidades, nem sempre alcançam a acuidade exigida pelos padrões intelectuais, e isso nos melhores dos casos. No entanto, as muitas violações desses padrões pelos próprios intelectuais têm demonstrado repetidamente a distinção que buscam embaralhar entre o substantivo e o adjetivo. Isso inclui exemplos gritantes de irracionalismo e de "tendências" baseadas em observações distorcidas, como, por exemplo, que o capitalismo tornou os trabalhadores mais pobres, como se eles tivessem sido mais prósperos antes. Tais elucubrações estão carregadas de comparações desprovidas de critério intelectual, como aquela que o professor Lester Thurow pronunciou ao dizer que os Estados Unidos apresentavam o "pior" desempenho, entre as nações industrializadas, quando se tratava de desemprego, citando problemas de desemprego somente nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ignorava completamente o problema crônico de desemprego muito pior que sofre a Europa ocidental, para não falar de outras regiões. Uma das violações mais comuns dos padrões intelectuais pelos próprios intelectuais é atribuir uma emoção (racismo, machismo, homofobia, xenofobia, etc.) àqueles que detêm pontos de vista diferentes, em vez de responder a seus argumentos.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 442.

A Hipocrisia dos Intelectuais

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Notícia de 1/4/2024: barbárie ignorada pela intelligentsia ocidental. 

As dimensões morais também podem exercer uma grande atração sobre a intelligentsia. Oportunidades para se fazer moralmente superior diante dos outros, por vezes incluindo toda a sociedade, são ferozmente cobiçadas, seja na oposição às formas mais duras de punição criminal, seja denunciando a destruição de Hiroshima e Nagasaki ou na insistência em se adotar as determinações da Convenção de Genebra aos terroristas capturados, os quais nem aceitam os termos da convenção nem são por ela referidos. Padrões morais duplos, denunciando os Estados Unidos por ações que são quase por completo ignoradas quando cometidas da mesma maneira ou de forma pior por outros países, são defendidos sob a alegação de que deveríamos ter padrões morais superiores. Dentro dessa lógica, um comentário acidental pode vir a ser tomado como "racista" e provocar mais indignação na mídia dos Estados Unidos do que a decapitação de pessoas inocentes perpetrada por terroristas, os quais divulgam as imagens para públicos sedentos no Oriente Médio.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 236.

Intelectuais a serviço da manipulação

terça-feira, 2 de abril de 2024

Embora J. A. Schumpeter tenha dito que "a primeira coisa que um homem fará por seus ideais é mentir", também disse que uma área científica só se configura como tal com a constituição de "regras de procedimento" as quais podem "eliminar erros ideologicamente condicionados" em uma análise qualquer. Tais regras de procedimento são o reconhecimento implícito da falibilidade de que se impõe sobre nossa objetividade e nossa imparcialidade.

Um cientista que manipulasse os fatos a fim de favorecer uma teoria de sua preferência sobre o câncer seria considerado uma aberração e ficaria completamente desacreditado, assim como um engenheiro que fizesse o mesmo ao construir uma ponte. Este poderia ser até processado por negligência criminosa caso a ponte viesse a desabar, matando pessoas. Contudo, aqueles intelectuais cujo trabalho é tido como "engenharia social" não precisam enfrentar essas responsabilidades, mas, pelo contrário, a maioria dos casos está isenta de quaisquer responsabilidades, mesmo quando a manipulação dos fatos desemboca em verdadeiros desastres sociais.

O fato de tantos intelectuais fazerem uso do discurso sobre uma inalcançável objetividade e imparcialidade pessoal como motivo para justificar a manipulação fraudulenta que fazem dos fatos, tornando seus argumentos plausíveis, mostra, uma vez mais, o quanto a capacidade intelectual deles está a serviço da manipulação retórica e o quanto lhes falta de sabedoria. Em última instância, a questão não é sobre ser ou não "justo", contemplando "ambos os lados", mas o que é muito mais importante é ser honesto com o leitor, o qual, afinal de contas, não pagou para aprender sobre o psiquismo ou a ideologia do escritor, mas para adquirir algum conhecimento real sobre o mundo. Como Jean-François Revel coloca: "Eu não gastei sessenta centavos para ser informado sobre as vibrações emanadas pela alma desse correspondente espanhol."

Aqueles intelectuais que resolvem manipular os fatos, favorecendo os interesses de sua visão pessoal, negam aos outros o direito que têm de acessar o mundo tal como se apresenta e assim prejudicam que outros tirem suas próprias conclusões. Ter ou expressar uma opinião é algo que difere completamente da prática de bloqueio sistemático da informação, a qual impede que terceiros possam formar suas próprias opiniões.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 228-229.

O "Simplismo" de Ignaz Semmelweis

segunda-feira, 18 de março de 2024

Ignaz Semmelweis (1818-1865)

O uso indiscriminado do termo "simplista" acabou se tornando uma argumentação amplamente usada toda vez que não se dispõe de provas concretas, uma forma de desqualificar visões opostas sem a necessidade de confrontá-las com evidências ou análises. 

Portanto, com o objetivo de caracterizar uma conclusão de simplista, praticamente qualquer resposta pode ser manipulada. Isso é feito ao se expandir indefinidamente a questão, englobando dimensões que fogem ao controle explicativo em questão para, então, insinuar-se inadequação, acusando o argumento de simplista. Por exemplo, na década de 1840, o médico obstetra austríaco Ignaz Semmelweis apresentou estatísticas que mostravam uma diferença substancial, verificada nos índices de mortalidade entre mulheres nas clínicas de maternidade em Viena, quando eram examinadas por médicos que haviam lavado suas mãos antes de examiná-las e por médicos que não o tinham feito. À época, as salas de cirurgia eram tão sujas como os cirurgiões que nelas trabalhavam. Assim, o Dr. Ignaz procurava impor a todos os outros a obrigatoriedade de lavar as mãos antes de examinarem as pacientes. Porém, sua sugestão foi rejeitada essencialmente por ser simplista, fazendo uso de um tipo de argumento que está conosco ainda hoje. Ele foi desafiado a explicar por que lavar a mão de alguém afetaria a mortalidade das mulheres em trabalho de parto e, uma vez que isso aconteceu antes de a teoria bacteriana ser desenvolvida e aceita, ele não tinha como provar. Em poucas palavras, a questão fora expandida a ponto de não poder ser respondida naquele estágio do conhecimento, o que fazia qualquer resposta parecer "simplista". Todavia, a questão real não era se aquele médico, o qual se baseava em dados estatísticos, podia responder à questão mais ampla, mas se a evidência mais pontual que ele indicava sobre a questão era válida e se poderia, portanto, salvar vidas baseando-se apenas em fatos empíricos. O perigo em se cometer a falácia post hoc poderia ter sido facilmente evitado ao se continuar a colher dados a fim de verificar se o procedimento de lavagem das mãos, feito por outros médicos, reduzia os índices de mortalidade das gestantes.

É provável que o Dr. Ignaz tenha sido "cancelado" pelos seus colegas médicos por uma combinação de fatores: seu caráter orgulhoso e agressivo e, sobretudo, sua juventude - ele contava apenas 30 anos, quando pôs em xeque todo o sistema de saúde austríaco. Ignaz Semmelweis foi então internado num manicômio, com base em argumentos fraudulentos. Lá ele morreu em 1865, aos 47 anos, sozinho e deprimido.     

Bibliografia consultada:

LÓPEZ, Alberto. "Ignaz Semmelweis, o médico que descobriu como evitar contágios apenas lavando as mãos". El País, 20 de março de 2020, disponível aqui.

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 134-135.

[Live] Conservadorismo: o que é?

terça-feira, 5 de março de 2024

 

Disponível aqui

A Dialética Erística

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

 

A dialética erística é a arte de disputar, mais precisamente, de disputar de modo a ter razão per fas et nefas [por meios lícitos e ilícitos]. Com efeito, podemos ter razão objetiva, na coisa em si, mas estar errados aos olhos das pessoas presentes, às vezes até mesmo aos nossos próprios olhos. O adversário pode refutar minha prova, o que vale como refutação de minha própria asserção, para a qual, entretanto, pode haver outras provas; neste caso, é claro, a relação é inversa para o adversário: ele detém a razão, mas está objetivamente errado. Portanto, a verdade objetiva de uma proposição e sua validade na aprovação dos debatedores e ouvintes são duas coisas distintas. (É para esta última que a dialética se volta.)

E a que se deve isso? - À perversidade natural da raça humana. Se não fosse isso, se fôssemos essencialmente honestos, não buscaríamos em cada debate senão trazer a verdade à luz, totalmente despreocupados se ela está em conformidade com nossa opinião previamente apresentada ou com a do adversário: isso seria indiferente ou, pelo menos, algo completamente secundário. Mas agora é a coisa principal. A verdade inata, que é particularmente irritável no que diz respeito às faculdades intelectuais, não pretende aceitar que nossa primeira afirmação se revele falsa e a do adversário tenha razão. Por conseguinte, teríamos simplesmente de nos esforçar por emitir juízos corretos: para tanto deveríamos pensar primeiro e falar depois. Mas, na maior parte dos homens, a vaidade inata é acompanhada de loquacidade e inata desonestidade. Falam antes de pensar, e, mesmo quando se dão conta de que sua afirmação é falsa e eles estão errados, é preciso parecer como se fosse o contrário. O interesse na verdade, que deveria ser, em geral, o único motivo na exposição da tese supostamente verdadeira, agora dá lugar, por completo, ao interesse da vaidade: o verdadeiro deve parecer falso e o falso, verdadeiro. 

SCHOPENHAUER, ArthurA Arte de ter Razão: 38 Estratagemas. Tradução de Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, p. 7-8. 

O Poder e a Força dos Estoicos

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

 

Em teus acessos de cólera tem em mente de imediato que não há virilidade em encolerizar-te, mas que a brandura e a amabilidade, na medida em que são mais humanas, são também mais viris; tem em mente, ademais, que o indivíduo brando e amável tem mais força, fibra e coragem do que aquele que se deixa irritar e encolerizar-se com os outros em um descontrole emocional. Com efeito, quanto mais se avizinha da ausência das paixões (impassibilidade) mais está próximo do poder e da força. Como a aflição resulta da fraqueza, também a cólera resulta dela. Ambas significam cair e capitular.    

MARCO AURÉLIO. Meditações, XI.18. Tradução, introdução e notas de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2019, p. 142-143.

Marxismo, Doutrina Mística e Dogmática

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

 

(...) O marxismo é uma doutrina mística e dogmática. Na prática, apresenta certas características dos dogmas religiosos, principalmente quando se propõe a salvar a humanidade e estabelecer o paraíso na Terra. Diferencia-se em essência das religiões, por negar a existência e a interferência de qualquer "poder divino" na vida pessoal do homem, e na sociedade por ele construída. Na atuação prática, o comportamento do verdadeiro cristão é também antípoda do comportamento marxista. O crente cristão prega e pratica os princípios que se encontram nos Evangelhos - especialmente no Sermão da Montanha - , com ênfase às mensagens de amor: amor a Deus, à humanidade, à família e ao próximo. O crente marxista militante prega a luta de classe, a marginalização e a eliminação sumária daqueles que opõem à implantação do regime comunista materialista e ateu em substituição ao regime social liberal cristão. Ele abomina todas as religiões, por considerá-las "o ópio do povo", usado pela burguesia para dominar e explorar a classe dos trabalhadores. Para atingir seus objetivos, o marxismo procura levar o proletariado - principalmente do Terceiro Mundo - à miséria total (quanto pior melhor), porque somente assim tal miséria coincide com o lado oposto e extremo da contradição capitalista, levando-o à sua destruição final.   

VILLAVERDE, Léo. A Natureza Mística do Marxismo. São Paulo: Paz, 1986, p. 10-11.

A Mensagem de Viktor Frankl

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

 

Se ele pôde ver o que eles não viram, foi porque permaneceu fiel à liberdade interior que é a velha mensagem do Sentido em busca do homem: "Se Me aceitas, Israel, Eu Sou o Teu Deus."

Saiba mais sobre a mensagem de Viktor Frankl (1905-1997). Leia o artigo AQUI.

A Ética de Henry D. Thoreau

sexta-feira, 21 de julho de 2023

 

A Desobediência Civil (1849), de Henry David Thoreau, disponível aqui.

O Fim do Direito de Exclusão

terça-feira, 11 de julho de 2023

 

Democracia, o deus que falhou, p. 246, disponível aqui.

Sêneca: o ganho que é perda

quarta-feira, 14 de junho de 2023

 

Livro disponível AQUI.

Budista Light, por Luiz Felipe Pondé

domingo, 11 de junho de 2023

 

O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso.


O "ASSUNTO DEUS" é complicado. Em jantares inteligentes, é mais fácil você confessar que faz sexo com dobermans, prova de que seu gosto ultrapassou formas sexuais conservadoras. Mas, se falar sobre Deus, há risco grave de que não te convidem mais. E aí nunca mais aquela cozinha vietnamita. Melhor se dizer um budista light. 

Mas a mania que muito religioso tem de achar que tudo na vida se deve a Deus (ou similares) é um saco! Isso fala mais de sua preguiça e medo do que de Deus.

Entendo o bode dos ateus com essa gente. Para mim, essa conversa é semelhante ao papo de que você tem câncer porque não resolveu adequadamente seus conteúdos emocionais. Ora bolas, isso quer dizer que, se todo mundo um dia for feliz, ninguém vai ter câncer? Ou que, pior, além de ter câncer, você é um babaca responsável pelo câncer porque não fez terapia? Conheço gente que se diz ateia (e com isso se acha mais inteligente, como de costume) e acredita nessa baboseira de que o amor cura câncer. 

Mas, desculpe-me, ateísmo é coisa banal. Quando eu tinha oito anos era ateu. O ateísmo é óbvio (por isso comecei a desconfiar dele), diante do lamentável estado da vida: somos uma raça abandonada (Horkheimer). Ateísmo não choca mais ninguém (pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida), porque ateus já são vendidos às dúzias em liquidações. E mais: ser ou não ateu não diz nada acerca de como a pessoa se comporta com os outros (ao contrário do que muitos ateus e não ateus pensam). Existem canalhas de ambos os lados do muro. Deus, como se diz em filosofia, "é uma variável sem controle epistemológico", isto é, não se testa Deus em um laboratório.

Mas, antes, uma pequena heresia.

Mais chocante hoje é alguém se confessar que não crê no aquecimento global, pelo menos na versão que aconteceu nesse espetacular concílio bizantino em Copenhague, reunindo toda a gente legal do mundo.

Confesso minha fraqueza: sou um herege, não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta, mas já estou pagando mais imposto por isso e tenho certeza de que outros virão. Acho essa história uma mistura de ego inflado (disputamos com o Sol para ver quem aquece mais?) e tédio (que tal salvar o planeta? A vida está tão chata na Dinamarca!). Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global.

Sei que dizem que é fato científico, mas, para mim, que sou um medieval, só acredito na ciência quando vem no formato de resultados de exames do Fleury ou do Delboni, e não quando tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de euros salvando o planeta. Para mim, Copenhague foi aquele tipo de concílio onde se discutia se a roupa de Jesus era dele ou não. Temperamentos autoritários rejubilaram em Copenhague.

E o ateísmo? A constatação de que o mundo é péssimo e, por isso, Deus não deve existir é razoável. A primeira vez que isso me ocorreu foi quando descobri que existiam colegas mais felizes do que eu na escola, e aí eu julguei o mundo injusto. Se Deus, como todo mundo me dizia, era bom, por que eu não era o cara mais forte do mundo? Decidi que Deus não existia. Ou não era bom. O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso. Qualquer golfinho consegue ser ateu.

Anos mais tarde, fosse eu uma dessas pessoas legais que creem no marketing do bem, concluiria que o mais justo seria que todos fossem igualmente felizes, e aí Deus teria sido democrático. Graças a Deus, nunca passei pelo ridículo de pensar assim. Quanto a Deus ser mau, concluí que melhor seria mesmo considerar o universo indiferente e cego e mecanicamente cruel. Naquele dia, tornei-me um trágico (antes de ler Nietzsche ou Darwin).

Poucos ateus não são descendentes de uma criança infeliz e revoltada (e, veja, 110% das crianças, esses pequenos lindos monstros malvados, são infelizes porque sempre existem crianças mais felizes do que você). A prova disso é que ateus gostam de falar mal da igreja (nunca superaram aquela freira azeda), de Deus (esse malvado que não me fez mais forte), ou do pai judeu (que me obrigou a só namorar judias). Ou acham que, se formos todos ateus, o mundo será melhor. Se você é assim e tem orgulho de ser ateu, você é um rancoroso.

Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer besteira (Chesterton): na Natureza, na História, na Ciência, na Dinamarca, em Si Mesmo. Essa última crença, eu acho, é a pior de todas. Coisa de gente cafona.

Publicado na Folha de S. Paulo, em 14/12/2009. Adaptado.

A Disputatio Medieval

domingo, 23 de abril de 2023

 

Após formar um vasto império, Carlos Magno (r. 800-814) decidiu valorizar a educação como forma de desenvolver e unificar os seus domínios. Para tanto, reuniu os grandes intelectuais da época e formou um programa de estudos fundamentado nas sete artes liberais: Trivium (Lógica, Gramática, Retórica) e Quadrivium (Aritmética, Música, Geometria e Astronomia). Após a aquisição do domínio das Artes Liberais, obtinha-se o título de bacharel. Com o tempo, este terá três funções: (i) Legere, lecionar; (ii) Disputatio, realizar disputas, e (iii) praedicare, pregar o evangelho. Em seguida, o bacharel estava preparado para aprender as artes liberais superiores: Teologia, Medicina e Direito. Concluído o estudo de uma dessas disciplinas, recebia o título de Magister, ou seja, apto a ensinar.

Foi essa estrutura pedagógica que deu origem às universidades. Elas surgiram em Bologna (1088), Paris (1150), Oxford (1167), e em muitos outros lugares. Nessas instituições, o progresso mais notável foi no campo da lógica. O método de estudo até então era a glossa do texto, consistindo em explicar o sentido de cada palavra, fosse ela das Escrituras, fosse dos escritos dos padres da Igreja. O resultado era a construção de sentenças, frases concisas de uma dada teoria teológica. Pedro Lombardo (1100-1160), um padre com formação em Teologia e Filosofia, recolheu essas sentenças e as expôs de forma sistemática na obra Quatro Livros das Sentenças. Assim, a teologia tornou-se um comentário das sentenças compiladas por Pedro Lombardo. Havia, contudo, um problema: como conciliar algumas sentenças aparentemente divergentes? Aí entra a colaboração de um dos autores mais conhecidos da Idade Média: São Tomás de Aquino (1225-1274).

Tomás de Aquino criou um novo método: a questão (quaestio). Depois de um texto ser lido e glosado, eram apontadas dúvidas e divergências entre as passagens. Criava-se então uma questão, a qual impelia o autor a desfazer as divergências. É assim que São Tomás subverte o modo vigente de se fazer teologia, aquele pautado pelos comentários das Sentenças, e incorpora a quaestio, o que permite a elaboração pessoal do autor. Foi nesse ambiente do século XIII que surgiu a ritualização institucional da disputatio. A disputatio marcou o início de uma mudança importante no ensino medieval, essencialmente livresco, regulado por um conjunto de textos pré-determinados a serem lidos (lectio) pelo mestre para a assimilação e sistematização coerente de um saber já constituído: as disputationes são um contraponto à atitude educacional estritamente passiva, despertando a atividade intelectual dos alunos.

A disputatio fez da universidade medieval o palco de um vivo debate de magistri (mestres) dispostos a encarar os desafios intelectuais que lhes eram propostos por seus alunos e colegas de cátedra. Divididas em quatro modalidades, as disputationes podiam ser ordinárias, nas quais o mestre formulava o tema da disputatio ou quaestio, assistia à respectiva discussão e terminava por formular a resolução; gerais ou de quodlibet, que versavam sobre temas livres, mais solenes; magistrais, entre dois mestres, sustentando cada um o seu modo de ver; e sophismata, que eram justas dialéticas para a demonstração ou refutação de paralogismos.

A partir da fórmula pro, contra e solutio, à questão (ou tese) inicial, expunham-se as razões afirmativas (pro), seguidas da posição contrária (contra) e, por fim, a elaboração de uma possível solução (solutio) ao problema apresentado. As quatro modalidades de disputationes nos apresentam aspectos relevantes destes eventos.

As "disputas ordinárias", por terem a participação do mestre e dos alunos, tinham uma função formativa: provocado pelo mestre, que apresentava uma questão (ou tese) e os argumentos favoráveis (pro), o aluno reagia construindo objeções (contra) e, ao final, o docente tomava a palavra e discorria sobre argumentos pro e contra a fim de desenhar uma resolução geral do embate (solutio). As outras três modalidades ultrapassavam o objetivo formativo, apesar de não prescindirem dele: (i) as disputas gerais ou quaestiones de quodlibet (questões sobre temas livres), (ii) as entre dois mestres e as (iii) sophismata, demonstração ou refutação de raciocínios falsos.

Quando ocorria uma disputatio, todos os cursos eram suspensos: os bacharéis eram obrigados a assistir ao debate, assim como os estudantes do mestre que disputava, atraindo indivíduos de todas as regiões. Ao final, depois de transcrito e organizado, o debate deveria ser depositado na faculdade em que acontecia, sob pena de multa. 

Adaptado de Offlattes.

A Ética de Epicteto

quarta-feira, 5 de abril de 2023

 

Estabelece para ti desde já uma certa categoria e tipo de caráter que manterás quer esteja isolado, quer na relação com as pessoas com as quais topares. E fica calado a maior parte do tempo, falando apenas o necessário e mediante poucas palavras. Mas raramente, quando a ocasião exigir que fales, dispõe-te a falar, porém, não a respeito de coisas ordinárias e casuais; não abras a boca para discursar sobre combates de gladiadores, corridas de cavalos, atletas, comidas ou bebidas, assuntos que vêm à baila em todo lugar; sobretudo, não fales das pessoas, não importa se censurando, elogiando ou as comparando. Se estiver ao teu alcance, articule teu discurso no sentido de encaminhar aqueles com quem convives para temas apropriados. Se, todavia, acontecer de ficares isolado em meio a pessoas estranhas, cala-te.

Não te disponhas a rir muito, nem de muitas coisas, nem de maneira descontrolada e ruidosa.

Recusa-te a fazer juramentos se assim puderes agir, mas se não puderes, age dessa maneira dentro do possível.

Afasta-te dos banquetes dos estrangeiros e das pessoas vulgares; entretanto, se surgir uma ocasião na qual as circunstâncias exijam tua presença, fica atento no sentido de jamais incorrer na vulgaridade, pois saiba que se o companheiro de alguém se suja, será inevitável que aquele que se relaciona frequentemente com ele compartilhe de sua sujeira, mesmo que eventualmente ele próprio seja limpo.

No que diz respeito às coisas que se referem ao corpo, toma para o teu uso unicamente o estritamente necessário, por exemplo em matéria de alimento, bebida, vestimenta, moradia, serviçais; elimina tudo o que constitui ostentação ou luxo combinado com indolência e sensualidade.

Quanto aos prazeres do sexo, dentro de tua capacidade conserva-te puro antes do casamento; todavia, se vieres a ter relações sexuais, toma tua parte de acordo com o que é lícito. Contudo, não ofendas nem censures os que praticam essas relações sexuais; e tampouco manifesta com frequência e em todo lugar que tu próprio não as praticas.

Se chegar aos teus ouvidos que certo indivíduo fala mal de ti, não te disponhas a defender-te do que foi dito, mas sim responde: "Sim, isso porque ele ignora os meus outros defeitos, pois se os conhecesse não estaria se referindo apenas a esses."

MANUAL DE EPICTETO - A Arte de Viver Melhor. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2021, 33, p. 61-63.

DNA Filosófico da Educação UNESCO

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

Sete décadas de Educação UNESCO baniram o latim das escolas para entronizar o hip hop e incluir os oprimidos, excluindo a base clássica, a razão aristotélica, a moral judaico-cristã e a fonte primeira da cultura jurídica. Atenas, Jerusalém, Roma e três milênios de síntese cristã foram descartadas. Em compensação, entrou um pacote formado pela diversidade/igualdade/liberdade/tolerância.

Nada disso aconteceu num vácuo filosófico. Immanuel Kant (1724-1804) é o pivô da crônica. No contexto do Iluminismo, a razão foi colocado num pedestal, e Kant se afligia com isso. Chegara, portanto, a hora de julgar a juíza. De filosofar sobre a base mesma da filosofia e de fazer a crítica de quem tudo criticava.

Ora, tal era a mesma posição de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que peitou a onda materialista do racionalismo iluminista. Exaltando a emoção em meio à frieza enciclopedista, Rousseau desprezava o intelecto para exaltar sentimentos e paixão, idealizando um mundo impoluto, intocado pelos desvios da civilização, longe da artificialidade urbana e movido pela espontaneidade cândida de outrora. A razão mais atrapalharia do que ajudaria as pessoas.

A ruptura kantiana foi além. O professor de Königsberg quebrou a dogmática da razão, mas abriu as portas a todo tipo de idealismo, irracionalismo e antirrealismo para legitimar toda forma de subjetivismo. A realidade profunda estaria fora de alcance, o que a levaria a ser simplesmente qualquer coisa. Assim, Kant abriu as portas à intuição, restaurou o poder da emoção e resgatou os instintos com o intuito de salvar a fé. Porém, inoculou o vírus do subjetivismo, lançando as bases de uma tirania ideológica a massacrar a realidade objetiva para idolatrar o foro íntimo. Em síntese, quebrou a hegemonia do pensamento modernista para implantar o embrião do pós-modernismo.

O primado da razão engendrou, pois, Newton e a ciência, Adam Smith e o capitalismo, Montesquieu e a democracia representativa. Mas, ocasionou de quebra o reflexo ateísta a inspirar a contraofensiva kantiana; a semente desta germinaria no pós-modernismo, em meados do século XX.

O pós-modernismo leva o método científico a perder primazia, e lança suspeitas sobre a tecnologia. Idem em relação ao desenvolvimento econômico. Logo, as coisas retornam ao pensamento de Rousseau - a civilização corrompe. A racionalidade europeia legitimaria o imperialismo, que massacrou as demais culturas.

Para completar, o mérito pessoal sai de cena. A responsabilidade pessoal é reduzida. A ética é coletivista. O capitalismo é perverso e a solução seria alguma forma de socialismo ou, no mínimo, algum tipo de redistribuição de renda.

Nesse rescaldo, a escola UNESCO se tornou efetivamente o mais poderoso motor de propagação do niilismo.

Outros filósofos merecem menção. Hegel (1770-1831) se opôs a Kant, no ponto em que este via a contradição com maus olhos. A contradição, na verdade, seria a chave explicativa do universo. A realidade seria movida por forças contraditórias (tese x antítese). Além disso, Hegel pensa em termos coletivos, e não individuais. O homem não teria toda a independência que Kant imaginava. A mente é fruto do ambiente cultural.

Karl Marx (1818-1883) absorveu a dialética hegeliana, em detrimento da lógica aristotélica. E, igualmente, tomou de Hegel a primazia do grupo sobre o indivíduo; a ética coletivista; e a rejeição de qualquer verdade absoluta em favor de uma versão evolutiva da realidade.

Nietzsche (1844-1900), seguindo por uma linha parecida, defendia que estava na hora de libertar-se das arbitrárias categorias da lógica. Razão é artifício de covarde. Força e ousadia valeriam mais do que o intelecto. Arrematando, Schopenhauer (1788-1860) dizia que a realidade é profundamente irracional; a verdade estaria definitivamente fora do seu alcance. Vontade e emoção são bem mais sutis. Kierkegaard (1813-1855), por sua vez, dizia que não existe meio racional de acesso à essência das coisas. Não há como chegar lá sem um ato de fé.

Heidegger (1889-1976), já no século XX, foi mais além: a razão não só seria incapaz de penetrar a realidade, ela representaria um obstáculo ao conhecimento. A linguagem seria uma armadilha, e seu desmonte é condição para qualquer cognição digna do nome. Nesse raciocínio, a compreensão seria tributária de filtros linguísticos que direcionam a percepção. O que a mente captura é função do discurso. O objeto pensado pouco intervém no ato intelectivo. O sujeito pensante é que cria o mundo externo por meio de representações moldadas de forma arbitrária conforme as escolhas terminológicas e o sentido proclamado. Para modificar as relações de força, portanto, bastaria manipular o vocabulário.

Antirrealismo, subjetivismo, relativismo. Eis o pós-modernismo em sua essência. A verdade seria meramente instrumental e sempre visaria um fim político. Foi-se pelo ralo, para sempre, a lógica aristotélica.

A UNESCO sempre trabalhou dentro dessa matriz filosófica. Nesse sentido, por não dar lugar a pensamentos divergentes, produziu um deserto filosófico. A documentação produzida pela organização que prova isso é tão abundante que citá-la seria impossível. Difícil, sim, seria localizar uma só fonte que sugira o contrário.

Adaptado de LAMBERT, Jean-Marie. Educação Unesco - a clonagem das mentes. Londrina, PR: E.D.A., 2020, p. 167-177.