“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Mao e a Destruição Mútua Assegurada

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

 

Caricatura de Mao Zedong por Herb Block, 1º de abril de 1965, publicada no Washington Post.  

Mao Zedong interpretava a dependência norte-americana da Destruição Mútua Assegurada como um reflexo da falta de confiança em suas próprias forças armadas. Isso foi tema de um diálogo em 1975, em que Mao penetrou no cerne de nosso dilema da Guerra Fria: "Vocês confiam, vocês acreditam nas armas nucleares. Vocês não confiam em seus próprios exércitos."

E quanto à China, exposta a ameaça nuclear sem ter, por algum tempo, meios adequados de retaliação? A resposta de Mao era de que isso criaria uma narrativa baseada na performance histórica e paciência bíblica. Nenhuma outra sociedade podia imaginar que ela seria capaz de conquistar uma política de segurança digna de crédito mediante uma disposição a prevalecer após a morte de centenas de milhões e a devastação ou ocupação da maioria de suas cidades. Só essa disparidade de ponto de vista já definia a brecha existente entre os conceitos ocidental e chinês de segurança. A história chinesa era um testemunho da capacidade de superar destruições inconcebíveis em qualquer outro lugar e, no fim, prevalecer pela imposição de sua cultura ou sua vastidão sobre o pretenso conquistador. Essa fé no próprio povo e na própria cultura era o lado reverso das reflexões por vezes misantrópicas de sua performance cotidiana. Não era apenas o fato de haver tantos chineses; era também a tenacidade de sua cultura e a coesão de seus relacionamentos.

Mas os líderes ocidentais, mais sintonizados e responsáveis para com suas populações, não estavam preparados para ofertá-las de uma maneira tão categórica (embora o fizessem indiretamente, mediante sua doutrina estratégica). Para eles, a guerra nuclear tinha de ser um último recurso demonstrado, não um procedimento operacional padrão.

A China não partilhava da visão estratégica norte-americana das armas nucleares, muito menos de sua doutrina de segurança coletiva; ela aplicava a máxima de "usar bárbaros contra bárbaros" a fim de obter uma periferia dividida. O pesadelo histórico chinês havia sido de que os bárbaros se recusariam a ser "usados" dessa maneira, se uniriam e então usariam a força superior para ou conquistar a China completamente ou dividi-la em feudos separados. Da perspectiva chinesa, esse pesadelo nunca desapareceu plenamente, travada como a China estava em uma relação antagônica com União Soviética e Índia e não sem suas próprias suspeitas quanto aos Estados Unidos.

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 285-87.

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