“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

A Política Externa de Mao Zedong

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

 

Quando o Partido Comunista triunfou na Revolução Chinesa, em 1949, regiões substanciais do Império Chinês histórico haviam sido perdidas. A União Soviética mantinha uma esfera de influência no nordeste, incluindo uma força de ocupação e uma frota no porto de Lushun. Em relação aos territórios que Mao Zedong considerava parte da China histórica, ele foi implacável, buscando impor a autoridade chinesa e em geral foi bem-sucedido. Tais territórios incluíam Taiwan, Tibete, Xinjiang e regiões fronteiriças nos Himalaias ou ao norte.

Assim, tão logo a guerra civil terminou, Mao passou a reocupar regiões separatistas como Xinjiang, Mongólia Interior e, finalmente, o Tibete. Nesse contexto, Taiwan era menos um teste para a ideologia comunista do que uma exigência de respeito à história chinesa. Até o território perdido no Extremo Oriente russo nos acordos de 1860 e 1895 foi reivindicado por Mao.

Quanto ao resto do mundo, Mao introduziu um estilo especial que substituía a força física por militância ideológica e a percepção psicológica. Esse estilo se compunha de uma visão de mundo sinocêntrica, um toque de revolução mundial e uma diplomacia que se valia da tradição chinesa de manipulação dos bárbaros. Zhou Enlai, o primeiro-ministro das Relações Exteriores da República Popular da China, deixou claro que a nova China não iria simplesmente entrar em relações diplomáticas existentes. As relações com o novo regime teriam de ser negociadas caso a caso. A China iria encorajar a revolução no mundo em desenvolvimento.

Mao acreditava no impacto objetivo dos fatores ideológicos e, acima de tudo, psicológicos. Uma das histórias clássicas da tradição estratégica chinesa foi o "Estratagema da Cidade Vazia", de Zhuge Liang, encontrada no Romance dos Três Reinos. Na história, um comandante observa um exército se aproximando muito superior ao seu. Resistir resultaria em destruição; render-se, perda do controle do futuro. Logo, o comandante opta por um estratagema. Ele abre os portões da cidade, fica ali numa postura relaxada, tocando um alaúde, e atrás dele exibe a vida normal sem qualquer sinal de pânico ou preocupação. O general do exército invasor interpreta esse sangue-frio como sinal da existência de reservas ocultas, detém seu avanço e se retira.

A notória indiferença de Mao ante a ameaça de guerra nuclear certamente devia algo a essa tradição. Desde o início, a República Popular da China teve de atuar estrategicamente em uma relação triangular com as duas potências nucleares, Estados Unidos e União Soviética, cada uma delas individualmente capaz de oferecer grande ameaça. Mao lidou com esse estado de coisas fingindo que ele não existia. Chegou mesmo a desenvolver uma postura pública de se mostrar disposto a aceitar centenas de milhões de baixas, até mesmo acolhendo-as como a garantia de uma vitória mais rápida da ideologia comunista.

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 110-112.

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