“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Monges Medievais

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Detalhe de um manuscrito do século XI do Mosteiro de Monte Cassino. O documento ilustra cenas da vida e da época de S. Bento. Acima, São Bento escreve a sua regra para os monges da sua ordem. Ele então havia sido acometido por uma febre, que acabou por levá-lo à morte. 

1. Na atualidade, desapareceram quase completamente as multidões de solitários - os "eremitas" - que à margem do mundo monástico institucionalizado, sepultavam-se aos ermos campestres e nos bosques para reaparecerem, periodicamente, entre os homens, evocando com as suas figuras selvagens a ameaça da morte e a urgência da conversão. Mesmo os mosteiros e os priorados, contados aos milhares na Europa do século XII, estão reduzidos a poucas centenas em todo o mundo. 

2. Na autoconfiança que emergiu gradualmente da cultura monástica, antiga e medieval, e que foi cada vez mais reforçada por um largo consenso político e social, os únicos cristãos verdadeiros eram os monges. 

Ainda nos séculos IV e V, com o surgimento das primeiras e tumultuosas experiências anacoréticas e com a constituição dos primeiros modelos de biografias monásticas largamente exportados (sobretudo, a Vita S. Antonii, de Atanásio) que esboçou-se a relação entre a figura do monge, a "santidade" pessoal" e a fruição de poderes carismáticos e sobrenaturais. Isso veio a ser um elemento fundamental da religião medieval e da relação entre o mosteiro e a sociedade.  

3. Entre os séculos X e XI, o processo de redução do cristianismo autêntico à vida monástica atingiu a sua expressão máxima e, até certo ponto, definitiva. A memória desses tempos chegou-nos, sobretudo, através das vozes de monges - ou de sacerdotes profundamente influenciados pelos monges. Rastrear as origens desse modo de vida é, ao mesmo tempo, um desafio e uma necessidade para se compreender o desenvolvimento da sociedade monástica. 

4. A maneira de viver dos primeiros monges tem as suas origens na época da pregação apostólica. Os cristãos primitivos, segundo o livro de Atos dos Apóstolos, tinham tudo em comum. Contudo, após a morte dos apóstolos, o fervor da multidão dos crentes começou a esfriar e, alguns, achavam que não haveria prejuízo algum em conservarem seu patrimônio, professando ao mesmo tempo a sua fé em Cristo. No entanto, entre aqueles em quem o fervor apostólico se mantinha vivo, abandonaram as cidades e fixaram-se nos subúrbios e locais mais isolados, começando a praticar, particularmente, as regras que tinham sido estabelecidas pelos apóstolos para todo o corpo da Igreja.    

5. Pouco a pouco, separados da massa dos crentes e, pelo fato de se absterem do matrimônio e de se manterem afastados dos parentes e da vida deste mundo, foram chamados monachi. Suas comunidades foram chamadas posteriormente de cenobitas. Este foi o único e mais antigo tipo de monges.  

6. A vivência livre de Deus dispunha-se segundo as linhas sapientes de um método, colocado sob a direção e a vigilância de um superior hierárquico, ao passo que a renúncia ao mundo e a luta contra as suas seduções e contra as tendências pessoais passavam necessariamente pela renúncia e pelo abandono da vontade própria. A opção monástica, enquanto atuação individual da vida cristã e, por isso, confirmação e concretização das promessas do batismo, transformou-se, em certa medida, num ponto de chegada, no estádio em que a maioria dos monges deveria e poderia fixar-se, em relação à escala ininterrupta da árdua e solitária ascese em direção ao divino, que era o privilégio de poucas experiências de exceção.  

7. Entre os séculos V e VI, floresceram novas fundações monásticas, o que sem dúvida foi favorecido pelas condições cada vez mais precárias da vida civil. O monge não era, então, apenas uma alma em busca de Deus na oração e na solidão, mas também um homem que necessitava de tranquilidade e de paz, num mundo cada vez mais hostil e difícil. Os impulsos que deram origem às primeiras comunidades de mulheres eram, em grande medida, semelhantes.

Cassiodoro, ministro e conselheiro do rei godo na Itália, Teodorico, o Grande (séc. VI), pretendeu fazer da comunidade monástica de Vivarium um centro de conservação e de transmissão da cultura clássica, ainda que em função da sua recuperação e da sua integração na tradição cristã. O ambicioso projeto, no entanto, não resistiu à desagregação e à ruína das estruturas civis posteriores à invasão lombarda. 

8. Nesse mesmo período (séculos V-VI), apesar da variedade das orientações ascéticas e das tradições de espiritualidade, existiam alguns aspectos de fundo que se configuraram como amplamente comuns. Assim, a tendência era fazer do mosteiro um mundo à parte, autossuficiente e perfeitamente organizado em todos os aspectos: um centro de oração, de trabalho e também de cultura. O mosteiro era, portanto, uma ilha no interior de uma sociedade que se prefere ignorar, a não ser naquilo em que é necessário para o bem-estar espiritual e material dos monges e apenas na medida em que o é; daí, a tradicional obrigação da hospitalidade e a assistência concedida aos pobres. Nessa mesma época, as regras monásticas geralmente limitavam-se a a recomendar ao monge que renunciasse a qualquer forma de propriedade privada, sem que isso implicasse a exclusão da propriedade coletiva. 

9. A partir dos séculos VI e VII, reis e poderosos da Europa deram um excepcional impulso às fundações monásticas. Nessa mesma época (e até o século VIII), as "missões de monges irlandeses e anglo-saxônicos invadiram o continente, com um notável suporte local por parte dos soberanos - francos, sobretudo - e de Roma. Em pouco mais de século e meio, desde Columbano a Bonifácio, as fundações sofreram um incremento excepcional. Luxeuii (590), Bóbio (613), Saint-Denis (650), Jumièges (654), S. Vicente de Volturno (703-708), Reichenau (724), Fulda (741), Saint Gall (750) são nomes famosos que não devem, porém, fazer esquecer o fato de os mosteiros se contarem já por centenas. Essa primeira grande vaga monástica alcançou seu apogeu nos anos da hegemonia carolíngia.

10. As regras dos mosteiros normalmente previam, para todos os monges, a obrigação de aprenderem a ler (pelo menos até aos 50 anos de idade; cf. a Regula magistri). Isso colocava o monge num nível de instrução que já não correspondia ao nível comum. Essa obrigação estava estreitamente ligada à vida religiosa do monge - as regras da tradição ocidental estipulavam, geralmente, duas a três horas para as leituras espirituais. A leitura também era a premissa necessária para a meditatio, a repetição oral de textos bíblicos aprendidos de cor. Esse contexto exigia que o mosteiro dispusesse de biblioteca, escola, scriptorium. Tais instrumentos o transformavam, naturalmente, num local único e culturalmente privilegiado. 

11. A perpetuação dos cultos antigos, dos lugares tornados sagrados devido a túmulos e a sinais, símbolos e objetos carismáticos, cruzava-se e enriquecia-se com cultos e lugares novos, prolongando-se na realidade viva dos cenóbios, que não apenas guardavam os túmulos, as "relíquias" e as memórias dos santos fundadores, como eram igualmente centros de vida santa. Por conseguinte, ensejavam benefícios, graças e esperança de alívio e de salvação, para quem estivesse em contato com eles. Os mosteiros tornaram-se lugares de veneração, que se revelavam terríveis para os seus profanadores, mas que eram garantia e promessa de orações e de graças para seus benfeitores. Inspirados no apelo de Paulo para que se socorresse materialmente a comunidade dos "santos" de Jerusalém (Rm 15:25-27), indivíduos empenhavam-se em manter, com ofertas e doações de bens, as comunidades monásticas, como meio de compartilhar, em certa medida, dos seus méritos e de se beneficiar com as suas graças.   

12. Invasões dos sarracenos (século VIII), magiares e normandos (século IX) assolaram diversos mosteiros, rompendo e destruindo, em muitos casos, a continuidade das fundações e obrigando as gerações posteriores a recomeçarem, em certa medida, do zero num quadro de desolação e ruína. Isso, contudo, não interrompeu a continuidade da memória e da lógica que favoreciam, apoiavam e orientavam as fundações monásticas. A partir do século X, começou a recuperação monástica, primeiro lentamente, e depois de forma cada vez mais acelerada. Reis e grandes senhores, principalmente, apostaram nos mosteiros como centros religiosos de oração, herdades agrícolas e locais de expansão e reforço político no território.  

13. O monaquismo reformado, no entanto, logo se viu na necessidade de se defender das intromissões e da ambição dos poderes locais. Isso provocou um movimento de concentração e de associação. Pouco a pouco, os mosteiros deixaram de ser centros isolados, submetidos à jurisdição do respectivo bispo diocesano e às prepotências senhoriais, quer eclesiásticas quer leigas. Tenderam a congregar-se em torno de um único centro, organizando-se em grandes congregações que ambicionavam obter de Roma a isenção da jurisdição do prelado local. Um exemplo notório é Cluny, fundado em 910 pelo abade Bernon com o apoio de Guilherme de Aquitânia. Entre os séculos XI e XII, havia se tornado a congregação religiosa mais importante e autorizada da cristandade.

14. Em torno dos mosteiros, como em círculos concêntricos, eram acolhidos, em condições e a níveis diferentes, todos aqueles que têm uma determinada relação com ele. Para as pessoas de condição humilde ou que se encontravam em dificuldades devido a situações de autonomia e de subsistência precárias, quando não se limitavam a pedir, mais ou menos irregularmente, assistência ou asilo, a solução era "dar-se" ao mosteiro, muitas vezes oferecendo-se a si próprios, a sua roupa ou a sua pequena terra, em troca de proteção, ajuda e orações. 

15. (Em breve)

Bibliografia consultada: MICCOLI, Giovanni. Os monges. In: LE GOFF, Jacques (dir.). O Homem Medieval. Tradução de Maria Vilar de Figueiredo. Lisboa: Presença, 1989, p. 33-54. 

Educação de Ouro

domingo, 16 de setembro de 2018

A Rede de Educação Adventista estende-se por 165 países, e conta com quase 8 mil instituições que atendem da educação infantil ao ensino superior. No Brasil, está presente há mais de 120 anos, e conta com 458 unidades escolares. 

Eu tive o privilégio de estudar em escolas adventistas. Desde 2014, tenho a honra de lecionar História no Colégio Adventista de Vitória (CAV). Já lecionei em diversas outras escolas e, inclusive, desde o final de 2016, acumulo outra cadeira, na rede pública estadual. Dedico-me de coração ao ofício que escolhi, e empenho-me da mesma forma, independentemente de onde atue. Afinal, cada contexto educacional é um desafio e uma grande oportunidade de crescimento profissional e pessoal. No entanto, tenho que confessar que tenho uma ligação especial com a Educação Adventista. Afinal, trata-se de uma rede cujo objetivo vai muito além do ensino, educando para a eternidade. 

Nesse sentido, uso este espaço para fazer menção a um prêmio que recebi na manhã de hoje - o Prêmio Giz de Ouro (segmento: Ensino Médio). Foi uma grande honra recebê-lo das mãos dos administradores responsáveis pela Educação Adventista para os municípios do centro-norte do Espírito Santo. Sou grato a toda a equipe do CAV e da AES, bem como aos pais e alunos que acreditam em nosso trabalho. Podem acreditar que seguirei firme nessa missão de educar. E a todos que ainda não conhecem essa rede de ensino, fica o convite para que o façam.    

O Governo Sarney (1985-1989)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

José Sarney, em 28 de fevereiro de 1986. Na ocasião, ele anunciou ao país um conjunto de ações econômicas.

Tancredo Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral ao final do ciclo militar, morreu antes de tomar posse como presidente da República. O vice em sua chapa, José Sarney de Araújo Costa, assumiu então o posto presidencial em 15 de março de 1985 e governou até 15 de março de 1990. 

Sarney fora imposto ao PMDB e era um oposicionista de última hora, o que colocou o país numa situação ainda mais sensível. Além disso, carecia de autoridade na Aliança Democrática. Ele começou a governar com o ministério nomeado por Tancredo. Do ângulo político, as atenções se fixavam em dois pontos: na revogação das leis que vinham do regime militar estabelecendo ainda limites às liberdades democráticas - o chamado "entulho autoritário"; na eleição de uma Assembleia Constituinte, encarregada de elaborar uma nova Constituição. 

O grande mérito do governo do governo Sarney foi o respeito às liberdades públicas. Apesar disso, Sarney não rompeu alguns elos com o passou autoritário. Por exemplo, o Serviço Nacional de Informações (SNI) foi mantido e continuou a receber recursos substanciais. Em maio de 1985, foram estabelecidas eleições diretas para a presidência da República. Os analfabetos passaram a ter direito a voto e todos os partidos políticos foram legalizados. O PCB e o PC do B, no entanto, converteram-se em organizações minoritárias diante da crise do stalinismo e o crescente prestígio do PT nos meios de esquerda.

Nas eleições de novembro de 1985, foram eleitos deputados e senadores encarregados de elaborar a nova Constituição. Também foram eleitos os prefeitos de 201 cidades. O PMDB saiu-se numericamente bem, ganhando em 19 das 25 capitais. Nessas eleições, ficou claro que, se o populismo como sistema estava morto, algumas figuras políticas populistas (como Jânio Quadros, eleito prefeito de São Paulo) continuavam vivas. 

Em 1985, o quadro econômico era menos grave do que em anos anteriores. Havia um saldo na balança comercial de 13,1 bilhões de dólares. No entanto, subsistia o problema das dívidas interna e externa, bem como o da inflação (235,5 % em 1985). Ao final do ano, o ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, foi substituído por Dílson Funaro. A situação política e econômica se agravava. Assim, no dia 28 de janeiro de 1986, Sarney anunciou ao país o Plano Cruzado. 

Segundo o plano, o cruzeiro seria substituído pelo cruzado, na proporção de 1000 por 1; a indexação foi abolida; os preços e a taxa de câmbio foram congelados por prazo indeterminado e os aluguéis, por um ano. O salário mínimo foi reajustado e os reajustes posteriores seriam automáticos sempre que a inflação chegasse a 20%. Surgiram os "fiscais de Sarney", populares que ocupavam os supermercados na vã expectativa de que o congelamento de preços teria resultado. De qualquer modo, com os preços congelados, houve uma verdadeira corrida ao consumo, e o desequilíbrio das contas externas aumentava. Em novembro, quando se realizaram eleições, o Plano Cruzado já havia fracassado. 

A crise nas contas externas levou o Brasil a declarar uma moratória em fevereiro de 1987. Seguiu-se um clima de decepção e desconfiança por parte da população quanto aos rumos da economia. Nesse mesmo mês e ano, teve início o trabalho da Assembleia Nacional Constituinte, que estendeu-se até outubro de 1988. O texto da Constituição, quando afinal ela foi promulgada, foi muito criticado por entrar em temas que tecnicamente não são de natureza constitucional. Isso refletiu as pressões dos diferentes grupos da sociedade, e a Constituição refletiu o clima de instabilidade vivido pelo país. Além disso, a Carta Constitucional mostrou-se anacrônica na regulação da economia. Apesar disso tudo, a Constituição de 1988 refletiu o avanço ocorrido no país especialmente na extensão de direitos sociais e políticos aos cidadãos em geral e às minorias. 

Bibliografia consultada: FAUSTO, Boris. História do Brasil. Colaboração de Sérgio Fausto. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013, p. 439-448.

«A Consolação da Filosofia»

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Obra-prima da literatura e do pensamento europeu, A Consolação da Filosofia foi escrita no século VI por Boécio, então um prisioneiro submetido a torturas e condenado à morte. Um verdadeiro "Sócrates da Antiguidade Tardia", Boécio recorreu não à fé cristã, a fim de obter consolo, mas à filosofia de Platão e de Aristóteles. 

Leia essa obra aqui.  

O Homem Medieval e os Vícios

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard (França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 98, detalhe). A luxúria se encanta consigo mesma e desordena o mundo. O cavaleiro é um jovem, muito bem vestido. Montado em um bode com grandes testículos (personificação da luxúria), ele traz um pássaro, que seduz com seu canto. Na cena inferior, o diabo, de nome Smodeus, tem longos chifres. Com sua mão direita, ele parece impulsionar seu pecado: no centro da cena, uma mulher é assediada por três homens - um, inclusive, a agarra por trás. Exibida, ela parece apreciar a corte e a luxúria. À direita, uma senhora é violentada por um homem. Uma jovem de vestido vermelho assiste a tudo, em êxtase. 
Análise iconográfica adaptada de ricardocosta. 

    O homem da Idade Média vivia obcecado pelo pecado. Ele o cometia quando se entregava ao Demônio, quando se declarava vencido perante os portadores do pecado, os vícios. Para ele, esses vícios têm a forma de animais simbólicos, de alegorias ameaçadoras, encarnação dos pecados capitais que, no século XX, se constituíram em septenário: o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a ira, a inveja e a preguiça. Ou, então, adotam a forma falsamente sedutora das filhas do Diabo, casadas com os "estados" da sociedade. 

     O Diabo tem nove filhas que ele casou da seguinte forma: 
        a simonia desposou os clérigos seculares 
        a hipocrisia desposou os monges 
        a rapina desposou os cavaleiros 
        o sacrilégio desposou os camponeses 
        o fingimento desposou os oficiais de justiça 
        a usura desposou os burgueses 
        o luxo mundano desposou as matronas. 

   Tem ainda uma nona filha - a luxúria - que el não quis casar, mas que oferece a todas as pessoas como amante comum.     

Adaptado de: LE GOFF, Jacques. O Homem Medieval. In: LE GOFF, Jacques (dir.). O Homem Medieval. Tradução de Maria Vilar de Figueiredo. Lisboa: Presença, 1989, p. 25.

#Minorias Prostitutas

domingo, 9 de setembro de 2018

Jovem com uma prostituta. Xilogravura alemã do século XV, reproduzida com a permissão da Mary Evans Picture Library. 

1. As prostitutas eram parte integrantes da vida urbana na Idade Média, figuras familiares em poemas, histórias, canções, crônicas e registros de tribunais. Quase não existia uma cidade que não contasse com um bordel. Um observador do século XV estimou que havia de cinco a seis mil prostituas em Paris, dentro de uma população de 200 mil pessoas. As prostituas procuravam clientes nas tavernas, praças, casas de banho, até mesmo nas igrejas. Existiam também zonas conhecidas como da "luz vermelha", e até hoje muitas cidades medievais antigas possuem uma "Rua da Rosa".

2. Na Idade Média, as mulheres entravam para a prostituição basicamente pelas mesmas razões às que as levam a fazê-lo em qualquer época: pobreza, inclinação natural, perda de status, um passado familiar perturbado, violento ou incestuoso. Na Baixa Idade Média, surgiu uma hierarquia de atividades no negócio da prostituição. No topo da hierarquia encontrava-se o bordel municipal em plena atividade. Em seguida vinham as casas particulares menores, a prostituição nas casas de banho (a despeito da proibição) e, finalmente, as prostitutas autônomas que atuavam ao ar livre.    

3. A privacidade não era facilmente obtida no mundo medieval urbano, e as atividades das prostitutas eram frequentemente expostas à observação pública. Homens jovens e não-casados constituíam, provavelmente, o maior grupo de clientes servidos pelas prostitutas da Europa medieval. A prostituição era vista como um meio prático de permitir que os jovens de todas as classes sociais afirmassem sua masculinidade e aliviassem suas necessidades sexuais, evitando assim que se aproximassem de esposas e filhas respeitáveis.      

4. Clérigos, homens casados, judeus e leprosos não deveriam usar os bordéis e muitas vezes eram especificamente excluídos pelos regulamentos que os regiam. Mas, na realidade, ainda assim os frequentavam. Um pesquisador calculou que o clero constituía 20% da clientela das casas de banho e bordéis privados de Dijon, na França. No entanto, isso não lhes angariava desaprovação, uma vez que se esperava que todos os jovens não-casados fornicassem, e os pais e maridos preferiam que clérigos jovens e bonitos usassem as prostitutas em vez das mulheres de suas famílias. 

5. A prostituição foi essencialmente um produto das cidades, e, à medida em que as cidades cresceram e se expandiram, a partir dos séculos XI e XII, a prostituição passou a ser cada vez mais vista como um fenômeno social que precisava de regulamentação. Assim, a Igreja, as monarquias nacionais emergentes e as municipalidades urbanas tomaram medidas para lidar com isso. A lei canônica diferenciava a prostituição (envolvendo sexo com muitos homens) do concubinato (envolvendo sexo com uma pessoa, mas fora do casamento formal). Os canonistas denunciavam a prostituição, mas, seguindo santo Agostinho, a viam como um mal necessário. 

6. Mesmo assim, a Igreja buscava uma contenção muito cuidadosa em relação à prostituição. Em primeiro lugar, as prostitutas tinham que ser diferenciadas da população decente por meio de uma marca de infâmia, e tinham que ser segregadas. Deste modo, a partir do século XIII surgiram códigos de vestimenta distintivos (muitas vezes a aiguillette, uma corda com nós pendente do ombro e de cor diferente do vestido) e zonas da "luz vermelha". Além disso, a Igreja colocava ênfase na perspectiva da regeneração e instava as prostituas a casarem e abandonarem a profissão. Em 1227, foi criada a Ordem de Santa Maria Madalena, estabelecida para administrar casas para prostitutas regeneradas.

7. O rei Henrique II da Inglaterra, em 1161, estabeleceu regulamentações para os bordéis de Southwark. Fora das muralhas da cidade, Southwark evoluiu para se tornar a zona da "luz vermelha" de Londres. O objetivo dele e de outros monarcas era o de criar centros ordeiros e eficientes para a satisfação sexual que, na medida do possível, não ofendesse a decência pública. Além da coroa, as autoridades municipais também passaram a ter essa meta, que incluía não apenas a segregação das prostitutas, mas também a busca do cumprimento da regulamentação do vestuário. Apesar dos esforços, os registros dos tribunais revelam a tendência inexorável da prostituição a se espalhar.   

8. As prostitutas e os bordéis eram claramente vistos como constituindo um perigo para a ordem e a moral públicas. Assim, com o apoio da coroa, o conselho municipal de Londres impôs um toque de recolher em 1393. Em 1417 (e, depois, em 1422) o conselho decretou o fechamento de todos os bordéis dentro da cidade, queixando-se que sua presença levava a "muitos agravos, abominações, danos, perturbações, assassinatos, homicídios, furtos e outros prejuízos comuns." A recorrência de tais ordens a intervalos regulares ao longo da Idade Média revela o quão vã era a esperança de um controle firme e permanente para o problema da prostituição. A copulação ilícita grassava dentro e fora das muralhas da cidade.  

9. Na França, o rei Filipe Augusto (1180-1223) incentivou a prostituição em Paris, a fim, dizia-se, de desencorajar a homossexualidade entre os estudantes. Seu neto, Luís IX (1226-1270), por outro lado, procurou banir as prostitutas públicas das cidades e de seus arredores rurais. Seu filho, Filipe III (1270-1285), encarregou os meirinhos reais, em 1272, de eliminar a blasfêmia, o jogo e os bordéis. Filipe IV (1285-1314), neto de Luís, colocou os funcionários reais no Languedoc à disposição dos cidadãos que quisessem expulsar prostitutas de áreas respeitáveis. Em 1367, sob o reinado de Carlos V (1364-1380), as prostituas foram confinadas a ruas designadas; caso desobedecessem, seriam banidas da cidade. Isso se tornou a política real oficial nos 150 anos seguintes.  

10. Outro passo foi o estabelecimento de bordéis de propriedade municipal. Toulouse estabeleceu um entre 1363 e 1372, e Castres a seguiu em 1391. Onde não existia uma população suficientemente numerosa ou tolerância bastante para com a prostituição para que se instalasse um bordel municipal, era observado o costume de "uma vez por semana". Com aprovação oficial, as prostitutas podiam pernoitar na cidade uma vez por semana, costume que corrobora o fato de que seu lugar costumeiro era fora da cidade.    

11. Os bordéis municipais podiam ser arrendados a quem oferecesse mais, podiam ser administrados por uma organização municipal de caridade com os lucros indo para a caridade ou, quando eram pequenos demais para dar lucro, podiam ser administrados como empresas de caráter não-lucrativo. Era possível lucrar com a manutenção de bordéis, como prova a dominação da manutenção de bordéis privados pela nobreza e a alta burguesia. A Igreja também arrendava lucrativamente propriedades a mantenedores de bordéis e, próximo ao final da Idade Média, o papado faturava 28 mil ducados por ano com os imóveis que arrendava com este propósito. 

12. A fórmula clássica presente nos documentos do Languedoc para justificar um centro autorizado de prostituição era que um lugar se fazia necessário para "evitar um mal maior". este mal maior era o mau exemplo que a prostituição dava, além do perigo das mulheres serem seduzidas para aquela vida. A ideia de fazer com que ficassem confinadas a bordéis, administrados pela "abadessa", possuía uma certa simetria. Num extremo da escala, mulheres celibatárias em conventos de freiras levavam vidas que imitavam a da Virgem; no outro extremo, mulheres públicas enclausuradas expiavam o pecado de Eva satisfazendo os desejos masculinos. Assim, os bordéis públicos eram um aspecto não da permissividade moral, mas do rigor moral.    

13. Muitas vezes as autoridades municipais recrutavam mulheres estrangeiras para os bordéis a fim de que as mulheres locais não fossem conspurcadas. Juntamente com a sacralização do casamento, o aumento da perseguição aos homossexuais e da preocupação da Igreja com a masturbação, vinha o desejo de canalizar o impulso de fornicação no sentido de um refúgio aceitável. Este "porto seguro" era o bordel oficialmente administrado, controlado e inspecionado, cuja mão de obra era composta de mulheres estrangeiras e que era mantido fora da vista dos cidadãos respeitáveis. 

14. A posição oficial das prostituas se assemelhava assim à dos judeus ou à dos leprosos. Todos os três grupos eram obrigados a usar roupas especiais e eram cada vez mais segregados. Além disso, todos os três eram estimulados a se arrepender e a se regenerar. Como os judeus, as prostitutas desafiavam o ensinamento da Igreja, mas deviam ser igualmente toleradas. A razão? Ambos desempenhavam uma função necessária, ainda que repulsiva: a usura (os judeus) e o sexo (as prostitutas). Como os leprosos, as prostitutas eram privadas de direitos civis, apesar de evidências de que houve uma melhora em sua posição legal.  

15. A mudança decisiva em relação à prostituição se deu no século XVI. O fechamento dos bordéis se deu tanto pelo efeito cumulativo da epidemia de sífilis, que varreu a Europa no início desse século, quanto e principalmente pela pressão moral oriunda do protestantismo, o qual exigia a castidade antes do casamento e visualizava uma sexualidade ativa dentro da relação matrimonial, mas não estava absolutamente inclinado à tolerância em relação à fornicação da juventude. Logo a Contrarreforma buscou se equiparar à Reforma em rigor moral e na repressão à imoralidade sexual. Assim, tanto protestantes quanto católicos passaram a ver a prostituição como algo a ser reprimido e não incentivado, ainda que dentro de limites estritamente definidos.  

Bibliografia consultada: RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação - as minorias na Idade Média. Tradução de Marco Antônio Esteves da Rocha e Francisco José Silva Gomes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

A Sociedade de Ordens - II

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A imagem da sociedade feudal. 
A primeira parte deste conteúdo está disponível aqui. 

Adalberon de Laon, por volta de 1030, distinguiu três componentes na sociedade cristã: oratores, bellatores e laboratores, ou seja, os que rezam, os que combatem e os que trabalham. Isso corresponde ao panorama social após o ano mil. 

Em primeiro lugar, afiguram os clérigos e, especialmente, os monges (o bispo Adalberon reconheceu, com azedume, o seu poder). Sua função era a oração, o que os colocava em ligação com o mundo divino e lhes conferia um enorme poder espiritual na Terra. A seguir, vinham os guerreiros e, nomeadamente, o novo estrato social dos que combatiam a cavalo e que acabou por se transformar numa nova nobreza, a cavalaria, que protegia pelas armas as outras duas classes. Finalmente, o mundo do trabalho, representado essencialmente pelos camponeses, cujas condições jurídico-sociais tendiam a unificar-se e que, com o produto do seu trabalho, possibilitavam a existência das outras duas ordens. 

Sociedade aparentemente harmônica, na qual os trabalhadores usufruíam de uma promoção, se não social, pelo menos ideológica. De fato, o esquema ideológico não tardou a juntar-se à realidade social, reforçando-a: a aplicação do esquema bíblico dos três filhos de Noé ao esquema trifuncional, permitiu subordinar a terceira ordem às outras duas; tal como Cam, o mais irreverente nas suas relações com o pai, se tornou escravo dos dois irmãos, Sem e Jafé. O esquema, aparentemente igualitário, reforça a desigualdade social existente entre as três ordens.   

Adaptado de: LE GOFF, Jacques. O Homem Medieval. In: LE GOFF, Jacques (dir.). O Homem Medieval. Tradução de Maria Vilar de Figueiredo. Lisboa: Presença, 1989, p. 15.