“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Dia do Cortador de Cana-de-Açúcar

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cortadores de açúcar, de Militão dos Santos.

Açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu do açucareiro por milagre. 

Vejo-o puro 
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim. 

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina. 

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale. 

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

Ferreira Gullar (1930-2016)

Dicionários Especializados

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Disponibilizarei aqui alguns dicionários especializados, das áreas de Linguagens e Ciências Humanas e Sociais. Pretendo ampliar o acervo assim que tiver acesso a outros títulos. Reitero que não há, de minha parte, qualquer interesse financeiro em oferecer tais materiais - o download é gratuito e o blog não é monetizado.

Dicionário de Conceitos Históricos

Dicionário de Filosofia

Dicionário do Latim Essencial

Dicionário de Política

Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Marco Túlio Cícero 
Arpino, 106 a.C. - Fórmia, 43 a.C. 

Nascido num dia 3 de janeiro, tal como hoje, era filho de um cavaleiro. Desde menino, brilhou por seus dotes naturais, sua decantada agudeza e sua inteligência nos estudos. Embora não desprezasse nenhum ramo do saber, dedicou-se com maior ardor à poesia. Após sua morte, contudo, sua poesia caiu em completo abandono e descrédito. Sua oratório, no entanto, permanece insuperável até hoje. 

Concluído os estudos da infância, recebeu lições de Fílon, o Acadêmico. Militou, por algum tempo, sob as ordens de Sila, na guerra dos marsos. Depois, notando que a república se precipitava numa luta de facções e daí numa ditadura absoluta, voltou-se para uma vida de serenidade e meditação, no convívio de eruditos gregos. Cícero deixou-nos muitas obras, dentre elas, A Carta do Bom Administrador Público

Cícero era magro e, por problemas estomacais, fazia apenas refeições leves. Sua voz, porém, era cheia e forte, sem embargo, seca e sem modulação; sua eloquência violenta e emocionada, por isso sempre impelida para tons elevados, causava apreensões por sua saúde. 

Ambicioso por natureza e estimulado pelo pai e por amigos, Cícero dedicou-se à advocacia. Nessa carreira ele subiu gradualmente, até ser um dos maiores juristas romanos. Em relação à sua vida conjugal, Plutarco nos diz que era dominado pela esposa, Terência, "mulher de temperamento exaltado" (Cícero, 29). 

Nomeado questor por ocasião de uma escassez de trigo, coube-lhe por sorte a Sicília, onde inicialmente causou mal-estar, mas depois passou a ser muito querido pela população. Ingressando com entusiasmo na política, habituou-se a memorizar nomes e outros detalhes da vida de seus concidadãos. Mesmo com o sucesso, o seu patrimônio era modesto - uma bela herdade em Arpino, sua cidade natal, e duas fazendas. 

Tornou-se pretor após uma disputa acirrada. Graças ao apoio conjunto dos partidos aristocrático e popular, foi alçado ao posto de cônsul, em 63 a.C. Seu colega no consulado era Caio Antônio. Catilina, filho de um senador, foi derrotado na disputa e, com a incitação de veteranos de Sila, passou a conspirar, mas foi novamente derrotado na disputa seguinte para o consulado. Assim, seus homens reuniram-se na Etrúria, formando companhias para uma guerra civil. Suas atividades foram prontamente denunciadas, e Cícero pronunciou suas Catilinárias contra os conspiradores. Abandonado pela maior parte de seus asseclas, Catilina foi morto em combate. A Cícero foram então votados as mais altas e inéditas honrarias, o que incluiu o título de "Pai da Pátria". Era o auge do seu poder em Roma. 

Cícero usava e abusava de motejos contra seus rivais na política romana (cf. o post Cícero, o gozador). Isso fez com que ele se tornasse odioso para uma grande parte da aristocracia. Segundo Plutarco, Cícero ofendia as pessoas "indiscriminadamente por amor do riso", o que granjeou-lhe muita antipatia (Cícero, 27). 

Quando se formou o primeiro triunvirato (Pompeu, Crasso e Júlio César), Cícero inicialmente se aproximou de César, uma vez que Crasso o combatia frontalmente. Depois, no entanto, se afastou do conquistador das Gálias e procurou retomar sua carreira política em Roma, sendo atraído pelo tribuno Clódio, que veio a enganá-lo, a persegui-lo e, finalmente, a expulsá-lo da Itália. Pompeu, no entanto, passou a defender a repatriação de Cícero. Ao ser reabilitado, tornou-se um dos sacerdotes áugures, em lugar de Crasso, depois que este morreu na Batalha de Carras (53 a.C.). Na sequência, governou a Cilícia, pacificando-a e mantendo a Capadócia amiga do rei Ariobarzanes. Quando regressou a Roma, a situação já se encaminhava para uma guerra civil. 

Cícero optou pelo lado de Pompeu na guerra civil, o que lhe valeu muitas recriminações por parte de Catão. Na Batalha de Farsalos (48 a.C.), que Cícero não participou por estar doente, César obteve uma vitória esmagadora. Pompeu fugiu, sendo assassinado no Egito. Cícero, por sua vez, fugiu para a Itália, onde veio a se encontrar com César, que o perdoou e o tratou com honra. A seguir, Cícero abandonou a vida pública, passando a viver em Túsculo e dedicando-se ao ensino e à Filosofia. Divorciou-se de Terência e contraiu novas núpcias, com uma donzela riquíssima. 

Cícero não participou da conspiração de Bruto e Cássio contra César, mas defendeu a anistia para os traidores após o assassinato do dictator. Não foi atendido e, logo a seguir, deu-se a rápida ascensão de Marco Antônio. Como a hostilidade se estabeleceu entre os dois, Cícero se aproximou do jovem Otávio, a quem César deixara em testamento a fortuna e a herança de seu nome. Ocorreu que, "uma vez crescida sua autoridade e assumido o consulado, o moço [Otávio] mandou Cícero às urtigas, conciliou a amizade de Antônio e Lépido fazendo causa comum e com eles repartiu a autoridade, como um bem privado qualquer" (Cícero, 46). O segundo triunvirato preparou então a lista daqueles que deveriam ser proscritos (mortos e seus bens confiscados). Cícero acabou incluído, e o relato dramático da decisão dos triúnviros pode ser lida aqui

A cabeça e as mãos de Cícero foram decepadas e expostas no fórum. Isso foi uma vingança post mortem perpetrada por Marco Antônio, alvo das Filípicas de Cícero.

Adaptado de PLUTARCO. Cícero. In: Vidas. Apresentação, seleção e tradução direta do grego por Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1963, p. 200-235.     

A Origem da Revolução Industrial

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Manchester e Salford ainda na fase pré-industrial. Em algumas décadas, essa paisagem iria se alterar profundamente. Ilustração de John Harris, c. 1734. 

1. Em primeiro lugar, a Revolução Industrial não foi uma mera aceleração do crescimento econômico, mas uma aceleração de crescimento em virtude da transformação econômica e social - e através dela. Depois, a revolução britânica foi a primeira na história. Sendo a primeira, ela também foi, em aspectos cruciais, diferente de todas as subsequentes revoluções industriais. As revoluções posteriores puderam utilizar a experiência, o exemplo e os recursos britânicos. Só em grau muito limitado e secundário a Grã-Bretanha pôde utilizar os de outros países.     

2. Apesar disso, a Revolução Industrial não pode ser explicada em termos puramente britânicos, uma vez que esse país fazia parte de uma economia mais ampla, a "economia europeia" ou "economia mundial dos Estados marítimos europeus". O mundo "adiantado" estava ligado ao mundo dependente por uma certa divisão da atividade econômica: de um lado, uma área relativamente urbanizada, e de outro zonas produzindo e em grande parte exportando produtos agrícolas ou matérias-primas.    

3. Fatores climáticos, geografia e distribuição de recursos naturais não atuam por si sós, mas apenas dentro de um dado quadro econômico, social e institucional. Isto é verdade até em relação ao mais forte desses fatores, facilidade de acesso ao mar ou a bons rios. É quase inconcebível que uma região inteiramente sem acesso ao mar pudesse ter sido a pioneira da Revolução Industrial, por exemplo. Todavia, ainda aqui os fatores não-geográficos não devem ser desprezados. As explicações para a Revolução Industrial em termos de "acidentes históricos", a partir da Reforma Protestante ou a partir dos fatores puramente políticos também devem ser rejeitados.  

4. As principais condições para a industrialização já existiam na Grã-Bretanha setecentista ou podiam ser criadas facilmente. O país não era subdesenvolvido, pelos padrões geralmente aplicados aos países "subdesenvolvidos" atualmente, embora o fossem em partes da Escócia e do País de Gales e sem dúvida a Irlanda. É muito duvidoso, por exemplo, que em 1750 existisse na Inglaterra um campesinato dono de terras em grande parte do país, e certamente não existia mais uma agricultura de subsistência. O país acumulara capitais e tinha dimensões suficientes para permitir-se investimentos nos equipamentos necessários à transformação econômica.    

5. Não havia escassez de capital, relativa ou absoluta, e a Grã-Bretanha não era simplesmente uma economia de mercado, mas em muitos sentidos formava um único mercado nacional. E possuía um setor manufatureiro extensivo e bastante desenvolvido, bem como uma estrutura comercial ainda mais desenvolvida. 

6. Os transportes e as comunicações eram baratos, uma vez que nenhuma parte da Grã-Bretanha achava-se a mais de 112 Km do mar e menos ainda de algum curso de água navegável. Os problemas tecnológicos do começo da Revolução Industrial eram bem simples, e a maioria das inovações técnicas exigiam pouco investimento inicial e sua expansão podia ser financiada com a acumulação dos lucros.      

7. O desenvolvimento industrial, portanto, achava-se dentro das possibilidades de grande número de pequenos empresários e artesãos tradicionais hábeis. Nenhum país do século XX que se disponha à industrialização tem, ou pode ter, qualquer uma dessas vantagens. Não significa que não tenha havido obstáculos no caminho da industrialização britânica, mas esses obstáculos eram de fácil superação.      

8. Como surgiram na Grã-Bretanha do século XVIII as condições que levaram os homens de negócios a revolucionarem a produção? Há duas correntes de opinião com relação a este ponto. A primeira salienta principalmente o mercado interno, que era, de longe, o maior escoadouro para os produtos do país; a segunda realça o mercado de exportação, muito mais dinâmico e seguro. Ambos, na verdade, eram essenciais, cada um a seu modo, como também era essencial o governo.   

9. A questão da população também é importante. Ela duplicou em 50 ou 60 anos depois de 1780, voltando a duplicar nos 60 anos entre 1841 e 1901. Na primeira metade do século XVIII, e mesmo até 1780, a área de Londres poderia ter-se despovoado, se não fosse a imigração do interior. Por outro lado, a população do futuro centro de industrialização, o noroeste do país e a porção leste das Midlands, aumentou muito rapidamente. Mais gente significa mão de obra em maior quantidade e mais barata, e isto pode retardar a industrialização (a população crescia em toda a Europa setentrional, mas a industrialização não ocorria em toda parte). Na Inglaterra do século XVIII, no entanto, uma força de trabalho em crescimento ajudou a industrialização porque a economia já era dinâmica, e não porque alguma multiplicação populacional a tenha dinamizado.  

10. É provável que a renda inglesa média tenha crescido substancialmente na primeira metade do século XVIII, época em que também ocorreram melhorias muito substanciais e dispendiosas em transportes - por rios, canais e mesmo estradas de rodagem - o que diminuiu o custo proibitivo de movimentar cargas terrestres.   

11. A base pré-industrial da indústria de carvão era muito mais sólida que a da indústria de ferro, de modo que a verdadeira Revolução Industrial para o ferro e o carvão precisou esperar até que a era das estradas de ferro abrisse um mercado de massa, não só para bens de consumo como também para bens de capital.   

12. Enquanto o mercado interno proporcionou amplos fundamentos para uma economia industrial generalizada, a produção de algodão, a primeira a se industrializar, estava vinculada essencialmente ao comércio ultramarino. 

13. Ao contrário de alguns de seus concorrentes em potencial, como a França, a Grã-Bretanha estava disposta a subordinar toda a política externa a objetivos econômicos. Na guerra, suas metas eram comerciais e navais. Ao contrário de outros (como a Holanda), seus objetivos econômicos não eram dominados exclusivamente por interesses comerciais e financeiros; eram influenciados também, e cada vez mais, pelo grupo de pressão formado pelos produtores manufatureiros. Por fim, também ao contrário de todos seus rivais, a política britânica no século XVIII era de agressividade sistemática     

14. O resultado desse século de guerras intermitentes foi o maior triunfo jamais obtido por qualquer Estado: o virtual monopólio, entre todas as potências europeias, de colônias externas e o virtual monopólio de poder naval em escala mundial. Além disso, a própria guerra fazia expandir as exportações e contribuía, ainda mais diretamente, para a inovação tecnológica e para a industrialização. 

15. A grande depressão econômica do século XVII encerrou o padrão tradicional da expansão europeia - mediterrânea e baseada nos mercadores italianos, seus associados, conquistadores ibéricos, ou báltica e baseada nas cidade-Estado alemãs. Assim, houve um deslocamento geográfico e estrutural para os Estados marítimos à margem do Mar do Norte e do Atlântico Norte. O novo relacionamento entre as áreas "avançadas" e o resto do mundo passou a tender constantemente a intensificar e alargar os fluxos de comércio. A economia industrial britânica desenvolveu-se a partir de seu comércio, e sobretudo seu comércio com o mundo subdesenvolvido. 

Bibliografia consultada: HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Tradução de Donaldson Magalhães Garschagen. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1986, p. 33-52.

A Posse do 38º Presidente do Brasil

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Jair Bolsonaro se emociona durante o desfile em carro aberto. Ao lado, a esposa Michelle o consola, e o filho Carlos observa tudo, atrás. 

Eleito com 57,8 milhões de votos, o capitão reformado do Exército brasileiro Jair Messias Bolsonaro (PSL), de 63 anos, tomou posse hoje como o 38º presidente da República Federativa do Brasil. 

A cerimônia foi emocionante, com destaque para público recorde e discursos breves e efusivos do presidente, além de quebra da protocolo da primeira-dama, que discursou antes do esposo, e em Libras, no parlatório. 

Independentemente das opções ideológicas de cada um, precisamos reconhecer que a democracia está viva no Brasil. Existe alternância de poder, as minorias são ouvidas e as mulheres têm um papel de relevo. É verdade que o preço da democracia é a eterna vigilância, e continuaremos vigilantes. Mas também precisamos comemorar a posse histórica de hoje.   

Concubinato e Matrimônio na Colônia

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Casamento de negros escravos em uma casa rica, pintura de Jean-Baptiste Debret (1768-1848). 

1. Sequiosos de prazer sexual, os colonos da América portuguesa resistiram ao casamento desde o século XVI. Além de preferirem amasiar-se, segundo a historiografia tradicional, a maioria da população tinha dificuldades em atender às exigências burocráticas e financeiras do matrimônio eclesiástico, além de enfrentar a instabilidade social e a mobilidade espacial. No caso dos escravos, havia ainda a tradicional oposição dos senhores ao seu matrimônio.    

2. O casamento era relativamente escasso. A união oficial praticamente se restringiu à elite branca ligada à terra, ao comércio ou aos cargos públicos, sendo, portanto, uma opção das "classes dominantes", motivado por interesses patrimoniais ou de status, restando o concubinato como alternativa sexual e conjugal para os demais estratos da colônia.   

3. Na perspectiva eclesiástica, o concubinato aludia a uma relação intermediária entre a simples fornicação e o adultério. Ele era antes definido pela durabilidade e publicidade do que pela coabitação. Enquanto, na Europa, o concubinato tenha entrado em franco declínio desde o século XVII, na colônia ele cresceu desde o século XVI.   

4. O mundo dos concubinatários, vemo-lo na correspondência jesuítica do século XVI, entre os amores de índias e colonos, que tanto inquietaram os jesuítas; vemo-lo, um pouco, entre os personagens da primeria visitação inquisitorial ao Nordeste; e, ainda, nos tratados morais dos séculos XVII e XVIII. Mas era sobretudo na documentação das visitas diocesanas que o concubinato aparece de maneira mais completa.    

5. Casar-se com índias a quem viam como "solteiras", prostitutas ou amásias, eis uma ideia jamais cogitada pela maioria dos portugueses chegados ao Brasil no século XVI. Às mancebas índias dos primeiros lusitanos somar-se-iam as negras, mulatas, mamelucas e mesmo as brancas pobres nos séculos XVII e XVIII. Muitos solteiros viviam amancebados anos a fio, preferindo a morte à vergonha de esposar mulheres infamadas pelo sangue, pela cor ou pela condição social.   

6. Apesar disso, muitos amancebamentos eram autênticas paixões e casos de amor entre senhores e escravas, como no lendário romance entre o contratador João Fernandes e a escrava Xica da Silva, no distrito Diamantino do século XVIII. Nesse mesmo século, na Bahia, um rico proprietário de escravos amava tanto a sua escrava-concubina que chegou a conceder-lhe em testamento a liberdade, a propriedade da casa e três escravos, "com a condição de que ela permanecesse solteira".       

7. A tendência geral era, porém, a de confundir exploração social e sexual, unindo-se os senhores, casados ou solteiros, às negras e mulatas da casa-grande ou da senzala, a despeito do tour de force jesuítico inspirado pelo Concílio de Trento. Assim como o papa Alexandre VI tolerou a criada-concubina que fosse indispensável ao serviço do seu amo, também as Constituições de 1707 curvaram-se aos hábitos coloniais, reconhecendo tacitamente o direito dos senhores de se amancebarem com suas escravas.     

8. Prostituição de escravas à parte (às vezes com o objetivo de que elas engravidassem), o concubinato de brancos com negras ou mulatas era sobretudo uma faceta da exploração escravista, extensiva à própria miséria. Senhores, mercadores e burocratas não só abusavam sexualmente das cativas, como de mulheres pobres ou desamparadas, lhes serviam de amantes. Até mesmo autoridades, juízes e governadores foram pródigos em conceder favores ou dinheiro a mulheres humildes, "tirando-as da miséria", protegendo-as da Justiça, convidando-as para saraus e comédias palacianas em troca de prazeres sexuais.  

9. Aqueles que ousassem casar com mulheres de cor ou cristãs-novas ficavam impedidos de concorrer aos quadros burocráticos da monarquia; ingressar nas Ordens Militares de Cristo, Aviz e Santiago; integrar o clero; obter vereanças nas câmaras municipais; associar-se a certas irmandades, misericórdias, instituições de caridade e outras - além de igualmente bloquearem toda a sua descendência. Assim, foram raros os casamentos mistos no Brasil colonial.  

10. Entre os escravos de origem africana, o reduzido número de casamentos decorria, antes de tudo, das imposições do tráfico, cujo objetivo era abastecer de braços fortes a lavoura tropical e as minas, e por isso mesmo composto majoritariamente de homens. Impossibilitados de se casar por falta de mulheres em igual condição social, os escravos ainda o seriam pela má vontade dos senhores. Até os franciscanos, em 1745, proibiram matrimônios que envolvessem escravos dos conventos. Assim, o concubinato nas senzalas era tolerado e incentivado pelos senhores.  

11. Segundo Antonil, os próprios senhores amiúde promoviam os amancebamentos e determinavam os parceiros, formando e desfazendo uniões a seu bel-prazer, conforme as suas próprias conveniências. Mesmo entre os escravos legalmente casados, costumavam interferir e separar casais por meio da venda ou qualquer expediente. As relações amorosas entre os escravos, portanto, foram provavelmente as mais difíceis de firmar, as mais precárias e vulneráveis de quantas houve na colônia.  

12. No século XVIII, a Coroa portuguesa empenhou-se em aumentar o número de matrimônios e combater os concubinatos no Brasil - temerosa do crescimento dos mestiços e das "desordens" que se lhes atribuía -, chegou mesmo a afirmar que a Igreja agia em sentido contrário, dificultando o casamento com a imposição de taxas onerosas, só acessíveis à elite colonial. 

13. Processos inquisitoriais contra bígamos indicam que, para se casarem na metrópole ou na colônia, numa segunda ou terceira vez, muitos homens e mulheres mudavam de nome, apregoavam-se solteiros, forjavam testemunhas de seu estado, e logo corria o processo. Assim, casar-se no Brasil parecia ser muito fácil, exceto no caso de haver notório impedimento canônico apurado nos pregões. Pouco sabemos sobre o eventual pagamento de taxas matrimoniais, mas quanto ao processo burocrático em si, bastava ao contraente proclamar-se solteiro e apresentar indivíduos que confirmassem seu nome e sua versão, e logo corriam os pregões e celebrava-se o matrimônio.    

14. Para Ronaldo Vainfas, os segmentos pobres deixavam de se casar no Brasil não pela impossibilidade de superar os obstáculos financeiros e burocráticos exigidos pelo matrimônio oficial, nem muito menos por terem escolhido qualquer forma de união oposta ao sacramento católico. Amancebavam-se por falta de opção, por viverem, em sua grande maioria, num mundo instável e precário. Forros, brancos pobres, mestiços, pardos, gente que vivia à cata de alguma oportunidade que lhes amenizasse a miséria, por que haveriam de se casar? 

15. A promiscuidade em que viviam os pobres não raro os levava a concubinatos incestuosos, a relações sexuais e amorosas entre irmãos, ou entre tio e sobrinha. Entre os miseráveis, como nas relações entre senhores e escravas, vários concubinatos, e até casamentos, mal se distinguiam da prostituição e da alcovitagem, solução que muitos encontravam para atenuar a pobreza ou escapar da indigência.   

Bibliografia consultada: VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997, p. 77-95.

A Explicação Histórica

domingo, 30 de dezembro de 2018


Segunda Parte - Compreensão 
Cap. VII Compreender a intriga 

A história não se contentaria em ser meramente uma narrativa; ela deve explicar. Esse é o reconhecimento de que ela não explica sempre, e que pode não explicar sem deixar de ser história. "A História não ultrapassa nunca este nível de explicação muito simples; ela permanece fundamentalmente uma narrativa e o que chamamos explicação não é mais do que o modo que a narração tem de se organizar numa intriga compreensível" (p. 115). Ora, falar de explicação é dizer muito ou bem pouco. 

"Explicar" tem dois sentidos. A explicação história, em seu primeiro sentido, é "uma difícil conquista científica, concretizada neste momento sobre somente alguns pontos do campo acontecimental (...)" (p. 116). No sentido científico, não existe explicação histórica. Explicar, num segundo sentido, da parte de um historiador, significa "mostrar o desenvolvimento da intriga, fazer compreendê-la". "O historiador interessa-se pelos acontecimentos pela única razão de que eles tiveram lugar e não são para ele uma ocasião de descobrir leis (...)" (p. 116). 

O historiador refaz nas fontes a aprendizagem de um diplomata ou de um militar, por exemplo; utiliza, igualmente, algumas verdades científicas "mas utiliza sobretudo verdades que fazem de tal modo parte do nosso saber cotidiano que quase não é necessário mencioná-las (...)" (p. 117). 

No mundo sublunar da história coexistem liberdade, acaso, causa e fins. Isso está em oposição ao mundo da ciência, que só conhece leis. Na quintessência da explicação histórica, apenas "a clareza que emana duma narrativa suficientemente documentada (...)." Para ser verdadeiro historiador, basta ser homem. "A história não explica, no sentido em que ela não pode deduzir e prever (...)" (p. 118). Por exemplo, quando pedimos que nos expliquem a Revolução Francesa, queremos uma análise dos antecedentes que a desencadeou - "a explicação não é outra coisa senão a narrativa desses antecedentes (...)". As causas, na verdade, são os diversos episódios da intriga. "É um preconceito acreditar que a história é uma coisa à parte e que o historiador se entrega a misteriosas operações que conduziriam à explicação histórica" (p. 119). 

A palavra "causa" é muito mais utilizada nos livros sobre a história do que nos livros de história. Para Seignobos, é impossível determinar as causas principais - "todas seriam causas de parte inteira". Isso é uma dupla ficção. O historiador desenvolve "uma narrativa cujos episódios se sucedem e na qual os atores e fatores estimulam os seus atos." Ninguém será menos historiador se não desvendar um "culpado" caso os documentos sejam insuficientes (p. 120). O historiador não-acontecimental sabe que a história é feita de "coisas que poderiam ser outras", e em história, explicar é explicitar (p. 121). 

"É vão opor uma história narrativa a uma outra que teria a ambição de ser explicativa; explicar mais é contar melhor, e de qualquer modo não se pode contar sem explicar (...)." Nesse sentido, Veyne deixa claro que a história é narração, somente. (p. 122) A metáfora dos ritmos temporais múltiplos é justificada pela desigual resistência à mudança dos diferentes pólos de ação. (p. 123)  

A pluralidade dos tempos históricos: A) os inovadores de uma época são mais raros que os imitadores; B) o historiador não deve limitar-se "ao que os documentos dizem preto no branco (...)". Todo fato é, simultaneamente, causador e causado. (p. 124) 

Um mínimo fato histórico comporta: 1º) o acaso; 2º) causas materiais e 3º) a liberdade (causas finais). A insistência no acaso é típico de concepções clássicas da história; a insistência sobre a causa final é própria de uma concepção idealista da história; finalmente, a insistência sobre a causa material é próprio da concepção marxista da história. O conflito dessas concepções já foi resolvido há uns dois milênios. (p. 125). 

Por muito longe que penetre a explicação histórica, ela não encontrará nunca o limite. Longe de ser uma construção escalonada (há aqui uma crítica ao esquematismo marxista), a história "é um monólito no qual a distinção das causas, dos fins e dos acasos é uma abstração." Os historiadores sempre terão explicações incompletas, visto que não podem "ser uma regressão ao indeterminado." Aonde quer que queiram ir, sempre pararão sobre um destes três aspectos de qualquer ação humana (p. 126). A seguir, Veyne discorre sobre as causas materiais (o marxismo) (p. 127-128).

Causas finais: mentalidade e tradição
Quanto às causas finais, se as tomarmos por uma ultima ratio, a explicação reveste-se das figuras míticas da mentalidade e da tradição. (p. 128) Neste contexto, "a última palavra da explicação histórica seria então de procurar na existência de 'micro-climas' mentais (...)" (p. 129).

Acaso e causas profundas
Causa profunda: difícil de se perceber, resume numa palavra toda a intriga. (p. 130)
Causas superficiais: as mais eficazes, "aquelas em que é maior a desproporção entre seu efeito e os seus custos (...)" (p. 131). "A distinção entre ocasiões e causas profundas baseia-se na ideia de intervenção" (p. 132). As causas profundas decidem do que acontece, se acontece. As causas superficiais, por sua vez, decidem se acontece, ou não.

A história não tem linhas gerais. O acaso histórico deve ser encarado diferentemente do caso de um acontecimento isolado, do caso da história vista globalmente. (p. 133). A história não tem profundezas e tampouco é racionalizável. "As linhas gerais da história não são didáticas (...)". É preconceito pensar que a história de cada época tem os seus "problemas" e se explica por meio deles (p. 134).

A história não tem método (seu método é inato); implica uma questão de entendimento e só apresenta dificuldade de pormenor. Assim como a realidade que está à nossa volta, o passado possui três espécies de causas: natureza das coisas, liberdade humana e acaso. (p. 135)

"Na reconstrução da verdade, o historiador submete-se às mesmas normas que os sábios; nas suas inferências, na procura das causas, ele obedece às mesmas leis gerais do pensamento que um físico ou um detetive." (p. 136)

A explicação histórica não pode apelar para nenhuma estrutura permanente. Encontramos na história uma forma de explicação que nós de certa forma já sabíamos (e é por isso que a história é familiar). A historiografia nunca teve um Galileu ou um Lavoisier. O seu método não fez qualquer progresso desde Heródoto ou Tucídides. O que progrediu foi a crítica histórica e, sobretudo, a tópica histórica. (p. 137).

A metodologia histórica não tem um conteúdo determinado. Os historiadores, e sobretudo os maiores, não têm ideias. Historiadores ocupam-se de epigrafia ou de registros paroquiais mas preocupam-se bastante menos de terem uma concepção geral da história e do social. 

Fichamento: VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Tradução de António José da Silva Moreira. Lisboa: 70, 1971, p. 115-147.