“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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A Morte de Seleuco

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

 

O relato abaixo é sobre Seleuco I Nicátor (359-281 a.C.), um dos Diádocos ("sucessores" de Alexandre Magno). Seleuco venceu a Sexta Guerra dos Diádocos, em 281, na qual morreu Lisímaco, outro Diádoco.

Seleuco possuía agora toda a Ásia desde o Egeu até o Afeganistão: quase todo o antigo Império Persa, exceto o Grande Egito e os territórios que havia cedido a Chandragupta. O rei egípcio deve ter pensado que seria seu próximo objetivo, sobretudo desde que Seleuco incorporou a Cerauno à sua corte, indicando assim que olhava com bons olhos sua prerrogativa de ocupar o trono egípcio. Em geral, as cidades gregas da Ásia deram as boas-vindas a Seleuco oportunisticamente, embora tenham tido que expulsar as guarnições lisímacas de Sardes e dos demais lugares.

Seleuco dedicou apenas uns meses a estabilizar a situação e a planejar o futuro da Ásia Menor, antes de dar o seguinte passo lógico. No verão de 281 cruzou o Helesponto e marchou a Lisimaquia para reclamar também as posições de Lisímaco na Europa. Junto com a Trácia e a Macedônia, Seleuco governaria efetivamente o mundo. Estava mais próximo ainda que o próprio Antígono de emular a Alexandre.

Não havia exército que pudesse resistir-lhe (era "o conquistador de conquistadores"), mas até o comandante de um vasto exército era vulnerável como homem. No mesmo mês de setembro, enquanto cavalgava nas proximidades de Lisimaquia, Cerauno matou traiçoeiramente a Seleuco com suas próprias mãos. Cerauno havia decidido renunciar ao Egito (um osso demasiado duro de roer) e tirar proveito da confusão reinante, para estabelecer-se na Europa. O irônico é que Seleuco havia dado abrigo a quem seria seu assassino. Foi um final infeliz para um dos sucessores mais ousados e empreendedores. Pelo menos, ao nomeado rei conjunto a Antíoco, havia deixado o seu império o mais estável possível.

WATERFIELD, Robin. La Guerra por el imperio de Alejandro Magno. Traducción de Inés Beláustegui. Madrid: Gredos, 2012, p. 293-294.

Alexandre e o Nó Górdio

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Por volta de 333 a.C., em suas campanhas na Ásia Menor, Alexandre, o Grande, chegou a Górdio, na Frígia (região da atual Turquia). Então, ele se deparou com uma carroça antiga, que pertencia ao rei Górdio. Segundo uma lenda, quem conseguisse desatá-lo se tornaria governante de toda a Ásia.

Quando Alexandre chegou à cidade, ele foi apresentado ao desafio. Ao invés de tentar desatar o nó pacientemente como os outros, ele agiu de maneira inesperada e decisiva. Com a sua espada, e com apenas um golpe, o rei macedônico cortou o nó ao meio, resolvendo o desafio drasticamente.

Mito sobre as Armas dos Povos do Mar

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Os estudiosos mais antigos tinham a tendência de atribuir aos Povos do Mar qualquer destruição ocorrida nesse período [por volta de 1177 a.C.]. Algumas vezes também se afirmou, sobretudo antes em livros escolares (e agora na internet) que os Povos do Mar alcançaram tanto êxito porque possuíam armas de ferro - mas isso é incorreto: suas armas eram de bronze, como as armas de toda a gente. De mais a mais, pode ser pretensioso lançar sobre esses povos toda a culpa pelo fim da Idade do Bronze no Egeu e no Mediterrâneo Oriental. É provável que isso lhes dê crédito em excesso, já que não há evidências claras a não ser as que retiramos dos textos e inscrições egípcios, os quais trazem impressões conflitantes. Teriam os Povos do Mar entrado no Mediterrâneo Oriental como um exército relativamente organizado, à semelhança de uma das mais disciplinadas Cruzadas cujo objetivo na Idade Média era capturar a Terra Santa? Ou seriam eles um grupo mais descuidadosamente organizado de saqueadores, como piratas ou Vikings de uma época posterior? Ou seriam refugiados fugindo de um desastre e buscando novas terras, como os refugiados sírios de tempos recentes que escaparam da guerra civil em sua pátria? Até onde sabemos, a verdade pode abarcar uma combinação de todas essas hipóteses ou pode não estar em nenhuma delas.


CLINE, Eric H. 1177 a.C: o ano em que a civilização entrou em colapso. Tradução de Fábio alberti. São Paulo: Avis Rara, 2023, p. 28.

Xerxes e a Brevidade da Vida

domingo, 15 de dezembro de 2024

 

LIVRO VII

XLVI. Artábano, seu tio pelo lado paterno, que havia procurado dissuadi-lo da ideia de uma guerra contra a Grécia, falando-lhe sem rodeios e com toda a franqueza sobre um tal empreendimento, vendo-o a chorar, a ele se dirigiu nestes termos: "Senhor, vossa conduta de agora é bem diferente da de há pouco. Há momentos, vós vos consideráveis feliz, e agora derramais lágrimas." "Quando refleti - volveu Xerxes - sobre a brevidade da vida humana e ao pensar que de tantos milhões de homens não restará um só dentro de cem anos, senti-me tomado de compaixão." "Experimentamos, no decurso de nossa vida - tornou Artábano -, coisas bem mais tristes do que o próprio sentimento da morte. Apesar da brevidade da vida humana, a que vos referistes, não há homem feliz, seja no meio dessa multidão, seja em todo o universo, ao qual não venha ao espírito, já não digo uma vez, mas frequentemente, o desejo de morrer. As vicissitudes por que passamos, as enfermidades que nos perturbam, fazem com que a vida nos pareça bem longa, por mais curta que ela seja. Numa existência tão infeliz, o homem vive a suspirar pela morte, encarando-a como um porto de salvação. Se temperamos a acridez de nossa vida com alguns prazeres, os deuses logo manifestam o seu ciúme."

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 240. 

Vida e Morte entre os Trausos

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

LIVRO V

IV. Já tive ocasião de me referir aos costumes dos getas, que se dizem imortais. Quanto aos trausos, são em tudo semelhantes aos dos trácios, exceto com relação aos recém-nascidos e aos mortos. Quando nasce, entre eles, uma criança, os parentes, sentados em torno dela, enumeram os males a que está sujeita a natureza humana e lamentam, com gemidos, a sorte ingrata que fatalmente o acompanhará enquanto viver; mas, quando morre um deles, enterram-no alegremente, regozijando-se com a felicidade desse que acaba de libertar-se de tantos males.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 240. 

A Queda da Babilônia (539 a.C.)

domingo, 29 de setembro de 2024

LIVRO I

CLXXXIX. Ciro, marchando contra Babilônia, chegou às margens do Gindo. Este rio nasce nos montes Macianos, e depois de atravessar o país dos dardaneus deságua no Tigre, que passa ao longo da cidade de Ópis e desemboca, por sua vez, no mar de Eritréia. Enquanto Ciro procurava atravessar o Gindo (não pôde fazê-lo em barcas), um dos seus cavalos brancos, considerados sagrados, impelido pelo ardor, saltou na água e esforçou-se por ganhara margem oposto; mas a forte correnteza arrastou-o, afogando-o. Ciro, indignado com a afronta do rio, ameaçou-o de torná-lo tão fraco que, dali em diante, até as mulheres poderiam atravessá-lo sem molhar os joelhos. Assim dizendo, suspendeu a expedição contra Babilônia, dividiu o exército em dois corpos, traçou com uma corda, ao longo do rio, cento e oitenta canais em diversos sentidos, fazendo, em seguida, cavá-los pelas tropas. Conseguiu realizar tão vultosa empresa por haver empregado um número imenso de soldados, mas isso lhe ocupou as tropas durante todo o verão.

CXC. Tendo-se vingado do Gindo cortando-o em trezentos e sessenta canais, continuou a marcha para Babilônia ao anunciar-se a segunda primavera. Os babilônios, pondo suas tropas em campo, esperaram de pé firme. Mal o inimigo apareceu nas vizinhanças da cidade, deram-lhe batalha, mas, batidos, encerraram-se atrás das muralhas.

Como sabiam, de longa data, que Ciro não ficaria sossegado e que atacaria igualmente todas as nações, os babilônios haviam reunido de antemão provisões para muitos anos. Por conseguinte, o cerco não os inquietava de maneira alguma. Ciro encontrava-se em grande embaraço: cercava a praça há muito tempo e não tinha conseguido outra vantagem que a do primeiro dia.

CXCI. Finalmente, ou porque concluísse por si mesmo sobre o que devia fazer, ou porque alguém, vendo-o em dificuldades, o aconselhasse, o príncipe tomou a seguinte resolução: colocou o exército, parte no ponto onde o Eufrates penetra na Babilônia, parte no local onde o rio deixa o país, com ordem de invadir a cidade pelo leito do mesmo, logo que se tornasse vadeável. Com o exército assim distribuído, dirigiu-se para o lago, com algumas tropas menos aguerridas. Ali chegando, a exemplo do que fizera a rainha Nitócris, desviou as águas do rio para o lago pelo canal de comunicação. As águas se escoaram, e o leito do rio facilitou a passagem. Sem perda de tempo, os persas postados nas margens entraram na cidade, com as águas do rio dando apenas pelas coxas. Se os babilônios tivessem sido instruídos com antecedência sobre o propósito de Ciro, ou se o percebessem no momento da execução, poderiam ter feito perecer todo o exército, evitando a invasão da cidade; bastaria fechar as portas que conduzem ao rio e atacá-lo do muro marginal; os soldados seriam apanhados como peixes na rede. A verdade é que os persas surgiram quando eram menos esperados, e, a acreditar no depoimento dos babilônios, quando os pontos extremos da cidade já se achavam em poder do inimigo, os defensores que se encontravam na parte central ainda não tinham conhecimento disso, tão grande era ela. No momento em que se deu a invasão, os babilônios estravam realizando um festim, e, longe de imaginar que um perigo iminente os ameaçava, entregavam-se aos prazeres e às danças. Quando se inteiraram da situação, era demasiado tarde. Assim Babilônia foi tomada pela primeira vez.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 81-82. 

Aspectos da Sociedade Persa

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

LIVRO I

CXXXVI. Depois das virtudes guerreiras, encaram como grande mérito o ter muitos filhos. O rei gratifica todos os anos os casais prolíficos. A razão dessa tendência para uma prole numerosa está em considerarem os persas que a força viril é demonstrada pelo grande número de filhos. Estes eles começam a instruir aos cinco anos de idade, e daí até os vinte só lhes ensinam três coisas que consideram as mais importantes: montar a cavalo, atirar com o arco e dizer a verdade. Antes de completar cinco anos, um filho não se apresenta ao pai; permanece sempre junto à mãe e sob os cuidados dela. Adotam esse costume para que, no caso do filho morrer criança, a perda não cause desgosto ao pai.

CXXXVII. Tal costume me parece louvável. Aprovo também a lei que não permite a ninguém, nem mesmo ao rei, mandar matar um homem por um só crime, nem a nenhum persa punir rigorosamente um dos seus escravos por uma só falta. Se depois de refletido exame o senhor achar que as faltas do servo são em maior número e mais consideráveis do que os serviços, pode então dar expansão à sua cólera. Asseguram os persas nunca ter alguém, entre eles, matado o pai ou a mãe, pois todas as vezes que se tem notícia de um tal crime, descobre-se, depois de rigorosas pesquisas, que o filho criminosos, ou era suposto ou adulterino. Isso porque os persas não podem admitir a possibilidade de um homem matar o verdadeiro autor dos seus dias.

CXXXVIII. Não lhes é permitido falar das coisas que não podem fazer. Nada lhes parece mais vergonhoso do que a mentira, e depois da mentira, contrair dívidas; isto por várias razões, mas sobretudo porque quem possui dívidas mente por força. Um cidadão contaminado da lepra branca não pode entrar na cidade e nem ter qualquer espécie de contato com o resto dos persas, pois veem nisso uma prova de haver o indivíduo pecado contra o Sol. Todo estrangeiro atacado desse mal é afastado do país; e, pela mesma razão, não podem tolerar os pombos brancos. Não urinam nem escarram nos rios; ali não lavam nem mesmo as mãos e nem permitem que alguém o faça, pois adotam o culto dos rios.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 69. 

Origens do Culto à Deusa-Mãe

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

 

Deusa-Mãe, Rajastão, Índia, período Gupta, séculos V-VI.

Dentre essas "imagens primordiais" religiosas comuns, provavelmente a mais antiga e certamente a mais poderosa foi a da Mãe. É ela o tema das mais antigas representações visuais da forma humana; e dado que, nessa imagem, a maternidade não é vista como sendo incompatível com a virgindade, essa imagem materna deve ter tomado forma antes da descoberta da paternidade - isto é, antes de se reconhecer que uma mulher não pode engravidar sem ter tido relações sexuais com um homem. Deve-se ter reconhecido, desde o despertar da percepção consciente, que a maternidade implicava o nascimento de uma criança, mas o reconhecimento de que a Mãe obscurecia o filho, e o pai ou era não-existente ou, no máximo, era uma figura nebulosa. A potência da Mãe é imensa para qualquer homem a ela associado e, consequentemente, alguns deuses masculinos dominadores preferiram permanecer no celibato. Aton, Assur, Javé e Mitras são exemplo disso.   

TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a Mãe-Terra - Uma História Narrativa do Mundo. Tradução de Helena Maria C. M. Pereira e Alzira S. da Rocha. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 364.

Pirâmides pelo Mundo

sexta-feira, 22 de abril de 2022

 

Mapa-Múndi segundo Estrabão

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

 

Mapa-Múndi segundo Heródoto

domingo, 22 de agosto de 2021

 

A Grande Pirâmide de Gizé

domingo, 21 de março de 2021

 

A Grande Pirâmide de Gizé é o centro da atenção das pirâmides de Gizé, monumentos funerários que sempre figuraram entre as Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Foi construída pelo faraó Quéops, da IV Dinastia, em 2560 a.C., e é a única das Sete Maravilhas que se manteve quase completa e reconhecível ao longo do tempo.

Saiba mais:

CLAYTON, Peter A. A Grande Pirâmide de Gizé. In: CLAYTON, Peter A. & PRICE, Martin J. (ed.). As Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Tradução de Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 29-61. > Disponível aqui.

A Estátua de Zeus em Olímpia

quarta-feira, 17 de março de 2021

Acima está uma representação da estátua de Zeus em Olímpia, uma escultura de Fídias, do século V a.C. A ilustração é de F. Gordon, para a World's Wonders, 1930.

O edifício onde se encontrava a estátua do deus supremo do Olimpo era o templo central dos antigos Jogos Olímpicos. Tanto o templo quanto o altar de Zeus atraíam peregrinos de todas as partes da Hélade. Os "bárbaros" (não-gregos) não podiam adorar a Zeus no seu santuário, e tampouco era autorizados a participar das competições.

Poucos sabem, mas essa estátua também era uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

Saiba mais:

PRICE, Martin J. A Estátua de Zeus em Olímpia. In: CLAYTON, Peter A. & PRICE, Martin J. (ed.). As Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Tradução de Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 95-120. > Disponível aqui.

O Mausoléu de Halicarnasso

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

O Mausoléu de Halicarnasso foi o grande monumento funerário de Mausolo, filho de Hecátomo de Milaxa. Entre 377 e 353 a.C., Mausolo foi, simultaneamente, governante da Cária e sátrapa do rei da Pérsia.

Tão vastas eram as dimensões, e tão esmeradas as esculturas que a decoravam que rapidamente o monumento foi considerado uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

Saiba mais:

WAYWELL, Geoffrey B. O Mausoléu de Halicarnasso. In: CLAYTON, Peter A. & PRICE, Martin J. (ed.). As Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Tradução de Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 149-177. > Disponível aqui.   

Canto de Cisne da Civilização Sassânida

terça-feira, 28 de julho de 2020

Vista geral da gruta de Taq-e Bostan, Irã. Período Sassânida, séc. IV.

Cosroes I (531-579) fez tudo para acalmar os espíritos após a revolta "comunista" de Mazdak do fim do século V. Aldeias foram reconstruídas, pontes foram refeitas e impostos foram aliviados. Sob Cosroes II (590-628), o último dos grandes príncipes sassânidas, o luxo da corte de Ctesifonte foi dos mais brilhantes. A Pérsia no século VII mostrou-se bastante aberta às influências do oeste e do leste. Da Índia chegaram contos que foram traduzidos em persa. Os cristãos (especialmente os nestorianos) eram tolerados.

Entre a segunda metade do século VI e no século VII, a guerra entre romanos e sassânidas não cessa. Os persas almejavam a posse de Antioquia e a costa mediterrânica. Os romanos orientais procuravam suprimir o controle persa no seu comércio com o Oriente. Bizantinos e persas opunham-se na Arábia do Norte, no Iêmen e ao norte, onde os bizantinos tentavam levantar os turcos contra os persas.

Cosroes II invadiu Bizâncio em 602. Edessa, Antioquia e Jerusalém foram tomados. Em auxílio dos persas, os ávaros participaram do cerco a Constantinopla. A ascensão de Heráclio salvou a capital bizantina, mas a Síria e o Egito foram ocupados por 18 e 11 anos, respectivamente. O imperador Heráclio reconquistou, afinal, os territórios perdidos, mas estava patente a fragilidade do poder bizantino. Isso anunciaria outras conquistas, a dos árabes.   

Adaptado de RICHÉ, Pierre. Grandes Invasões e Impérios - Séculos V a X. Tradução de Manuel J. Palmeirim. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1980, p. 115-118.

Invasões dos Hunos (séc. V)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Enquanto o Ocidente romano buscava uma solução para o difícil problema bárbaro, a parte oriental do Império estava provisoriamente liberta deste perigo. Os imperadores reorganizavam o exército a fim de eliminar os elementos bárbaros e começavam a construir a muralha que devia proteger a cidade de Constantinopla do lado da terra. Era crucial defender a Nova Roma, visto que desde 420 organizava-se, junto da fronteira danubiana, o grande império dos hunos.

Empurrando diante deles os povos germânicos, preparando os que tinham vencido, os hunos organizaram um Estado com centro na grande planície danubiana, cujas paisagens podiam lembrar-lhes a sua estepe original. Aí, os hunos começaram a sedentarizar-se. Entrando em relações com o Império do Oriente, eles reclamaram-lhes tributos em ouro. Por volta de 445, Átila era rei dos hunos. Ele considerou-se destinado a governar o mundo e submeter todos os povos germânicos. No seu palácio haviam embaixadores oriundos do Oriente ou do Ocidente. Trata-se de uma realidade muito diferente da descrição de Amiano Marcelino no fim do século IV: os hunos civilizaram-se.

Até 450, Átila procurou progredir para o Danúbio, reclamava as populações germânicas que se haviam refugiado no Império e exigia a evacuação de toda a margem direita do Danúbio. Mas quando o sucessor de Teodósio II, o imperador Marciano, recusou pagar o tributo e repeliu as tropas húnicas, Átila virou-se para o Ocidente. Sob diferentes pretextos, invadiu a Germânia, franqueou o Reno, destruiu Metz, Reims, Troyes, e procurou atingir o mais depressa possível o país dos visigodos, que ele  considerava como súditos. Houve então uma aproximação entre godos e romanos. Aécio, generalíssimo romano que já tinha reagrupado burgúndios, francos, saxões, pediu ao rei de Toulouse, Teodorico I, para intervir. Este aceitou, e o exército romano-bárbaro libertou Orleans de seu sítio e depois perseguiu os hunos até ao Campus Mauriacus, perto de Troyes (ver o mapa). Nesta batalha, foi decidida a sorte da Gália. Átila recuou, mas no ano seguinte tomou o caminho da Itália. Já o imperador Valentiniano III fugia de Ravena para Roma. Enquanto isso, o prefeito do pretório e o bispo Leão, o Grande, negociavam a retirada de Átila. Carregado de ouro, de despojos e de prisioneiros, o exército dos hunos voltou a partir para a Panônia.

Átila morreu ali pouco depois.

Os seus filhos dividiram entre si o império, mas não se entenderam, o que facilitou a sublevação dos povos dominados: ostrogodos e gépidas.

A derrota dos hunos serviu mais aos bárbaros que ao Império do Ocidente. De 452 a 476, o poder imperial enfraqueceu progressivamente, e todo o Ocidente passou para as mãos dos germânicos. 

Adaptado de RICHÉ, Pierre. Grandes Invasões e Impérios - Séculos V a X. Tradução de Manuel J. Palmeirim. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1980, p. 76-77.

Entrevista com Luis Castaño Sánchez

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Nippur Cubit Rod, en el Museo Arqueológico de Estambul. Foto: Wikipedia

El profesor Miguel Pérez Sánchez-Pla ha presentado recientemente un libro titulado “La Gran Pirámide, la clave secreta del pasado”, en el que viene a sintetizar la tesis doctoral que defendió en 2008 en la Universitat Politécnica de Catalunya, en la que defiende que los egipcios tenían conocimientos avanzados de geometría, geodesia, astronomía e historia, incluso que llegaron a conocer el número pi. Muchas voces se han levantado contra estos arriesgados planteamientos, nosotros nos hemos querido detener en una de ellas, la del filólogo Luis Castaño Sánchez, especialista en sistemas de medición en la Antigüedad, con quien hemos querido repasar además otros temas de interés relacionados con esta materia. 

Pregunta - ¿Cuándo empieza el hombre a establecer un sistema de medida y por qué?
Respuesta - A día de hoy no puedo responder a esta pregunta con certeza. Sí puedo señalar de qué fecha data el patrón físico de medida más antiguo de la Historia. Se trata de una barra metálica con unas marcas conservada en el Museo Arqueológico de Estambul conocida con el nombre de “Nippur Cubit Rod” (Barra del Codo de Nippur) que data del Siglo XXVII AC.   De las marcas de esa barra, algunos especialistas (Huber, Rottlander) han deducido una medida de 51'8 cm a la que llaman Codo de Nippur. Sin embargo a lo largo de mi investigación he descubierto que esa propuesta es errónea. Esa barra nos ofrece tres medidas (Pie 25'65 cm, Codo 45 cm y 3 Dedos 5'4 cm) que corresponden, todas ellas, al Canon Original: un Hombre de 1'80 m.

A raíz del estudio de círculos de piedra megalíticos, otro autor (Alexander Thom) propuso una medida de 82'9 cm a la que llamó Yarda Megalítica. De dicha medida no hay pruebas físicas por lo que podría ser errónea. Por otro lado es posible que los círculos de piedra estén relacionados con el Canon Original. Los motivos para afirmar esto es que las piedras de Stonehenge parecen estar distribuidas según una cuadrícula basada en el Hombre. Pero esto es algo que está aún por estudiar. En definitiva parece que el ser humano empezó a establecer un sistema de medidas basado en el cuerpo ya en los inicios de nuestra Historia, quizá incluso en la Prehistoria. 
En cuanto a los motivos, a día de hoy veo difícil asegurar una respuesta. Probablemente por razones prácticas, pero en mi opinión aún queda mucho por investigar en Metrología Histórica como para poder responder a esto.

Pregunta - ¿Condiciona el sistema métrico la manera que tienen las sociedades de interpretar el espacio o bien podríamos decir que ocurre al revés?
Respuesta - También es una pregunta difícil de responder. Lo que sí puede afirmarse es que una vez establecido un sistema métrico parece desarrollarse un especial apego al mismo, quizás por costumbre o por comodidad. Pondré un ejemplo. La instauración del actual Sistema Métrico Decimal (cuyo objetivo era unificar unas medidas que, en esa época, ya eran muy dispares entre diferentes países) encontró mucha resistencia en la época. Uno de los motivos de dicha resistencia fue que sus unidades (metro, centímetro y otras), al contrario de las unidades antropométricas del Sistema de Medidas Antiguo (Codo, Palma, Dedo y otras), no eran fáciles de comprender de manera intuitiva.

Pregunta - De las civilizaciones antiguas ¿cuál era el sistema métrico más sofisticado?
Respuesta - Esta pregunta contiene un error de base que quiero señalar. La pregunta parte de la idea de que en las civilizaciones antiguas había diferentes sistemas de medidas, un planteamiento que se encuentra en los trabajos de muchos especialistas en Metrología Histórica. Sin embargo en mi trabajo de investigación he descubierto que en la Antigüedad no existieron diferentes sistemas de medidas, sino un único sistema de medidas que era común a muchas culturas de la Antigüedad y al que he llamado Sistema de Medidas Antiguo.  La unidad central de este sistema de medidas era el Canon Original, un Hombre en T de 1´80 metros en cuadrícula que encontramos ya en Nippur y que llega hasta el Hombre de Leonardo y más allá.

Pregunta - Recientemente ha vuelto a salir en los medios una controvertida tesis del profesor Pérez-Sánchez Pla que se presentó en el año 2008. Según el arquitecto barcelonés, los egipcios tenían un sistema de medida muy avanzado, incluso conocían el número Pi ¿qué opina de este estudio?
Respuesta - Tal y como indico en una Nota de Prensa que estoy intentando hacer llegar a diferentes medios de comunicación, la Tesis del Sr. Pérez-Sánchez es errónea. El Sr. Pérez-Sánchez parte de una única medida: la medida de 52'36 cm propuesta por Williams Flinders Petrie como Codo Real. Esta unidad de medida es la unidad de medida admitida hoy en día. De hecho las dimensiones de la Gran Pirámide y otras suelen expresarse así. Pero hay varios problemas.

En primer lugar hay que señalar que no se empleó una única unidad de medida sino, lógicamente, un sistema de medidas completo: el Sistema de Medidas Antiguo. En dicho sistema de medidas, recogido físicamente en patrones y explicado textualmente en infinidad de textos antiguos, la Palma medía 7'5 cm, el Codo -6 Palmas- medía 45 cm y el Codo Real -8 Palmas- medía 60 cm. La medida de 52'36 cm propuesta por Petrie corresponde a 7 Palmas -52'5 cm- pero no al Codo Real -60 cm-.

En segundo lugar hay que señalar que las medidas de la Gran Pirámide ya vienen recogidas en esos textos antiguos y no en Codos Reales sino en Pletros. Así, el lado de la base de la Gran Pirámide medía 8 Pletros, el Pletro medía 100 Pies Reales y el Pie Real medía 4 Palmas (30 cm) o 16 Dedos (28'8 cm). Así que: Dedo 1'8 cm → Pie Real 28'8 cm → Pletro 28'8 m → Gran Pirámide 230'40 m.

En tercer lugar hay que señalar que el Sistema de Medidas Antiguo establece toda una serie de relaciones entre medidas lineales y circulares sin necesidad alguna de conocer el valor de Pi.

Por último, el Sr. Pérez-Sánchez suele insistir que en su reconstrucción ha llegado a una precisión de 1/20 de milímetro. Esto se me antoja no sólo absurdo, sino incorrecto. En primer lugar porque como el propio Sr. Pérez-Sánchez reconoce en su web: “la Gran Pirámide se encuentra mutilada y ha llegado hasta nosotros hecha una monumental ruina”; luego es imposible llegar a tal grado de precisión. Y en segundo lugar porque los patrones egipcios de 7 Palmas -52'5 cm-, que se conservan en diferentes museos, oscilan de 52'2 cm a 52'7 cm; luego si los egipcios no eran capaces de tan elevada precisión ni en objetos relativamente pequeños ¿cómo podrían serlo en un gran edificio?

Pregunta - La mayoría de sistemas métricos de la Antigüedad toman como referencia al hombre ¿cuál ha sido la medida más utilizada y por qué?
Respuesta - Esta pregunta parte de nuevo del mismo error de base que la pregunta tres. Por tanto vuelvo a señalar que en mi trabajo de investigación he descubierto que en la Antigüedad, en origen, no hubo distintos sistemas métricos sino un único sistema de medidas: el Sistema de Medidas Antiguo.  La unidad central de este sistema de medidas era el Canon Original, un Hombre en T de 1´80 metros en cuadrícula, pero había muchas otras. Como unidades menores tenemos el Codo (45 cm), el Pie (25'65 cm), la Palma (7'5 cm), el Dedo (1'8 cm) y muchas otras -incluyendo también unidades menores al Dedo-. Como unidades mayores, múltiplos del Hombre y de sus unidades menores, tenemos el Pletro, el Estadio, la Milla y muchas otras. Queda, pues, mucho por estudiar aún.

Nosotros no utilizamos únicamente una medida (metro, cm, km) sino un sistema de medidas completo, seleccionando en cada momento la que más nos conviene. Ellos hacían lo mismo. De hecho, tras haber revisado cientos de trabajos sobre Metrología Histórica (el último de ellos la Tesis de Antoine Pierre Hirsch: “Ancient Egyptian Cubits. Origin and Evolution”). Me basta con leer frases como “La antigua unidad egipcia de medida lineal era el Codo (mh)” para saber que el autor parte de planteamientos erróneos y que no conoce con exactitud el Sistema de Medidas Antiguo. 

Autor
Mario Agudo Villanueva

Mediterrâneo Ocidental, 600-221 a.C.

sábado, 29 de junho de 2019

Moeda de Siracusa de 344-317 a.C., época de Timoleonte. No reverso, a figura mitológica do Pégaso.

1. Entre os séculos VIII e VII a.C. os gregos haviam se estabelecido ao longo do litoral da Itália, desde Tarento e até pontos tão setentrionais quanto Ísquia e Cumas (à exceção de Marselha). Os gregos também haviam ocupado o litoral leste e sul da Sicília. Por volta de 600 a.C., estabeleceram uma colônia em Massília (Marselha). Acragante (Agrigento), estabelecida no litoral meridional da Sicília em 580 a.C., foi o último estabelecimento colonial grego importante no Ocidente.   

2. Os cartagineses, por sua vez, haviam adquirido o Estreito de Gibraltar, o qual bloquearam à navegação grega. Além disso, os cartagineses e demais fenícios das colônias haviam cooperado com sucesso com os etruscos para impedir que os gregos unissem suas colônias sicilianas e italianas a Marselha. Isso foi possível porque os cartagineses adquiriram o controle da Sardenha e da Córsega. 
  
3. Os sírios-fenícios foram atacados pela retaguarda pelo Império Assírio e, depois, pelo Império Neobabilônico. Desde cerca de 600 a.C., os gregos asiáticos foram progressivamente atacados e conquistados, primeiro pelos lídios e, depois, pelos persas. Os cartagineses estavam separados de seus aliados etruscos pelo controle mantido pelos gregos sobre os litorais da Sicília e Itália meridional. Não obstante, os gregos ocidentais estavam na defensiva por volta de 500 a.C. - uma das razões de sua fraqueza era sua luta fratricida. Os gregos continuaram a ser os inimigos mais destruidores uns dos outros até que sua sujeição a Roma forçou-os finalmente a coexistirem em paz.    

4. Entre 505 e 491 a.C., surgiu um principado grego siciliota no sudeste da Sicília, com capital em Siracusa. Ele foi construído mediante métodos brutais. Entre 488 e 483 a.C., um segundo principado grego siciliota expandiu-se através da Sicília, do litoral sul ao norte, mediante a anexação, de Hímera a Agrigento. Tais estruturas políticas dos gregos siciliotas impediram que a aliança etrusco-cartaginesa subjugasse os gregos ocidentais, dois séculos antes que os romanos o fizessem.    

5. Em 480 a.C., os cartagineses responderam a esse segundo passo greco-siciliota, invadindo a Sicília em massa. Nesse mesmo ano ocorreu a invasão persa da Grécia europeia continental. É improvável que as duas invasões não tenham sido combinadas. Os fenícios das colônias estavam em estrito contato com os sírios-fenícios, e estes, além de serem súditos dos persas, também eram rivais comerciais dos gregos e, portanto, beneficiar-se-iam caso os gregos fossem esmagados. No entanto, em 480 a.C., a aliança Siracusa-Agrigento e a aliança Esparta-Atenas venceram de forma arrasadora os cartagineses e os persas, respectivamente.     

6. Nos dois séculos seguintes, os estados gregos ocidentais continuaram em guerra entre si - Siracusa contra Reggio e Crotona, e esses dois contra o Lócris Epizefiriano, que ficava encravado entre ambos. Os estados gregos ocidentais eram sócios dos gregos orientais, e uns se envolviam nas disputas políticas dos outros, dos dois lados do Estreito de Otranto. Assim, os gregos ocidentais envolveram-se na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), o que culminou no ataque ateniense a Siracusa, em 415-413 a.C. A aventura terminou de forma desastrosa para Atenas, mas também para os siciliotas vitoriosos. A exaustão destes estimulou os cartagineses a retornarem à ofensiva na Sicília, em 409 a.C. Dessa data até 275 a.C., Cartago e Siracusa repetidamente lutaram entre si, sem chegar a um resultado conclusivo.     

7. Os gregos siciliotas aceitavam déspotas sempre que se encontravam em risco de serem conquistados pelos cartagineses. Assim que a ameaça cartaginesa era afastada, eles derrubavam seus déspotas. Ainda que a Sicília constituísse uma boa base para um domínio naval das águas das duas bacias do Mediterrâneo, uma Sicília unida, por si só, não teria sido forte o bastante para dominar todo o Mediterrâneo e seu perímetro. Isso só seria factível por uma potência que combinasse o ativo estratégico de controlar a Sicília a um controle dos recursos demográficos e econômicos da Itália ou do noroeste da África.   

8. Os colonizadores gregos da Sicília helenizaram-na completamente. Antes do fim do século V a.C., toda a população siciliota adotara a língua grega e a instituição grega de cidades-estado. Por outro lado, na Itália, a língua grega jamais conquistou a região interior das colônias gregas. Essas próprias colônias, por sua vez, foram dominadas pelos nativos.   

9. No período de cerca de 600 a.C. a 221 a.C., a Itália continuou a ser bem mais diversificada que a Sicília em todos os planos de vida. Todavia, entre c. 340 a.C. a 264 a.C., toda a península itálica foi unida politicamente por Roma. O sucesso romano em unir a Itália permitiu-lhe prosseguir até unificar toda a bacia mediterrânica. Roma não foi a primeira potência a tentar unir politicamente a Itália, mas foi a primeira bem-sucedida, ainda que com grandes dificuldades.

10. A primeira tentativa no sentido de unir politicamente a Itália partiu dos etruscos, por volta de 550 a.C. a 423 a.C. No século VI a.C., eles tomaram Fidenae e Roma, e em seguida ocuparam as terras baixas até Cumas. Avançaram pelo passo que leva de Faesulae a Felsina (Bolonha) e desenvolveram o potencial de riqueza agrícola da bacia do Pó. Por volta de 525 a.C., parecia que os etruscos iriam unir, sob seu governo, não apenas a península itálica, mas também a bacia do Pó. Todavia, fracassaram quando tentaram tomar Cumas (524 a.C.) e perderam o controle sobre o Lácio e Roma entre c. 509 e 474 a.C. Foram derrotados para os siracusanos (474 a.C.); tiveram a maioria de suas colônias na bacia do Pó devastada pelos celtas (gauleses), entre c. 450 a.C. e 350 a.C.; em 423 a.C., perderam Cápua para os montanheses oscos do interior da Campânia (esses mesmos tomaram Cumas aos gregos, em 421 a.C.).  

11. Os etruscos fracassaram politicamente pelas mesmas razões que os gregos (pelo menos os estados etruscos não se destruíram mutuamente, como fizeram os estados greco-italiotas). Ao contrário dos fenícios das colônias, os etruscos não estavam dispostos a se colocar sob um comando unitário. Sua expansão foi obra de cidades-estado isoladas ou mesmo líderes isolados de bandos de aventureiros militares. Finalmente, os estados etruscos deixaram-se subjugar, um a um, por Roma. 

12. Por volta de 344 a.C., a situação dos gregos era tão desesperadora que eles começaram a pedir socorro a seus compatriotas do lado leste do Estreito de Otranto. O primeiro dos seis "salvadores" gregos orientais que responderam aos apelos dos gregos do Ocidente, entre 344 a.C. e 280 a.C., foi Timoleonte, cidadão de Corinto. Foi o mais bem-sucedido, chegando a estabelecer regimes democráticos moderados em Siracusa e nos outros estados greco-siciliotas. Entretanto, sua obra na Sicília não sobreviveu ao período em que atuou (344 a.C. a 337 a.C.).

13. O último e menos eficiente dos "salvadores" foi o rei Pirro do Epiro, que fez campanhas na Itália contra os romanos, a convite dos tarentinos, e na Sicília, contra os cartagineses. Ele se beneficiou do fracasso de romanos e cartagineses em se auxiliarem mutuamente no campo militar e naval, contra o inimigo comum. Mas Pirro afinal fracassou devido à inadequação de seus recursos e à sua própria volubilidade pessoal. Em 272 a.C., não apenas Taras, mas também as confederações samnita, lucaniana e brutiana capitularam diante de Roma. Em 264 a.C., Roma completou a unificação política da península itálica.    

14. O sucesso de Roma deveu-se à habilidade política de seus nobres e à educação helênica, que amadureceu tal habilidade. Inicialmente, os romanos se helenizaram indiretamente, através dos governantes e dos residentes etruscos. Aliás, os etruscos transformaram Roma, por volta de 550 a.C., até então um agrupamento de aldeias pastoris, numa cidade-estado de tipo etrusca. Tal transformação política, associada à cultura romana, atraíam a Roma povos que ainda se encontravam no estágio de pré-cidade-estado. A sujeição de Roma a déspotas etruscos de c. 550 a.C. a 509 a.C. (ou, talvez, até c. 474 a.C.) fez de Roma uma cidade-estado e deu-lhe um império em miniatura sobre suas companheiras latinas. 

A seguir à influência etrusca, os romanos helenizaram-se diretamente, mediante um relacionamento com Cumas, o qual se estendeu progressivamente ao resto do Mundo Helênico.  
  
15. Em 264 a.C., Roma havia unido toda a Itália peninsular. Porém, na Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.), houve baixas numa escala sem precedentes na história bélica da bacia mediterrânica. Aníbal já estava, portanto, decidido a vingar a derrota de Cartago nesse conflito. Em 221 a.C., portanto, a situação da bacia mediterrânica ocidental era tão inconclusiva quanto a bacia oriental do Mediterrâneo.    
  
Bibliografia consultada: TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a Mãe-Terra - Uma História Narrativa do Mundo. Tradução de Helena Maria C. M. Pereira e Alzira S. da Rocha. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 293-306.

#15Fatos Índia, c. 600-200 a.C.

domingo, 16 de junho de 2019

1. Tanto entre 1000-600 a.C. quanto entre 600-200 a.C., os principais acontecimentos da história indiana ocorreram no plano religioso. No primeiro período citado, o acontecimento principal, no plano da religião, foi a transferência de interesse do ritual para a meditação. Surpreendentemente, tal transferência se deu por iniciativa de membros da casta brâmane, justamente aqueles que tinham nos ritos hindus o seu meio de vida. Nessa mesma época, os brâmanes estavam afirmando contra os xátrias sua reivindicação como casta mais alta. Apesar disso, o poder político e militar permaneceu nas mãos dos xátrias.  

2. No período de 600-200 a.C., o acontecimento religioso notável foi a fundação das ordens monásticas budistas e jainistas, por Sidarta Gautama, o Buda, e Vardama, o Mahavira. Embora fossem xátrias e aristocratas (Buda, inclusive, era herdeiro do pequeno reino de Kapilavastu, dentro do atual Nepal), esses dois inovadores religiosos ignoraram os ritos, os deuses e a própria instituição de casta. 
  
3. Buda e Mahavira ofereceram, cada um, uma forma de se obter a libertação do "círculo doloroso" do renascimento, tido como potencialmente infinito na maior parte das escolas de pensamento da Índia, no século VI a.C. Pitagóricos e órficos, no Mundo Helênico, compartilhavam essa convicção. A origem comum dessa crença pode ter sido a religião dos povos pastores nômades eurasianos. Nos séculos VIII e VII a.C., eles avançaram até regiões próximas da Grécia e, na Índia, invadiram a bacia do Indo.    

4. Tal invasão dividiu o período de 1000-600 a.C. do período de 600-200 a.C. Os colonos nômades do século VII, que se instalaram na bacia do Indo, adotaram a língua e o modo de vida dos habitantes dessa região (falantes do sânscrito). Os recém-chegados também vieram a adotar a religião hindu e a estrutura social a ela associada.    

5. Na geração de Buda e Mahavira, porém, o centro de gravidade da civilização hindu deslocara-se para o sudeste - Gogra e Son. Ciro II anexou a bacia do rio Kabul, tributário do Indo, em alguma data após 539 a.C. Dario I anexou o restante da bacia do Indo, até o delta do rio, em alguma data posterior à eliminação da grande insurreição de 522 a.C., deflagrada nas regiões centrais do Império Persa.      

6. Durante a vida de Buda e de Mahavira, a bacia do Ganges foi politicamente dividida entre diversos estados soberanos locais de tamanho e poderio variados. O mesmo ocorreu à China. A competição entre estados tornou-se mais intensa e, assim como se deu entre os estados beligerantes da China, a luta na bacia do Ganges terminou em unificação política mediante a eliminação de todos os competidores, exceto Magadha. Nesse processo, Kapilavastu, terra natal de Buda, foi um dos reinos destruídos. Buda testemunhou o massacre dos sakya, seus parentes e compatriotas.      

7. Tal luta não rompeu a unidade social e cultural da Índia. As fronteiras políticas eram barreiras para os exércitos e obstáculos para os espiões, mas não impediam a movimentação de pregadores e ascetas religiosos, como os discípulos de Buda. Pregadores e ascetas indianos cruzavam as fronteiras dos estados beligerantes com a mesma liberdade que os sofistas e filósofos chineses contemporâneos.   

8. A unificação de grande parte do Nordeste da Índia ocorreu por volta de 500 e 450 a.C. e não foi seguida de uma colisão com o Império Persa, como seria de se esperar. A razão pode ter sido que, quando Magadha uniu Bihar e Uttar Pradesh, o governo imperial persa já havia perdido o controle sobre seus domínios a leste do rio Indo. Em 327-325 a.C., quando Alexandre fez sua incursão através da bacia do Indo, encontrou essa região dividida entre diversos reinos e repúblicas tribais. 

9. A campanha de Alexandre Magno na Índia foi breve e o regime que estabeleceu, efêmero. Desabou assim que a notícia da morte do conquistador chegou à região. Entretanto, privando de sua independência os estados da bacia do Indo, Alexandre abriu o caminho para um construtor de império indiano. Por volta de 322 a.C., Chandragupta Maurya, expulsou as guarnições macedônicas da bacia do Indo e assenhoreou-se desse espólio de Alexandre. Em seguida, conquistou o Império de Magadha e reinou até 298 a.C.          

10. Por volta de 305 a.C., Selêuco I comprou a Chandragupta 500 elefantes de guerra a serem utilizados em seu próximo embate de forças com Antígono I. Este era outro sucessor macedônico de Alexandre, que controlava a Síria e a Ásia Menor, na retaguarda de Selêuco. A contrapartida a Chandragupta foi a cessão de uma margem oriental dos antigos domínios persas, no vale do Helmand. O neto e segundo sucessor de Chandragupta, Asoka, chegou ao poder após uma luta fratricida. Em 260 a.C., anexou Kalinga (atual Orissa) mediante uma guerra devastadora. Após isso, Asoka encheu-se de remorso, converteu-se ao budismo e nunca mais travou outra guerra.  

11. Além de afirmar a seus vizinhos independentes que não tinha quaisquer intenções agressivas, Asoka desviou a atenção da conquista para a propagação do dhamma budista em regiões situadas além das fronteiras de seu império. Enviou missões, entre 258 e 255 a.C., a cinco governantes gregos. Enviou uma missão a Ceilão, por volta de 250 a.C., e também enviou missões aos povos independentes do extremo sul da Índia continental. O imperador chegava a sentir-se na obrigação de resguardar a preservação da unidade da ordem. 

12. Assim como os persas Ciro II, Dario I e Xerxes, Asoka era escrupuloso ao determinar a tolerância de todas as religiões praticadas por seus súditos. Preocupou-se especialmente em assegurar que seus súditos demonstrassem respeito a brâmanes e monges jainistas, que representavam as duas religiões que eram as principais rivais da própria religião de Asoka, o budismo. Não é possível comprovar, contudo, que as medidas de Asoka tenham produzido um efeito marcante na elevação do nível de desempenho ético de seus súditos ou que suas tentativas no sentido de tornar mais humana a administração do império tenham sido eficazes.      

13. A sinceridade do zelo de Asoka em propagar sua concepção do dhamma é demonstrada pela quantidade e pela área geográfica de suas inscrições. A inscrição em Kandahar é escrita em grego (língua dos estados macedônicos, sucessores do Império Persa) e aramaico (língua do extinto Império Persa). As suas duas inscrições mais a noroeste são vazadas em alfabeto Kharosthi, derivado do aramaico. Todas as demais são vazadas na escrita bramin, a utilizada pelos brâmanes para registrarem as suas liturgias.   

14. Asoka instituiu ou reviveu e manteve a prática de enviar inspetores itinerantes, e ele mesmo fez viagens de inspeção. Além disso, criou uma nova classe de funcionários para supervisionar a administração de fundações filantrópicas, seitas religiosas e obras para o bem-estar social (tais como a abertura de hospitais para animais e seres humanos). Apesar desses esforços, o Império Mauryano foi um estado policial burocrático e autoritário, que exerceu controle meticuloso e opressivo sobre as vidas de seus súditos, inclusive na área econômica. Assim, esse regime burocrático podia derrotar em grandes proporções as intenções do imperador Asoka, e realmente o fez.    
  
15. Entre 322 a.C. e a morte de Asoka (232 a.C.), o Império Mauryano foi uma das grandes potências na constelação de estados soberanos locais. Tal constelação ocupava o vazio político criado pelo sucesso de Alexandre em derrubar o Império Persa e seu fracasso em estabelecer o império maior, abrangendo todo o Oikoumenê do Velho Mundo. Esse período de noventa anos de união política e paz doméstica não teve precedentes na Índia, pelo menos desde a destruição da civilização do Indo. Mas, antes mesmo da morte de Asoka, o Império Mauryano já dava sinais de desintegração e, finalmente, extinguiu-se em 183 a.C.    
  
Bibliografia consultada: TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a Mãe-Terra - Uma História Narrativa do Mundo. Tradução de Helena Maria C. M. Pereira e Alzira S. da Rocha. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 283-292.

#15Fatos A Cidadania na Cidade-Estado

sexta-feira, 5 de abril de 2019

1. A ideia de democracia, de participação popular nos destinos da coletividade, de soberania do povo, de liberdade do indivíduo, teve origem na Antiguidade greco-romana e inspirou os primeiros pensadores que se ocuparam do tema da cidadania Esses pensadores, no entanto, construíram uma imagem idealizada e falsa da cidadania antiga. 

2. No que diz respeito à cidadania, não houve um desenvolvimento progressivo que uniu o mundo contemporâneo ao antigo. A cidadania nos Estados-nacionais contemporâneos é um fenômeno singular na história. O mundo greco-romano se estruturava como cidades-estado, e não como os Estados-nacionais de nossa época. As cidades-estado diferiam-se muito entre si. A maioria delas abrigou apenas alguns milhares de habitantes, quase todos envolvidos com o meio rural. 
  
3. A história das cidades-estado circunscreve-se às margens do Mar Mediterrâneo. Nesse mar, entre os séculos IX e VIII a.C., desenvolveu-se um intenso intercâmbio de pessoas, bens e ideias. Os impérios guerreiros do oriente Médio buscavam o ferro, que então difundiu-se pelo Mediterrâneo, juntamente com a arquitetura em pedra, as construções monumentais, a fabricação de artigos de bronze, o uso de metais preciosos, a escrita alfabética e o cavalo de guerra.     

4. O crescimento demográfico foi visível em todo o Mediterrâneo, e gregos e fenícios fundaram colônias por toda a parte, levando consigo a cidade-estado, uma forma de organização social peculiar. As cidades-estado difundiram-se pela bacia mediterrânica a partir de seus núcleos originais (Grécia continental, Ásia Menor e Fenícia). Nos séculos seguintes, o Império Romano representou um modelo vitorioso, em contínua expansão, de um modo de organização da coletividade humana.   

5. O que era, precisamente, a "cidade-estado"? O termo referia-se, em primeiro lugar, a um território agrícola composto por uma ou mais planícies de variada extensão. Um fator primordial na história das cidades-estado foi o desenvolvimento da propriedade privada da terra. Os principais produtos eram o trigo, o azeite e o vinho. A apropriação da terra não era mediada nem por relações de linhagem e nem por palácios ou templos, como no Oriente Próximo.      

6. Em suma, as cidades-estado formavam "associações de proprietários privados de terra." Mas só membros da comunidade tinham acesso à terra. Os conflitos internos das cidades-estado foram intensos e crescentes, sendo resolvidos comunitariamente, por mecanismos públicos. Aí está a origem mais remota da política e do Estado (aqui entendido como a expressão da comunidade).      

7. O espaço público e o Estado primeiramente foram um espaço de poder, de decisão coletiva. Os conselhos de anciãos ou simplesmente de "cidadãos", assembleias com atribuições variadas, magistraturas e, posteriormente, tribunais. Foi o espaço de uma lei comum (norma escrita, fixa, publicizada e coletiva). O culto comum a divindades de cada cidade-estado, festividades coletivas, matrimônio geralmente endogâmico, direito de comerciar bens imóveis e móveis também eram abarcados pelo espaço público.    

8. Um exército comum garantia a defesa do território e sua expansão. O núcleo urbano da cidade-estado congregava o que era comum por excelência: os templos, a praça do mercado (também lugar de assembleia comunitária), o porto, as oficinas, as lojas e uma acrópole.  

9. A unidade das cidades-estado foi construída ao longo do tempo, a partir de populações sem unidade étnica ou racial. Assim, a identidade comunitária foi criada e recriada - cultos comuns, moeda cívica, língua, leis e costumes coletivos foram fundamentais nesse processo. Seus habitantes tendiam a apresentar-se como derivados de um ancestral comum, de uma divindade, herói ou grupo de famílias originárias.        

10. A cidadania antiga transmitia-se, idealmente, por vínculos de sangue. Entre os séculos VIII e V a.C., no entanto, muitas comunidades mostraram-se permeáveis à incorporação de estrangeiros. A cidadania podia ser conferida individualmente, em todas as épocas, como homenagem a um personagem importante ou retribuição a um favor prestado à coletividade.  

11. No século V a.C., Atenas fechou-se quase completamente - só eram cidadãos os filhos de pai e mãe atenienses. Roma, por outro lado, permaneceu mais aberta durante toda a sua história. Por exemplo, as cidades submetidas na Itália foram unidas a um amplo sistema de alianças e, depois (89 a.C.), receberam a plena cidadania. Internamente, os escravos libertos eram integrados ao corpo de cidadãos. 

12. Muitos habitantes do próprio território das cidades-estado participavam da sociedade com seu trabalho e recursos, mas não se integravam ao conjunto dos cidadãos. Cidades como Esparta, Atenas ou Roma abrigavam vasta população não-cidadã, tais como: 
1º) Estrangeiros domiciliados; 
2º) Grupos submetidos em bloco ao domínio e controle da comunidade cidadã (por exemplo, hilotas e periecos de Esparta). Ao contrário dos estrangeiros domiciliados, essas comunidades estavam em permanente conflito com a cidade-estado;
3º) Escravos. Eram regidos por regras privadas. Nas cidades mais ricas, formavam um terço ou mais da população.   

13. As disputas internas marcaram a história das cidades-estado. Os fatores que controlaram, nas cidades-estado antigas, o ritmo e a evolução de seus conflitos internos foram a concentração de riquezas e a participação no exército comunitário. As cidades-estado eram comunidades guerreiras, em luta permanente e, em sua maioria, controladas pela classe guerreira. A guerra era um fato cotidiano até a imposição da "paz romana".     

14. O desenvolvimento do comércio na bacia mediterrânica, sobretudo a partir do século VII a.C., o aparecimento da moeda e o consequente desenvolvimento dos núcleos urbanos rompeu o exclusivismo aristocrático e possibilitou a abertura do espaço político para camadas mais amplas da população. Além disso, a liberdade individual foi garantida aos membros da comunidade, leis escritas foram publicadas, o exército citadino foi reorganizado e a guerra passou a se basear no confronto entre formações cerradas de combatentes.  
  
15. Assim, essas cidades entraram no seu período clássico. Algumas transformaram-se em oligarquias, ao passo que outras desenvolveram, progressivamente, formas mais abertas de participação no poder - a democracia. A mais famosa de todas as democracias antigas, a ateniense, em grande parte deveu seu sucesso ao império formado após as guerras contra os persas. Foi em Roma, que deixou de ser uma cidade-estado ao unificar todas as cidades-estado e toda a bacia do Mediterrâneo, que a cidadania era mais aberta do que a regra geral.    
  
Bibliografia consultada: GUARINELLO, Norberto Luiz. Cidades-Estado na Antiguidade Clássica. In: PINSKY, Carla B. & PINSKY, Jaime (orgs.). História da Cidadania. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 29-47.