“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Mausoléu é encontrado em Luxor

sexta-feira, 6 de março de 2015


A descoberta foi feita por arqueólogos norte-americanos na zona de Al-Qarna, em Luxor, a cerca de 600 quilómetros ao sul do Cairo.


O mausoléu do chamado “guardião da porta do deus Amon”, que data da XVIII dinastia faraónica (1554-1304 a.C.), foi descoberto na cidade de Luxor, anunciou hoje o ministro egípcio das Antiguidades, Mamduh al-Dmati.

A descoberta foi feita por arqueólogos norte-americanos que realizavam escavações na zona de Al-Qarna, em Luxor, a cerca de 600 quilómetros ao sul do Cairo.

O túmulo, que pertence a uma pessoa identificada como Amenhoteb, tem a forma da letra T e as paredes internas da cripta estão ornamentadas com relevos policromados que representam o falecido e a sua esposa em frente de uma mesa de oferendas.

Por sua parte, o diretor-geral de Antiguidades do Alto Egito, Sultan Aid, disse que a tumba foi danificada premeditadamente, durante a revolução religiosa que aconteceu durante o período do faraó Akenaton, concluiu o responsável egípcio.

Akenaton, conhecido também como Amenófis IV, foi um dos faraós mais importantes do Novo Império (1539-1075 a.C.), por ter sido o primeiro monarca a instituir o monoteísmo com o deus Aton.

O humano mais antigo do mundo (será?)



Uma equipa internacional de arqueólogos acredita ter encontrado o humano mais antigo do Mundo. As duas mandíbulas encontradas na Etiópia, no este de África, datam de há cerca de 2,8 milhões de anos, meio milhão de anos antes do que se supunha ser a origem do género Homo ao qual pertencemos. Esta descoberta pode alterar as hipóteses sobre o local e momento da origem dos humanos, referem os autores do estudo publicado na revista científica Science.

Foi Chalachew Seyoum, um estudante etíope da Universidade Estatal do Arizona, que descobriu o primeiro dente no sítio Ledi-Geraru, na Etiópia, e depois disso a mandíbula que se confirmou ter cerca de 2,8 milhões de anos. O mais surpreendente é a proximidade com o Australopithecus afarensis, da mesma espécie que a conhecida Lucy.


Uma proximidade que é geográfica, temporal e até morfológica. Lucy foi encontrada em 1974, a umas dezenas de quilómetros deste novo achado. Embora tivesse cerca de 3,4 milhões, o Australopithecus afarensis mais recente terá vivido há três milhões de anos, refere o National Geographic. A possibilidade desta espécie de australopiteco e de hominídeo se terem cruzado não é descartável e coloca-se mesmo a hipóteses que Homo agora encontrado seja uma espécie de transição.

“Este espécime combina traços primitivos dos primeiros Australopithecus com características morfológicas derivadas observadas em Homo posteriores”, referem os autores no artigo, confirmando que a evolução da mandíbula e dentes se deu no início da linhagem do género Homo. “É uma forma de transição, como seria expectável naquela altura. O queixo parece mais antigo no tempo, mas os dentes parecem mais modernos”, explica William Kimbel, investigador da Universidade Estatal do Arizona.

O sítio onde foram encontradas as mandíbulas está a umas dezenas de quilómetros de Gona, onde apareceram as ferramentas de pedra mais antigas que se conhecem, refere o El Pais. Pensava-se que Homo habilis teria sido o primeiro manusear ferramentas, mas “até agora não havia nenhum fóssil que correspondesse a essas ferramentas [de Gona]”, referiu Carlos Lorenzo, arqueólogo na equipa de Atapuerca e que não esteve envolvido neste estudo. “Não sabíamos quem as tinha feito, mas agora pode atribuir-se a este novo Homo.”

A espécie de Homo mais antiga conhecida tinha 2,3 milhões de anos e tinha sido encontrada na mesma região, mas os fósseis humanos do período entre dois a três milhões de anos são bastante raros. Assim, esta nova espécie descoberta volta a agitar a árvore filogenética humana como se conhece. Uma descoberta reforçada pelo estudo publicado esta semana na Nature, que mostrou que a estrutura de mandíbula e dentes do Homo habilis, quando comparada com australopitecos e hominídeos mais modernos, implicava a existência de uma espécie mais antiga de Homo ou uma evolução de Homo habilis que se tivesse iniciado muito tempo antes.


Nota: Os evolucionistas já consideram um pedaço de mandíbula e alguns dentes um ancestral humano, um possível elo entre a espécie Australopithecus afarensis (representada pela famosa fêmea Lucy) e o Homo habilis, considerado o primeiro hominídeo a fabricar ferramentas de pedra. O escritor criacionista Michelson Borges denunciou que a notícia da descoberta desse fóssil trata-se de mais um exemplo típico de "divulgação científica ufanista". Um exemplo disso é a reportagem de anteontem da Folha.

A cátedra e a política

quarta-feira, 4 de março de 2015

Max Weber (1864-1920)


"Numa sala de aula (...) o professor tem a palavra, mas os estudantes estão condenados ao silêncio. As circunstâncias pedem que os alunos sejam obrigados a seguir os cursos de um professor, tendo em vista a futura carreira e que nenhum dos presentes a uma sala de aula possa criticar o mestre. A um professor é imperdoável valer-se dessa situação para buscar incutir, em seus discípulos, as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é de seu dever, através da transmissão de conhecimento e de experiência científica."


WEBER, M. Ciência e política - duas vocações. Berlim: Dunker & Hunblot, 1967/1968, pp. 39-40.



Viste o site Escola Sem Partido

Destruição do patrimônio histórico

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


Peças datam de até 800 a.C.; cidade iraquiana de Mossul teve milhares de livros e manuscritos raros destruídos no domingo

LONDRES — As vítimas da barbárie jihadista não são apenas humanas. Um pedaço da História da civilização humana foi destroçado pelo Estado Islâmico (EI) em Mossul, a segunda maior cidade iraquiana. Estátuas e artefatos milenares foram destruídos a golpes de marreta, furadeiras e brocas elétricas, causando incalculável prejuízo à humanidade, para a revolta de especialistas e estudiosos. Em um vídeo divulgado nesta quinta-feira pelo grupo fundamentalista, é possível ver militantes atirando esculturas datadas do século VII a.C. ao chão, reduzindo-as a pedaços. 

— É certamente uma tragédia para o Iraque e para o mundo. São objetos insubstituíveis — disse ao GLOBO, o professor Hugh Kennedy, da Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas), da University of London.

Em outro trecho dos cinco minutos de gravação, os extremistas demoliram uma gigantesca estátua de Lamasu, uma divindade protetora assíria representada por um touro alado, que ainda hoje é reproduzida na moeda do Iraque, o dinar. A destruição foi realizada no Museu Ninevah, em Mossul, tomado pelo EI em junho do ano passado, pouco antes do grupo anunciar a criação de um califado que abrange uma vasta região iraquiana e síria.

— Muçulmanos, estas estátuas atrás de mim eram ídolos e deuses para povos que viveram séculos atrás, que as adoravam em vez de adorar a Alá — diz no vídeo um homem barbado, diante do touro alado, parcialmente demolido. — O profeta ordenou que nos livrássemos de estátuas e relíquias, e seus companheiros fizeram o mesmo quando conquistaram países depois dele. O profeta enterrou os ídolos em Meca, com suas benditas mãos.

Assim como imagens assírias de Nínive e Nimrud, os radicais aparentemente aniquilaram estátuas de Hatra, uma cidade helenística que existiu há dois mil anos, no Norte do Iraque. Eleanor Robson, professora de História Antiga do Oriente Médio da University College London, confirma que as esculturas foram destruídas, mas acrescenta que alguns objetos no vídeo eram réplicas modernas.

Diretor do novo projeto “Arqueologia ameaçada”, da Universidade de Oxford em parceira com as universidades de Leicester, o arqueólogo Robert Bewley, afirmou que o problema não se limita à destruição. Acredita-se que o EI estaria vendendo peças de grande valor arqueológico no mercado negro para financiar a brutal ofensiva jihadista na região. Segundo ele, do Oriente Médio ao Norte da África, há de três a cinco milhões de sítios arqueológicos sob ameaça.

— Não se sabe quem está comprando. Mas há suspeitas de um grande comércio montado.

Segundo Bewley, as áreas de maior risco agora são partes do Iraque e da Síria onde não há governo efetivo, além de áreas do Egito, locais onde estariam um dos mais importantes patrimônios da história da humanidade.

A destruição repete o que aconteceu no Afeganistão em 2001, quando o país estava submetido ao regime radical islâmico do Talibã, e o líder do grupo extremista, Mohammed Omar, ordenou que se dinamitasse os Budas de Bamiyan, um dos principais monumentos do país. Entre eles, estava a maior estátua de Buda de pé do mundo, com 53 metros de altura, esculpida num rochedo na cidade de Bamiyan. Ela era anterior à chegada do islamismo ao Afeganistão, no século IX. Na época, Omar disse que as estátuas eram “um insulto ao Islã”, representavam “deuses dos infiéis” e deveriam ser destruídas para nunca mais serem reverenciadas. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) chegou a pedir ao Talibã que não destruísse as obras, consideradas patrimônios da Humanidade, mas não teve êxito.

— Eles acham que esses objetos são de um tempo de ignorância, quando o Islã não existia. Consideram shirk (idolatria ou adoração) reverenciar o que não seja Deus. Não é algo compartilhado pelos muçulmanos em geral, que apreciam o patrimônio cultural da Humanidade — disse o especialista em Islamismo do King's College, Carool Kersten.

BARBÁRIE CULTURAL EM MOSSUL

No domingo, o grupo queimou pelo menos 8 mil livros e manuscritos raros da biblioteca pública de Mossul. Eles fizeram ainda uma fogueira com livros culturais e científicos, e ainda levaram embora livros infantis e religiosos, segundo testemunhas. O EI também destruiu, no domingo, uma igreja e o teatro da universidade local.

O biblioteca foi fundada em 1921, após o nascimento do Estado iraquiano moderno. Em seu conteúdo, estavam manuscritos que datavam de até 5000 a.C., livros sírios impressos na primeira gráfica do país, títulos que datam do Império Otomano, jornais locais de décadas anteriores e antiguidades como astrolábios. Grande parte era considerada patrimônio raro pela Unesco. O acervo de famílias da alta sociedade da região também era hospedado na biblioteca.

Uma outra biblioteca foi queimada em janeiro na cidade, com 2 mil livros destruídos.

Mossul concentra 1.791 sítios arqueológicos, entre eles quatro capitais do antigo Império Assírio. O EI já havia destruído outros santuários — incluindo alguns muçulmanos —, vistos como hereges ou idólatras. Kennedy destacou que a cidade sempre teve uma vida intelectual vibrante, com a presença de uma universidade importante. De acordo com o professor, a biblioteca onde foram destruídos oito mil livros pelo EI tinha um acervo importante sobre a independência do Iraque, desde os seus primeiros movimentos, na década de 1920, além de material dos séculos XVIII e XIX.


Ainda nesta quinta-feira, no Nordeste da Síria, o EI continuou os ataques a comunidades cristãs assírias. Foram relatados sequestros de mais pessoas, com algumas entidades elevando o número total de reféns para mais de 350, levados de 12 vilarejos. Negociações estão em curso para tentar a libertação dos sequestrados em troca de jihadistas do EI capturados por milícias curdas e árabes.
Fonte: O Globo

Nota: Hoje é um dia triste para a humanidade, que perde um parte importante do seu passado e de sua identidade. O Estado Islâmico já provou a sua monstruosidade ao degolar, escravizar, queimar e enterrar vivas pessoas indefesas, dentre outras barbaridades. Agora avança na destruição do patrimônio histórico, a exemplo dos talebãs. Torçamos para que uns e outros sejam detidos, e que pelo menos algumas estátuas assírias destruídas sejam restauradas, como poderá ocorrer a pelo menos uma das estátuas de Buda em Bamiyan (não sem alguma polêmica - confira no ZH Notícias).  

Um último comentário: os iconoclastas de Mossul deixam bem clara a sua inspiração - o exemplo do Profeta. Talvez isso sirva para calar, de uma vez por todas, os jornalistas politicamente corretos que insistem em negar o óbvio, qual seja, que o fundamentalismo é indissociável do Islã, ainda que nem todos os muçulmanos sejam terroristas.

P.s. Nos últimos dias o "espetáculo dos horrores" do Estado Islâmico foi completado com a destruição das cidades históricas de Nimrud e Hatra. No dia 21/08, foi divulgado que os monstros destruíram o mosteiro de Mar Elian, construído há 1.500 anos, na Síria. 


Independentemente do futuro que terá o patrimônio histórico no Oriente Médio, a civilização já impôs uma primeira derrota aos vândalos/terroristas do Estado Islâmico: o Museu Nacional do Iraque, fechado desde 2003, foi reaberto no dia 28/02. Seu acervo conta com muitas antiguidades recuperadas e restauradas. In: O Globo    

A história da evolução humana pode ser reescrita

David Lordkipanidze, diretor do Museu Nacional da Geórgia, em Tbilisi, exibe o "Crânio 5", que teria 1,8 milhão de anos. O crânio combina características até então nunca observadas no mesmo ser primitivo. 

Fósseis de 1,8 milhão de anos encontrados na Geórgia sugerem que a aparência dos ancestrais humanos era muito variada; e que os 'Homo habilis', 'Homo rudolfensis' e 'Homo erectus' poderiam pertencer a uma mesma espécie. 

O crânio que pode obrigar os cientistas a reescreverem toda a história da evolução humana foi descoberto em 2005, na região de Dmanisi, Geórgia. Na verdade, os cientistas sempre enfrentaram dificuldades para traçar a linha evolutiva entre o Homo habilis, o Homo rudolfensis e o Homo erectus, e nunca apontaram de maneira definitiva qual dessas espécies deu origem às outras e aos Homo sapiens.

Em suma, os pesquisadores sugerem a derrubada da ideia da existência de várias espécies Homo. Para eles, houve uma única espécie Homo erectus, surgida no continente africano, capaz de se adaptar aos diferentes ecossistemas e que daria origem aos seres humanos modernos. A hipótese não deverá ser aceita imediatamente pela comunidade científica, mas poderá ensejar outros estudos que, sim, poderão reescrever a história da evolução do homem.

Saiba mais na reportagem de Veja

Leia também o artigo original da Science e a nota do escritor criacionista Michelson Borges, sobre a descoberta do Crânio 5. 

Recentemente, as descobertas de novos fósseis, desta vez na Etiópia, tornaram o emaranhado da história da evolução humana ainda mais difícil de desatar. Leia AQUI. Leia também: Australopithecus sediba: mais outro macaco que cai da árvore da evolução humana. 

Fósseis encontrados no Marrocos também podem mudar tudo o que se sabe sobre a origem da humanidade, segundo informa a BBC Brasil.

Manuscritos do Mar Morto

domingo, 22 de fevereiro de 2015


Desde dezembro de 2012, estão disponíveis online os Manuscritos do Mar Morto. No total, são mais de cinco mil os documentos e imagens disponíveis em alta resolução. Confira-os AQUI.

Entre os manuscritos, datados do séc. I, encontram-se fragmentos dos mais antigos bíblicos do Antigo Testamento, entre os quais os referentes aos Dez Mandamentos, aos Salmos, ao Livro de Isaías e aos textos apócrifos. Existe ainda um capítulo do Gênesis.

Muitos destes manuscritos, que foram descobertos por um pastor numa gruta de Qumram em 1947, têm permanecido guardados no Museu de Israel. Raramente são expostos ao público, devido aos cuidados que o seu estado de conservação exige. 

Saiba mais sobre a importância dos manuscritos do Mar Morto para os estudiosos da Bíblia:



Saiba mais sobre Israel no site Café Torah

«História do Século XX», de M. Gilbert

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Baixe a edição brasileira dessa obra aqui.

Esta é a 3ª edição de uma obra esplêndida, publicada em 2014 pela editora lisboeta Dom Quixote. Os leitores do mundo lusófono que se interessam pela História do Século XX contam com poucas opções para além da famigerada Era dos Extremos. Assim, a tradução deste livro do historiador judeu Martin Gilbert foi providencial. Dificilmente outro historiador será mais feliz em fornecer um panorama geral dos acontecimentos do "século das guerras". Para Gilbert, eis como  tal período pode ser dividido:

Introdução
1. A Primeira Década, 1900-1909
2. Os Caminhos Que Levam à Guerra, 1910-1914
3. A Primeira Guerra Mundial, 1914-1918
4. No Rescaldo do Armagedão, 1919-1925
5. Entre duas Tempestades, 1926-1932
6. A Caminho do Abismo, 1933-1939
7. A Segunda Guerra Mundial, 1939-1945
8. Recuperação e Recaída, 1946-1956
9. Esperanças Acalentadas, Esperanças Frustradas, 1957-1967
10. Desafios da Modernidade, 1968-1979
11. Expectativas Renovadas, 1980-1989
12. O Admirável Mundo Novo, 1990-1999
Mapas
Índice Remissivo

Como se trata de uma condensação da obra de três volumes e 2700 páginas, a edição da Dom Quixote traz alguns inconvenientes. O maior deles foi a supressão da bibliografia, disponibilizada nos volumes originais. Contudo, a linguagem acessível, a riqueza de dados, o rigor acadêmico e a notável capacidade de envolver o leitor fazem com que os poucos problemas da edição condensada sejam facilmente superados. 

Diferentemente do marxista Eric Hobsbawm, Gilbert nos fornece uma narrativa bem organizada, ano a ano, de 1900 a 1999 (aqui ele comete um equívoco ao incluir o ano de 1900 no século XX, ao mesmo tempo que exclui o ano 2000, o derradeiro da centúria). Alguns, certamente, rotularão a sua História de "positivista", ignorando que a narrativa deve ser a "espinha dorsal" (Barbara Tuchman) dos escritos do historiador. Numa época em que reina o relativismo, em que se discute e se desconstrói antes sequer de conhecer os fatos, Gilbert parece ser um espécime de historiador em vias de extinção - ainda mais após o seu falecimento, no início deste mês.

Aos olhos de Gilbert o século XX foi um período de grandes feitos, bem como de monstruosos excessos. Enquanto a ciência e a medicina avançaram de forma surpreendente, tiranos e terríveis guerras deixaram um rastro de opressão, destruição e genocídios. Como biógrafo de Churchill, Gilbert destaca uma de suas frases, icônica sobre a centúria passada: "Chamam-lhe o século do homem comum, porque foi o homem comum quem mais sofreu nele." O choque de nações - e o choque de impérios, avassalador na Primeira Guerra Mundial - bem como as alianças, rivalidades e colapso de países (incluindo conflitos de nacionalidades e grupos nacionais) ocuparam um papel central ao longo do século. Por toda a parte, revoluções e revolucionários lutaram pela alteração da velha ordem, "fazendo-o com frequência sem respeitar os direitos que até os piores expoentes da velha ordem tinham outorgado". "O século foi em grande parte dominado pela luta entre o primado da lei e a anarquia; entre os direitos do indivíduo e a destruição desses direitos" (p. 10). Assim, ao longo do seu trabalho, Gilbert se concentra no papel do indivíduo, em prol dos direitos civis e dos direitos humanos, em todos os lugares do globo.

Gilbert ainda se distingue pela sensibilidade ao se lembrar de temas como a "carnificina" anual dos acidentes automobilísticos, que ao longo do século superaram até mesmo as vítimas de guerras; o antissemitismo na Rússia e na União Soviética; as catástrofes naturais que assolaram a humanidade. Normalmente tais assuntos são olvidados pelos historiadores, sobretudo quando se dedicam a narrativas abrangentes, como é o caso.     

Para finalizar - porque quero que leiam o livro - destaco a abundância de citações. Diferentemente do Hobsbawm, que dispensa os documentos, Gilbert utiliza-os do início ao fim. Embora não tenhamos as referências (o que é compreensível, visto que 2 mil páginas precisaram ser eliminadas na condensação), podemos nos regalar com uma série de trechos de discursos, jornais, diários e memórias pessoais, etc. Numa delas, o presidente George Bush (1924-  ), no contexto da Guerra do Golfo, disse que Saddam Hussein agia tão barbaramente contra a população civil como Hitler. Bush pai encontrou tal paralelo após a leitura de outro livro de Martin Gilbert - A Segunda Guerra Mundial. 

Resenha publicada na Mnemosine revista (p. 228-231).