“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

O historiador e a sua profissão

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


O que significam as palavras escritas? O que o escritor quis dizer com aquilo quando escreveu? Por que escreveu? Quando? Como? Onde? Para quem? Na belíssima iluminura medieval acima, o bispo Virgil von Salzburg (c. 746-784) medita profundamente o texto que acaba de ler. Sua mão direita apóia seu queixo, seus imensos olhos perscrutam o livro aberto. A cena, reflexiva e contemplativa, é emoldurada por seres fantásticos e sinuosos motivos geométricos. Viena, Osterreichische Nationalbibliothek, Cod. 1224, fol. 17v. (Texto de Ricardo da Costa)


Como historiadores, somos frequentemente questionados sobre o sentido do nosso trabalho. Marc Bloch (1886-1944), em sua esplêndida obra Apologia da História ou O ofício de historiador já dizia que se a História fosse julgada incapaz de outras tarefas, poderíamos dizer ao seu favor que ela diverte. De fato. As humanidades - da qual a História faz parte - são disciplinas não-práticas que têm por meta a sabedoria. Diferem-se, portanto, das ciências, que têm por objetivo a maestria, e são matérias práticas por excelência.

Na Antiguidade Clássica, Políbio (c. 203 a.C.-120 a.C.), geógrafo e historiador grego, acreditava que "a melhor educação e a melhor aprendizagem para a vida política ativa é o estudo da História" (Histórias, I, p.1). Na Idade Média, o Islã produziu um genial filósofo da História - Ibn Khaldun (1332-1406). Segundo ele (al-Muqaddima, introdução):

A História é uma ciência nobre. Apresenta muitos aspectos úteis. Propõe-se atingir um fim nobre. Faz-nos conhecer as condições específicas das nações antigas, que se traduzem no seu caráter nacional. (...) Assim, quem quiser pode obter bons resultados, pela imitação dos modelos históricos, religiosos e profanos. Para escrever obras históricas é preciso dispor de numerosas fontes e variados conhecimentos. É também preciso um espírito reflexivo e profundo: para permitir ao investigador atingir a verdade e defender-se do erro.

Na Renascença, o humanista e filósofo neoplatônico Marsílio Ficino entendeu perfeitamente a importância do estudo da História para a vida humana. Em carta a Giácomo Bracciolini, Ficino registrou iluminadas palavras acerca do valor da História:

A História é importante não apenas para tornar a vida mais agradável mas também para lhe dar uma significação moral. O que é imortal em si mesmo consegue a imortalidade através da História; o que é ausente torna-se presente, velhas coisas rejuvenescem e um jovem logo se iguala à maturidade dos velhos. Se um homem de setenta anos é considerado sábio devido à sua idade, quão mais sábio é aquele cuja vida abrange o espaço de mil ou três mil anos! Pois, na verdade, pode-se dizer que um homem viveu tantos milênios quantos os abarcados pelo seu alcance de conhecimento de História.

Ao buscar a sabedoria e orientado pela paixão (que em algum momento amadurece e se torna amor), o historiador escolhe o seu tema. A seguir, em pleno trabalho, debruça-se sobre as suas fontes - textuais, orais, arqueológicas, iconográficas, etc.. Faz uma imersão nos símbolos ao tentar compreender o texto. Este é a expressão que restou dos homens, que são o seu objeto. Imagina. Sim, segundo Georges Duby (1919-1996), o historiador deve imaginar. A seguir, sonha com a História - para Fernand Braudel (1902-1985, “quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.”

Mas o historiador tem um compromisso com a verdade (segundo Cícero [106-43 a.C.], antes de tudo espera-se que ele só diga a verdade). Isto põe freios à sua imaginação. Para que ele não queira que o passado tenha sido algo que não foi, algo que gostaria que tivesse sido - o que invalidaria o seu esforço intelectual - lança mão de teoria e métodos. Só eles os mantêm totalmente seguros do alerta de Eric Hobsbawm (1917-2012):

A História é atualmente revista ou inventada por gente que não deseja o passado real, mas somente um passado que sirva aos seus objetivos. Estamos hoje na grande época da mitologia histórica.

Após todo esse percurso, o historiador escreve. Esta é a expressão final do seu trabalho. Há alguns raros eleitos que, sem abandonarem a erudição ou se tornarem incompreensíveis aos leigos, imprimem grande estilo ao seu texto. Penso aqui em um Edward Gibbon (1737-1794) ou um Johan Huizinga (1872-1945) que se tornaram referências neste quesito. O já citado Cícero dizia: "A mim me bastam a clareza e a simplicidade, que são o melhor ornamento da verdade (...) falar clara e simplesmente é o que compete a um homem inteligente e douto" (Do sumo bem e do sumo mal, Livro III, V). Assim, em última análise, o historiador é um escriba (lembro-me aqui daquela maravilhosa fonte egípcia na qual o pai recomendava ao filho esta profissão, a melhor de todas). O "fruto" do seu trabalho não deve ser reputado como menos digno:

O fruto das letras é, por muitas razões, o mais aprazível, principalmente porque, suprimido o empecilho de qualquer separação espacial e temporal, elas exibem aos amigos a presença mútua, e não permitem que pereçam com o tempo as coisas dignas de lembrança. Pois até as artes teriam perecido, os juramentos ter-se-iam esvaído, todos os ofícios de qualquer religião teriam ruído, e o próprio uso da boa expressão ter-se-ia corrompido, se a misericórdia divina não tivesse providenciado para aos mortais o uso das letras como remédio para a fraqueza humana. O exemplo dos antigos, a exortação e incentivo da virtude, não erigiria nem conservaria absolutamente nada, se a solicitude piedosa dos escritores e o zelo, vencedor do descuido, não tivessem transmitido aos pósteros. John of Salisbury, Policraticus (1159).

Mas alguém ainda pode querer um dado "mais próximo" em favor da História. Para o que há pouco se apaixonou pela adorável Clio, aquele pobre a enfrentar as pressões internas, familiares e sociais para escolher uma profissão "mais rentável", ficam as dicas de dois livros, recém-lançados. O primeiro é de Karl Pillemer e chama-se 30 Lessons for Living. Trata-se de uma compilação de mais de 1.000 entrevistas realizadas com idosos de diferentes níveis econômicos e educacionais, destinadas ao objetivo de oferecer conselhos práticos baseados no que estes fizeram de certo ou errado em suas vidas. Questionados sobre a carreira profissional, nenhum dos mil entrevistados considerou que a felicidade estaria associada ao trabalho excessivo que rendesse dinheiro suficiente para comprar o que quer que fosse. Há ainda outros estudos, desnecessários de serem mencionados que aqui, que apontam para a mesma conclusão: não é o dinheiro que traz a felicidade. Bons profissionais trabalham naquilo que amam, e o retorno financeiro é mera consequência disso.

O segundo livro foi escrito pela enfermeira australiana Bronnie Ware, especialista em cuidados paliativos e doentes terminais. O livro intitula-se The Top Five Regrets of the Dying - A Life Transformed by the Dearly Departing . Segundo a autora, reuniu nele 'confissões honestas e francas de pessoas em seus leitos de morte.' Advinha qual foi o maior arrependimento que ela constatou? Não ter tido coragem de se fazer o que realmente se queria e não o que outros esperavam que fosse feito.

Tendo tudo isso em vista, só tenta dissuadir o filho da ideia de cursar História o pai que desconhece o pensamento abaixo:

O meu filho deve ler muita História e meditar sobre ela; é a única filosofia verdadeira. Napoleão Bonaparte, Testamento político (Abril de 1821).


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- Para os que queiram se aprofundar na questão da utilidade da História, recomento o artigo do Prof. Dr. Ricardo da Costa intitulado Para que serve a História? Para nada... , in: AQUI.
- Sobre o livro de Karl Pillemer, ver G1.
- Sobre o livro de Bronnie Ware, ver G1 (Ciência e Saúde).

«Pensamentos», de Marco Aurélio

sábado, 31 de dezembro de 2011



O imperador Marco Aurélio (161-180) legou à filosofia ocidental uma grande joia do estoicismo: a obra Pensamentos (ou Meditações). É nela que podemos ler as belas citações abaixo:

Qual é a duração da vida do homem? Um ponto no espaço. A substância? Variável. As sensações? Obscuras. O que é o seu corpo? Putrefação. Sua alma? Um torvelinho. Seu destino? Um enigma. Sua reputação? Duvidosa. Tudo o que provém de seu corpo é como água da torrente, e o que dimana de sua alma é como um sonho, como o humo. Sua vida é um combate perpétuo, um descanso em terra estrangeira, e sua fama depois da morte um esquecimento absoluto. Qual é a única coisa que pode facilitar sua viagem nesse mundo? A Filosofia. Ela consiste em velar pelo gênio que reside em seu interior, de modo que não receba nem as afrontas, nem as feridas, e que não se deixe arrastar pelos prazeres nem pelas dores, que não faça nada fortuitamente, que não empregue os embustes nem a hipocrisia, que nunca conte com que o outro faça ou deixe de fazer, que aceite tudo o que aconteça ou o que corresponda como procedente da mesma origem e, por fim, que aguarde a morte com paciência, como uma dissolução dos elementos que constituem o organismo de todo ser animado. Se estes elementos não sofrem dano algum ao transformar-se perpetuamente de um estado ao outro, porque te inspiram desconfiança ou temor? Tudo se encontra regido pela Natureza, logo não há nenhum perigo.
MARCO AURÉLIO, Pensamentos, Livro II.17.

Se alguém me consegue mostrar e provar que estou errado no pensamento ou na ação, eu mudo de bom grado. Eu procuro a verdade, o que ainda nunca magoou ninguém. Só a persistência na auto-ilusão e na ignorância é que magoa. - IDEM, VI.21.


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- Leia AQUI a obra completa de Marco Aurélio.
- Ver a biografia McLYNN, Frank. Marco Aurélio: guerreiro, soldado e imperador. Lisboa: Civilização, 2010.

A reabertura do mausoléu da família Scipioni

sábado, 24 de dezembro de 2011


Era a notícia que faltava para terminarmos o ano "com chave de ouro": o mausoléu de uma das famílias mais tradicionais da Roma Antiga será reaberto à visitação pública no próximo dia 27. Ele já estava fechado há 20 anos.

O maior representante desta família foi Cipião, o Africano, (em latim, Publius Cornelius Scipio Africanus), célebre pela atuação durante as guerras púnicas, nas quais derrotou o invasor Aníbal de Cartago, no século III a. C. O heroi romano, contudo, não foi enterrado ali. Acusado de ter recebido suborno, deixou Roma e nunca mais voltou. Diz-se que passou seus últimos em sua propriedade em Litermum (perto de Nápoles), e que antes de morrer pediu que seu corpo ficasse aí, não na Roma ingrata. Seu pedido foi atendido e seu túmulo ainda existia em Litermum, segundo o historiador romano Tito Livio. "Pátria ingrata, não te deixarei nem meus ossos", dizia seu epitáfio.

O monumento funerário, composto por uma série de galerias subterrâneas de dois metros de altura, com elegantes sarcófagos, está localizado junto à Porta di San Sebastiano, a algumas centenas de metros das Termas de Caracalla, um dos locais mais fascinantes da parte histórica de Roma.

O túmulo foi descoberto por acaso, em 1780, por dois religiosos, proprietários de um vinhedo. Os trabalhos recentes de restauração, no valor de 1,3 milhão de euros, foram financiados pela prefeitura de Roma e começaram em 2008.


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Veja o vídeo: http://veja.abril.com.br/multimidia/video/mausoleu-da-familia-scipioni-reabre-em-roma

A queda do Império Romano

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


A sua voz era fraca,
O seu andar era lento,
os seus olhos escavados.
A sua face estava caída
e a fome tinha gasto os seus membros.
Os seus ombros fracos mal conseguem
apoiar o seu escudo não polido.
O seu capacete torto mostra os seus
cabelos grisalhos e a lança que ela
carrega não passa de ferrugem.
Claudiano, De bello Gildonico, Livro XV.





Não estará seguro aquele que te esquecer.
Que possa eu louvar-te ainda que o sol se torne escuro.
Pois contar as glórias de Roma é como contar
as estrelas do céu.
Rutílio Namaciano (séc. V)

O tema sempre será apaixonante. Os antigos já debatiam-se com a questão. Além de Rutílio, Boécio (c. 480-524 ou 525) não concebia o fim da civilização romana, embora servisse na corte do rei bárbaro Teodorico, o grande. Desde Gibbon e sua colossal obra no século XVIII, até hoje, a historiografia se debruça sobre as causas da queda do maior império de todos os tempos. Aliás, são de Gibbon as palavras abaixo:

Enquanto esse grande organismo [o Império Romano] era invadido pela violência sem freios ou minado pela lenta decadência, uma religião pura e humilde foi brandamente se insinuando na mente dos homens, crescendo no silêncio e na obscuridade; da oposição tirou ela novo vigor para finalmente erguer a bandeira triunfante da Cruz por sobre as ruínas do Capitólio.
GIBBON, E. Os cristãos e a queda de Roma. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, p. 7.

Enfim, são múltiplas as visões sobre o fenômeno, e a posição de Gibbon é devidamente refutada na minha dissertação de mestrado. Seguindo na linha de Gibbon, Arther Ferrill e Bryan Ward-Perkins (autores, respectivamente, de A queda do Império Romano - a explicação militar e de A queda de Roma e o fim da civilizaçãodefendem que o desaparecimento político do Estado romano representou o fim de sua civilização. Por outro lado, historiadores que seguem a tendência inaugurada por Peter Brown (criador do termo Antiguidade Tardiadestacam as permanências e transformações da cultura clássica a partir do contato com o cristianismo. Finalmente, destaco uma discussão histórico-filosófica que talvez esteja no meio termo - O fim do mundo antigo, do historiador italiano Santo Mazzarino.

Como prova de que séculos de investigações não esgotaram o tema, recentemente foi lançado um livro muito interessante sobre o assunto:

GOLDSWORTHY, A. O fim do Império Romano - o lento declínio da superpotência. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010.

Adrian Goldsworthy já escreveu vários livros sobre a civilização romana - com destaque para a História Militar - e nesta obra defende as guerras civis e a instabilidade política como a principal causa da extinção política do Império. Um quadro panorâmico sobre o Baixo Império, e um texto tremendamente bem escrito! Ele busca aproximar a História do grande público, sem perder o rigor científico.


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- Imagem: detalhe do quadro O saque de Roma pelos visigodos em 24 de agosto de 410, de Joseph-Noel Sylvestre (1847-1926).
-Leia o artigo O fim do mundo antigo: uma discussão historiográfica, de Gilvan V. da Silva, na Mirabilia.
- Leia o artigo El fim del Imperio Romano de Occidente, de Manuel Muñoz García, na Tempora Magazine.
- Assista: The fall of the Roman Empire (1964), do diretor: Anthony Mann. Vale a pena também ver o documentário Império Romano - o último imperador.

Uma História do Cristianismo (BBC)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


"A história do cristianismo tem sido um incessante renascimento de um encontro com Jesus Cristo, o Filho de Deus ressuscitado. Para alguns, como as Igrejas Ortodoxa e oriental, os encontros têm sido feitos através de um ritual, tradicional ou intimamente místico. Já para os católicos ocidentais, por meio da obediência à Igreja. Para as igrejas protestantes, através da Bíblia. E é a variedade que é tão marcante na jornada do cristianismo." 
Diarmaid MacCulloch

O documentário A history of christianity está dividido em seis partes:

01 – O cristianismo primitivo

02 - Catolicismo - a imprevisível ascensão de Roma

03 - Ortodoxia - do Império ao Império

04 - Reforma - o indivíduo diante de Deus

05 - Protestantismo - a explosão evangélica

06 - Deus no banco dos réus

A série foi transmitida originalmente pela BBC Four. O Professor Diarmaid MacCulloch – um dos maiores historiadores vivos do mundo – revela as origens do cristianismo e explora o que significa ser cristão. O objetivo da BBC era produzir uma série ‘divisora de águas’ que examinasse as origens do Cristianismo e a relevância da fé no mundo atual. O professor de História da Igreja na St. Cross College Oxford, Diarmaid MacCulloch, considera a evolução da fé cristã e suas quatro formas principais: ortodoxa, cristianismo oriental, catolicismo ocidental e o protestantismo.

O historiador que apresenta a série declara-se apenas "um amigo sincero do cristianismo", e em certas partes deixa transparecer o seu ceticismo. Mas, no geral, a visão é bem equilibrada. Portanto, trata-se de um documentário a ser visto.

«Fabíola», do Cardeal Wiseman

quarta-feira, 16 de novembro de 2011


Baixe essa obra gratuitamente aqui.

Tenho a sorte de ser orientado por um professor versátil. Para me ajudar na árdua tarefa de desenvolver a minha dissertação sobre a cristianização do exército e a política imperial, ele sugeriu-me um romance escrito no século XIX:

CARDEAL WISEMAN. Fabíola ou A Igreja das Catacumbas. Tradução de Leyguarda Ferreira. Lisboa: João Romano Torres, 1969.

Após empreender uma verdadeira peregrinação por Lisboa e, especialmente, pelo Bairro Alto, encontrei-o num sebo que em 2014 completará 100 anos, a Livraria Barateira, Lda. 

[NOTA: Caso queira adquirir uma edição impressa, acesse a Estante Virtual]

Logo de início, Gentil Marques, o autor do prefácio, diz que o que impulsionou o Cardeal Nicholas Wiseman (1802-1865) foi o amor pelo tema. Isso condiz com o espírito desse sevilhano que, desde criança, "amava as flores, o céu e a verdade". Permanece um mistério como o autor, homem extremamente sobrecarregado pelas atividades do seu ministério, conseguiu levar a cabo a missão de escrever esse excelente romance. Tudo isso deve contagiar o leitor: é animador saber que A Igreja das catacumbas (como Fabíola também é conhecida) não foi escrita por interesses financeiros ou quaisquer outros, mas tão-somente pelo amor!

Posto isso, vamos ao enredo. A estória se passa em Roma, no início do século IV d.C., durante a última grande onda de perseguição aos cristãos. Essa perseguição foi a promovida por Diocleciano e seus colegas tetrarcas entre 303 e 311 (só para constar, a 1ª dessas "ondas" ocorreu sob Décio, entre 249 e 251, e a 2ª, sob Valeriano, entre 257 e 260). Logo no 1º capítulo já ficamos extasiados com o enorme exemplo de fé do jovem Pancratius, que recebera o exercício de desenvolver a frase "o verdadeiro filósofo deve estar sempre disposto a morrer pela verdade." Seguindo suas convicções, mudou a palavra "filósofo" por "cristão", e "verdade" por "fé". Um colega pagão incomodou-se e procurou-o para uma luta, após a aula. Ao ver que Pancratius não cederia, insultou-o e agrediu-o. A seguir, o professor chegou e estava pronto para punir o agressor. Contudo, demonstrando um genuíno espírito cristão, Pancratius insistiu para que o colega petulante não fosse castigado. Ao relatar o episódio em casa, afirmou ter sido aquele um dia feliz porque havia vencido a luta do autocontrole!

Finalizo com uma citação, muito bem fundamentada historicamente (como todo o pano de fundo da obra, diga-se de passagem). A explicação sobre as causas das perseguições anticristãs no Império Romano não poderia ser melhor:

[...] O ódio ao cristianismo tinha origens políticas tanto como religiosas, pois era considerado contrário à prosperidade e à extensão do Império Romano, obedecendo a um poder invisível e espiritual. Os cristãos eram acusados de 'irreligiosi en Caesares', isto é, desleais para com o imperador, e isto bastava. A sua segurança dependia do espírito popular e qualquer demagogo ou fanático podia facilmente incitar contra eles os sentimentos de ódio e de vingança, sem que o seu procedimento, a sua atitude pacífica, conseguissem defendê-los das perseguições. (p. 76)

A sexualidade na Antiguidade

quinta-feira, 27 de outubro de 2011



Apesar do título, não pretendo aqui dissertar sobre um tema tão amplo. Em primeiro lugar, gostaria de abordar o tema da pederastia grega. Depois, farei uma sugestão de leitura.

Trataremos, portanto, do chamado "amor dório" (o amor homossexual masculino; o termo "pederastia" é mais adequado que "homossexualidade", conforme explicarei adiante). Esse relacionamento homoerótico teria partido de Esparta, cidade-Estado famosa por seus valentes guerreiros. Não se tratava, via de regra, de uma opção para a vida, no sentido de um modo de vida gay, efeminado. De outro modo, a tradição antiga é unânime em relacionar a prática da pederastia à bravura e à coragem - o mais velho se inclinava a "brilhar" diante de seu amado, e em ambos se reforçava este "amor da glória".

O soldado veterano - erastes - relacionava-se com o recruta, vários anos mais jovem e denominado eromenos. Na imagem do utensílio de cerâmica acima, o erastes é o homem de barba. Esse tema é recorrente nos vasos gregos e aparece também na literatura. A diferença etária entre os dois amantes estabelecia uma relação de desigualdade: o eraste era o heroi, ao qual o eromenos procuraria modelar-se. 

O relacionamento era bem mais amplo que o simples contato sexual e tinha a ver com a transmissão de experiência militar e social. De qualquer forma, a forma mais comum de prática sexual era o coito intercrural (entre as pernas), no qual o erastes normalmente desempenha o papel ativo. A prática seria simplesmente um "rito de passagem" (há, contudo, quem conteste duramente um suposto caráter religioso da prática, que para os outros seria uma marca solene do ingresso do efebo na  confraternidade masculina). Uma vez concluído o seu aprendizado, o eromenos seguia a vida normal de um soldado-cidadão. Acabava por se casar e constituía uma família. Mais tarde, ele próprio se tornaria um erastes. Em todo caso, eram homens viris, valentes guerreiros e sem traços efeminados. Travestis e transexuais não eram conhecidos. Por tudo isso, faz mais sentido falarmos em pederastia (paiderastía-as, "prática sexual de um homem maduro com um efebo ou rapazinho entre a puberdade e a adolescência") que em homossexualidade na Grécia Antiga.

A pederastia alcançou grande parte da Hélade (sobretudo em Esparta). Mas nem toda, e nem todos os indivíduos aderiram a ela. Ao contrário da crença do senso comum, a pederastia parece ausente da obra de Homero (Ganimedes é apenas um serviçal de Zeus e entre Aquiles e Pátroclo houve apenas uma amizade de infância e uma fraternidade de combate). Na Jônia, era rejeitada; Platão (c. 428 - c. 348 a.C.), nas Leis, refere-se a ela como antinatural ou contra naturam; Xenofonte (c. 430 - 355 a.C.), em seu Banquete, elogia veementemente o amor conjugal heterossexual; Aristóteles (384 - 322 a.C.) foi ainda mais longe: na Política disse que a melhor pólis deveria estar livre da pederastia. Sócrates (469 - 399 a.C.), a despeito do que se propala por aí, provavelmente não se rendeu ao "amor dório", como atesta ninguém menos que Alcibíades (450 - 404 a.C.). Este, que para muitos teria sido o amante de Sócrates, lamentou, no Banquete platônico, seu insucesso em conquistar o grande filósofo.

A "onda" pederasta também não permaneceu na mesma envergadura por todo o tempo; declinou ainda durante a vida de Platão. Mas é fato que arraigou-se profundamente em Atenas, como atestam os discursos de Fedro, Pausânias, Aristófanes, etc. presentes no Banquete de Platão. Essas personalidades da aristocracia ateniense não só defenderam com afinco o amor dório, como atacaram ferozmente o amor heterossexual, cujos praticantes seriam ou covardes, ou adúlteros, etc.

Tudo isso nos mostra, mais uma vez, o quão complexos são os fenômenos históricos. Devemos desconfiar fortemente de explicações generalizantes com relação ao tempo, ao espaço e aos indivíduos, sobretudo se tivermos em mente a multifacetada Grécia Antiga.


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Dito isso, passo à sugestão do livro. Como estamos a tratar de um aspecto da sexualidade da Grécia Antiga, nada mais justo que uma sugestão de leitura que contemple também a Roma Antiga:

VEYNE, Paul. Sexo e poder em Roma. Rio de Janeiro: Record, 2008 (R$ 30).

Trata-se de mais um belo livro desse grande historiador de Roma. Ele uniu um texto leve e a uma descrição erudita sobre a moral, as práticas e as perversões da sexualidade e do erotismo em Roma. Fundamental para entendermos essa faceta da vida romana e, até hoje, tão marcante em nossa sociedade.

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-     Cf. MARROU, H.-I. História da Educação na Antiguidade. Tradução de Mário Leônidas Casanova. São Paulo: Herder, 1966, pp. 51-65 (cap. III - "Da pederastia como Educação"); e
Amor y sexo en la Grecia Antigua, de Juan Eslava Galan.
- As informações do Prof. Nougué foram extraídas a partir de Contra Impugnantes.
- Conheça mais sobre o tema da pederastia em Roma a partir do artigo Lex Scantina, a lei do sexo.