“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Como o Totalitarismo Destruiu o Estado

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Talvez o desenvolvimento mais importante da política moderna tenha sido a emergência de sistemas políticos com um vício oposto ao criticado por Hegel: o vício de não dissolver o Estado na sociedade civil, mas de absorver a sociedade civil no Estado. Esse vício foi exibido pelos jacobinos, que efetivamente proscreveram todas as associações que eles não controlavam, e foi a política consciente dos comunistas na União Soviética e seu império. Todas as instituições autônomas (as "corporações" de Hegel) - que são o âmago da sociedade civil - foram subvertidas, e nenhuma associação era permitida, a menos que estivesse sob o controle do Partido, que também controlava o Estado. A história do totalitarismo confirma as duas principais concepções da filosofia política de Hegel: a teoria de que Estado e sociedade civil só podem florescer quando não são confundidos e a teoria de que o Estado, em sua forma concreta, possui a identidade e a autoridade de uma pessoa jurídica. Precisamente ao usar o Estado para suprimir todas as corporações e associações autônomas, os totalitaristas colocaram uma máquina impessoal e irresponsável no lugar do governo responsável. Ao destruir a liberdade dos cidadãos, incluindo a liberdade de associação, também destruíram a personalidade do Estado, que se tornou uma espécie de máscara usada pelo conspiratório Partido. 

SCRUTON, Roger. Conservadorismo - um convite à grande tradição. Tradução de Alessandra Borruquer. Rio de Janeiro: Record, 2019, p. 55.

#HJ21 O Grão-Rabino e o Bispo

domingo, 22 de dezembro de 2019

Foto meramente ilustrativa.

Sucedeu outrora que o grão-rabino de Varsóvia, convidado para um banquete oficial, se encontrasse à mesa, ao lado do bispo da cidade. Este, contando divertir-se à custa do velho judeu, incitava-o a servir-se dos hors d' oeuvre, que consistiam principalmente em presunto com temperos fortes.

- Muito obrigado, reverendo - replicou o rabi. - Não sabe que esse prato é proibido pela minha religião?

- Deveras? - disse o bispo. -  Que religião extravagante! Este presunto é uma delícia.

Findo o banquete, o rabi despediu-se cortesmente do vizinho e acrescentou:

- Queira Vossa Reverendíssima apresentar os meus respeitos à sua esposa.

- À minha esposa? - exclamou o bispo horrorizado. - Não sabe que a minha religião proíbe o casamento aos sacerdotes?

- Deveras? - murmurou o rabi. - Que religião extravagante! Uma esposa é uma delícia! 

FINZI, Patricia et al. (edição, seleção e textos). Do Éden ao divã - Humor Judaico. São Paulo: Shalom, 1990, p. 59.

O Ressurgimento da Eugenia

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A logomarca do programa da eugenia. Saiba aqui como o movimento para criar seres humanos "melhores" nos Estados Unidos influenciou Hilter.

A questão do aborto seletivo (para obter o filho homem) que atormenta a China e a Índia, criou grandes perplexidades entre as feministas, reforçando a dúvida sobre uma palavra de ordem que até há pouco parecia intocável, e que ainda o é para os organismos internacionais: a liberdade de escolha das mulheres.

Partir, por exemplo, da convicção de que as mulheres são sempre capazes de escolher "justa" e responsavelmente aparece como um wishful thinking (pensamento ilusório) mais que como uma realidade. Na prática, as mulheres ficam sozinhas, com sua tremenda carga de responsabilidade, frente ao desejo individual, às pressões culturais, à exigência do mercado e às opções oferecidas pela ciência médica. Além disso, as tecnologias reprodutivas se encaminham cada vez mais para a seleção das características genéticas, voltando a trazer o velho fantasma da eugenia. A mesma pré-seleção do sexo é uma forma fraca de eugenia, o mesmo que, no caso da procriação assistida, tende a sê-lo o diagnóstico de pré-implantação.

Assim, aumenta o temor de que, sobretudo nos países em desenvolvimento, o controle do crescimento da população se transforme no controle da "qualidade da população". O fantasma da eugenia, que parecia definitivamente, volta dissimuladamente pelo progressivo deslocamento das fronteiras biomédicas e pela afirmação da "livre escolha". Se no Ocidente a eugenia se disfarça de opção individual feminina, nos países pobres os perigos da manipulação sobre o corpo individual e social, da parte dos governos e dos poderes fortes, são enormes, sobretudo pela fragilidade ou ausência da opinião pública e de um sistema político democrático que funcione como contrapeso.     

Adaptado de ROCCELLA, Eugenia; SCARAFFIA, LucettaContra o Cristianismo: a ONU e a União Européia como nova ideologia. Tradução de Rudy Albino de Assunção. Campinas, SP: Ecclesiae, 2014, p. 160-161.

A ONU contra a Liberdade Religiosa

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Igreja do Pastor Atuante - A Igreja Secular:
Engajamento político e social
Atividades culturais
Sem religião 

O princípio da liberdade religiosa - originalmente definido como o direito a mudar de religião, em referência à opção religiosa como livre opção pessoal - foi fortemente limitado. Esta atitude cerceadora tornou-se uma constante da política religiosa da ONU, como se pode deduzir do comentário do artigo 18 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP, vigente desde 1976). Em tal artigo, os especialistas distinguiram a liberdade de pensamento, de consciência e de religião, e a liberdade de manifestar a própria religião ou convicção. Por outro lado, o pacto não especifica em parte alguma a necessidade de separar o Estado das instituições religiosas, não se opondo assim à tradição islâmica.

Estas regras tendem a confundir proselitismo e incitação à discriminação e à violência. Parecem resultar de uma aliança entre os países islâmicos, contrários a conceder a liberdade religiosa em seus territórios, e os países laicos (como a França), que são contrários a toda forma de "missão" religiosa em seu interior.

As religiões são colocadas todas no mesmo plano. Muitas vezes, nos documentos oficiais, é reforçado que quem considera verdadeira a própria religião em detrimento das outras é culpável de fanatismo, ainda que sua atitude não contemple o recurso à discriminação e à violência. Nesse sentido, as religiões mais penalizadas são aquelas que se destacam por seu intenso fervor missionário, tais como as testemunhas de Jeová, os mórmons e os adventistas do sétimo dia, por exemplo.

É importante destacar que a Igreja Católica atual, principalmente sob a liderança do papa Francisco, tem relacionado cada vez mais o proselitismo ao fanatismo. Assim, no dia 13 de outubro de 2016, o sumo pontífice declarou a cerca de mil luteranos em visita ao Vaticano que as tentativas de proselitismo seriam "o maior veneno contra o caminho ecumênico". Tal posição foi reiterada dias depois, em seu discurso do dia 10 de novembro de 2016, Aos participantes na Plenária do Pontifício Conselho para Promoção da Unidade dos Cristãos (disponível aqui, ver o último parágrafo).

A atitude de tolerância para com a religião somente com a condição de que todas as religiões sejam consideradas do mesmo modo, tornou a ONU predisposta para com todas as organizações inter-religiosas, inclusive para aquelas que não agem somente a favor do diálogo, mas que se propõem substituir as religiões tradicionais por uma religião única, mundial, que compreenda todas. É a concretização do projeto da "Igreja Secular", conforme retratada no cartum do topo deste post.     

Bibliografia consultada: ROCCELLA, Eugenia; SCARAFFIA, LucettaContra o Cristianismo: a ONU e a União Européia como nova ideologia. Tradução de Rudy Albino de Assunção. Campinas, SP: Ecclesiae, 2014, p. 59-60.

A Santa Sé e a ONU

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O papa Francisco discursa na abertura da Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, na sede das Nações Unidas. Nova York, EUA, 25 de setembro de 2015.

A Santa Sé - através do Estado da Cidade do Vaticano - sempre ocupou uma cadeira na ONU como observador permanente de um Estado não membro (NMSPO). Essa designação - NMSPO - chama a atenção, uma vez que não existe uma norma que regule tal qualificação. Não ser membro é uma opção da Santa Sé, que preza por manter a própria neutralidade nos problemas políticos específicos. Apesar disso, o Vaticano incorporou muitas das mais importantes convenções internacionais, é membro de muitas entidades intergovernamentais da ONU, e participa ativamente como observador em numerosas agências especializadas (FAO, OIT, UNESCO, etc.) e nas organizações intergovernamentais continentais (OEA e União Europeia, por exemplo).

Nestes contextos, a Santa Sé discute ativamente os projetos que considera negativos para a humanidade, começando pelos relativos a um controle maciço dos nascimentos (mediante a legalização do aborto) e a definição de gênero em substituição à tradicional polaridade sexual. Tal postura, como se sabe, tem suscitado a ira de indivíduos e organizações progressistas, muitos dos quais exercem a sua pressão sobre a ONU para que o status da Santa Sé seja, de algum modo, rebaixado. 

Não tem funcionado. Por ocasião dos quarenta anos da presença da Santa Sé  na ONU (11 de julho de 2004), os 191 países membros adotaram, unanimemente, uma resolução que reconheceu à Santa Sé o direito a uma participação mais ativa nos trabalhos da Assembleia. Assim, a Santa Sé obteve o reforço de seu próprio status na ONU.

Desde a visita de Paulo VI à ONU, em 1965, a Igreja Católica assumiu uma posição favorável à Declaração de 1948. Além disso, manifestou muitas vezes a intenção de garantir um apoio forte e mediar proposições na Organização. Em 2004, João Paulo II foi mais além. No centro de sua mensagem para a Jornada Mundial da Paz, o pontífice lançou o desafio para uma nova ordem internacional, articulada pela ONU. Eis a sua mensagem: 

"É necessário que a Organização das Nações Unidas se eleve cada vez mais do estado frio de instituição de tipo administrativo ao de centro moral, onde todas as nações do mundo se sintam como em casa própria, desenvolvendo a consciência comum de serem, por assim dizer, uma família de nações." Um Compromisso Sempre Atual: Educar para a Paz

Recentemente, embora o prestígio do papado seja grande - impulsionado em grande medida pelo carisma do papa Francisco - permanecem tensões entre a visão católica relativa à vida e à reprodução humana, bem como o conceito de liberdade religiosa, e a posição mais "progressista" adotada pela Organização. Sobre tais pontos de tensão têm se concentrado, nos últimos anos, o compromisso da ONU, com todo o peso ideológico de uma verdadeira e própria "religião dos direitos humanos".     

Bibliografia consultada: ROCCELLA, Eugenia; SCARAFFIA, LucettaContra o Cristianismo: a ONU e a União Européia como nova ideologia. Tradução de Rudy Albino de Assunção. Campinas, SP: Ecclesiae, 2014, p. 54-58.

#HJ20 Ouvintes de Piadas

domingo, 15 de dezembro de 2019

O humor também tem seu lugar no indefinido espaço que separa o "povo eleito" dos "outros". É aí que surge a figura do gói objeto de temor, de inveja, de admiração. Uma tensão que se resolve em numerosas historietas.

O melhor ouvinte para uma piada, dizem os judeus, é um aristocrata russo, porque ri três vezes: quando ouve o gracejo, quando este lhe é explicado e quando finalmente, ele o entende.

O oficial russo já não é tão bom ouvinte, ri apenas duas vezes: quando ouve a pilhéria e quando ela lhe é explicada. Nunca chega a entendê-la.

O camponês russo é ainda pior: só ri ao ouvir a anedota. Não tem tempo para esperar a explicação; e ainda que o tivesse, não entenderia.

Mas o pior ouvinte é qualquer judeu, pois este não ri nem uma vez. Mas se começa a contar a história ele interrompe:

- Ora! Essa eu já sei desde que nasci!  

FINZI, Patricia et al. (edição, seleção e textos). Do Éden ao divã - Humor Judaico. São Paulo: Shalom, 1990, p. 58.

O Estilo de Jesus

sábado, 14 de dezembro de 2019

Cristo pregando, c. 1652, gravura de Rembrandt (1606-1669). 

Orador excepcional, que possui um conhecimento impecável dos meandros do coração humano, Jesus fascina as multidões. Sabe adaptar seus propósitos a seu auditório. Em Jerusalém, diante das pessoas do Templo, dos escribas e dos doutores da Lei, ele maneja de maneira espantosa as referências à Bíblia hebraica. A seu auditório rural da Galileia, reserva uma linguagem metafórica, plena de sabor semítico, que busca seus exemplos em cenas da vida cotidiana.

Podemos creditar a Jesus um grande senso de observação. Ele evoca as semeaduras, as colheiras, as vindimas, os ramos de videira que é preciso enxertar nas cepas, o pastor que vigia suas preciosas ovelhas ou parte à procura daquela que se perdeu, as relações do pai com seus filhos, do senhor com seus servidores, do anfitrião com seus convidados. Ele conhece os reflexos meteorológicos dos seus interlocutores: "Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado; e, pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio." Ele sabe que ninguém cose remendo de pano novo em uma roupa velha; porque o remendo novo repuxa a roupa velha e o rasgo fica ainda maior. Ele não ignora que uma árvore boa pode dar bons frutos, mas que uma má escolhida produz sempre frutos detestáveis. Nada lhe escapa das pessoas com as quais se relaciona. Ele denuncia o intendente desonesto ou o rico insensato, evoca até os ladrões que saqueiam as casas depois de ter previamente amarrado o proprietário vigoroso. É sensível à beleza, à poesia da natureza, obra do Criador, admira os pássaros, os corvos que não semeiam nem segam, mas que Deus alimenta. E as flores, como esquecê-las? "Considerai como crescem os lírios do campo", diz ele a seus discípulos, "eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles."

PETITFILS, Jean-Christian. Jesus - a Biografia. Tradução de Lea P. Zylberlicht e Gian Bruno Grosso. São Paulo: Benvirá, 2015, p. 111-112.