Pesquisa em inquéritos policiais do século XIX no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Início de 2008.
Como mencionei na página de agradecimentos da minha dissertação de mestrado, o historiador é um solitário. Seu trabalho é incansável, mas muito recompensador. Imagine descobrir, em meio às páginas amarelecidas de um arquivo, ou mesmo em fontes publicadas e já conhecidas, histórias incríveis, estudos inovadores e ideias que continuam atuais. Soma-se a isso o privilégio de lembrar o que os outros esquecem e contribuir para a preservação do patrimônio material e imaterial da humanidade, que são algumas das mais nobres funções sociais dos historiadores.
Na entrevista abaixo, concedida a um aluno que cumpre um pré-requisito de uma especialidade, eu explico um pouco sobre o ofício de historiador.
1. O que o motivou na escolha de ser um historiador ou professor de História?
A primeira observação que faço a essa pergunta é que não faço qualquer distinção entre ser historiador ou ser professor de História, não só por ter cursado tanto a licenciatura quanto o bacharelado, como também por não enxergar a menor separação entre o ensino e a pesquisa. Um professor deve ser um pesquisador, e um pesquisador precisar divulgar as suas descobertas, através das melhores ferramentas didáticas que dispõe.
Respondendo propriamente a pergunta, digo que sempre amei a História. Desde pequeno, sempre fui muito curioso, e na História eu encontrei uma fonte inesgotável de conhecimentos. Conhecer as diferentes culturas e civilizações, constatar a alteridade nas formas de organização social, no pensamento e na religião e perceber os extremos da existência humana é um desafio pra lá de instigante.
2. O que mais lhe chama a atenção ao estudar História?
O cumprimento exato das profecias bíblicas ao longo dos séculos, sobretudo as que constam nos livros de Daniel e Apocalipse. É também muito interessante perceber como a arqueologia e a investigação histórica têm confirmado muitos relatos das Escrituras.
3. Qual seria o aspecto mais interessante de sua profissão? Qual é o mais difícil?
Sobre o aspecto mais interessante da pesquisa, é tudo o que respondi acima: a constante descoberta ao estudar as diferentes civilizações e a constatação do cumprimento das profecias. Sobre o aspecto mais interessante do ensino, é poder inspirar alguns alunos a amarem a História, a se tornarem pessoas melhores.
A pesquisa histórica é tremendamente difícil, uma vez que o historiador precisa penetrar nas consciências humanas a partir de apenas alguns vestígios do passado, as fontes. Além disso, o historiador é um "sujeito" da História e, portanto, confunde-se com o seu objeto de estudo. Desta forma, a duras penas persegue a meta da objetividade, fundamental a qualquer pesquisa que se pretenda científica. No campo do ensino, o desafio também imenso, sobretudo num país como o Brasil, que não valoriza o professor ou a educação.
4. O que é História?
É a ciência dos homens no tempo, segundo o grande historiador Marc Bloch (1836-1944). Se quisermos levar em consideração uma definição mais detalhista, podemos considerar a História como "a ciência dos atos humanos do passado e dos vários fatores que neles influíram, vistos na sua sucessão temporal" (José Van Den Besselaar).
5. O que é historiografia?
Trata-se do estudo e da escrita da História. O registro e a interpretação dos eventos passados têm evoluído ao longo dos tempos e, no início do século XIX, os historiadores Barthold G. Niebuhr (1776-1831) e, sobretudo, Leopold von Ranke (1795-1886) revolucionaram a historiografia, fundando a moderna ciência histórica. Ainda no século XIX, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) desenvolveram o materialismo histórico dialético, que marcaria gerações de historiadores marxistas, interessados nos acontecimentos relacionados à luta de classes. A partir de 1929, com a fundação da revista Annales d'Histoire Economique et Sociale, por Lucien Febvre (1878-1956) e Marc Bloch, a historiografia passou a fazer importantes cruzamentos com a Antropologia, a Sociologia, a Economia e muitas outras áreas do conhecimento. A noção de documento histórico se ampliou, passando a incluir fontes iconográficas, arqueológicas, orais, etc., além das fontes textuais. Graças a Fernand Braudel (1902-1985), difundiu-se a perspectiva de se estudar a história a partir da curta, da média e da longa duração.
6. Qual é a importância do estudo da História?
A História nos permite ampliar os horizontes mentais e culturais, nos obrigando a adotar uma postura de humildade perante a vida. Como dizia o historiador Henri-Irénée Marrou (1904-1977), "para quem não uma alma pequena e vil, a História é de uma grandeza que nos aniquila." Através da História, adquirimos maturidade e sabedoria, e nos tornamos mais tolerantes.
7. Qual é o trabalho de um historiador e seu campo de trabalho?
A partir de sua matéria-prima, as fontes ou documentos históricos, o historiador pesquisa sobre os mais diversos temas que envolvem os seres humanos. A partir da "Nova História", os historiadores seguem a máxima "onde há homens, há história", tomando para si um campo extremamente amplo de pesquisa e estudos (de biografias e temas políticos e militares ao imaginário e à história das mentalidades; de conjunturas econômicas e estruturas sociais à história da sexualidade, do medo, do beijo, da moda).
8. Quais são as principais técnicas de pesquisa e levantamento histórico?
São a heurística (a pesquisa de fontes) e a crítica histórica (o exame judicioso das fontes ou documentos históricos - todos os vestígios deixados pelo homem ao longo do tempo). A crítica histórica divide-se em crítica externa, que corresponde à etapa em que o historiador pede ao documento a prova da autenticidade para ver se pode servir de testemunha e crítica interna, que é o ato em que o historiador passa a julgar a veracidade da testemunha.
9. O que é Cronologia e Periodização?
A cronologia é a verdadeira coluna vertebral da análise documental, a primeira estrutura do método histórico. Trata-se do estudo do tempo e de suas divisões, com o objetivo de distinguir a sucessão dos fatos. A periodização, por sua vez, é uma operação de "corte" do tempo, de segmentação da cronologia em etapas temporais fortemente individualizadas. Assim, a periodização foi uma das primeiras operações intelectuais destinadas a tornar inteligível o passado das sociedades humanas.
A partir dos Annales, tornou-se forte a tendência para fragmentar a história e ver nela a justaposição de durações, de fenômenos, de fatos heterogêneos.
10. Qual é a diferença entre conhecimento histórico e a reflexão histórica?
O conhecimento histórico refere-se aos conhecimentos básicos que um historiador ou estudante de História deve dominar: a crítica histórica, os principais fatos, suas causas e consequências. A reflexão histórica, por sua vez, cabe a um homem maduro, segundo o grande historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945). A partir dela, esse estudioso experimentado da experiência humana poderá tecer com segurança algumas generalizações, elaborar teorias e, segundo alguns, até "leis", embora a maioria dos historiadores na atualidades rejeitem em absoluto a existência de "leis da História".