“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

A Morte do Imperador Augusto

sábado, 3 de junho de 2017

A Morte de Augusto. Jacques Kuyper (1761-1808).

"No último dia de sua vida, enquanto solicitava informações sobre a repercussão das notícias de seu estado de saúde em Roma, pediu um espelho, mandou arrumar o cabelo e levantar as bochechas pendentes; a seguir, fazendo entrar os amigos, perguntou-lhes 'se lhes parecia que tinha desempenhado bem, até o fim, a comédia da vida', acrescentando mesmo o fecho tradicional: 

Se a peça 
Vos agradou, aplaudi 
E, todos juntos, manifestai vossa alegria. 

Dispensou-os então a todos e, estando a perguntar sobre a doença da filha de Druso a algumas pessoas chegadas a Roma, expirou de repente nos braços de Lívia, dizendo: 'Enquanto viveres, Lívia, lembra-te de nossa união. Adeus'. Teve assim uma morte doce, como sempre desejara." 

SUETÔNIO. Augusto, 99. In: Os Doze Césares.Tradução de Gilson C. C. de Sousa. São Paulo: Germape, 2003, p. 111.

Augusto contra o 'Foro Privilegiado'

sexta-feira, 2 de junho de 2017

 Ah, se as autoridades brasileiras de hoje tivessem uma atitude tão republicana quanto à do imperador Augusto (27 a.C. - 14 d.C.)...   

"Hostilizado pelas zombarias odiosas e insolentes de certos indivíduos, respondeu-lhes num édito. No entanto, interveio para bloquear qualquer medida de repressão contra a petulância dos testamenteiros. Toda vez que assistia às eleições dos magistrados, passeava por entre as tribos em companhia de seus candidatos e solicitava votos, conforme o costume estabelecido. Ele próprio votava, como um cidadão comum. Quando testemunhava em justiça, deixava-se interrogar e contradizer com a máxima paciência. Construiu um fórum muito estreito porque não ousou expropriar os donos das casas vizinhas. Jamais recomendava seus filhos ao povo sem acrescentar: 'Caso venham a merecê-lo'. Notando que, à entrada deles no teatro, envergando ainda a pretexta, todos os espectadores se levantam e os aplaudiam de pé, censurou vivamente tal procedimento. Relativamente aos amigos, quis que, apesar de sua posição e importância no Estado, estivessem submetidos ao direito comum e às leis criminais, como toda a gente." 
SUETÔNIO. Augusto, 56. In: Os Doze Césares. Tradução de Gilson C. C. de Sousa. São Paulo: Germape, 2003, p. 87.

Cícero e o Segundo Triunvirato

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Apresento, abaixo, o trecho de uma fonte primária - a biografia de Cícero escrita pelo historiador grego Plutarco (46-120). O relato começa com a ascensão de Caio Júlio César Otaviano (mencionado simplesmente como "César"), herdeiro de Júlio César e, mais tarde, imperador Augusto (27 a.C. - 14 d.C.). 

Como se sabe, Otaviano integrou o Segundo Triunvirato com Marco Antônio (83-30 a.C.) e Lépido (ca. 90-13 a.C.). Segundo Plutarco, no início de sua carreira, o "moço" contou com o capital político do influente senador Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) para se projetar em Roma. Contudo, 

"Uma vez crescida sua autoridade e assumido o consulado, o moço mandou Cícero às urtigas, conciliou a amizade de Antônio e Lépido fazendo causa comum com eles e com eles repartiu a autoridade, como um bem privado qualquer. Alistaram os nomes dos que deviam morrer, acima de duzentos. A proscrição de Cícero, porém, motivou a mais acalorada disputa entre eles; Antônio, irredutível, exigia a morte de Cícero em primeiro lugar; Lépido apoiava a Antônio; César se opunha a ambos. Tiveram eles encontros secretos a sós, durante três dias, perto da cidade de Bolonha, reunindo-se em certo lugar distante dos acampamentos e circundado por um rio. Segundo contam, depois de terçar armas por Cícero nos primeiros dias, César cedeu no terceiro, traindo-o. As transações correram assim: César tinha de abandonar a Cícero, Lépido a seu irmão Paulo, e Antônio a Lúcio César, seu tio por parte de mãe. A tal ponto foram pela paixão e fúria afastados dos sentimentos humanos, ou, melhor, demonstraram não haver fera mais selvagem que o homem, quando nele se aliam o arrebatamento e o poder." 
PLUTARCO. Cícero, 46. In: Vidas. Apresentação, seleção e tradução direta do grego por Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1963, p. 233. 

Entrevista: O Ofício de Historiador

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Pesquisa em inquéritos policiais do século XIX no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Início de 2008.

Como mencionei na página de agradecimentos da minha dissertação de mestrado, o historiador é um solitário. Seu trabalho é incansável, mas muito recompensador. Imagine descobrir, em meio às páginas amarelecidas de um arquivo, ou mesmo em fontes publicadas e já conhecidas, histórias incríveis, estudos inovadores e ideias que continuam atuais. Soma-se a isso o privilégio de lembrar o que os outros esquecem e contribuir para a preservação do patrimônio material e imaterial da humanidade, que são algumas das mais nobres funções sociais dos historiadores. 

Na entrevista abaixo, concedida a um aluno que cumpre um pré-requisito de uma especialidade, eu explico um pouco sobre o ofício de historiador.   

1. O que o motivou na escolha de ser um historiador ou professor de História?
A primeira observação que faço a essa pergunta é que não faço qualquer distinção entre ser historiador ou ser professor de História, não só por ter cursado tanto a licenciatura quanto o bacharelado, como também por não enxergar a menor separação entre o ensino e a pesquisa. Um professor deve ser um pesquisador, e um pesquisador precisar divulgar as suas descobertas, através das melhores ferramentas didáticas que dispõe.

Respondendo propriamente a pergunta, digo que sempre amei a História. Desde pequeno, sempre fui muito curioso, e na História eu encontrei uma fonte inesgotável de conhecimentos. Conhecer as diferentes culturas e civilizações, constatar a alteridade nas formas de organização social, no pensamento e na religião e perceber os extremos da existência humana é um desafio pra lá de instigante. 

2. O que mais lhe chama a atenção ao estudar História? 
O cumprimento exato das profecias bíblicas ao longo dos séculos, sobretudo as que constam nos livros de Daniel e Apocalipse. É também muito interessante perceber como a arqueologia e a investigação histórica têm confirmado muitos relatos das Escrituras.

3. Qual seria o aspecto mais interessante de sua profissão? Qual é o mais difícil?
Sobre o aspecto mais interessante da pesquisa, é tudo o que respondi acima: a constante descoberta ao estudar as diferentes civilizações e a constatação do cumprimento das profecias. Sobre o aspecto mais interessante do ensino, é poder inspirar alguns alunos a amarem a História, a se tornarem pessoas melhores. 

A pesquisa histórica é tremendamente difícil, uma vez que o historiador precisa penetrar nas consciências humanas a partir de apenas alguns vestígios do passado, as fontes. Além disso, o historiador é um "sujeito" da História e, portanto, confunde-se com o seu objeto de estudo. Desta forma, a duras penas persegue a meta da objetividade, fundamental a qualquer pesquisa que se pretenda científica. No campo do ensino, o desafio também imenso, sobretudo num país como o Brasil, que não valoriza o professor ou a educação. 

4. O que é História?
É a ciência dos homens no tempo, segundo o grande historiador Marc Bloch (1836-1944). Se quisermos levar em consideração uma definição mais detalhista, podemos considerar a História como "a ciência dos atos humanos do passado e dos vários fatores que neles influíram, vistos na sua sucessão temporal" (José Van Den Besselaar).

5. O que é historiografia?
Trata-se do estudo e da escrita da História. O registro e a interpretação dos eventos passados têm evoluído ao longo dos tempos e, no início do século XIX, os historiadores Barthold G. Niebuhr (1776-1831) e, sobretudo, Leopold von Ranke (1795-1886) revolucionaram a historiografia, fundando a moderna ciência histórica. Ainda no século XIX, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) desenvolveram o materialismo histórico dialético, que marcaria gerações de historiadores marxistas, interessados nos acontecimentos relacionados à luta de classes. A partir de 1929, com a fundação da revista Annales d'Histoire Economique et Sociale, por Lucien Febvre (1878-1956) e Marc Bloch, a historiografia passou a fazer importantes cruzamentos com a Antropologia, a Sociologia, a Economia e muitas outras áreas do conhecimento. A noção de documento histórico se ampliou, passando a incluir fontes iconográficas, arqueológicas, orais, etc., além das fontes textuais. Graças a Fernand Braudel (1902-1985), difundiu-se a perspectiva de se estudar a história a partir da curta, da média e da longa duração.

6. Qual é a importância do estudo da História?
A História nos permite ampliar os horizontes mentais e culturais, nos obrigando a adotar uma postura de humildade perante a vida. Como dizia o historiador Henri-Irénée Marrou (1904-1977), "para quem não uma alma pequena e vil, a História é de uma grandeza que nos aniquila." Através da História, adquirimos maturidade e sabedoria, e nos tornamos mais tolerantes. 

7. Qual é o trabalho de um historiador e seu campo de trabalho?
A partir de sua matéria-prima, as fontes ou documentos históricos, o historiador pesquisa sobre os mais diversos temas que envolvem os seres humanos. A partir da "Nova História", os historiadores seguem a máxima "onde há homens, há história", tomando para si um campo extremamente amplo de pesquisa e estudos (de biografias e temas políticos e militares ao imaginário e à história das mentalidades; de conjunturas econômicas e estruturas sociais à história da sexualidade, do medo, do beijo, da moda).

8. Quais são as principais técnicas de pesquisa e levantamento histórico?
São a heurística (a pesquisa de fontes) e a crítica histórica (o exame judicioso das fontes ou documentos históricos - todos os vestígios deixados pelo homem ao longo do tempo). A crítica histórica divide-se em crítica externa, que corresponde à etapa em que o historiador pede ao documento a prova da autenticidade para ver se pode servir de testemunha e crítica interna, que é o ato em que o historiador passa a julgar a veracidade da testemunha.

9. O que é Cronologia e Periodização?
A cronologia é a verdadeira coluna vertebral da análise documental, a primeira estrutura do método histórico. Trata-se do estudo do tempo e de suas divisões, com o objetivo de distinguir a sucessão dos fatos. A periodização, por sua vez, é uma operação de "corte" do tempo, de segmentação da cronologia em etapas temporais fortemente individualizadas. Assim, a periodização foi uma das primeiras operações intelectuais destinadas a tornar inteligível o passado das sociedades humanas. 

A partir dos Annales, tornou-se forte a tendência para fragmentar a história e ver nela a justaposição de durações, de fenômenos, de fatos heterogêneos.

10. Qual é a diferença entre conhecimento histórico e a reflexão histórica?
O conhecimento histórico refere-se aos conhecimentos básicos que um historiador ou estudante de História deve dominar: a crítica histórica, os principais fatos, suas causas e consequências. A reflexão histórica, por sua vez, cabe a um homem maduro, segundo o grande historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945). A partir dela, esse estudioso experimentado da experiência humana poderá tecer com segurança algumas generalizações, elaborar teorias e, segundo alguns, até "leis", embora a maioria dos historiadores na atualidades rejeitem em absoluto a existência de "leis da História".

«César - a Vida de um Soberano»

terça-feira, 30 de maio de 2017

Adrian Goldsworthy nos brindou, mais uma vez, com uma obra que se recomenda a si própria. Eis a referência:

GOLDSWORTHY, Adrian. César - A Vida de um Soberano. Tradução de Ana Maria Mandim. Rio de Janeiro / São Paulo: Record, 2011

Em Portugal, César foi traduzido já há alguns anos, pela Esfera dos Livros. Notem que, em terras lusitanas, o subtítulo foi ainda mais condizente com os feitos do biografado: A Vida de um Colosso. 

Sem sombra de dúvidas, César foi um colosso. Ainda em vida, teve a oportunidade de colher os frutos de seus grandes feitos na esfera militar e política. Após o seu trágico assassinato em pleno Senado da República, no ano 44 a.C., o fascínio do mito que envolveu o homem só se intensificou. Na política, César foi crucial para o fim do sistema republicano, que durava já há quatro séculos. Na esfera militar, sua influência atravessou os séculos, e Napoleão Bonaparte foi apenas um dos comandantes famosos que se inspiraram nos seus relatos sobre a Guerra das Gálias (aliás, uma obra que colocou César entre os grandes escritores de sua época). Eis uma relação das suas principais campanhas: 
Além da leveza indescritível do texto, a biografia escrita por Adrian Goldsworthy - um dos mais brilhantes romanistas da atualidade - demonstra ter grande erudição. Como cabe a todo historiador digno desse nome, reconhece as lacunas e os pontos controversos do seu objeto de pesquisa. Muito além de explicar a vida de um homem, Adrian Goldsworthy forneceu um quadro geral da República e, mais especificamente, do mundo romano no século I a.C. Para auxiliar o leitor, foram disponibilizados nada menos que quinze mapas, duas dúzias de imagens, um epílogo (no qual consta as interpretações de César ao longo da História), uma cronologia, uma bibliografia, notas e um índice onomástico. Enfim, essas 767 páginas certamente não serão as últimas escritas sobre Caio Júlio César, como Adrian admite à p. 674, mas certamente estão à altura de um dos maiores líderes de todos os tempos.      

A Era Vargas (1930-1945)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Prof.ª Isabel Aguiar disponibilizou um excelente resumo da Era Vargas, com direito a documentários, charges, imagens e tópicos. Confira-o aqui. 

Para os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, esse resumo é imperdível.

Atravessando o Rubicão

domingo, 28 de maio de 2017

Em algum momento no início do dia 11 de janeiro de 49 a.C., César alcançou as coortes em marcha e chegou ao Rubicão. Antes de cruzar a ponte, César teria parado, ficando algum tempo em silêncio antes de começar a falar aos seus oficiais. Ao decidir cruzar o rio, teria declarado: "A sorte está lançada" (iacta alea est). 

"A frase de apostador é apropriada, porque ele embarcava em uma guerra civil quando pouco mais de um décimo de suas forças estava com ele. Mesmo quando todas as suas tropas concentraram-se, ele ainda seria superado em recursos por seus inimigos. Embora, retrospectivamente, saibamos que César venceu, isto não era de modo algum -, talvez nem mesmo provável - na época. Ele escolheu lutar porque, no que lhe dizia respeito, todas as opções eram piores. A República fora dominada por uma facção que ignorava a prática comum das leis e, particularmente, recusava-se a admitir os poderes e direitos tradicionais do tribunato. César foi, no entanto, muito claro em que, primeiro e antes de tudo, era porque esse grupo de homens o atacara que ele agora se movimentava contra eles. O mundo romano estava sendo mergulhado no caos e no sangue porque um homem estava determinado a proteger sua dignitas enquanto outros estavam decididos a destruí-la. (...) A guerra civil, que começou em janeiro de 49 a.C., poderia não ter acontecido não fosse o ódio amargo, quase obsessivo, a César, de homens como Catão, Domício Aenobardo e outros, que os tornava irredutíveis em seu propósito de impedir sua volta à vida pública como cônsul. Mas até isso pouco teria importado se Pompeu não tivesse visto a oportunidade de demonstrar sua supremacia e mostrar a esses homens, bem como a César, que precisavam satisfazê-lo. Finalmente, a luta não teria começado se César não tivesse estipulado um preço tão alto para o seu prestígio e status." 

GOLDSWORTHY, Adrian. César - A Vida de um Soberano. Tradução de Ana Maria Mandim. Rio de Janeiro / São Paulo: Record, 2011, p. 494-495.