“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Imagens de Israel, anos 1950

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 

Jihad contra o Ocidente

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A ideia de jihad como uma guerra contra o Ocidente teve na obra de Sayyid Qutb (1906-1966) uma de suas formulações mais influentes. Qutb, sobre quem há uma obra disponível aqui, buscava promover uma revolução moral e religiosa. O ideólogo contribuiu para isso promovendo uma crítica profunda ao Ocidente (seria materialista, imoral e destrutivo). Essa crítica fomentou a noção de que o Islã deveria resistir à influência ocidental, não apenas militarmente, mas cultural e espiritualmente. O Ocidente representaria uma pressão que desviava os muçulmanos de Deus.

Nesse sentido, a jihad seria um instrumento de libertação. Ela não constituiria mero ataque militar, mas um esforço para retirar a humanidade do domínio humano e colocá-la sob domínio de Deus. Ou seja, para Qutb, a jihad era "guerra contra sistemas humanos opressores", que ele via no Ocidente e em governos muçulmanos seculares. Por fim, Qutb defendia que uma elite fiel (tali'a) deveria iniciar uma transformação de cima para baixo, semelhante à dos primeiros companheiros de Maomé. Essa ideia de "vanguarda" inspirou movimentos que passaram a pensar em lutas revolucionárias contra Estados estabelecidos, especialmente aqueles ligados ao Ocidente.

Após a execução de Qutb pelo governo egípcio, em 1966, suas obras foram apropriadas por militantes que exageraram o aspecto militar de sua teoria, ignoraram suas advertências éticas contra violência indiscriminada e transformaram a "libertação humana" em retórica de guerra.

Medicina árabe x Medicina Ocidental

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Os franj, no século XII, estão muito atrasados em relação aos árabes em todos os campos científicos e técnicos. Mas é principalmente na medicina que a distância entre Oriente desenvolvido e Ocidente primitivo é maior. Osama observa a diferença:

Um dia, ele conta, o governador franco de Muneitra, no Monte Líbano, escreveu a meu tio Sultan, emir de Xaizar, para pedir que lhe enviasse um médico para tratar de alguns casos urgentes. Meu tio escolheu um médico cristão de nossa terra chamado Thabet. Este se ausentou por poucos dias e voltou. Estávamos muito curiosos para saber como ele conseguira tão rapidamente a cura dos doentes e o enchemos de perguntas. Thabet respondeu: "Trouxeram até mim um cavaleiro que tinha um abcesso na perna e uma mulher que sofria de tísica. Coloquei um emplastro no cavaleiro; o tumor se abriu e melhorou. À mulher, prescrevi uma dieta para refrescar seu temperamento." Mas um médico franco chegara e dissera: "Esse homem não sabe tratá-los!" E, dirigindo-se ao cavaleiro, perguntou-lhe: "O que prefere, viver com uma só perna ou morrer com as duas?". O paciente respondeu que preferia viver com uma só perna, e o médico ordenou: "Tragam-me um cavaleiro forte com um machado bem afiado." Logo vi chegar o cavaleiro e o machado. O médico franco colocou a perna num cepo de madeira, dizendo ao recém-chegado: "Dê um bom golpe de machado, para cortá-la de uma só vez!". Diante de meus olhos, o homem atingiu a perna com um primeiro golpe, depois, como ela continuava presa, atingiu-a de novo. A medula da perna esguichou e o ferido morreu na hora. A mulher, por sua vez, foi examinada pelo médico, que disse: "Ela tem na cabeça um demônio, que está apaixonado por ela. Cortem seus cabelos!". Os cabelos foram cortados. A mulher voltou a comer sua comida com alho e mostarda, o que piorou a tísica. "É porque o diabo entrou em sua cabeça", afirmou o médico. E, pegando uma navalha, fez uma incisão em forma de cruz até aparecer o osso da cabeça e o esfregou com sal. A mulher morreu na hora. Perguntei, então: "Vocês não precisam mais de mim?". Eles me disseram que não e eu voltei, depois de aprender sobre a medicina dos franj várias coisas que ignorava.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149-150.

Saladino (1137-1193)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

An-Nasir Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub, mais conhecido como Saladino, se tornou vizir do Egito Fatímida em 1169. Em 1171, no entanto, ele eliminou o Califado Fatímida e, em 1174, tornou-se o soberano de um principado combinado da Síria e do Egito, governando-o como sultão até sua morte, em 1193. Assim,

O mundo islâmico do Mediterrâneo Oriental estava mais uma vez unido, e possuía no Egito sua província mais rica. Por milênios antes que a exploração do petróleo viesse a modificar todos os tipos de equilíbrio, era certo que aquele que controlasse o Egito controlava o Mediterrâneo oriental.

FLETCHER, Richard. A Cruz e o Crescente - Cristianismo e Islã, de Maomé à Reforma. Tradução de Andréa Rocha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 89.

Porém, a conquista mais importante do fundador da dinastia Aiúbida foi a reconquista de Jerusalém, em 1187, após a vitória na Batalha de Hattin. Grande líder da resistência islâmica contra os cruzados europeus, Saladino obteve o respeito de muitos deles, incluindo o rei inglês Ricardo I (conhecido como "Ricardo Coração de Leão"), graças à sua conduta cavalheiresca. Ele se tornou um exemplo célebre dos princípios da cavalaria, no mundo islâmico e também na Europa.

Justiça Árabe x Justiça Ocidental

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Para entender o contexto abaixo, leia: Um Duelo Medieval 

Nada mais natural que essa indignação do emir, pois para os árabes do século XII a justiça é uma coisa séria. Os juízes, os cádis [acima], eram personagens altamente respeitados, que, antes de pronunciar sua sentença, têm a obrigação de seguir um procedimento definido, estabelecido pelo Alcorão: acusação, defesa, testemunhos. O "juízo de Deus", ao qual os ocidentais frequentemente recorrem, lhes parece uma farsa macabra. O duelo descrito pelo cronista é apenas uma forma de ordálio. A prova do fogo é outra. E também o suplício da água, que Osama descobre com horror:

Um grande tonel cheio de água tinha sido instalado. O jovem que era objeto de suspeita foi amarrado, suspenso pelas omoplatas a uma corda e colocado no tonel. Se ele fosse inocente, eles diziam, ele afundaria na água e seria retirado por meio da corda. Se ele fosse culpado, não conseguiria mergulhar na água. O infeliz, quando atirado no tonel, se esforçou para ir ao fundo, mas não conseguiu e precisou se submeter aos rigores da lei, que Deus os amaldiçoe! Então enfiaram em seus olhos um buril de prata incandescente e o cegaram.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149.

Um Duelo Medieval

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Leia a continuação, aqui

Em Nablus, ele [o cronista árabe Osama] conta, tive a ocasião de assistir a um curioso espetáculo. Dois homens deviam se enfrentar em combate singular. O motivo era o seguinte: bandidos muçulmanos tinham invadido uma aldeia vizinha e se suspeitava que um cultivador lhes servira de guia. Ele fugira, mas logo precisara voltar, pois o rei Fulque mandara prender seus filhos. "Trate-me com equidade", pedira o cultivador, "e permita que eu enfrente aquele que me acusou." O rei dissera então ao senhor que recebera a aldeia como feudo: "Traga o adversário". O senhor escolhera um ferreiro que trabalhava na aldeia, dizendo-lhe: "É você que lutará em duelo". O possuidor do feudo não queria que um de seus camponeses fosse morto, com medo de que seus cultivos fossem prejudicados. Vi então esse ferreiro. Era um jovem forte, mas que, ao caminhar ou se sentar, sempre sentia necessidade de pedir algo para beber. O acusado, por sua vez, era um velho corajoso que estalava dedos em sinal de desafio. O visconde, governador de Nablus, se aproximou e deu a cada um uma lança e um escudo, fazendo com que os espectadores ficassem em círculo em volta deles.

A luta começou, continua Osama. O velho empurra o ferreiro para trás, na direção da multidão, depois voltava para o meio da arena. Houve uma troca de golpes, tão violenta que os rivais pareciam formar uma única coluna de sangue. O combate se prolongou, apesar das exortações do visconde, que queria apressar seu desfecho. "Mais rápido!", ele gritava. Por fim, o velho ficou exausto, e o ferreiro, tirando proveito de sua experiência em manejar o martelo, acertou-o com um golpe que o derrubou e o fez soltar a lança. Depois, ele se agachou sobre ele para enfiar os dedos em seus olhos, mas não conseguiu por causa do sangue que jorrava. O ferreiro se levantou e matou o adversário com um golpe de lança. Imediatamente, amarram ao pescoço do cadáver uma corda com a qual o arrastaram até o cadafalso, onde o enforcaram. Veja, através deste exemplo, como é a justiça dos franj [cruzados]!

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 148-149.

Homenagens à Virgem Maria no Irã

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

 

Teerã, a capital do Irã, possui aproximadamente 160 estações de metrô operacionais, várias delas famosas pela delicadeza artística. A notícia mais recente é que uma delas acaba de homenagear a Virgem Maria. Segundo a reportagem de O Globo (link abaixo), "a Virgem Maria desfruta de respeito universal no Irã e é uma figura vista como capaz de promover laços entre fiéis de qualquer religião. Maryam também é um dos nomes femininos mais comuns no país.

Em 2015, a então maior estátua do mundo de Maria foi inaugurada na Indonésia, país que tem a maior população muçulmana do mundo. Na ocasião, fiz um post sobre a veneração à mãe de Jesus, no catolicismo e no Islã. Leia a publicação aqui.

Leia a reportagem completa: O Globo

Doc. 'História da Irmandade Muçulmana'

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

 

A Dinastia Fatímida (909-1171)

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A Dinastia Fatímida estabeleceu um Califado xiita ismaelita que governou uma vasta área do Norte da África e do Oriente Médio. A dinastia foi fundada em 909, por Abedalá Almadi Bilá, na Ifríquia (atual Tunísia) após derrubarem a dinastia Aglábida. Sua capital foi Mádia e, além da ação militar, a difusão da sua fé pelo Norte da África, pela ação de missionários ismaelitas, resultou na consolidação do seu poder pelo Magrebe.

Em 969, os fatímidas (que têm esse nome porque alegavam descender de Ali e sua mulher Fátima, filha do profeta Maomé) conquistaram o Egito. Eles fundaram o Cairo, que se tornou sua nova capital, além de um grande centro de cultura, comércio e aprendizado islâmico. A partir dali o seu controle se expandiu para a Palestina, a Síria e, por um tempo, partes da Arábia, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina. A rivalidade com o Califado Abássida, sunita, foi marcante. A partir do século X, os fatímidas se enfraqueceram, devido a crises internas, disputas pelo poder, crises econômicas e a ascensão de novas potências, como os Seljúcidas. Em 1171, o vizir Saladino dissolveu o Califado Fatímida, restaurando o Islã sunita no Egito e fundando a Dinastia Aiúbida.

Heróis da Guerra Árabe-Israelense

quinta-feira, 6 de março de 2025

O moderno Estado de Israel surgiu de forma quase milagrosa, numa árdua Guerra de Independência, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense de 1948. Nesse conflito, destacaram-se voluntários de diversas nacionalidades, dentre eles os membros do Mahal da foto acima. Como se vê, eles formam uma Estrela de Davi com os seus rifles; à frente deles, ajoelhado, está Satanley Medicks, um voluntário britânico. A foto foi tirada na Galileia, em novembro de 1948.

Bibliografia recomendada: GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009.

A Preocupação da Revolução Palestina

quarta-feira, 5 de março de 2025

Yasser Arafat e guerrilheiros da Fath, na Jordânia.


Entre junho de 1967 e março de 1971, foram mortos 120 civis e 180 soldados israelitas em Israel por terroristas palestinos. Durante esse mesmo período, soldados israelitas mataram 1873 terroristas em território israelita. "O nosso principal objetivo é libertar a terra desde o Mar Mediterrâneo até ao rio Jordão", declarou Yasser Arafat no princípio de agosto de 1970. "Não nos preocupa o que aconteceu em junho de 1967 nem eliminar as consequências da guerra de junho. A preocupação essencial da revolução palestina é desenraizar a entidade sionista e libertar a sua terra." 

Não apenas em Israel, mas também fora do país, verificaram-se repetidos atos de terror, incluindo nove desvios de aviões que foram bem-sucedidos. Em Zurique, 47 passageiros e a tripulação perderam a vida quando um avião da Swissair foi sabotado: 17 dos passageiros eram israelitas. Nesse mesmo dia (13 de fevereiro de 1970), sete judeus idosos foram mortos durante um ataque a um lar de terceira idade em Munique. Na sequência de um assalto a um avião da Sabena em 1972, Benjamin Netanyahu foi um dos comandos israelitas que levaram a cabo uma missão de resgate, tendo ficado ferido.

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009, p. 460.

Setembro Negro

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Refugiados palestinos buscam retomar a rotina, após o Setembro Negro.


O ano de 1970 foi dominado pela tentativa de radicais palestinianos de provocar uma revolução na Jordânia. Rivalizaram em atos espetaculares de terrorismo internacional, que culminaram, no início de setembro, no desvio de quatro aviões civis internacionais, tendo três dos quais sido levados para uma pista deserta no norte da Jordânia, onde os fizeram explodir. Nesse mês, que ficou conhecido como Setembro Negro, a Organização de Libertação da Palestina tentou derrubar o rei Hussein. A resposta implacável do rei, em que foram mortos 2000 elementos da OLP e vários outros milhares de civis palestinianos, levou a Síria a ameaçar invadir a Jordânia. Para pôr fim a essa ameaça, Israel concentrou os seus tanques nos montes Golã, ameaçando Damasco. Israel sentia-se capaz de desafiar a Síria, em defesa de Hussein, porque os EUA tinham dado a garantia de socorrer Israel caso a União Soviética interviesse.

O segundo efeito da reação de Hussein foi a fuga da OLP para o Líbano, apoderando-se da região sul do país.

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009, p. 459.

O Peso da Vitória para Israel

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Israel após a Guerra dos Seis Dias.

O cessar-fogo nos montes Golã entrou em vigor às 18:30 do dia 10 de junho [de 1967]. A Guerra dos Seis Dias chegara ao fim. Dois dias mais tarde, soldados israelitas foram transportados de helicóptero para assumirem o controle do forte sírio abandonado no cume do monte Hermon. Este foi o único caso de expansão territorial conseguida após o cessar-fogo. "Podíamos ter alargado a área sob o nosso controle", escreveu Rabin mais tarde. "Não havia uma força egípcia capaz de deter as FDI se tivéssemos decidido ocupar o Cairo. O mesmo era verdade em relação a Amã, e a 11 de junho teríamos tomado Damasco sem grande esforço. Mas não tínhamos partido para a guerra para conquistar territórios e aqueles que ocupáramos já nos sobrecarregavam bastante."

Seria um pesado fardo para Israel ao longo das três décadas seguintes. Rabin descreveu o problema sucintamente 12 anos mais tarde. "Israel via-se agora a braços com três grandes problemas", escreveu, "dois dos quais nos perturbaram continuamente desde a Guerra dos Seis Dias até hoje. O primeiro problema foi vermo-nos, de um dia para o outro, com uma vasta extensão de território em nosso poder. A área ocupada pelas FDI era três vezes superior ao Estado de Israel pré-guerra, pelo que tivemos dificuldade em estabilizar novas linhas defensivas em cada uma das três frentes (especialmente no canal de Suez). Até então, nunca tínhamos pensado a distância em termos de centenas de quilômetros. Além disso, tivemos de superar os problemas de logística e transporte daí resultantes com recursos humanos limitados, uma vez que dezenas de milhares de reservistas regressaram aos seus campos, fábricas e escritórios."

Israel passara a ter sob a sua alçada um milhão de árabes palestinos, incluindo centenas de milhares de refugiados dos combates de 1948.

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009, p. 434.

Israel após a Campanha do Sinai

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

 

O major-general Moshe Dayan, chefe do Estado Maior israelense, e o cel. Avraham Yoffe, durante o desfile da vitória em Shemr El-Shiekh, no sul do Sinai, no dia 11 de outubro de 1956.

Com a campanha do Sinai [em 1956], Israel destruiu a sua anterior imagem de um mini-Estado impotente e cercado, com os dias contados, e dependente, para a sua sobrevivência, da vontade e dos caprichos do seu mais vasto vizinho árabe [o Egito]. Oito anos depois de ascender à posição de Estado, um muito curto espaço de tempo, afinal, na história das nações, Israel já não parecia vulnerável ou com uma existência temporária. A sua posição internacional melhorou dramaticamente em resultado da campanha, tal como a coragem e a reputação do seu exército de cidadãos, as Forças de Defesa de Israel. A força militar israelita, a força real tanto quanto a ideia que dela se fazia, tornar-se-ia, nos dez anos seguintes, o seu mais importante trunfo nas relações com o mundo árabe.

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009, p. 366.

O Cotidiano do Terror em Israel

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Eli Sharabi, 52 anos, judeu feito refém pelo Hamas no ataque de 7 de outubro de 2023, por ocasião de sua libertação, no dia 8 de fevereiro de 2025.

A vida em Israel foi sempre pontuada por incidentes de terror. Todos eles deixam o país de luto e criam uma sensação de desconforto. Sendo um país pequeno, muitas pessoas conhecem as vítimas, ou familiares, e amigos das vítimas. Os jornais falam das vidas (muitas vezes demasiado breves) daqueles que perderam a vida. A vida quotidiana, com todos os problemas que passam por ganhar o sustento, criar os filhos, cuidar de pais idosos e desfrutar das férias, regidas tanto pelas épocas do ano como pelos acontecimentos históricos do passado - tudo isto constitui a ordem normal da vida em muitas nações. São, no entanto, poucas aquelas em que estes objetivos, desafios, dificuldades e alegrias não se fazem acompanhar, ano após ano, de perigos internos e externos, e de forças internas e externas hostis ao impulsos da condição de um Estado e do seu desenvolvimento.

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009, p. 332.

O Mufti de Jerusalém e os Nazistas

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

                             O mufti al-Husseini e Hitler, em 1941.

A 28 de setembro de 1944, Churchill anunciou na Câmara dos Comuns que um Grupo de Brigadas judaicas seria organizado, treinado e armado pela Grã-Bretanha como uma unidade militar para atuar na linha de frente. Cinco dias mais tarde, a 3 de outubro, o mufti de Jerusalém, então em Berlim, escreveu ao comandante das SS, Heinrich Himmler, propondo-lhe o estabelecimento de "um exército árabe islâmico na Alemanha". O governo alemão, acrescentava Haj Amin, "deveria declarar a sua prontidão para treinar e armar esse exército. Desse modo, desferiria um duro golpe contra os planos dos britânicos e aumentaria o número de combatentes por uma Alemanha mais vasta".

O mufti estava convencido de que, ao colocar um exército árabe ao serviço dos alemães, "teria repercussões extraordinariamente favoráveis nos países árabes islâmicos", por isso sugeriu o dia 2 de novembro, o aniversário da "infame Declaração de Balfour", para data do anúncio público. Um oficial de alta patente das SS já comunicara a Himmler que, numa conversa que tivera lugar a 28 de setembro, o mufti "comentara alegremente que se aproximava o dia em que conduziria um exército para conquistar a Palestina". Mas semelhante anúncio nunca viria a ser feito e o exército do mufti não passou de uma ficção produzida pela sua imaginação antissionista. O mufti permaneceu em Berlim, supervisionando as transmissões de propaganda nazi para o Médio Oriente e organizando o lançamento de paraquedistas em áreas controladas pelos britânicos. Um mês após o envio da carta do mufti a Himmler, foram lançados no norte do Iraque quatro paraquedistas árabes. Tinham como objetivo sabotar instalações petrolíferas britânicas, mas o chefe da aldeia informou a polícia e os sabotadores foram detidos.

Entretanto, os esforços do mufti no sentido de apoiar os nazistas não pararam por aí. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, ele ajudou a organizar uma divisão das SS na Bósnia e, por isso, ao final do conflito foi detido pelos Aliados na França. Ali ele deveria aguardar o julgamento por crimes de guerra, mas escapou por pouco (da mesma forma que escapara aos britânicos, na Palestina, em 1937). Foi então para o Egito, onde, até à sua morte, 25 anos mais tarde, exortou os árabes da Palestina a desafiar de todas as formas ao seu alcance a colonização judaica, ao mesmo tempo que reivindicava a expulsão de todos os judeus da Palestina.


GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70, 2009, p. 140-141 e 179. Adaptado.

O Pianista da Colônia Judaica

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

 

Foto meramente ilustrativa.

A 18 de maio de 1937 foi anunciado na Câmara dos Comuns que seria nomeada uma comissão para investigar as causas da agitação na Palestina. Lorde Peel foi designado presidente, tendo Sir Horace Rumbold, um antigo embaixador britânico em Berlim, como vice-presidente. Os comissários efetuaram uma longa viagem pela Palestina, visitando os principais centros árabes e várias colônias judaicas, além de Telavive. John Martin, o secretário da comissão, recordou mais tarde um incidente que causou um forte impacto emocional em Lorde Peel e nos seus colegas. Ao visitar uma colônia agrícola judaica, os comissários viram um homem que vivia numa cabana rudimentar, mas com um piano e pautas musicais. Sir Horace Rumbold estava certo de que já se encontrara com aquele homem. Ao perguntar pelo seu nome, constatou que era um famoso músico alemão de Leipzig, que em tempos tocara na Embaixada britânica em Berlim. "Todos nos sentimos desconfortáveis ao ver a situação em que se encontrava", recordou Martin. Rumbold mostrou-se consternado. "É uma mudança terrível para si", disse ao homem, condoído. Mas, para surpresa de Rumbold, o músico replicou: "É uma mudança, do inferno para o céu."


GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70, 2009, p. 100-101.

Tumultos Antijudaicos na Palestina

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Em maio de 1921, os árabes retomaram as hostilidades contra os judeus da Palestina, ainda com mais violência do que no ano anterior. Muitas povoações judaicas foram atacadas, assim como os bairros judeus de Jerusalém. Uma das colônias judaicas destruídas foi Kfar Malal, que fora reerguida depois de ter sido destruída quatro anos antes, durante os combates entre as tropas britânicas e turcas. Sir Herbert Samuel, o alto-comissário britânico, procurou acalmar a cólera árabe suspendendo temporariamente a imigração de judeus. Um detalhe: ele era judeu, e desagradou os sionistas com tal medida.

Os árabes chegaram à conclusão de que uma demonstração de violência podia trazer vantagens políticas. Passado um ano, o líder dos motins de 1921, Haj Amin al-Husseini foi nomeado mufti de Jerusalém, e passou a usar o cargo - o mais alto na hierarquia religiosa muçulmana - para pressionar os britânicos no sentido de pôr fim à imigração judaica.

No dia 15 de abril de 1936, os árabes deram início a uma greve geral contra toda e qualquer imigração judaica futura. Nesse dia, atacaram e mataram três judeus que viajavam entre as cidades árabes de Tulkarm e Nablus. No dia seguinte, um grupo de judeus criou o Irgun Zvai Leumi (Organização Militar Nacional, conhecida como Irgun, o braço militar dos revisionistas), responsável por um massacre contra árabes perto de Telavive, como forma de retaliação. Passadas 48h, grupos árabes percorriam Jaffa à procura de judeus, atacando-os e incendiando as suas lojas. Registraram-se ataques em quintas judaicas por toda a Palestina, e ao fim dos quais 21 pessoas estavam mortas, várias delas mulheres e crianças (em outubro, o número de mortes atingiria um total de 80). Além das mortes, casas de judeus foram incendiadas, lojas foram pilhadas,  pomares inteiros e milhares de hectares cultivados pelos judeus foram arrasados deliberadamente pelos árabes durante o verão de 1936.

No final de 1937, a violência foi retomada. Os árabes recusavam-se a aceitar até que as pequenas regiões judaicas da Palestina fossem governados por judeus. O plano de do território elaborado pela Comissão Peel falhou, e os ataques de árabes contra britânicos intensificaram-se. Contrariando os desejos da Agência Judaica, as represálias de judeus contra árabes passaram a ser a regra. Nem sempre, contudo, a resposta judaica era propriamente violenta. A 9 de novembro, cinco jovens judeus foram mortos por árabes nos montes a 13 Km a oeste de Jerusalém. Em sua memória, no início do ano seguinte, jovens imigrantes de Lodz, na Polônia, ergueram numa só noite uma aldeia fortificada. Ela foi denominada Ma'ale Ha-Hamisha (Ascensão dos Cinco).

Desde as primeiras semanas de 1938, os judeus da Palestina foram alvo da violência árabe, cada vez mais intensa, e concretizada no assassínio de agricultores judeus. Para protegê-los, foi comprada terra em Hanita, na fronteira com o Líbano, e a força defensiva da Agência Judaica, a Haganah, decidiu fortificar o lugar. A operação foi concluída em apenas um dia, e mobilizou 400 homens.


GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70, 2009, p. 65, 99, 109, 111 e 113. Adaptado.

A Primeira Aliyah (1882-1903)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Jardim da infância em Rishon Lezion, c. 1898. 

Na Rússia, na sequência de um surto de ataques violentos contra judeus - os pogroms -, foram fundados dois movimentos que encorajavam a emigração dos judeus para a Palestina, para trabalharem como agricultores na Terra de Israel (Eretz Yisrael), por forma a "redimi-la". Um desses movimentos ficou conhecido como Bilu, um nome formado a partir das iniciais da expressão bíblica Beth Jacob Lechu Venelcha: "Vinde, ó Casa de Jacob, caminhemos!" Os homens e mulheres jovens do Bilu, de orientação secular e socialista, omitiram a parte final da frase: "à luz do Senhor".

O segundo movimento nascido na Rússia designava-se Amantes de Sião (Hovevei Zion). A pequena conferência que determinou a sua fundação teve lugar em 1884, em Kattowitz, na Alta Silésia alemã, junto à fronteira com a Polônia russa. O seu presidente, Judah Leib Pinsker (que servira como médico na Guerra da Crimeia, 30 anos antes, e que fora distinguido pelo czar), originário de Odessa, fez sentir aos 36 delegados presentes a importância do "regresso ao solo" da Palestina. Contudo, embora tanto o Bilu como o Hovevei Zion advogassem a emigração para a Palestina e a criação de quintas e aldeias nesse território, a maioria dos judeus descontentes como destino os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Europa ocidental ou a África do Sul, procurando mais igualdade social e uma vida menos atingida pela pobreza.

Apenas uma pequena percentagem de judeus russos (nunca mais de 2% por ano) emigrou para a Palestina. Mas até esta pequena percentagem significou que chegaram à Palestina 25 mil judeus entre 1882 e 1903. O movimento ficou conhecido como a Primeira Aliyah, a palavra hebraica para "ascensão". Na Palestina, muitos destes imigrantes viviam da agricultura e recorrendo ao apoio financeiro dos Rothschilds, que durante vários anos encorajaram o trabalho dos judeus nas terras e vinhas pertencentes à família. Alguns dos pioneiros do Bilu trabalharam como assalariados na escola agrícola de Mikveh Israel. Um deles era Vladimir Dubnow, que assumiu o nome hebraico de Ze'ev (Lobo). A 21 de setembro de 1882, escreveu ao seu irmão Simon - que viria a ser um historiador de renome, convicto de que o grande contributo dos judeus ocorreria na Diáspora, e que foi assassinado pelos nazis quando tinha já mais de oitenta anos.


GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70, 2009, p. 21.  

A Ética de A. D. Gordon

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

 

Outra figura que inspirou a Segunda Aliyah - na qual tomou parte, tal como Vitkin - foi Aharon David Gordon (mais conhecido como A. D. Gordon). Gordon nasceu na Rússia em 1856, tendo trabalhado durante três décadas como funcionário administrativo e quase com 50 anos desistiu do seu emprego seguro e foi para a Palestina. Aí começou a dedicar-se aos trabalhos braçais. Durante o dia, trabalhava nos campos, e à noite escrevia sobre a dignidade do trabalho árduo e sobre o trabalho agrícola como o "ato supremo" de redenção pessoal, nacional e universal. Insistia na ideia de que, regressando à terra de Israel, os judeus retornariam às fontes "cósmicas" da criatividade e espiritualidade que os distinguiam.

O trabalho de Gordon teve uma influência extraordinária. A seu ver, toda a exploração de judeus por outros judeus devia ser evitada. Tanto a terra como os meios de produção deviam ser propriedade coletiva. Teria também de ocorrer uma transformação pessoal, a eliminação de todo o desejo de poder ou dominação. Nas suas relações com não-judeus, os judeus da Palestina deveriam evitar progredir às custas de outros. O povo de Israel (Am-Yisrael) deveria tornar-se um "povo humano" (Am-adam). O grande teste seria a relação com os árabes da Palestina. "A nossa atitude para com eles", escreveu Gordon, "deve ser de humanidade, de coragem moral ao mais alto nível, mesmo a outra parte não seja exatamente aquilo que se deseja. A sua hostilidade é, com efeito, mais uma razão para a nossa humanidade."

GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70, 2009, p. 39-40.