“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Pobreza e eleições

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Em dezembro de 2022, o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) registrava 198,7 mil pessoas em situação de rua em todo o Brasil. Em junho de 2026, o número chegou a 392,4 mil - um crescimento de 97,4%, com 193,6 mil pessoas a mais. Entre 2023 e 2025, a Dívida Bruta do Governo Geral subiu 4,8%, fechando o ano passado em R$ 10 trilhões.

Coronelismo no Brasil

terça-feira, 19 de maio de 2026

 

A Monarquia Macedônica

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Em teoria, o poder de cada rei [macedônico] era absoluto, mas na prática tinha que respeitar aos seus conselheiros; ao fim e ao cabo, não podia saber de tudo o que se passava no reino. Além disso, tinha que respeitar a população em geral, e se o fazia de vez em quando, era para conservar a sua popularidade. Sem dúvida, poucos daqueles que se apresentavam na corte conseguiam ver ao rei em pessoa; no melhor dos casos, se encontrava com um dos Amigos. Consequentemente, os barões atuavam como intermediários não só entre o rei e o exército, como também entre o rei e seus cidadãos. Sem a boa vontade dos barões, a duras penas poderia governar.

Em situações críticas era possível também que um rei macedônico decidisse convocar uma assembleia, para informar plenamente aos seus súditos sobre algo que fosse a suceder na sequência, para ter depois menos motivos de queixa. Assim, por exemplo, quando Alexandre, o Grande, revelou seus planos de marchar mais a leste do que qualquer um havia imaginado, a primeira coisa que fez foi transmitir a decisão aos seus homens; e vimos como quantos sucessores manipularam os seus soldados para que chegassem a julgamentos manipulados sobre os seus adversários, com o objetivo de legitimar suas guerras e assassinatos.

A Macedônia era, portanto, uma monarquia atenuada, mas não uma monarquia constitucional. O rei era a cabeça executiva do estado e seu chefe religioso supremo. Tinha direito a decidir questões de política, tanto exterior como interior (como os níveis de ônus fiscal, por exemplo); tinha direito a selar alianças e a rompê-las, e a declarar a guerra e a paz, e era o comandante-em-chefe das Forças Armadas. Além disso, era o juiz supremo, com poder para decidir se celebraria ou não um juízo em qualquer situação dada, ou inclusive para decidir se ordenava ou não uma execução sumária. O modelo se assemelhava muito ao de uma monarquia homérica; nos poemas de Homero, os mais velhos aconselhavam, o povo escutava ou gritava seus pontos de vista, mas a decisão final repousava por completo no rei.

WATERFIELD, Robin. La Guerra por el imperio de Alejandro Magno. Traducción de Inés Beláustegui. Madrid: Gredos, 2012, p. 233.

A Questão de Olivença

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Na sexta-feira, o ministro da Defesa Nacional de Portugal, Nuno Melo, afirmou que a localidade de Olivença é portuguesa, e "não se abdica" dos "direitos quando são justos". Quando foi eurodeputado, Nuno defendeu esta questão, da qual não abre mão.

Olivença é uma cidade na zona raiana reivindicada por direito por Portugal, desde o Tratado de Alcanizes, em 1297. Porém, a Espanha a anexou e mantém integrada na província de Badajoz, na comunidade autônoma da Estremadura, apesar de ter reconhecido a soberania portuguesa sobre a cidade quando subscreveu o Tratado de Viena, em 1817. 

A Privação como Estratégia de Poder

terça-feira, 9 de julho de 2024

Uma população famélica não pensará em outra coisa senão em sua própria sobrevivência. A liberdade, naturalmente, ficará em segundo plano. Em regimes tirânicos, a fome - e outros tipos de privação - sempre é um instrumento de controle da população.

Juiz, Intelectual Ungido da Atualidade

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Cafeteria da Constituição Americana: "Mais e mais pessoas estão interessadas em apenas um ou dois itens." A cultura de seletividade em relação àquilo que seria ou não importante na constituição embala o ativismo judicial.

Embora existam muitas controvérsias de natureza judicial sobre questões particulares, a controvérsia mais fundamental a rondar esse campo é a que versa sobre quem deve controlar as leis e quem deve alterá-las. Os intelectuais norte-americanos favorecem, desde pelo menos a metade do século XX e de forma esmagadora, a expansão do papel do juízes, que, segundo eles, devem ultrapassar o âmbito de aplicar as leis criadas por terceiros, refazendo-as para que "estejam apropriadas com os novos tempos", o que vale dizer subordinando a justiça aos interesses da visão predominante da época em questão, a visão do intelectual ungido.

Sempre que a Constituição dos Estados Unidos se apresenta como barreira para o pleno exercício da função expandida dos juízes eles são exortados a "interpretar" a Constituição, entendida como mero conjunto de valores a ser aplicado da forma que os juízes julgarem mais conveniente, atualizando-a sempre que acharem necessário. Nesse caso, a Constituição não é vista como um conjunto de instruções específicas a ser seguido, e é exatamente isso o que significa "ativismo judicial", embora a manipulação retórica tenha conseguido confundir esse sentido com outros.

***

O verdadeiro problema do ativismo judicial é sobre a questão que envolve a fundamentação das decisões dos juízes. Pergunta-se, então, se essas decisões se sustentam em leis criadas por outros, incluindo as assembleias constituintes, ou se, ao contrário, são os próprios juízes que embasam suas decisões em suas concepções sobre "as necessidades da época" e de "justiça social" ou em outras considerações que estão além do que está escrito na lei ou nos precedentes legais.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 260 e p. 265.

Descubra seu Perfil Ideológico

terça-feira, 21 de novembro de 2023

 

O jornal Gazeta do Povo elaborou um quiz para facilitar seus leitores a conhecerem seu perfil ideológico. Clique aqui e participe!

Eis os perfis: 

- Conservador tradicional. À moda de Edmund Burke, está mais preocupado com a preservação de uma estrutura social estável do que com o livre mercado ou a liberdade irrestrita de expressão. Sim, ele defende o respeito à propriedade privada, mas não necessariamente acredita que privatizar estatais é uma regra a ser seguida em todos os casos. Para o conservador tradicional, tudo depende da tradição e do bom uso da prudência. Conservador contemporâneo.

- Conservador contemporâneo. À moda de Ronald Reagan, defende mais intensamente o capitalismo, bem como a liberdade individual. No Brasil, muitos conservadores contemporâneos não tratam como prioridade a preservação da cultura tradicional brasileira. Sem rejeitar a importância da tradição, o conservador é mais individualista.

- Liberal clássico. Quer maximizar a liberdade econômica e as liberdades civis, ao mesmo tempo em que vê com certa desconfiança a influência da religião na política. É possível, dentro dessa categoria, defender a legalização das drogas - algo que os conservadores sequer cogitam.

- Libertário. É uma versão mais intensa do liberal clássico. O cidadão pode adquirir armamento pesado para a própria defesa? A imigração deve ser livre? Posso dirigir o carro sem cinto de segurança? Sim, sim e sim. Desde que terceiros não sejam fisicamente agredidos ou ameaçados, vale tudo. Ah, sim: imposto é roubo.

- Social-democrata. É o tipo que se define sobretudo pela defesa de um estado ativo na redistribuição de renda. Essa corrente nasceu de uma tentativa de domesticar o socialismo e torná-lo compatível com regimes democráticos. Os social-democratas não têm exatamente um consenso sobre temas morais, embora, na prática, boa parte deles pareça ter abraçado a agenda LGBT e a defesa do aborto legal. 

- Socialistas (e comunistas). Querem mudar radicalmente a estrutura econômica do país. Com isso, eles esperam também mudar a estrutura política. De forma geral, eles têm aversão ao capitalismo, à moralidade cristã e ao patriotismo. A própria democracia é, para ele, uma ferramenta de dominação que precisa ser substituída por um mundo melhor. Leia-se: precisa ser removida pela força das armas e substituída (temporariamente) pela ditadura do proletariado. Na União Soviética, o "temporariamente" durou 82 anos.

- Nacionalista antiliberal. Quer um Estado forte na economia mas rejeita as soluções dos socialistas e social-democratas para os demais temas. Ele defende veementemente o país e não abraça as bandeiras progressistas quanto às drogas e o aborto, por exemplo. Mas, quando o assunto é a economia, caminha junto com os sindicalistas do PT.

- Centrista. É alguém que não se alinha claramente com qualquer das ideologias acima. Ao combinar elementos de várias correntes, ele não chega a formar um conjunto claramente distinguível do ponto de vista ideológico.

A Mentalidade Revolucionária

quinta-feira, 13 de julho de 2023

 

Leia o artigo disponível aqui.

O Vencedor na Disputa Democrática

segunda-feira, 3 de julho de 2023

                                                  

"Os políticos raramente, se nunca, são eleitos apenas pelos seus méritos - pelo menos, não em uma democracia. Algumas vezes, sem dúvida, isso acontece, mas apenas por algum tipo de milagre. Eles normalmente são escolhidos por razões bastante distintas, a principal delas sendo simplesmente o poder de impressionar e encantar os intelectualmente destituídos. (...) Será que algum deles se arriscaria a dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade sobre a real situação do país, tanto em questões internas quanto em questões externas? Algum deles irá se abster de fazer promessas que ele sabe não poderá cumprir - que nenhum ser humano poderia cumprir? Irá algum deles pronunciar uma palavra, por mais óbvia que seja, que possa alarmar ou alienar a imensa turba de idiotas que se aglomeram ao redor da possibilidade de usufruir uma teta que se torna cada vez mais fina? Respostas: isso pode acontecer nas primeiras semanas do período eleitoral... Mas não após a disputa já ter ganho atenção nacional e quando a briga já estiver séria. (...) Eles todos irão prometer para cada homem, mulher e criança no país tudo aquilo que estes quiserem ouvir. Eles todos sairão percorrendo o país à procura de chances de tornar os ricos pobres, de remediar o irremediável, de socorrer o insocorrível, de organizar o inorganizável, de deflogisticar o indeflogisticável. Todos eles irão curar as imperfeições apenas proferindo palavras contra elas; e pagarão a dívida nacional com um dinheiro que ninguém mais precisará ganhar, pois já estaremos vivendo na abundância. Quando um deles disser que dois mais dois são cinco, algum outro irá provar que são seis, sete e meio, dez, vinte, n. Em suma, eles irão se despir da sua aparência sensata, cândida e sincera e passarão a ser simplesmente candidatos a cargos públicos, empenhados apenas em capturar votos. A essa altura, todos eles já saberão - supondo que até então não sabiam - que, em uma democracia, os votos são conseguidos não ao falar coisas sensatas, mas sim ao falar besteiras; e todos eles dedicar-se-ão a essa faina com vigoroso entusiasmo. A maioria deles, antes de o alvoroço estar terminado, passará realmente a acreditar em sua própria honestidade. O vencedor será aquele que prometer mais com a menor possibilidade de cumprir o mínimo."

MENCKEN, H. L. A Mencken Chrestomathy [New York: Vintage Books, 1982], p. 148-151, apud HOPPE, Hans-Hermann. Democracia, o deus que falhou. Tradução de Marcelo W. de Assis. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2014, p. 121-122, disponível aqui.

Saldo da Democracia Compulsória

sexta-feira, 30 de junho de 2023

 

Democracia, o deus que falhou, p. 122, disponível aqui.

Desvantagens do Governo Democrático

quinta-feira, 29 de junho de 2023

 

Democracia, o deus que falhou, p. 78, disponível aqui.

A Patologia do Jacobinismo

domingo, 28 de maio de 2023

 

Celebração do Culto ao Ser Supremo, na França revolucionária.

Muitos líderes da revolução seguiram o que viram como apelo de Rousseau para uma nova mitologia, uma nova religião civil, para substituir tanto as superstições do cristianismo tradicional quanto o árido racionalismo do Iluminismo. No auge do seu poder, Robespierre montou um espetáculo particularmente extravagante. Os deputados da Assembleia Nacional eram "cercados por grupos de meninos com grinaldas de violetas nas cabeças, por rapazes com coroas de murta, por homens mais velhos usando folhas de carvalho, hera e oliveira... Uma orquestra começava a tocar; os vários grupos começavam a cantar; os rapazes sacavam espadas e juravam aos mais velhos defender a pátria...".

Essas cenas fortemente contrastantes - donzelas de branco carregando feixes de trigo alternando com turbas urrando diante de uma guilhotina encharcada de sangue - ilustram a patologia do jacobinismo e de todas as revoluções milenaristas subsequentes. As pessoas devem ser subjugadas e esmagadas, todas as suas tradições e vínculos habituais destruídos, para serem reconstruídos num coletivo mais puro, mais harmonioso. Selvageria e sadismo correm em contraponto a explosões de emoção e afeto, já que os defeitos das pessoas são purgados pelo terror para permitir que sua subjacente bondade natural venha à tona.      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 171.

A Tirania dos Césares

domingo, 7 de maio de 2023

 

Domiciano (r. 81-96), autoproclamado "Senhor e Deus do Mundo".

Fora de questão está o firme desdobramento da posição do imperador da charada de ser meramente "primeiro cidadão" para o franco despotismo de punhos à mostra. Enquanto o exército não estava autorizado a entrar em Roma durante a República porque a ameaça de força militar era considerada uma afronta a uma cidadania livre, os imperadores estavam sempre acompanhados por guarda-costas armados, como os tiranos da antiga Grécia e do Oriente Médio, incluindo (para os júlio-claudianos) um grupo de alemães gigantescos para quem o imperador era seu chefe guerreiro tribal. Esses guarda-costas se expandiram para uma força de 5 mil, a Guarda Pretoriana, permanentemente estacionada perto da cidade para cumprir o poder autocrático do imperador (quando não estavam subornados para derrubá-lo em favor de um novo senhor). Gradualmente, mesmo os patrícios perderam a proteção da lei contra a decisão do imperador, às vezes por capricho, de mandá-los matar. Segundo Cássio Dio, quando Tibério acionou seu cruel e ambicioso prefeito pretoriano Sejano e ordenou-lhe que executasse seus filhos, os soldados tiveram primeiro de estuprar sua filha Junila, porque não havia precedente para a punição capital de uma virgem. Mais tarde, mesmo esse tipo de repugnante simulacro de legalidade foi abandonado. Como mencionei na Introdução, quando um arquiteto ilustre criticou o projeto de um templo esboçado por Adriano, o novo imperador ordenou que o executassem. O desrespeito pela "grandeza" (majestas) do imperador tornou-se um delito capital e ser denunciado por isso era com frequência equivalente a ser considerado culpado. O fingimento original de Augusto ao não reivindicar ser divino também se dissolveu lentamente sob seus sucessores - o imperador Domiciano era abertamente tratado de "Senhor e Deus do Mundo".      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 89-90.

Como os Romanos viam a Democracia

quinta-feira, 4 de maio de 2023

 

Quando falamos sobre a compreensão romana do bem comum - o termo para república, Res Publica, significava aproximadamente "a coisa pública" -, devemos sempre ter em mente que, para muitos romanos de classe alta, isso não incluía a multidão, a plebe, que suas lideranças às vezes rotulavam zombeteiramente "o esgoto da cidade". Romanos instruídos encaravam a experiência ateniense como democracia como um desastre, até porque os cérebros mais importantes dos próprios gregos, incluindo Platão, tinham assumido essa visão negativa acerca do assunto. Como Esparta antes dela, a República Romana era uma aristocracia autogovernante, cujos membros se autodenominavam "patrícios", pois afirmavam descender dos pais, das grandes famílias originais remontando à época de Rômulo.      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 76.

A aversão romana à Realeza

segunda-feira, 1 de maio de 2023

 

Uma forte reação contra a monarquia marcou a expulsão do último rei de Roma, Tarquínio, o Soberbo, em 509 a.C.

Se os antigos gregos estavam preocupados com a tirania, pode-se dizer que a Roma republicana estava obcecada por ela. Numa grande epopeia nacional composta por seus historiadores, como Lívio e Políbio (na realidade um grego), e seu próprio Homero, o poeta Virgílio, toda a existência de Roma estava voltada para impedir a autoridade arbitrária de um homem sobre o bem comum. Os gregos, como vimos, distinguiam entre monarcas legítimos e tiranos que tinham usurpado o poder e tinham admitido que mesmo os últimos poderiam às vezes fazer coisas boas por seus países. Para os romanos, essas distinções se reduziam brutalmente a um termo simples, odiado e extremamente abrangente - Rex. Embora o traduzamos por "rei", para os romanos era indistinguível do que os gregos quiseram dizer com tirania em seu pior sentido. Regnum - realeza - era a mais detestada forma de autoridade, reduzindo cidadãos livres à condição de escravos. Não havia diferença se os reis faziam coisas boas ou más; o poder que tinham sobre os cidadãos era intolerável. Para os gregos, fazia diferença que Sófocles tivesse chamado Édipo de tirano em vez de rei (basileus). Para os romanos, não fazia a menor diferença, motivo pelo qual traduziram a peça como Oedipus Rex, Édipo Rei - em outras palavras, tirano.      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 74.

Tirania, ramo podre da democracia

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O Livro Nove de A República apresenta uma crítica da tirania e da vida tirânica que, sob muitos aspectos, continuou sendo padrão até o presente, com as variações de Salústio, Erasmo e muitos outros. A alma transtornada do tirano flui diretamente da licenciosidade da própria democracia. Ele começa como um demagogo populista que toma a dianteira ao se deixar levar pelos piores excessos do hedonismo democrático e agita o ressentimento da massa contra aqueles que são melhores. Tornando-se tirano, como diz Sócrates, sua paixão erótica inflada atua como um demagogo dentro de sua própria personalidade, concentrando todas as suas energias na busca egoísta de prazer e glória. Como governa através do medo e da força nunca pode confiar nos que estão à sua volta e está continuamente em guarda contra conspirações - melancólico, desconfiado e propenso a espasmos de crueldade. A única cura efetiva para tal apetite tirânico é refrear essas paixões desregradas, o que só pode ser feito se a mente governa as paixões e redireciona suas energias para a justiça e a virtude cívica. A própria filosofia deve mostrar o caminho. Se o mundo é caótico, nossas paixões e nosso comportamento também serão. Se o mundo é razoável, há uma chance de que nossas paixões também possam ser recrutadas para servir à razão.      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 69-70.

«Dark Secrets Inside Bohemian Grove»

sábado, 22 de abril de 2023

 

Documentário disponível aqui.

Hatusa, símbolo de um poder tirânico

sexta-feira, 21 de abril de 2023

 

Visitantes das ruínas de Micenas, na Grécia, e os da capital imperial hitita de Hatusa, na atual Turquia, ficam muitas vezes intrigados pelo fato de as entradas de ambas as cidades terem maciços "portões de leões", leões em pares, gravados em relevo, guardiões simbólicos da cidade. A semelhança, contudo, termina aí. A sede dos reis micênicos - incluindo, prefiro acreditar, Agamenon - era um pequeno e compacto aglomerado de construções ligadas por uma única estrada, incluindo alguns túmulos em colmeias ou em poços para as pessoas proeminentes. Estava cercada por uma muralha baixa para a defesa e aninhada, para proteção, entre dois picos de montanha. É pouco visível até chegarmos ao Portão do Leão, que a distância parece uma mera crista de rocha (e isso não teria sido muito diferente em tempos antigos). Pode ter sido construída numa área baixa como medida extra de segurança contra ataques, mais ou menos como os agricultores na Sicília medieval, que para autodefesa construíam suas choupanas em aglomerados por trás da crista de uma colina. Podemos atravessar toda a extensão do complexo, incluindo o megaron, em menos de uma hora. Em contrapartida, as ruínas de Hatusa são absolutamente espantosas em seu tamanho monumental e complexidade, cobrindo quase 23,5 quilômetros quadrados. As enormes plataformas da fundação ainda dão uma ideia de como essas estruturas devem ter sido gigantescas. Havia enormes palácios, templos, mercados, escritórios para uma burocracia administrativa e numerosas casas espaçosas, protegidas por sólidas muralhas com torres de vigilância e entradas fortificadas. Longe de se manter próxima do solo, Hatusa deve ter se erguido impetuosamente numa orgulhosa e inconquistável imponência, visível de muitos quilômetros ao redor. Enquanto a fortaleza de Agamenon era típica de um pequeno reino local de agricultores, Hatusa era capital de um império que abrangia grande parte da Turquia, Síria e Irã dos dias atuais, com muitas cidades e portos importantes e centenas de milhares de súditos (Troia, tão impressionante para os gregos da Ilíada, com suas muralhas e cidadela, era com toda a probabilidade, como vimos, meramente um dos Estados-clientes dos hititas). É também o próprio símbolo da organização que os hititas proporcionavam e do poder que exerciam, um poder que oferecia segurança para suas multidões de súditos em troca de obediência absoluta. A cidade, com efeito, era o símbolo de um mundo ordeiro criado por poder tirânico.    

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 42-43.

Sobre a Tirania e os Tiranos

quinta-feira, 20 de abril de 2023

 

A tirania pode ser uma força construtiva ou benéfica? É um velho dilema. Alexandre, o Grande; César Augusto; Constantino, o Grande; Carlos Magno - poderia ser argumentado que todos trouxeram maior poderio e prosperidade para seus povos, ou pelo menos uma restauração da paz e da ordem após longos intervalos de guerra civil e discórdia, por meio de sua vontade imperial, inclusive através da ambição suprema, da usurpação, guerra e assassinato. Mas esse é um dilema especialmente agudo para uma época como a nossa, que encara a democracia como a única forma de governo justificável. Aprendemos que a tirania não pode combinar com o progresso do homem para maior liberdade e igualdade. Aprendemos que a Idade Moderna representa, desde o Renascimento, a Idade da Razão e das Luzes, a marcha firme da humanidade saindo da opressão feudal e da ignorância e rumando para sociedades abertas e livres.

A tirania tem um estranho percurso, ao mesmo tempo como opressora da liberdade como construtora de civilizações. Ela não diz respeito a instituições, apenas, mas também a personalidades - extravagantes, às vezes carismáticas, às vezes divertidas, sempre fascinantes e assustadoras. Mesmo hoje, não podemos ignorar sua importância, para o bem e para o mal, na construção de Estados; em lançar as bases para maior estabilidade, poder e prosperidade, e às vezes até para um eventual autogoverno democrático. E, sobretudo, não podemos nos furtar à questão desconfortável, mas inevitável de saber se há melhores e piores variedades de tirania disponíveis no mundo das relações internacionais. Podemos pensar, por exemplo, no seguinte: ditadura militar ou extremismo islâmico? Autoritarismo ou totalitarismo? Em certas situações, talvez não haja um terceiro caminho.

Existem três tipos de tirania que emergem da história do Ocidente (e não só do Ocidente). Não são absolutamente distintos um do outro, mas sem dúvida se destacam como espécies diferentes. O primeiro pode ser denominado de tiranos "variedade-jardim", ao mesmo tempo os mais antigos e, no entanto, os mais familiares, vindos de nosso próprio mundo. São basicamente homens que encaram todo um país e toda uma sociedade como sua propriedade pessoal, explorando-os para seu próprio prazer e em benefício próprio, bem como para favorecer seu próprio clã e amigos. Como diz Aristóteles, governam como "senhores" de um país, como se este fosse seu "agregado familiar" particular. É possível que tal governante possa beneficiar o país - ele pode ser um vigoroso líder na guerra e ajudar a expandir a economia. Contudo, no final das contas, tudo é feito para favorecer a ele e à sua família. Dentre esses tiranos, poderíamos citar de Híeron I de Siracusa ao imperador Nero, passando pelo general Franco, na Espanha, e os Somoza, na Nicarágua, chegando ao papa Doc Duvalier do Haiti e, até recentemente, a Mubarak do Egito.

O segundo tipo é o tirano reformador. São homens de fato impelidos para a posse de suprema glória e riqueza, além de um poder não contido pela lei ou pela democracia. Mas não são meros hedonistas nem buscam apenas vantagens. Querem de fato melhorar a sociedade e as pessoas por meio do exercício construtivo de uma autoridade sem limites. Os exemplos incluem Alexandre, o Grande, Júlio César, os Tudors, os déspotas esclarecidos como Luís XIV e Frederico, o Grande, Napoleão e Kemal Ataturk. Os tiranos reformistas apresentam um desafio mais complexo do que os de "variedade-jardim", pois com frequência atraem grande séquito de clientes que os admiram e súditos que acreditam sinceramente que eles estão fazendo o que é melhor para o bem comum. Muitas vezes nem são considerados tiranos, mas sim defensores do povo. Além de trazerem vitória e independência para seus povos por meio da guerra, os tiranos reformadores iniciam projetos em grande escala de melhoramento público nas áreas da renovação urbana, legislação, saneamento, educação e eliminação do fosso econômico entre ricos e pobres. Eles querem impor a ordem a um mondo caótico em benefício da humanidade. Em suas vidas pessoais, eles são muitas vezes ascéticos ou, pelo menos, contidos. Empregam a violência para alcançar objetivos concretos, não por uma crueldade extravagante.

O terceiro tipo de tirania é a milenarista. Esses governantes são guiados pelo impulso de impor um projeto milenarista que trará uma sociedade futura em que o indivíduo vai submergir no coletivo e todo privilégio e alienação serão para sempre erradicados. A lista inclui Robespierre, Stalin, Hitler, Mao Zedong, Pol Pot e os jihadistas de hoje. O terrível paradoxo de sua revolução é que o mundo de perfeita harmonia de amanhã vai requerer prodigiosos excessos de assassinato em massa, guerra e genocídio no presente. Enquanto os tiranos "variedade-jardim" e reformadores existiram ao longo da história, os tiranos milenaristas são estritamente modernos, não tendo rpecedentes antes do Terror jacobino de 1793. Certamente eles fazem coisas por seus países que os aproximam dos tiranos reformadores, além de serem capazes de perpetrar, nas sombras, alguns dos excessos de perversidade do tirano variedade-jardim. Porém, no fundo, o objetivo dos tiranos milenaristas está "além da política" - querem destruir o mundo do presente para realizar o nirvana do "comunismo", "o Reich de mil anos" ou o "califado universal".   

Adaptado de NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 12-15.

O Império Europeu

terça-feira, 17 de agosto de 2021

"Uma vez que a decisão sobre as ações que podem ser melhor alcançadas pelo governo federal europeu está nas mãos dos agentes desse próprio governo, não há barreiras para a redução constante da autoridade dos Estados nacionais membros que não seja o autocontrole desses mesmos agentes. Esta restrição não tem sido iminente, no entanto, e a burocracia da UE, apoiada pelos tribunais federais europeus, tem constantemente estendido seus poderes sobre os países membros em áreas como política econômica, política trabalhista e de emprego, saúde pública, comunicações, educação, transporte, meio ambiente e planejamento urbano. O princípio europeu de subsidiaridade não é, portanto, nada além de um eufemismo para o império: as nações subsidiárias na Europa só são independentes na medida em que o governo europeu determina o quanto e o como elas serão independentes."

HAZONY, Yoram. A Virtude do Nacionalismo. Tradução de Evandro Fernandes de Pontes. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019, p. 157.