“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.
Mostrar mensagens com a etiqueta Fontes Primárias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fontes Primárias. Mostrar todas as mensagens

[Foto] Irmã Maria Horta

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A foto acima é da Irmã Maria Horta, atualmente o nome de uma destacada escola estadual da capital do Espírito Santo. A foto foi publicada na revista Vida Capichaba, ed. 0003, ano 1923.

Epitáfio de um Primípilo

quarta-feira, 29 de abril de 2026

 

De Imperador a Agricultor

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

 

Em 305 d.C., Diocleciano entrou para a história como o primeiro dos imperadores romanos a abdicar do poder voluntariamente. Em seu retiro, em Salona (atual Split, Croácia), o ex-imperador dedicou-se ao cultivo de hortaliças, especialmente repolhos. 

Quando Maximiano e Galério lhe pediram para reassumir o trono, Diocleciano recusou como se repelisse uma peste: "Se pudésseis ver em Salona os vegetais plantados por minhas próprias mãos, jamais consideraríeis adequado que eu voltasse a ser imperador." Sextus Aurelius Victor. Epitome de Caesaribus, 39.6.

Medicina árabe x Medicina Ocidental

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Os franj, no século XII, estão muito atrasados em relação aos árabes em todos os campos científicos e técnicos. Mas é principalmente na medicina que a distância entre Oriente desenvolvido e Ocidente primitivo é maior. Osama observa a diferença:

Um dia, ele conta, o governador franco de Muneitra, no Monte Líbano, escreveu a meu tio Sultan, emir de Xaizar, para pedir que lhe enviasse um médico para tratar de alguns casos urgentes. Meu tio escolheu um médico cristão de nossa terra chamado Thabet. Este se ausentou por poucos dias e voltou. Estávamos muito curiosos para saber como ele conseguira tão rapidamente a cura dos doentes e o enchemos de perguntas. Thabet respondeu: "Trouxeram até mim um cavaleiro que tinha um abcesso na perna e uma mulher que sofria de tísica. Coloquei um emplastro no cavaleiro; o tumor se abriu e melhorou. À mulher, prescrevi uma dieta para refrescar seu temperamento." Mas um médico franco chegara e dissera: "Esse homem não sabe tratá-los!" E, dirigindo-se ao cavaleiro, perguntou-lhe: "O que prefere, viver com uma só perna ou morrer com as duas?". O paciente respondeu que preferia viver com uma só perna, e o médico ordenou: "Tragam-me um cavaleiro forte com um machado bem afiado." Logo vi chegar o cavaleiro e o machado. O médico franco colocou a perna num cepo de madeira, dizendo ao recém-chegado: "Dê um bom golpe de machado, para cortá-la de uma só vez!". Diante de meus olhos, o homem atingiu a perna com um primeiro golpe, depois, como ela continuava presa, atingiu-a de novo. A medula da perna esguichou e o ferido morreu na hora. A mulher, por sua vez, foi examinada pelo médico, que disse: "Ela tem na cabeça um demônio, que está apaixonado por ela. Cortem seus cabelos!". Os cabelos foram cortados. A mulher voltou a comer sua comida com alho e mostarda, o que piorou a tísica. "É porque o diabo entrou em sua cabeça", afirmou o médico. E, pegando uma navalha, fez uma incisão em forma de cruz até aparecer o osso da cabeça e o esfregou com sal. A mulher morreu na hora. Perguntei, então: "Vocês não precisam mais de mim?". Eles me disseram que não e eu voltei, depois de aprender sobre a medicina dos franj várias coisas que ignorava.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149-150.

Justiça Árabe x Justiça Ocidental

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Para entender o contexto abaixo, leia: Um Duelo Medieval 

Nada mais natural que essa indignação do emir, pois para os árabes do século XII a justiça é uma coisa séria. Os juízes, os cádis [acima], eram personagens altamente respeitados, que, antes de pronunciar sua sentença, têm a obrigação de seguir um procedimento definido, estabelecido pelo Alcorão: acusação, defesa, testemunhos. O "juízo de Deus", ao qual os ocidentais frequentemente recorrem, lhes parece uma farsa macabra. O duelo descrito pelo cronista é apenas uma forma de ordálio. A prova do fogo é outra. E também o suplício da água, que Osama descobre com horror:

Um grande tonel cheio de água tinha sido instalado. O jovem que era objeto de suspeita foi amarrado, suspenso pelas omoplatas a uma corda e colocado no tonel. Se ele fosse inocente, eles diziam, ele afundaria na água e seria retirado por meio da corda. Se ele fosse culpado, não conseguiria mergulhar na água. O infeliz, quando atirado no tonel, se esforçou para ir ao fundo, mas não conseguiu e precisou se submeter aos rigores da lei, que Deus os amaldiçoe! Então enfiaram em seus olhos um buril de prata incandescente e o cegaram.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149.

Um Duelo Medieval

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Leia a continuação, aqui

Em Nablus, ele [o cronista árabe Osama] conta, tive a ocasião de assistir a um curioso espetáculo. Dois homens deviam se enfrentar em combate singular. O motivo era o seguinte: bandidos muçulmanos tinham invadido uma aldeia vizinha e se suspeitava que um cultivador lhes servira de guia. Ele fugira, mas logo precisara voltar, pois o rei Fulque mandara prender seus filhos. "Trate-me com equidade", pedira o cultivador, "e permita que eu enfrente aquele que me acusou." O rei dissera então ao senhor que recebera a aldeia como feudo: "Traga o adversário". O senhor escolhera um ferreiro que trabalhava na aldeia, dizendo-lhe: "É você que lutará em duelo". O possuidor do feudo não queria que um de seus camponeses fosse morto, com medo de que seus cultivos fossem prejudicados. Vi então esse ferreiro. Era um jovem forte, mas que, ao caminhar ou se sentar, sempre sentia necessidade de pedir algo para beber. O acusado, por sua vez, era um velho corajoso que estalava dedos em sinal de desafio. O visconde, governador de Nablus, se aproximou e deu a cada um uma lança e um escudo, fazendo com que os espectadores ficassem em círculo em volta deles.

A luta começou, continua Osama. O velho empurra o ferreiro para trás, na direção da multidão, depois voltava para o meio da arena. Houve uma troca de golpes, tão violenta que os rivais pareciam formar uma única coluna de sangue. O combate se prolongou, apesar das exortações do visconde, que queria apressar seu desfecho. "Mais rápido!", ele gritava. Por fim, o velho ficou exausto, e o ferreiro, tirando proveito de sua experiência em manejar o martelo, acertou-o com um golpe que o derrubou e o fez soltar a lança. Depois, ele se agachou sobre ele para enfiar os dedos em seus olhos, mas não conseguiu por causa do sangue que jorrava. O ferreiro se levantou e matou o adversário com um golpe de lança. Imediatamente, amarram ao pescoço do cadáver uma corda com a qual o arrastaram até o cadafalso, onde o enforcaram. Veja, através deste exemplo, como é a justiça dos franj [cruzados]!

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 148-149.

O Bispo e o Imperador Justiniano

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Justiniano e Teodora na corte, em Constantinopla.

No contexto da Reconquista promovida pelo imperador bizantino Justiniano (r. 527-565), o soberano titubeava sobre lançar uma expedição contra a Líbia, então sob controle dos vândalos de Gelimero. João da Capadócia, prefeito do pretório e "o mais audaz e hábil de todos os homens de seu tempo", apresentou várias objeções à aventura militar, certamente custosa em termos materiais e humanos, além de ser potencialmente desastrosa em termos políticos. Então, um bispo solicitou uma audiência privada com Justianiano, conforme descrita pelo historiador Procópio:

No transcurso da entrevista que manteve com ele, disse que Deus lhe havia ordenado em sonhos dirigir-se ao imperador para censurar-lhe porque, havendo lhe encarregado de proteger os cristãos dos tiranos da Líbia, posteriormente havia se amedrontado sem qualquer razão: "E, sem dúvida", Deus prosseguiu lhe dizendo, "eu seguirei sendo aliado do imperador enquanto ele esteja fazendo a guerra e lhe tornarei o senhor da Líbia." Quando Justiniano escutou essas palavras, não pôde mais reprimir seus anseios, mas logo começou a reunir seu exército e suas embarcações, preparar as armas e os víveres e ordenou a Belisário que estivesse pronto para atuar como general na Líbia muito em breve.

PROCOPIO DE CESAREA. Historia de las guerras. Madrid: Gredos, 2000, Livro III, 10.19-21. Tradução livre.

Dabiq

terça-feira, 16 de setembro de 2025

 

Segue a capa do nº 4 da revista Dabiq, de outubro de 2014. Essa era a publicação do Daesh (também conhecido como ISIS ou Estado Islâmico). Essa edição destacou ameaças contra os países envolvidos na coalizão contra o Daesh, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França e Austrália. Incita ataques isolados e promete conquistar Roma, além de promover a propaganda jihadista. As mensagens reforçam o sigilo e a necessidade de ataques rápidos e discretos.

A revista contém várias ameaças e cita repetidamente a mensagem em vídeo de 21 de setembro de 2014 do então porta-voz do Daesh, Abu Muhammad al-Adnani. Trechos de sua mensagem em vídeo incluíam:

"E assim prometemos a vocês [ó cruzados], com a permissão de Allah, que esta campanha será sua campanha final. Ela será quebrada e derrotada, assim como todas as suas campanhas anteriores foram quebradas e derrotadas, exceto que desta vez nós os invadiremos depois, e vocês nunca mais nos invadirão. Conquistaremos sua Roma, quebraremos suas cruzes e escravizaremos suas mulheres, com a permissão de Allah, o Exaltado."

Aborígenes acorrentados

terça-feira, 11 de março de 2025

 

Aborígenes australianos acorrentados na prisão de Wyndham, em 1902. Wyndham é a cidade mais antiga e mais ao norte da região de Kimberley, na Austrália Ocidental. Quem disponibilizou a foto no X foi o perfil @archeohistories.

Não conhecemos as circunstâncias da foto acima. Os aborígenes podem ter sido presos sob as várias leis locais aprovadas que os proibiam de entrar ou estar a uma certa distância de cidades. Eles também poderiam ter sido presos por beber ou possuir armas de fogo, o que era ilegal para eles em vários momentos. Também é possível que eles tenham sido reunidos para serem movidos para áreas de reserva que estavam sendo criadas na época e que esses indivíduos não quisessem se mudar. Poderia até ser uma foto encenada para turistas ou por razões publicitárias.

Os povos nativos da Austrália estavam sujeitos a trabalhos forçados e vivenciavam condições semelhantes à escravidão, apesar de não mais existir tráfico de escravos no Império Britânico quando a população aborígene foi subjugada. Além disso, não havia necessidade. Embora houvesse escassez de mão de obra nos primeiros assentamentos coloniais, o governo colonial respondeu disponibilizando mão de obra de condenados para a iniciativa privada. 

Heróis da Guerra Árabe-Israelense

quinta-feira, 6 de março de 2025

O moderno Estado de Israel surgiu de forma quase milagrosa, numa árdua Guerra de Independência, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense de 1948. Nesse conflito, destacaram-se voluntários de diversas nacionalidades, dentre eles os membros do Mahal da foto acima. Como se vê, eles formam uma Estrela de Davi com os seus rifles; à frente deles, ajoelhado, está Satanley Medicks, um voluntário britânico. A foto foi tirada na Galileia, em novembro de 1948.

Bibliografia recomendada: GILBERT, Martin. História de Israel. Tradução de Patrícia Xavier. Lisboa: 70: 2009.

A Última Carta de Bismarck

domingo, 12 de janeiro de 2025

 

Carta emoldurada de Bismarck, datada de 7 de abril de 1875.


Ao Kaiser Guilherme II


Friedrichsruh, 27 de novembro de 1895


Sua mais Serena Alteza

Todo gracioso Rei e Senhor

Eu agradeço à Vossa Majestade maravilhado com a sua graça, que alta é, e à Vossa Majestade a Imperatriz por terem pensado em mim nesse tempo, pois a mim, a um ano o destino visitou, o qual me levou a crer que ele me pouparia em minha velhice. Quando se vive por quase meio século em condições tão fortuitas, como foram as minhas, logo se sente, em agradecimento a Deus pela graça passada, e ao isolamento da vivência como prelúdio de seu próprio falecimento e um mitigar da própria vontade de continuar a viver.

Eu imploro a Deus que Ele, em sua piedade, proteja a vossa Casa Real de toda interferência prematura e a todos os atuais membros da Vossa casa mantenha em proteção.

Em profundo respeito morro eu de Sua Majestade o mais obediente servo e súdito .

V. Bismarck


BISMARCK, Otto Von. Mensch und Staat: Aus den Briefen Reden und Schriften. Munique: List-Bücher, 1956, p. 211. Tradução livre (Paulo Gonçalves).

Os mais bravos de todos os homens

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

LIVRO VII

CIV. "Senhor" - volveu Demarato -, "eu já sabia, a começar a falar, que a verdade não vos agradaria; mas, forçado a dizê-la, apresentei os espartanos tal como são. Não ignorais, senhor, o quanto os detesto atualmente, a eles que, não satisfeitos de me privar das honras e dos privilégios que me foram legados por meus pais, baniram-me da minha pátria. Vosso pai acolheu-me bondosamente, deu-me uma casa e cumulou-me de riquezas. Não é crível, portanto, que um homem sensato e justo responda com ingratidão aos benefícios recebidos. Não me ufano de poder lutar contra dez homens, nem mesmo contra dois, e jamais, por minha própria vontade, me bateria contra um apenas. Mas, se fosse necessário, se a isso me visse forçado por qualquer contingência, lutaria com a maior boa vontade com qualquer desses homens que se consideram capazes de resistir, cada um deles, a três gregos. O mesmo sucede com os lacedemônios. Num combate de homem para homem não são inferiores a ninguém, e, reunidos num corpo de exército, são os mais bravos de todos os homens. Na verdade, embora livres, não o são da maneira que imaginais. A lei é, para eles, um senhor absoluto, e não a temem menos que os vossos súditos a vós. Obedecem aos seus ditames, às suas determinações, que são ordens, e essas ordens impedem-nos de fugir diante do inimigo, qualquer que seja o seu número, e obriga-os a manterem-se firmes no seu posto, a vencer ou morrer. Se o que vos digo vos parece destituído de senso, guardarei, de agora em diante, silêncio sobre tudo o mais. Falei apenas em obediência às vossas ordens. Possa, senhor, esta expedição ser bem-sucedida, segundo os vossos desejos."

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 335.

Pausânias e a Honra dos Espartanos

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Busto de Pausânias, rei de Esparta vitorioso em Plateia (479 a.C.). 
 

LIVRO IX

LXXVII. Lampo, filho de Piteias, o cidadão mais ilustre de Egina, então no acampamento dos eginetas em Plateia, vendo-se assaltado por um pensamento ímpio, foi à procura de Pausânias e disse-lhe: "Filho de Cleômbroto, praticastes uma proeza admirável pela sua grandeza e pelo seu alcance. Libertando a Grécia, os deuses vos concederam uma glória jamais alcançada por nenhum dos gregos que conhecemos. Concluí a vossa obra, para que a vossa reputação se torne ainda maior e os bárbaros receiem, daqui por diante, praticar ações criminosas contra povos ciosos da sua liberdade. Quando Leônidas tombou gloriosamente nas Termópilas, Mardônio e Xerxes mandaram cortar-lhe a cabeça e dependurar-lhe o corpo num poste. Tratando Mardônio da mesma maneira, sereis louvado não só pelos espartanos, como pelo resto dos gregos, porquanto estarei vingando Leônidas, vosso tio pelo lado paterno." Foi essa a sugestão que fez Lampo a Pausânias, julgando que este a aprovaria.

LXXVIII. "Meu amigo de Egina - replicou Pausânias - estimo a tua benevolência, assim como sempre estimei a tua maneira prudente de agir; mas a tua sugestão é contrária à justa razão. Depois de enalteceres a mim, a minha pátria e as minhas ações, tu me rebaixas, considerando-me capaz de ultrajar um morto, e acrescentas que, assim agindo, minha reputação aumentará. Semelhante conduta é mais própria dos bárbaros do que dos gregos, e nós mesmos costumamos censurá-los por assim agirem. Não permitam os deuses que eu seja levado, por esse preço, a satisfazer os eginetas e os que aprovam semelhante procedimento. Basta-me merecer a estima dos espartanos, não praticando ações que me pareçam impróprias ou desonestas. Quanto a Leônidas, que queres que eu vingue, penso que ele já foi suficientemente vingado e que sua memória tira o seu maior esplendor daquela legião de mortos que ficou nas Termópilas. Peço-te, pois, que não te dirijas mais a mim para dar-me semelhantes conselhos." Ante essa réplica, Lampo retirou-se, sem mais nada dizer.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 430-431.

Pelo que combatiam os gregos

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

LIVRO VIII

XXVI. Nessa ocasião, chegaram ao local alguns trânsfugas procedentes da Arcádia, pedindo alimento e oferecendo-se para trabalhar. Um dos persas encarregados de levá-los à presença do rei perguntou-lhes de que se ocupavam os gregos no momento: "No momento - responderam eles -, os gregos celebram os Jogos Olímpicos e assistem aos exercícios gímnicos e às corridas de cavalos." O mesmo persa perguntou-lhes ainda qual era o prêmio nessas justas. "Uma coroa de oliveira" - responderam. Conta-se que, nessa ocasião, Tritantecmes, filho de Artatanes, ao saber que o prêmio não consistia em dinheiro, mas em uma coroa de oliveira, exclamou na presença de todos: "Pelos deuses, Mardônio, que espécie de homens são esses que combatem senão pela glória!" Isso lhe valeu acerba censura da parte do próprio soberano persa.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 375.

Xerxes e a Brevidade da Vida

domingo, 15 de dezembro de 2024

 

LIVRO VII

XLVI. Artábano, seu tio pelo lado paterno, que havia procurado dissuadi-lo da ideia de uma guerra contra a Grécia, falando-lhe sem rodeios e com toda a franqueza sobre um tal empreendimento, vendo-o a chorar, a ele se dirigiu nestes termos: "Senhor, vossa conduta de agora é bem diferente da de há pouco. Há momentos, vós vos consideráveis feliz, e agora derramais lágrimas." "Quando refleti - volveu Xerxes - sobre a brevidade da vida humana e ao pensar que de tantos milhões de homens não restará um só dentro de cem anos, senti-me tomado de compaixão." "Experimentamos, no decurso de nossa vida - tornou Artábano -, coisas bem mais tristes do que o próprio sentimento da morte. Apesar da brevidade da vida humana, a que vos referistes, não há homem feliz, seja no meio dessa multidão, seja em todo o universo, ao qual não venha ao espírito, já não digo uma vez, mas frequentemente, o desejo de morrer. As vicissitudes por que passamos, as enfermidades que nos perturbam, fazem com que a vida nos pareça bem longa, por mais curta que ela seja. Numa existência tão infeliz, o homem vive a suspirar pela morte, encarando-a como um porto de salvação. Se temperamos a acridez de nossa vida com alguns prazeres, os deuses logo manifestam o seu ciúme."

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 240. 

A Construção da Pirâmide de Quéops

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

LIVRO II

CXXIV. Os sacerdotes meus informantes acrescentaram que, até Rampsinito, tinha-se visto florescer a justiça e reinar a abundância em todo o Egito, mas que não houve maldade que não praticasse Quéops, seu sucessor. Este soberano, depois de mandar fechar todos os templos e proibir os sacrifícios entre os egípcios, pô-los todos a trabalhar para ele. Grande número de egípcios foi empregado na tarefa de cavar as pedreiras da montanha da Arábia e arrastar dali até o Nilo as pedras que iam retirando, levando-as, em seguida, para a outra margem do rio, onde novos trabalhadores recebiam-nas e transportavam-nas para a montanha da Líbia. Utilizavam-se, de três em três meses, cem mil nesse trabalho. Para avaliar-se o suplício a que foi tão longamente submetido esse povo, basta dizer que se consumiram dez anos na construção da calçada por onde deviam ser arrastadas as pedras. Na minha opinião, essa calçada é uma obra não menos considerável do que a pirâmide, pois mede cinco estádios de comprimento por dez braças de largura e oito de altura nos seus pontos mais elevados; é feita de pedras polidas e ornadas de figuras de animais. Aos dez anos gastos para construí-la, convém acrescentar o tempo empregado nas obras da colina sobre a qual se elevam as pirâmides, e nas construções subterrâneas destinadas a servir de sepultura e realizadas numa ilha cortada por um canal e formada pelas águas do Nilo. A pirâmide, em si, consumiu vinte anos de labuta. É quadrada, medindo cada uma das faces oito pletras de largura, e é construída, em grande parte, de pedras polidas e bem unidas umas às outras, não tendo nenhuma delas menos de trinta pés.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 122. 

Vida e Morte entre os Trausos

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

LIVRO V

IV. Já tive ocasião de me referir aos costumes dos getas, que se dizem imortais. Quanto aos trausos, são em tudo semelhantes aos dos trácios, exceto com relação aos recém-nascidos e aos mortos. Quando nasce, entre eles, uma criança, os parentes, sentados em torno dela, enumeram os males a que está sujeita a natureza humana e lamentam, com gemidos, a sorte ingrata que fatalmente o acompanhará enquanto viver; mas, quando morre um deles, enterram-no alegremente, regozijando-se com a felicidade desse que acaba de libertar-se de tantos males.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 240. 

Egípcios, citas e líbios x porcos

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

LIVRO II

XLVII. Os egípcios olham os porcos como animais imundos. Se alguém toca inadvertidamente num deles, ainda que seja de leve, vai logo mergulhar no rio, mesmo vestido. Os guardadores de porcos, embora egípcios de nascença, são os únicos que não podem entrar em nenhum templo do Egito.

Ninguém lhes quer dar as filhas em casamento, nem desposar as filhas deles. São, por isso, obrigados a casar-se entre eles, isto é, com gente da mesma categoria.

Não é permitido aos egípcios sacrificar porcos a outros deuses que não à Lua e a Baco, realizando-se a cerimônia sempre no plenilúnio. Nessa ocasião lhe é permitido comer a carne.


LIVRO IV

LXIII. É assim que esses povos [os citas] sacrificam animais e criaturas humanas às divindades de sua predileção. Nunca, porém, imolam porcos e nem deles se alimentam. 

CLXXXVI. Toda a região que se estende do Egito ao lago Tritônis é habitada pelos líbios nômades, que se alimentam exclusivamente de carne e de leite, jamais comendo, como se dá também com os egípcios, vacas ou porcos. As mulheres de Cirenes não se julgam, também, com permissão para comer carne de vaca, por causa da deusa Ísis, adorada no Egito. Chegam a jejuar, e celebram em sua honra. As mulheres de Barcéia também não comem carne de vaca e nem de porco.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 102, 204 e 233. 

Praça João Clímaco

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Vê-se a rua Nestor Gomes e a Praça João Clímaco, nos arredores do Palácio Anchieta, concluídas, por volta de 1925. As fotos deste post foram obtidas em pesquisas no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, em julho deste ano.

No momento, a praça passa por uma reforma, e não se sabe se as características históricas que lhe restaram serão respeitadas.

A Praga das Moscas

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

LIVRO II

XCV. Vê-se no país uma quantidade prodigiosa de moscas, mas os egípcios encontram meios para se defenderem delas. Os que habitam ao norte dos pântanos põem-se ao abrigo desses incômodos insetos, dormindo no alto de uma torre, pois o vento impede-as de voar muito alto. Os que ocupam a parte pantanosa servem-se de outro meio: a rede. Todos ali possuem uma rede. De dia, utilizam-na para apanhar peixes; à noite, estendem-na sobre o leito, à guisa de cortinado.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 113.