“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Ivanov e o "humanzee"

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Na década de 1920, o biólogo russo/soviético Ilya Ivanovich Ivanov (1870-1932) planejou e tentou inseminar mulheres com sêmen de macacos (especificamente chimpanzés ou orangotangos). Isso fazia parte de experimentos para criar um híbrido humano-macaco - o "humanzee". O patrocinador das pesquisas era o governo soviético, e o objetivo era provar a teoria da evolução de Darwin e enfraquecer a influência religiosa (além de especulações, nunca comprovadas, sobre criar "super-soldados" para Stalin).

Os planos de Ivanov de criar híbridos humano-macaco já eram apresentados em congressos científicos em 1910. Vale lembrar que ele era pioneiro em inseminação artificial - uma técnica que revolucionou a criação de cavalos e outros animais.

Em 1926-27, na Guiné Francesa (África), ele inseminou artificialmente três fêmeas de chimpanzé com sêmen humano. Nenhuma delas engravidou, e o experimento falhou.

Porém, Ivanov não desistiu. Então, ele planejou o inverso: inseminar mulheres africanas com sêmen de macacos, sem o consentimento delas. O pretexto seria fazer exames ginecológicos em um hospital local. O governador colonial francês vetou o plano por razões éticas e políticas.

De volta à União Soviética, em Sukhumi, atual Abkhazia, o cientista recrutou voluntárias - pelo menos cinco mulheres, atraídas pela propaganda comunista de "ciência progressista". A ideia era inseminá-las com o sêmen de um orangotango chamado Tarzan. Porém, ele morreu antes da coleta do sêmen, e Ivanov perdeu apoio científico e político, sendo criticado pela Academia de Ciências Soviética.

Em 1930, Ivanov foi acusado de sabotagem, no contexto da purga stalinista. Exilado no Cazaquistão, morreu em 1932. Nenhum híbrido de humanos e macacos nasceu, e esse episódio é um dos mais bizarros e antiéticos da história da ciência - hoje é considerado um crime contra a humanidade e violação total da bioética.  

Voltaire e o Caso Calas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A prisão de Calas, 1879, óleo sobre tela de Casimir Destrem (1844-1918).

Em outubro de 1761, o filho mais velho do comerciante de tecidos huguenote Jacques Calas foi encontrado enforcado, o que desencadeou um surto de histeria anti-huguenote entre a população católica romana local. Calas foi preso e acusado de ter assassinado o filho para impedi-lo ou puni-lo por sua conversão ao catolicismo; sua execução ocorreu em março do ano seguinte. Voltaire, ao saber do caso, elegeu-o como símbolo da intolerância e do fanatismo e deu início a uma vigorosa campanha, convencendo amplos segmentos da opinião pública europeia de que o veredito dos juízes fora influenciado por seus sentimentos pessoais anti-huguenotes. Assim, em 1765, o Conselho real reabilitou Calas, pagando uma indenização à família.

O caso Calas fortaleceu o movimento pela tolerância religiosa e pela reforma do código criminal na França, mas tal reforma só ocorreria na década de 1780. Quanto a Voltaire, graças à sua intervenção no caso, tornou-se a consciência ativa de sua época, o profeta da justiça e da razão - e não sob uma forma abstrata, mas concreta e pessoal, em defesa de um huguenote assassinado pelo sistema judicário francês, claramente vítima do sacerdotalismo e seus acessórios legais, políticos e sociais.     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 428. Adaptado. 

Incertezas após a Vitória

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Desde agosto de 1945, o mundo vive uma era de incertezas.

Pela primeira vez na história, o advento das armas nucleares tornou possível para um único ser humano destruir dezenas - talvez centenas - de milhões de vidas, e os avanços tecnológicos possibilitam que isso seja feito em apenas alguns minutos. Nenhuma das figuras mais assustadoras da história - Gêngis Khan; Alexandre, o Grande; Adolf Hitler - tinha qualquer coisa parecida. Se no século XIII Khan decidisse esmagar um império ou Estado, isso levaria algum tempo. Se esse território fosse enorme - como a China -, essa empreitada, provavelmente, levaria décadas. No entanto, se o presidente Richard Nixon, em 1969, decidisse lançar um ataque nuclear no mesmo local, poderia ter aniquilado 100 milhões de chineses em uma tarde.

Se a humanidade tratasse essa nova arma da maneira que tratou todas as outras armas eficazes já inventadas antes, a próxima guerra mundial veria uma capacidade destrutiva quase divina. Muitas das centenas de pessoas que testemunharam o nascimento da era atômica perceberam isso no minuto em que viram o teste da Trinity no deserto. "Agora eu sou a morte, a destruidora de mundos", disse Oppenheimer.

Assim como com os cientistas, as reações dos norte-americanos foram variadas. Se você está envolvido em uma guerra mundial e seu lado adquire uma superarma, isso sem dúvida será visto de maneira positiva. Em seu livro In the Shadow of War, o historiador Michael S. Sherry descreve as reações variadas dos americanos após o anúncio do presidente Truman na televisão informando ao seu povo, e ao mundo, que a bomba havia sido lançada e explicando o que era essa nova arma e por que havia sido usada. "Alguns enfatizaram o orgulho pelas conquistas e a satisfação em obterem vingança contra os japoneses." Certas pessoas lamentaram que mais bombas não fossem jogadas sobre o Japão. "Outros - em especial, soldados que presumiram que a invasão do Japão era a única alternativa ao uso da arma - saudaram a paz que a bomba havia trazido mais depressa, e a própria bomba como uma ferramenta para manter a paz."

Outros viram a questão de maneira completamente diferente - para eles, a bomba era evidência do flagelo da guerra moderna. Houve quem sentisse que era um augúrio sobre o que o futuro nos reserva. O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, disse o seguinte: "É raro, senão inédito, uma guerra terminar deixando os vencedores como um sentimento tão intenso de incerteza e medo - com o conhecimento de que o futuro é incerto e que a sobrevivência não é garantida."

CARLIN, Dan. O fim está sempre próximo: momentos apocalípticos, do colapso da Idade do Bronze até ameaças nucleares. Tradução de Flora Pinheiro. Rio de Janeiro: Happer Collins, 2020, p. 168-169.

De Imperador a Agricultor

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

 

Em 305 d.C., Diocleciano entrou para a história como o primeiro dos imperadores romanos a abdicar do poder voluntariamente. Em seu retiro, em Salona (atual Split, Croácia), o ex-imperador dedicou-se ao cultivo de hortaliças, especialmente repolhos. 

Quando Maximiano e Galério lhe pediram para reassumir o trono, Diocleciano recusou como se repelisse uma peste: "Se pudésseis ver em Salona os vegetais plantados por minhas próprias mãos, jamais consideraríeis adequado que eu voltasse a ser imperador." Sextus Aurelius Victor. Epitome de Caesaribus, 39.6.

Jihad contra o Ocidente

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A ideia de jihad como uma guerra contra o Ocidente teve na obra de Sayyid Qutb (1906-1966) uma de suas formulações mais influentes. Qutb, sobre quem há uma obra disponível aqui, buscava promover uma revolução moral e religiosa. O ideólogo contribuiu para isso promovendo uma crítica profunda ao Ocidente (seria materialista, imoral e destrutivo). Essa crítica fomentou a noção de que o Islã deveria resistir à influência ocidental, não apenas militarmente, mas cultural e espiritualmente. O Ocidente representaria uma pressão que desviava os muçulmanos de Deus.

Nesse sentido, a jihad seria um instrumento de libertação. Ela não constituiria mero ataque militar, mas um esforço para retirar a humanidade do domínio humano e colocá-la sob domínio de Deus. Ou seja, para Qutb, a jihad era "guerra contra sistemas humanos opressores", que ele via no Ocidente e em governos muçulmanos seculares. Por fim, Qutb defendia que uma elite fiel (tali'a) deveria iniciar uma transformação de cima para baixo, semelhante à dos primeiros companheiros de Maomé. Essa ideia de "vanguarda" inspirou movimentos que passaram a pensar em lutas revolucionárias contra Estados estabelecidos, especialmente aqueles ligados ao Ocidente.

Após a execução de Qutb pelo governo egípcio, em 1966, suas obras foram apropriadas por militantes que exageraram o aspecto militar de sua teoria, ignoraram suas advertências éticas contra violência indiscriminada e transformaram a "libertação humana" em retórica de guerra.

Medicina árabe x Medicina Ocidental

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Os franj, no século XII, estão muito atrasados em relação aos árabes em todos os campos científicos e técnicos. Mas é principalmente na medicina que a distância entre Oriente desenvolvido e Ocidente primitivo é maior. Osama observa a diferença:

Um dia, ele conta, o governador franco de Muneitra, no Monte Líbano, escreveu a meu tio Sultan, emir de Xaizar, para pedir que lhe enviasse um médico para tratar de alguns casos urgentes. Meu tio escolheu um médico cristão de nossa terra chamado Thabet. Este se ausentou por poucos dias e voltou. Estávamos muito curiosos para saber como ele conseguira tão rapidamente a cura dos doentes e o enchemos de perguntas. Thabet respondeu: "Trouxeram até mim um cavaleiro que tinha um abcesso na perna e uma mulher que sofria de tísica. Coloquei um emplastro no cavaleiro; o tumor se abriu e melhorou. À mulher, prescrevi uma dieta para refrescar seu temperamento." Mas um médico franco chegara e dissera: "Esse homem não sabe tratá-los!" E, dirigindo-se ao cavaleiro, perguntou-lhe: "O que prefere, viver com uma só perna ou morrer com as duas?". O paciente respondeu que preferia viver com uma só perna, e o médico ordenou: "Tragam-me um cavaleiro forte com um machado bem afiado." Logo vi chegar o cavaleiro e o machado. O médico franco colocou a perna num cepo de madeira, dizendo ao recém-chegado: "Dê um bom golpe de machado, para cortá-la de uma só vez!". Diante de meus olhos, o homem atingiu a perna com um primeiro golpe, depois, como ela continuava presa, atingiu-a de novo. A medula da perna esguichou e o ferido morreu na hora. A mulher, por sua vez, foi examinada pelo médico, que disse: "Ela tem na cabeça um demônio, que está apaixonado por ela. Cortem seus cabelos!". Os cabelos foram cortados. A mulher voltou a comer sua comida com alho e mostarda, o que piorou a tísica. "É porque o diabo entrou em sua cabeça", afirmou o médico. E, pegando uma navalha, fez uma incisão em forma de cruz até aparecer o osso da cabeça e o esfregou com sal. A mulher morreu na hora. Perguntei, então: "Vocês não precisam mais de mim?". Eles me disseram que não e eu voltei, depois de aprender sobre a medicina dos franj várias coisas que ignorava.

MAALOUF, Amin. As Cruzadas vistas pelos árabes. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Vestígio, 2024, p. 149-150.

Saladino (1137-1193)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

An-Nasir Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub, mais conhecido como Saladino, se tornou vizir do Egito Fatímida em 1169. Em 1171, no entanto, ele eliminou o Califado Fatímida e, em 1174, tornou-se o soberano de um principado combinado da Síria e do Egito, governando-o como sultão até sua morte, em 1193. Assim,

O mundo islâmico do Mediterrâneo Oriental estava mais uma vez unido, e possuía no Egito sua província mais rica. Por milênios antes que a exploração do petróleo viesse a modificar todos os tipos de equilíbrio, era certo que aquele que controlasse o Egito controlava o Mediterrâneo oriental.

FLETCHER, Richard. A Cruz e o Crescente - Cristianismo e Islã, de Maomé à Reforma. Tradução de Andréa Rocha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 89.

Porém, a conquista mais importante do fundador da dinastia Aiúbida foi a reconquista de Jerusalém, em 1187, após a vitória na Batalha de Hattin. Grande líder da resistência islâmica contra os cruzados europeus, Saladino obteve o respeito de muitos deles, incluindo o rei inglês Ricardo I (conhecido como "Ricardo Coração de Leão"), graças à sua conduta cavalheiresca. Ele se tornou um exemplo célebre dos princípios da cavalaria, no mundo islâmico e também na Europa.