“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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A Monarquia Macedônica

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Em teoria, o poder de cada rei [macedônico] era absoluto, mas na prática tinha que respeitar aos seus conselheiros; ao fim e ao cabo, não podia saber de tudo o que se passava no reino. Além disso, tinha que respeitar a população em geral, e se o fazia de vez em quando, era para conservar a sua popularidade. Sem dúvida, poucos daqueles que se apresentavam na corte conseguiam ver ao rei em pessoa; no melhor dos casos, se encontrava com um dos Amigos. Consequentemente, os barões atuavam como intermediários não só entre o rei e o exército, como também entre o rei e seus cidadãos. Sem a boa vontade dos barões, a duras penas poderia governar.

Em situações críticas era possível também que um rei macedônico decidisse convocar uma assembleia, para informar plenamente aos seus súditos sobre algo que fosse a suceder na sequência, para ter depois menos motivos de queixa. Assim, por exemplo, quando Alexandre, o Grande, revelou seus planos de marchar mais a leste do que qualquer um havia imaginado, a primeira coisa que fez foi transmitir a decisão aos seus homens; e vimos como quantos sucessores manipularam os seus soldados para que chegassem a julgamentos manipulados sobre os seus adversários, com o objetivo de legitimar suas guerras e assassinatos.

A Macedônia era, portanto, uma monarquia atenuada, mas não uma monarquia constitucional. O rei era a cabeça executiva do estado e seu chefe religioso supremo. Tinha direito a decidir questões de política, tanto exterior como interior (como os níveis de ônus fiscal, por exemplo); tinha direito a selar alianças e a rompê-las, e a declarar a guerra e a paz, e era o comandante-em-chefe das Forças Armadas. Além disso, era o juiz supremo, com poder para decidir se celebraria ou não um juízo em qualquer situação dada, ou inclusive para decidir se ordenava ou não uma execução sumária. O modelo se assemelhava muito ao de uma monarquia homérica; nos poemas de Homero, os mais velhos aconselhavam, o povo escutava ou gritava seus pontos de vista, mas a decisão final repousava por completo no rei.

WATERFIELD, Robin. La Guerra por el imperio de Alejandro Magno. Traducción de Inés Beláustegui. Madrid: Gredos, 2012, p. 233.

Os Diádocos e a Guerra

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

 

Já não havia um único império macedônico ao qual oficiais e homens devessem lealdade. A desintegração do império como um todo implicou que essa lealdade passava a limitar-se à província concreta, e se convertia em uma lealdade a si mesmos ou ao patrão que lhes pagava, seu rei.

Ainda que seja possível que a essas alturas os sucessores [ou diádocos] sentissem que seus territórios eram relativamente estáveis, eles seguiam querendo mais. Essa era a sua missão como reis. A categoria de rei de obtinha mediante a guerra e se mantinha mediante a guerra, e todos os reis helenísticos, desse período e posteriores, se apresentavam a si mesmos como homens de guerra, até em sua maneira de se vestir. Dentro de um sangrento círculo sem fim, o êxito militar trazia riquezas (graças aos saques e os pagamentos de compensações) e acrescentava territórios, o qual permitia ao rei gerar mais receitas, pagar mais soldados e, por conseguinte, obter maiores êxitos militares. Assim raciocinava um monarca; essa é a razão pela qual os reis sempre estavam em guerra uns com os outros. Foram necessários anos para romper esse círculo de destruição, assim como para que se reconhecesse um equilíbrio de poder graças ao qual a monarquia ficasse determinada pelo direito hereditário mais que pelas vitórias. O direito hereditário era irrelevante para os sucessores porque eles eram os pioneiros; eram reis pelas suas conquistas, não pelo sangue que corria em suas veias.

WATERFIELD, Robin. La Guerra por el imperio de Alejandro Magno. Traducción de Inés Beláustegui. Madrid: Gredos, 2012, p. 213.

Alexandre encoraja as suas tropas

terça-feira, 2 de setembro de 2025

 

Alexandre, o Grande foi um dos generais mais carismáticos de todos os tempos. Quando decidiu invadir o Império Persa Aquemênida, ninguém poderia imaginar que poderia vencer com a imensa desvantagem numérica e de recursos financeiros.

Na ilustração acima, o rei da Macedônia aparece animando as suas tropas antes da Batalha de Gaugamela (331 a.C.). Essa foi a terceira e última batalha entre as falanges e o exército persa. Derrotado decisivamente em Gaugamela, Dario III bateu em retirada enquanto as suas forças mergulhavam no caos. Após a batalha, Alexandre passou a caçá-lo implacavelmente; em 330 a.C., o outrora "Grande Rei" foi assassinado pelos seus próprios nobres.

Os mais bravos de todos os homens

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

LIVRO VII

CIV. "Senhor" - volveu Demarato -, "eu já sabia, a começar a falar, que a verdade não vos agradaria; mas, forçado a dizê-la, apresentei os espartanos tal como são. Não ignorais, senhor, o quanto os detesto atualmente, a eles que, não satisfeitos de me privar das honras e dos privilégios que me foram legados por meus pais, baniram-me da minha pátria. Vosso pai acolheu-me bondosamente, deu-me uma casa e cumulou-me de riquezas. Não é crível, portanto, que um homem sensato e justo responda com ingratidão aos benefícios recebidos. Não me ufano de poder lutar contra dez homens, nem mesmo contra dois, e jamais, por minha própria vontade, me bateria contra um apenas. Mas, se fosse necessário, se a isso me visse forçado por qualquer contingência, lutaria com a maior boa vontade com qualquer desses homens que se consideram capazes de resistir, cada um deles, a três gregos. O mesmo sucede com os lacedemônios. Num combate de homem para homem não são inferiores a ninguém, e, reunidos num corpo de exército, são os mais bravos de todos os homens. Na verdade, embora livres, não o são da maneira que imaginais. A lei é, para eles, um senhor absoluto, e não a temem menos que os vossos súditos a vós. Obedecem aos seus ditames, às suas determinações, que são ordens, e essas ordens impedem-nos de fugir diante do inimigo, qualquer que seja o seu número, e obriga-os a manterem-se firmes no seu posto, a vencer ou morrer. Se o que vos digo vos parece destituído de senso, guardarei, de agora em diante, silêncio sobre tudo o mais. Falei apenas em obediência às vossas ordens. Possa, senhor, esta expedição ser bem-sucedida, segundo os vossos desejos."

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 335.

Pausânias e a Honra dos Espartanos

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Busto de Pausânias, rei de Esparta vitorioso em Plateia (479 a.C.). 
 

LIVRO IX

LXXVII. Lampo, filho de Piteias, o cidadão mais ilustre de Egina, então no acampamento dos eginetas em Plateia, vendo-se assaltado por um pensamento ímpio, foi à procura de Pausânias e disse-lhe: "Filho de Cleômbroto, praticastes uma proeza admirável pela sua grandeza e pelo seu alcance. Libertando a Grécia, os deuses vos concederam uma glória jamais alcançada por nenhum dos gregos que conhecemos. Concluí a vossa obra, para que a vossa reputação se torne ainda maior e os bárbaros receiem, daqui por diante, praticar ações criminosas contra povos ciosos da sua liberdade. Quando Leônidas tombou gloriosamente nas Termópilas, Mardônio e Xerxes mandaram cortar-lhe a cabeça e dependurar-lhe o corpo num poste. Tratando Mardônio da mesma maneira, sereis louvado não só pelos espartanos, como pelo resto dos gregos, porquanto estarei vingando Leônidas, vosso tio pelo lado paterno." Foi essa a sugestão que fez Lampo a Pausânias, julgando que este a aprovaria.

LXXVIII. "Meu amigo de Egina - replicou Pausânias - estimo a tua benevolência, assim como sempre estimei a tua maneira prudente de agir; mas a tua sugestão é contrária à justa razão. Depois de enalteceres a mim, a minha pátria e as minhas ações, tu me rebaixas, considerando-me capaz de ultrajar um morto, e acrescentas que, assim agindo, minha reputação aumentará. Semelhante conduta é mais própria dos bárbaros do que dos gregos, e nós mesmos costumamos censurá-los por assim agirem. Não permitam os deuses que eu seja levado, por esse preço, a satisfazer os eginetas e os que aprovam semelhante procedimento. Basta-me merecer a estima dos espartanos, não praticando ações que me pareçam impróprias ou desonestas. Quanto a Leônidas, que queres que eu vingue, penso que ele já foi suficientemente vingado e que sua memória tira o seu maior esplendor daquela legião de mortos que ficou nas Termópilas. Peço-te, pois, que não te dirijas mais a mim para dar-me semelhantes conselhos." Ante essa réplica, Lampo retirou-se, sem mais nada dizer.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 430-431.

Pelo que combatiam os gregos

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

LIVRO VIII

XXVI. Nessa ocasião, chegaram ao local alguns trânsfugas procedentes da Arcádia, pedindo alimento e oferecendo-se para trabalhar. Um dos persas encarregados de levá-los à presença do rei perguntou-lhes de que se ocupavam os gregos no momento: "No momento - responderam eles -, os gregos celebram os Jogos Olímpicos e assistem aos exercícios gímnicos e às corridas de cavalos." O mesmo persa perguntou-lhes ainda qual era o prêmio nessas justas. "Uma coroa de oliveira" - responderam. Conta-se que, nessa ocasião, Tritantecmes, filho de Artatanes, ao saber que o prêmio não consistia em dinheiro, mas em uma coroa de oliveira, exclamou na presença de todos: "Pelos deuses, Mardônio, que espécie de homens são esses que combatem senão pela glória!" Isso lhe valeu acerba censura da parte do próprio soberano persa.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 375.

Odisseia, imitação irônica da Ilíada

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

 

Pois se a Ilíada é um livro de origem, com a Odisséia é a literatura que começa, com tudo o que isso supõe de imitação - em grego, mímesis. Simone Weil tinha, de fato, razão ao escrever que a Odisséia é uma imitação da Ilíada. Uma imitação irônica, diria eu. Quando Aquiles explica a Ulisses que preferia "ser um tete a serviço de um camponês" a reinar sobre o império dos mortos, ele põe em dúvida o ideal da morte heróica, que é precisamente o ideal da Ilíada. A bela morte é o valor exemplar da Ilíada. A Odisséia nos ensina, magnificamente, a arte da sobrevivência. A morte, não custa lembrar, será doce para Ulisses, e é isso que ele fica sabendo no reino de Hades, no canto XI. A Ilíada, na Odisséia, tornou-se poesia; ela é cantada pelas sereias, por um aedo na terra dos feaces e em Ítaca.

VIDAL-NAQUET, Pierre. O Mundo de Homero. Tradução de Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 116-117.

Ulisses e Argo

domingo, 3 de dezembro de 2023

Ulisses e Argo, pintura de Briton Rivière (1840-1920).

Quando Ulisses, no canto XVII [da Odisseia], sob a aparência de um ancião, entra em seu palácio, "um cão estendido no chão estica as orelhas". É Argo, o cãozinho que Ulisses alimentara, sem ter podido fazer dele o seu companheiro de caça. Os pretendentes o haviam utilizado para caçar cabras selvagens, lebres e gamos. Agora, o velho cão, cheio de carrapatos, vive perto do lixo, diante da porta do palácio. Ulisses o reconhece e, com emoção, faz algumas perguntas sobre ele ao porqueiro Eumeu, que ainda não identificara o seu senhor. Eumeu explica: Argo era um galgo infalível na caça. Agora seu dono morreu, e ele não passa de um cão escravo.


Os servidores, desde o momento em que não têm mais um senhor,

não querem mais trabalhar como é preciso.

E Zeus, o ensurdecedor, tira a metade do valor

de um homem, a partir do dia em que é entregue à escravidão.


Argo reconhece o seu dono e morre em seguida.


Mas a morte negra se apossou de Argo

Assim que reconheceu o dono, que partira havia vinte anos.  

VIDAL-NAQUET, Pierre. O Mundo de Homero. Tradução de Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 117-118.

Cocares e Chapéus da Grécia Antiga

terça-feira, 2 de junho de 2020

Compartilhado no Twitter por @cesarfuri


Estatueta de terracota da Grécia helenística (séc. III a.C). Uma mulher de chapéu segura um leque. Créditos do Metmuseum.

«Péricles - o Inventor da Democracia»

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Mais uma biografia lida. Desta vez, o objeto da pesquisa foi Péricles (c. 495-429 a.C.), o estadista que emprestou o seu nome ao século V a.C., na Grécia. Poucos homens deram o seu nome a um momento da história, ainda que "o século de Péricles", segundo Barthélemy, corresponda apenas ao período entre 444 e 404 a.C. (data do fim da Guerra do Peloponeso). Para outros autores, todavia, os limites cronológicos de tal "século" são outros: 480-404 a.C. ou 462-429 a.C. (sendo esta última a data da morte de Péricles). 

Como lembou Plutarco, Péricles não devia a autoridade que exercia sobre o povo apenas ao poder de sua palavra, a sua maestria na arte de persuadir, em suma, as qualidades de orador. Ele a devia também "à reputação de que gozava e à confiança que seu modo de vida inspirava: todo mundo sabia que ele era desprendido e incorruptível" (XV, 3). Plutarco procurou contrapor o comportamento de Péricles à imagem, difundida pela tradição, do demagogo, do orador popular venal. Como estratego, o estadista ateniense era prudente, nunca se lançando de livre vontade a um combate que implicasse incertezas e muitos perigos (XVIII, 1). 

Em relação à vida privada, a fofoca mais "quente" sobre Péricles era relativa ao seu desejo excessivo por mulheres - diziam que Fídias lhe arranjava mulheres, e proporcionava encontros até mesmo na casa do escultor. Dentre todos os seus casos amorosos, destaca-se Aspásia, oriunda de Mileto. Na obra de Plutarco, ela é apresentada como uma cortesã, uma mulher livre que recebia em sua casa Sócrates e seus discípulos, e homens influentes que para lá levavam suas mulheres "para que ouvissem sua conversa" (XXIV, 5). Péricles a amava profundamente, tanto é que reconheceu seu filho ilegítimo que teve com ela após a morte de seus dois filhos. E, mais: após voltar à chefia da pólis depois de ter sido afastado, não hesitou em violar uma lei que ele próprio instituíra para permitir que seu filho com Aspásia pudesse ser inscrito em sua fratria e receber seu nome. 

Péricles preocupou-se em garantir renda para os cidadãos pobres, em primeiro lugar através dos mistos (a utilização de dinheiro público para remunerar a prestação de um serviço cívico). Por meio da mistoforia, todo cidadão, quando sorteado para exercer as funções de juiz e de conselheiro, estava a serviço da cidade. Além disso, através da atribuição de lotes de terra nas clerúquias, mas também, e talvez principalmente, oferecendo oportunidades de trabalho aos pobres da cidade, graças ao seu programa de construções públicas, Péricles beneficiou os pobres. Pela primeira vez na história, uma soberania era colocada nas mãos da comunidade dos cidadãos. 

Claude Mossé conclui lembrando que "nunca haveremos de saber ao certo quem foi Péricles, ainda mais que só nos é possível ter uma visão de sua personalidade através dos outros" (p. 235). "(...) Pode-se interpretar de várias maneiras a 'monarquia pericliana' de Tucídides: seja como um confisco do poder soberano do démos por uma personalidade hábil e forte por conta de sua capacidade de persuadir, seja como uma homenagem prestada a uma comunidade de cidadãos respeitosos do direito de expressão de cada um e entre os quais se estabelecem distinções somente com base no mérito, cidadãos verdadeiramente detentores do poder de decisão e que não hesitarão em se afastar de Péricles quando a política deste ameaçar seus interesses" (p. 239).

Referência: MOSSÉ, Claude. Péricles - o inventor da democracia. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2008.  

Atenas de Péricles, a Escola da Grécia

domingo, 10 de novembro de 2019

Reconstituição da Acrópole de Atenas, século V a.C. 

O sábio Anaxágoras de Clazômenas (c. 500-428 a.C.) foi o verdadeiro mestre de Péricles (c. 495-429 a.C.). O estadista ateniense também seguiu as lições de Zenão de Eléia (c. 490-430 a.C.). Zenão teria inventado a dialética, uma forma de raciocínio que, partindo de ideias aceitas, procurava examinar a coerência das consequências que delas derivavam. 

Anáxagoras de Clazômenas teria ensinado a Péricles se elevar acima da superstição. O sábio era influente nos meios cultos de Atenas, onde se podiam comprar seus livros por uma quantia relativamente modesta. 

Segundo Plutarco, Péricles também se comprazia em discutir com Protágoras de Abedera. A segunda visita desse sofista a Atenas despertou grande interesse. A reunião, ocorrida na casa de Cálias, contou com a presença de outras duas figuras célebres, Hípias de Élis (443-399 a.C.) e Pródico de Ceos (465-395 a.C.). Platão faz de Protágoras um teórico da democracia. 

Os sofistas, e, em primeiro lugar, Protágoras, se pretendiam antes de mais nada educadores. Ensinar a virtude e a politiké techné, como reivindicava Protágoras, era louvável. Porém, havia também o perigo de formar políticos capazes de defender qualquer coisa, e seu contrário também. De qualquer forma, alguns sofistas contribuíram para o desenvolvimento de um pensamento racional, se não racionalista.

Em sua maioria, os sofistas eram estrangeiros atraídos a Atenas pelo ambiente criado pelo círculo de relações de Péricles. Dois sofistas atenienses famosos foram Crítias (460-403 a.C.), tio de Platão, e Antifonte (c. 480 - c. 410 a.C.), que também foi um orador. 

A História também teria nascido na Atenas de Péricles, com Heródoto (485-465 a.C.) e Tucídides (460-400 a.C.), sendo que o primeiro não era ateniense. Se Heródoto buscava "o motivo que levou gregos e bárbaros a entrarem em guerra uns contra os outros", a ambição de Tucídides era maior, uma vez que desejava extrair do relato dos acontecimentos "um saber para sempre". Ao mesmo tempo, ambos buscavam compreender os acontecimentos, submetendo-os a um esquema de interpretação que se valia antes da razão humana que das contingências do acaso. 

Nas Guerras Médicas (499-449 a.C.), é a Heródoto que se deve a valorização das duas figuras representativas do combate pela libertação da Grécia, Milcíades (550-489 a.C.) e Temístocles (524-460 a.C.). Heródoto não se fecha numa visão dogmática. Ele defendeu o patriotismo dos Alcmeônidas contra a acusação de terem tomado partido dos persas em Maratona. Mas, nem por isso deixa de colocar o leitor como árbitro de certos conflitos internos e de certas fraquezas de uns e de outros protagonistas. 

O procedimento de Tucídides, por outro lado, é totalmente diferente. Ele construiu o seu relato de forma rigorosa, sendo admirado por gerações pela acuidade de seu pensamento e pela riqueza de sua reflexão. Mais do que contar a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), ele, direta ou indiretamente, intervém no relato para julgar, explicitar, criticar. 

As palavras atribuídas a Péricles por Tucídides ajustam-se perfeitamente à imagem que ele iria dar do homem que esteve à frente de Atenas, no momento em que ele desapareceria da vida política. Exprimem, portanto, sua própria visão da situação da pólis. 

De resto, Tucídides representa para nós um meio de penetrar no coração do pensamento grego do século V a.C. E por Péricles ter destaque nessa obra, e porque podemos entrever traços de sua personalidade nas palavras que o historiador lhe atribui, Tucídides permanece para o historiador atual uma fonte incomparável.    

Bibliografia consultada: MOSSÉ, Claude. Péricles - o inventor da democracia. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2008, p. 172-184.

A Democracia Pericliana

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Na célebre profissão de fé na democracia que Tucídides atribui a Péricles (II, 37, 2), em primeiro lugar, o grande estadista alcmeônida afirma a originalidade do regime político ateniense. A seguir, Péricles apresenta o princípio sobre o qual ela se baseava, isto é, a soberania do démos, o que implica a palavra democracia, orgulhosamente reivindicada. Esse termo é composto de duas palavras: démos, cuja tradução é "povo", e o verbo kratein, que se refere ao exercício da soberania. segundo Péricles, as decisões dependiam "da maioria", do maior número (pleiôn). Evidentemente, a arraia-miúda em geral compunha essa maioria. 

Num primeiro momento, a soberania da maioria se exercia no seio das assembleias. À época de Péricles, o ano era dividido em dez pritanias, durante as quais os cinquenta membros da bule da tribo em exercício deliberavam quase permanentemente. Havia quatro sessões regulares da assembleia por pritania, isto é, quatro sessões anuais, cada uma com uma ordem do dia precisa. Nessa assembleia, podiam assistir, fazendo uso da palavra, todos os cidadãos atenienses. Ela detinha o poder de decisão sobre todos os assuntos referentes à cidade, às relações com o resto do mundo grego, os problemas de aprovisionamento de Atenas, à organização da vida religiosa e à regulamentação das heranças. Além disso, a assembleia controlava constantemente os magistrados aos quais se delevaga o poder de executar as decisões tomadas. 

Segundo a Constituição de Atenas, os cidadãos erguiam as mãos para votar e assim as decisões eram tomadas. Não deixa de ser intrigante que esse fosse o método, uma vez que uma assembleia poderia reunir vários milhares de homens, uma disciplina extraordinária. Conhece-se pelo menos um caso em que a decisão foi controversa - caso do voto sobre que destino dar à população de Mitilene, que tentou, em 427 a.C., abandonar a aliança ateniense. Inicialmente o voto foi pela morte de todos os homens de Mitilene. Depois, uma nova assembleia recuou e os mitilinenses foram poupados por uma pequena maioria. 

Para o voto do ostracismo, no entanto, votava-se através de um caco de cerâmica no qual se escrevia o nome daquele que se considerava perigoso para a cidade e que precisava viver no exílio por dez anos. No caso dessa votação, e também para se atribuir o direito de cidadania, era preciso um quorum de seis mil pessoas. 

Nessa civilização da palavra, o papel do orador era crucial. Se nos questionarmos sobre a natureza da autoridade exercida por Péricles, na medida em que ele era um dos dez estrategos eleitos anualmente, não há como duvidar de que ele a devia não apenas ao fato de ter sido reeleito estratego por quinze vezes consecutivas, mas também, e no mínimo em igual medida, à magia de sua palavra. 

A bule dos Quinhentos era formada a partir do sorteio anual de cidadãos maiores de 30 anos. Como não se podia ocupar esse cargo mais de duas vezes, grande número de cidadãos podia chegar até ele. A remuneração do cargo da bule possibilitou que todas as camadas da comunidade cívica nela estivessem representadas.Comissões formadas no seio dessa instituição controlavam um certo número de atividades públicas. A bule ainda organizava a eleição ou o sorteio dos magistrados no início de cada ano e, desde as reformas de Efialtes, exercia o poder judiciário juntamente com os tribunais populares da Heliaia. 

A Heliaia era o terceiro órgão pelo qual se exercia a soberania popular. Anualmente eram sorteados seis mil nomes de cidadãos maiores de 30 anos. Os tribunais da Heliaia herdaram o essencial dos poderes judiciários do Areópago. Assim, examinavam todos os processos, tanto privados quanto os que envolviam a cidade, e funcionava como instâncias de apelação de todas as decisões tomadas pela assembleia ou pela bule. Um magistrado condenado pela bule, quando de sua prestação de contas, por exemplo, podia apelar aos tribunais. 

Bibliografia consultada: MOSSÉ, Claude. Péricles - o inventor da democracia. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2008, p. 69-85.

#15Fatos Atenas e Esparta

sábado, 25 de maio de 2019

1. Durante mais de um século após as Guerras Médicas (499-449 a.C.), Atenas e Esparta lutaram pela liderança da Grécia. Dificilmente duas cidades poderiam ser mais diferentes. Em primeiro lugar, Atenas estava num ponto de convergência, sendo um movimentado centro comercial e artesanal; seu porto, o Pireu, era um dos maiores do Mediterrâneo. Esparta, isolada no vale do Eurotas, era um Estado autossuficiente quanto à produção de alimentos, e sua única moeda eram barras de ferro.  

2. Atenas estava cheia de estrangeiros, tanto visitantes como moradores permanentes. Seu cosmopolitismo marcou, portanto, sua cultura. Na xenófoba Esparta, por outro lado, os estrangeiros eram mal recebidos e periodicamente expulsos.  
  
3. Atenas era uma grande potência naval; a força de Esparta estava em seu exército. Atenas foi um grande Estado, o maior na Grécia no século V a.C., e mesmo após sua desastrosa derrota na Guerra do Peloponeso, continuou a ser uma das principais potências. Seu exército não era muito destacado; sua marinha, porém, era incomparavelmente mais eficiente. Por séculos, Esparta permaneceu como a grande potência militar da Grécia, até porque a maioria dos exércitos gregos era constituída de amadores. Os espartanos tinham uma justa fama de coragem, firmeza e dedicação ao dever. Só foram batidos em luta aberta pelos tebanos, na Batalha de Leuctra, em 371 a.C.    

4. Os atenienses embelezaram sua cidade com esplêndidos templos e soberbas estátuas; Esparta parecia uma aldeia que crescera demais. Saiba mais sobre a Arte Clássica Greco-Romana.    

5. Atenas produzira um grande drama, as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, as comédias de Aristófanes, e foi o berço de historiadores como Tucídides e filósofos como Platão. Esparta não teve arte, nem literatura, e não desempenhou qualquer papel na vida intelectual da Grécia.     

6. Acima de tudo, Atenas era progressista, fervilhando de novas ideias; Esparta era intensamente conservadora. Atenas inventara a democracia, ao passo que Esparta se apegava insistentemente a uma constituição arcaica.      

7. A estrutura social e política de Esparta resultou inevitavelmente em esterilidade cultural. Seus cidadãos eram treinados rigorosamente desde a infância para serem bons soldados. Essa pequena elite - os espartanos - era sustentada pelo trabalho de um número muito maior de servos, os hilotas. Os hilotas da Messênia, conquistados posteriormente, se ressentiam de sua condição e sempre alimentavam esperanças de recuperar a independência - o que vieram a conseguir em 369 a.C.    

8. Os espartanos mantinham sua supremacia pelo terror. Anualmente, os éforos declaravam guerra aos hilotas: qualquer espartano que matasse um deles não seria, então, culpado de assassinato. Jovens espartanos também eram enviados todos os anos para espionar e matar hilotas considerados perigosos. Tais medidas nem sempre eram suficientes. Em 424 a.C., os espartanos decidiram convidar os hilotas a se alistarem, oferecendo-lhes, em troca, a liberdade. Dois mil voluntários se apresentaram, e jamais se ouviu falar novamente deles.  

9. A estabilidade política de Esparta era excepcional no mundo grego, sendo quase a única entre as cidades helênicas a preservar a monarquia. Ainda que tenham perdido a maioria de seus poderes internos, os reis continuaram sendo os comandantes-chefes do exército espartano. A assembleia dos espartanos votava sobre questões importantes, mas não podia tomar iniciativas ou debater as questões a ela submetidas.       

10. A principal atração de Esparta era a sua aristocracia perfeita. Seus admiradores atenienses eram, quase exclusivamente, cidadãos das classes superiores, como Platão. Para esse discípulo de Sócrates, o governo era uma arte difícil, que devia se limitar aos peritos. Além disso, esses pensadores acreditavam que o estado devia treinar e disciplinar seus cidadãos para que levassem uma vida digna e, nesse sentido, Esparta parecia uma aproximação, embora imperfeita, de seu ideal.   

11. Em Atenas, por outro lado, prevalecia a liberdade, um dos principais anseios da democracia. Aristófanes não só podia produzir comédias que ridicularizavam as instituições básicas da democracia como era premiado por elas. Filósofos e teóricos da política, como Platão, Isócrates e Aristóteles, podiam publicar seus ataques radicais ao ideal democrático, e viviam sem ser molestados. 

12. A democracia ateniense não era uma farsa. É inquestionável que se limitava a homens adultos e livres, descendentes de atenienses, mas o conjunto de cidadãos compreendia todas as classes, desde os mais ricos até os mais pobres. Todos os cidadãos - a menos que tivessem perdido seus direitos por algum crime - podiam comparecer à assembleia e votar e, ainda, pronunciar discursos e apresentar moções. 

13. Os democratas atenienses julgavam que os méritos do sistema lhe compensavam os defeitos. Em primeiro lugar, tinham a convicção, não totalmente injustificada pelos resultados, na sabedoria coletiva das massas. Em segundo lugar, argumentavam que, na maioria das questões políticas, o cidadão comum era melhor juiz dos assuntos que lhe afetavam o próprio bem-estar. Finalmente, sustentavam que, se o perito podia falar melhor em assuntos técnicos, a maioria das questões políticas dependia de considerações morais, e que sobre estas todos estavam habilitados a falar.    

14. O sorteio era a principal instituição na manutenção da igualdade, razão pela qual os atenienses o consideravam uma das pedras fundamentais da democracia. Vale lembrar que o sorteio era feito exclusivamente entre os cidadãos que nele se inscrevessem, e o povo ateniense esperava, e exigia, um padrão muito elevado de seus magistrados. 
  
15. Mais do que proporcionar um alto nível de eficiência administrativa e de justiça social, a democracia deu aos cidadãos uma rica vida cultural. O próprio Estado construiu grandes edifícios públicos que ainda são incluídos entre as obras-primas do mundo; promoveu, igualmente, festivais de música e drama. A tolerância democrática permitia liberdade à especulação e discussão de novas ideias, e Atenas não só produzia grandes pensadores como atraía filósofos e cientistas de todas as partes do mundo.    
  
Bibliografia consultada: LLOYD-JONES, Hugh. O Mundo Grego. Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p. 65-77.

Doc. 'História da Democracia'

quarta-feira, 10 de abril de 2019

#15Fatos A Cidadania na Cidade-Estado

sexta-feira, 5 de abril de 2019

1. A ideia de democracia, de participação popular nos destinos da coletividade, de soberania do povo, de liberdade do indivíduo, teve origem na Antiguidade greco-romana e inspirou os primeiros pensadores que se ocuparam do tema da cidadania Esses pensadores, no entanto, construíram uma imagem idealizada e falsa da cidadania antiga. 

2. No que diz respeito à cidadania, não houve um desenvolvimento progressivo que uniu o mundo contemporâneo ao antigo. A cidadania nos Estados-nacionais contemporâneos é um fenômeno singular na história. O mundo greco-romano se estruturava como cidades-estado, e não como os Estados-nacionais de nossa época. As cidades-estado diferiam-se muito entre si. A maioria delas abrigou apenas alguns milhares de habitantes, quase todos envolvidos com o meio rural. 
  
3. A história das cidades-estado circunscreve-se às margens do Mar Mediterrâneo. Nesse mar, entre os séculos IX e VIII a.C., desenvolveu-se um intenso intercâmbio de pessoas, bens e ideias. Os impérios guerreiros do oriente Médio buscavam o ferro, que então difundiu-se pelo Mediterrâneo, juntamente com a arquitetura em pedra, as construções monumentais, a fabricação de artigos de bronze, o uso de metais preciosos, a escrita alfabética e o cavalo de guerra.     

4. O crescimento demográfico foi visível em todo o Mediterrâneo, e gregos e fenícios fundaram colônias por toda a parte, levando consigo a cidade-estado, uma forma de organização social peculiar. As cidades-estado difundiram-se pela bacia mediterrânica a partir de seus núcleos originais (Grécia continental, Ásia Menor e Fenícia). Nos séculos seguintes, o Império Romano representou um modelo vitorioso, em contínua expansão, de um modo de organização da coletividade humana.   

5. O que era, precisamente, a "cidade-estado"? O termo referia-se, em primeiro lugar, a um território agrícola composto por uma ou mais planícies de variada extensão. Um fator primordial na história das cidades-estado foi o desenvolvimento da propriedade privada da terra. Os principais produtos eram o trigo, o azeite e o vinho. A apropriação da terra não era mediada nem por relações de linhagem e nem por palácios ou templos, como no Oriente Próximo.      

6. Em suma, as cidades-estado formavam "associações de proprietários privados de terra." Mas só membros da comunidade tinham acesso à terra. Os conflitos internos das cidades-estado foram intensos e crescentes, sendo resolvidos comunitariamente, por mecanismos públicos. Aí está a origem mais remota da política e do Estado (aqui entendido como a expressão da comunidade).      

7. O espaço público e o Estado primeiramente foram um espaço de poder, de decisão coletiva. Os conselhos de anciãos ou simplesmente de "cidadãos", assembleias com atribuições variadas, magistraturas e, posteriormente, tribunais. Foi o espaço de uma lei comum (norma escrita, fixa, publicizada e coletiva). O culto comum a divindades de cada cidade-estado, festividades coletivas, matrimônio geralmente endogâmico, direito de comerciar bens imóveis e móveis também eram abarcados pelo espaço público.    

8. Um exército comum garantia a defesa do território e sua expansão. O núcleo urbano da cidade-estado congregava o que era comum por excelência: os templos, a praça do mercado (também lugar de assembleia comunitária), o porto, as oficinas, as lojas e uma acrópole.  

9. A unidade das cidades-estado foi construída ao longo do tempo, a partir de populações sem unidade étnica ou racial. Assim, a identidade comunitária foi criada e recriada - cultos comuns, moeda cívica, língua, leis e costumes coletivos foram fundamentais nesse processo. Seus habitantes tendiam a apresentar-se como derivados de um ancestral comum, de uma divindade, herói ou grupo de famílias originárias.        

10. A cidadania antiga transmitia-se, idealmente, por vínculos de sangue. Entre os séculos VIII e V a.C., no entanto, muitas comunidades mostraram-se permeáveis à incorporação de estrangeiros. A cidadania podia ser conferida individualmente, em todas as épocas, como homenagem a um personagem importante ou retribuição a um favor prestado à coletividade.  

11. No século V a.C., Atenas fechou-se quase completamente - só eram cidadãos os filhos de pai e mãe atenienses. Roma, por outro lado, permaneceu mais aberta durante toda a sua história. Por exemplo, as cidades submetidas na Itália foram unidas a um amplo sistema de alianças e, depois (89 a.C.), receberam a plena cidadania. Internamente, os escravos libertos eram integrados ao corpo de cidadãos. 

12. Muitos habitantes do próprio território das cidades-estado participavam da sociedade com seu trabalho e recursos, mas não se integravam ao conjunto dos cidadãos. Cidades como Esparta, Atenas ou Roma abrigavam vasta população não-cidadã, tais como: 
1º) Estrangeiros domiciliados; 
2º) Grupos submetidos em bloco ao domínio e controle da comunidade cidadã (por exemplo, hilotas e periecos de Esparta). Ao contrário dos estrangeiros domiciliados, essas comunidades estavam em permanente conflito com a cidade-estado;
3º) Escravos. Eram regidos por regras privadas. Nas cidades mais ricas, formavam um terço ou mais da população.   

13. As disputas internas marcaram a história das cidades-estado. Os fatores que controlaram, nas cidades-estado antigas, o ritmo e a evolução de seus conflitos internos foram a concentração de riquezas e a participação no exército comunitário. As cidades-estado eram comunidades guerreiras, em luta permanente e, em sua maioria, controladas pela classe guerreira. A guerra era um fato cotidiano até a imposição da "paz romana".     

14. O desenvolvimento do comércio na bacia mediterrânica, sobretudo a partir do século VII a.C., o aparecimento da moeda e o consequente desenvolvimento dos núcleos urbanos rompeu o exclusivismo aristocrático e possibilitou a abertura do espaço político para camadas mais amplas da população. Além disso, a liberdade individual foi garantida aos membros da comunidade, leis escritas foram publicadas, o exército citadino foi reorganizado e a guerra passou a se basear no confronto entre formações cerradas de combatentes.  
  
15. Assim, essas cidades entraram no seu período clássico. Algumas transformaram-se em oligarquias, ao passo que outras desenvolveram, progressivamente, formas mais abertas de participação no poder - a democracia. A mais famosa de todas as democracias antigas, a ateniense, em grande parte deveu seu sucesso ao império formado após as guerras contra os persas. Foi em Roma, que deixou de ser uma cidade-estado ao unificar todas as cidades-estado e toda a bacia do Mediterrâneo, que a cidadania era mais aberta do que a regra geral.    
  
Bibliografia consultada: GUARINELLO, Norberto Luiz. Cidades-Estado na Antiguidade Clássica. In: PINSKY, Carla B. & PINSKY, Jaime (orgs.). História da Cidadania. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 29-47.

As Origens da Guerra do Peloponeso

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Num mundo de cidades gregas muitas vezes rivais, a guerra era uma atividade não apenas corriqueira, como essencial. Com suas particularidades e rivalidades, as póleis (as cidades-estado gregas) foram galvanizadas, no início do século V a.C., em sua luta contra os persas. Foi assim que surgiu a Liga Helênica (481 a.C.), da qual participavam todas as principais póleis gregas. Outra aliança militar era a Liga do Peloponeso, restrita a Esparta e a outras cidades do interior. 

Em 478 a.C., o espartano Pausânias liderou uma expedição conjunta para tomar Bizâncio de uma guarnição persa. Posteriormente, Pausânias foi acusado pelos atenienses de ter libertado os altos dignitários persas e mesmo de ter trocado cartas com o rei persa Xerxes. Ainda que sem confirmação, o episódio foi revelador de uma diferença de estratégia entre Esparta, propensa a acordo com os orientais, e Atenas, defensora dos interesses das cidades gregas da Jônia recém-liberadas do jugo persa. Nesse mesmo ano de 478 a.C., surgiu a Liga de Delos, formada por diversas cidades que deviam fornecer belonaves e fundos a serem administrados por tesoureiros atenienses. Além das ilhas do Egeu, foram adicionadas as Ilhas Cícladas, Lesbos, Quíos, Samos, Rodes, cidades da Trácia e da Calcídica, e a maioria das cidades gregas a oeste e ao sul da Ásia Menor. 

A Guerra do Peloponeso foi a primeira grande guerra narrada por uma testemunha ocular, Tucídides (464-401 a.C.). As cidades da Liga Beócia, lideradas por Tebas, eram os aliados continentais de Esparta, desde o início, com o apoio posterior de Siracusa e outras cidades da Sicília. Os persas, com o desenrolar da guerra, apoiaram financeira e logisticamente a Esparta, cidade que também contava com a simpatia das oligarquias de muitas outras cidades. 

Atenas dispunha do apoio de outras tantas cidades que se opunham aos persas e que prosperavam com o comércio - a leste na Jônia e nas ilhas do mar Egeu, assim como ao norte na Trácia e às bordas do mar Negro - , além de contar com o apoio dos democratas em outras cidades. No Peloponeso, contou com a neutralidade e, depois, com o apoio de Argos, rival de Esparta.    

Entre 460 e 455 a.C. foi travada a Primeira Guerra do Peloponeso, o que já enunciou os caminhos da disputa que duraria até o final do século V a.C., assim como as escolhas estratégicas das partes. Atenas estabeleceu alianças com Argos e Mégara, reunindo assim dois grandes aliados para contrapor-se a Esparta. Ao se aliarem, finalmente, a Naupacto, os atenienses passaram a circundar Esparta e Corinto. A batalha decisiva se deu em Tânagra, que terminou com pesadas perdas para ambos os lados e com a vitória dos peloponésios. Os atenienses concluíram a partir daí que a estratégia defensiva seria decisiva. 

O tratado de paz foi firmado em 451 a.C., e nos anos seguintes a Liga de Delos foi gradualmente transformada em um domínio de Atenas sobre as outras cidades. Apesar de exercer um poder discricionário, Atenas possuía uma fragilíssima estrutura administrativa imperial. Esparta e outras cidades aliadas, por sua vez, voltavam-se para o fortalecimento das suas milícias e para um futuro enfrentamento com a potência marítima e comercial emergente ateniense.

A Guerra do Peloponeso foi inovadora: nela os atenienses estrearam a estratégia defensiva de abandono de campo, refúgio da população na cidade e a adoção de um sistema imperial de sustentação do esforço de guerra, o que seria adotado posteriormente pelos exércitos macedônios e romanos. 

O conflito contou também com uma ampla área de operações. Seus limites foram a Sicília, a ocidente; a Ásia Menor, a oriente; o Helesponto e a Trácia, a norte, e Rodes, ao sul. A tentativa tebana de atacar Plateia, aliada de Atenas, a 4 de abril de 431 a.C., assinalou o início do conflito, que só terminou a 25 de abril de 404 a.C., com a capitulação de Atenas. 

Bibliografia consultada: FUNARI, Pedro Paulo. Guerra do Peloponeso. In: MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2006, p. 19-29.

A Civilização Cretense

domingo, 2 de dezembro de 2018

O afresco das "damas de azul" do Palácio de Cnossos ilustra três mulheres de elevado status social com rica indumentária. 

Desde o alvorecer do terceiro milênio a.C. até cerca de 1400 a.C., - um período tão longo como o que vai da queda de Roma até nossos dias - Creta, especialmente a cidade de Cnossos, foi o centro de uma brilhante civilização, que progressivamente se espalhou em todas as direções, no mundo Egeu. Uma vez que Cnossos não era fortificada, os seus governantes devem ter dominado os mares, segundo uma informação do historiador grego Tucídides. 

Como se nota no afresco acima, as mulheres ocupavam um lugar de destaque na sociedade minoica (como a sociedade cretense também é chamada). Acredita-se que essa sociedade pode ter sido matriarcal, o que supõem-se a partir de diversas pinturas e outros achados arqueológicos. O culto à Deusa-Mãe, a principal divindade dessa civilização, ajuda a confirmar essa hipótese. 

Bibliografia consultada: KITTO, H. D. F. Os Gregos. Tradução e prefácio de José Manuel Coutinho e Castro; revisão de Maria Helena da Rocha Pereira. 3ª ed. Coimbra: Armênio Amado, 1990, p. 29.

#15Fatos Teatro Grego

domingo, 22 de julho de 2018

Teatro de Epidauro, Grécia, em 2004. Esse teatro foi um dos maiores de seu tipo e de seu tempo. Possuía uma acústica considerada perfeita para a época.

1. O teatro é uma das manifestações mais expressivas da civilização grega. Ele surgiu no fim do século VI a.C. ou início do século V a.C., em Atenas, no contexto dos festivais dionisíacos. Dioniso tornou-se, desde a época dos Pisistrátidas (séc. VI a.C.), uma das divindades cujo culto revestia-se de brilho particular.

2. Os festivais das Lenéias (final de janeiro) e das Grandes Dionisíacas (final de março) tinham como uma de suas atrações a apresentação de tragédias e comédias em concursos dramáticos presididos pelos arcontes. Tratava-se de uma grande cerimônia religiosa e cívica, ponto alto das festas em honra ao deus Dioniso.

3. Participavam das Grandes Dionisíacas não apenas os cidadãos, mas também metecos e estrangeiros, bem como representantes das cidades aliadas de Atenas, que iam nessa ocasião levar-lhe o tributo. Ao que tudo indica, as mulheres não eram excluídas do teatro, na medida em que se tratava de uma cerimônia religiosa da qual participavam por direito. Assim, é possível que acompanhassem seus maridos na audiência dos espetáculos.  

4. Na encosta sudeste da acrópole de Atenas estava o teatro de Dioniso. No século V a.C., em pleno apogeu do teatro ateniense, as arquibancadas eram de madeira; apenas no século IV a.C. seriam substituídas por pedra. O teatro comportava até 20 mil espectadores. Um nível abaixo das arquibancadas encontrava-se a orchestra, espaço circular de cerca de 18 metros de diâmetro, onde ficava o coro. Atrás, a skené, uma divisória de madeira vazada por três portas que formava todo o cenário, sendo precedida por uma plataforma, onde ficavam os atores.  

5. Os atores eram todos homens, mesmo nos papéis femininos, e usavam máscaras, geralmente feitas de tecido e encimadas por uma peruca. As máscaras rígidas, assim como os calçados altos (coturnos), parecem só ter surgido com o período helenístico. Os figurinos eram em cores vivas para que pudessem ser vistos de longe. 

6. Desde meados do século V a.C., três atores em cena representavam todos os papéis. Haviam também alguns figurantes mudos. O primeiro ator, o protagonista, desempenhava o papel principal e certos papéis secundários. A mudança de máscaras permitia aos espectadores reconhecer o personagem interpretado pelo ator. 

7. O coro, composto por cidadãos normais recrutados e treinados pelo corego, compreendia entre doze e quinze pessoas. Os coreutas eram também mascarados e carregavam o atributo simbólico do grupo que coletivamente representavam (bengala para os idosos, roupas escuras para as mulheres de luto, etc.). O coro eram acompanhado nas recitações cantadas por um flautista. 

8. O assunto das peças propriamente ditas variava conforme fossem tragédias ou comédias. As comédias recorriam muito à realidade presente da cidade, ainda que o enredo fosse puramente imaginário. Assim, Aristófanes punha em cena, sob disfarces grotescos, políticos, estrategos, filósofos contemporâneos e até mesmo deuses. Do mesmo modo, quando os atenienses não aguentavam mais a guerra, sugeriu a conclusão de uma paz unilateral por parte de seu herói ou a greve de sexo das mulheres de Atenas, estendendo assim à cidade um espelho em que ela se reconhecia. 

9. Os tragediógrafos, por outro lado, com poucas exceções (A tomada de Mileto, de Frínico; Os persas de Ésquilo) buscavam nos relatos míticos transmitidos pelos poetas épicos os temas de suas peças, situadas assim em um passado remoto, ainda que frequentemente as reflexões de um personagem remetessem a preocupações do momento. Isso é particularmente perceptível no teatro de Eurípedes, composto no tempo da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). 

10. Representando para a cidade um meio de questionar a si própria, a tragédia era, para retomar uma fórmula de Vidal-Naquet, um espelho que a pólis oferecia de si mesma, mas "um espelho quebrado". O herói trágico era a vítima desse questionamento, que culminava no triunfo dos valores cívicos.

11. As peças, em geral as tragédias, eram construídas de acordo com um esquema invariável: um prólogo antes da entrada do coro, que expunha a situação, seguido pelo párodo, a primeira intervenção do coro, alternando-se em seguida as cenas faladas e cantadas até a cena final, ou êxodo.

12. O tema de uma peça em geral consistia num episódio particularmente significativo do mito em que se baseava, no caso das tragédias, que eram agrupadas em trilogias, ou seja, em grupos de três peças. Apenas uma dessas trilogias subsistiu na íntegra, a Oréstia, de Ésquilo, que evoca três momentos importantes do mito dos Átridas: o assassinato de Agamêmnon, o assassinato de Clitemnestra e Egisto e a fuga de Orestes perseguido pelas Erínias e absolvido do crime de matricídio de que era culpado pelo Areópago.

13. O século V a.C. foi a grande época do teatro grego, sintetizada pelos nomes de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes na tragédia e Aristófanes na comédia. No século IV a.C., a produção dramática foi aparentemente menor, uma vez que são reencenadas as peças dos autores do século anterior. Praticamente nada subsistiu da tragédia, e apenas alguns fragmentos de autores da "comédia intermediária" restaram da obra dos cômicos. 

14. No fim do século IV a.C., o teatro de Menandro levou a comédia a passar por um novo renascimento. Ele conferiu aos "sentimentos", especialmente ao amor, uma importância nova. Ele elaborou uma tipologia que foi herdada pela comédia romana: o velho, o rapaz, a moçoila, a cortesã, o soldado, o parasita, etc.

15. Em relação à tragédia, o problema é mais complexo, pois Clitemnestra, Édipo e Medéia aparecem como personagens excepcionais. Mesmo assim, mais que o desenho dos personagens, é a organização da intriga que lhes confere tal "personalidade" excepcional.

Bibliografia consultada: MOSSÉ, Claude. Dicionário da Civilização Grega. Tradução de Carlos Ramalhete, com a colaboração de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2004, p. 265-267 e p. 276.