“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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"Primeiro eles vieram buscar os..."

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O autor das palavras acima foi um pastor protestante que se opôs ao regime nazista. O preço que pagou por isso foi a prisão, em campos de concentração, durante os últimos sete anos do Terceiro Reich.

Após a derrota dos nazistas, Niemöller fez um mea culpa pelo período em se omitiu. Assim, em 1946 ele viajou numa turnê de palestras pelas zonas ocidentais da Alemanha, então ocupadas pelas tropas dos países Aliados. Na ocasião, o pastor confessou publicamente sua inação e indiferença perante o trágico destino de muitas das vítimas dos nazistas. Muitas das primeiras vítimas do regime nacional-socialista eram integrantes de movimentos políticos de esquerda, ideologia veementemente rechaçada por Niemöller.

Ivanov e o "humanzee"

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Na década de 1920, o biólogo russo/soviético Ilya Ivanovich Ivanov (1870-1932) planejou e tentou inseminar mulheres com sêmen de macacos (especificamente chimpanzés ou orangotangos). Isso fazia parte de experimentos para criar um híbrido humano-macaco - o "humanzee". O patrocinador das pesquisas era o governo soviético, e o objetivo era provar a teoria da evolução de Darwin e enfraquecer a influência religiosa (além de especulações, nunca comprovadas, sobre criar "super-soldados" para Stalin).

Os planos de Ivanov de criar híbridos humano-macaco já eram apresentados em congressos científicos em 1910. Vale lembrar que ele era pioneiro em inseminação artificial - uma técnica que revolucionou a criação de cavalos e outros animais.

Em 1926-27, na Guiné Francesa (África), ele inseminou artificialmente três fêmeas de chimpanzé com sêmen humano. Nenhuma delas engravidou, e o experimento falhou.

Porém, Ivanov não desistiu. Então, ele planejou o inverso: inseminar mulheres africanas com sêmen de macacos, sem o consentimento delas. O pretexto seria fazer exames ginecológicos em um hospital local. O governador colonial francês vetou o plano por razões éticas e políticas.

De volta à União Soviética, em Sukhumi, atual Abkhazia, o cientista recrutou voluntárias - pelo menos cinco mulheres, atraídas pela propaganda comunista de "ciência progressista". A ideia era inseminá-las com o sêmen de um orangotango chamado Tarzan. Porém, ele morreu antes da coleta do sêmen, e Ivanov perdeu apoio científico e político, sendo criticado pela Academia de Ciências Soviética.

Em 1930, Ivanov foi acusado de sabotagem, no contexto da purga stalinista. Exilado no Cazaquistão, morreu em 1932. Nenhum híbrido de humanos e macacos nasceu, e esse episódio é um dos mais bizarros e antiéticos da história da ciência - hoje é considerado um crime contra a humanidade e violação total da bioética.  

Incertezas após a Vitória

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Desde agosto de 1945, o mundo vive uma era de incertezas.

Pela primeira vez na história, o advento das armas nucleares tornou possível para um único ser humano destruir dezenas - talvez centenas - de milhões de vidas, e os avanços tecnológicos possibilitam que isso seja feito em apenas alguns minutos. Nenhuma das figuras mais assustadoras da história - Gêngis Khan; Alexandre, o Grande; Adolf Hitler - tinha qualquer coisa parecida. Se no século XIII Khan decidisse esmagar um império ou Estado, isso levaria algum tempo. Se esse território fosse enorme - como a China -, essa empreitada, provavelmente, levaria décadas. No entanto, se o presidente Richard Nixon, em 1969, decidisse lançar um ataque nuclear no mesmo local, poderia ter aniquilado 100 milhões de chineses em uma tarde.

Se a humanidade tratasse essa nova arma da maneira que tratou todas as outras armas eficazes já inventadas antes, a próxima guerra mundial veria uma capacidade destrutiva quase divina. Muitas das centenas de pessoas que testemunharam o nascimento da era atômica perceberam isso no minuto em que viram o teste da Trinity no deserto. "Agora eu sou a morte, a destruidora de mundos", disse Oppenheimer.

Assim como com os cientistas, as reações dos norte-americanos foram variadas. Se você está envolvido em uma guerra mundial e seu lado adquire uma superarma, isso sem dúvida será visto de maneira positiva. Em seu livro In the Shadow of War, o historiador Michael S. Sherry descreve as reações variadas dos americanos após o anúncio do presidente Truman na televisão informando ao seu povo, e ao mundo, que a bomba havia sido lançada e explicando o que era essa nova arma e por que havia sido usada. "Alguns enfatizaram o orgulho pelas conquistas e a satisfação em obterem vingança contra os japoneses." Certas pessoas lamentaram que mais bombas não fossem jogadas sobre o Japão. "Outros - em especial, soldados que presumiram que a invasão do Japão era a única alternativa ao uso da arma - saudaram a paz que a bomba havia trazido mais depressa, e a própria bomba como uma ferramenta para manter a paz."

Outros viram a questão de maneira completamente diferente - para eles, a bomba era evidência do flagelo da guerra moderna. Houve quem sentisse que era um augúrio sobre o que o futuro nos reserva. O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, disse o seguinte: "É raro, senão inédito, uma guerra terminar deixando os vencedores como um sentimento tão intenso de incerteza e medo - com o conhecimento de que o futuro é incerto e que a sobrevivência não é garantida."

CARLIN, Dan. O fim está sempre próximo: momentos apocalípticos, do colapso da Idade do Bronze até ameaças nucleares. Tradução de Flora Pinheiro. Rio de Janeiro: Happer Collins, 2020, p. 168-169.

Doc. 'Homo Sapiens 1900'

segunda-feira, 7 de abril de 2025

 

Aborígenes acorrentados

terça-feira, 11 de março de 2025

 

Aborígenes australianos acorrentados na prisão de Wyndham, em 1902. Wyndham é a cidade mais antiga e mais ao norte da região de Kimberley, na Austrália Ocidental. Quem disponibilizou a foto no X foi o perfil @archeohistories.

Não conhecemos as circunstâncias da foto acima. Os aborígenes podem ter sido presos sob as várias leis locais aprovadas que os proibiam de entrar ou estar a uma certa distância de cidades. Eles também poderiam ter sido presos por beber ou possuir armas de fogo, o que era ilegal para eles em vários momentos. Também é possível que eles tenham sido reunidos para serem movidos para áreas de reserva que estavam sendo criadas na época e que esses indivíduos não quisessem se mudar. Poderia até ser uma foto encenada para turistas ou por razões publicitárias.

Os povos nativos da Austrália estavam sujeitos a trabalhos forçados e vivenciavam condições semelhantes à escravidão, apesar de não mais existir tráfico de escravos no Império Britânico quando a população aborígene foi subjugada. Além disso, não havia necessidade. Embora houvesse escassez de mão de obra nos primeiros assentamentos coloniais, o governo colonial respondeu disponibilizando mão de obra de condenados para a iniciativa privada. 

Desafios dos Sobreviventes da Shoá

quarta-feira, 31 de julho de 2024

 

Soldados alemães capturados removem corpos de dentro de um quartel em Gunskirchen, campo de concentração austríaco onde Edith Eva Eger e que foi libertado por soldados do 3º Exército dos EUA. 7 de maio de 1945. Créditos do US Holocaust Memorial Museum.

Aprendi a diferença entre liberdade negativa e liberdade positiva em maio de 1945, aos 17 anos. Eu estava caída na lama, junto a uma pilha de pessoas mortas e moribundas, quando a 71ª Infantaria chegou para libertar o campo. Lembro-me dos olhares horrorizados dos soldados, com o rosto coberto por lenço para não sentirem o cheiro de carne podre. Naquelas primeiras horas de liberdade, vi meus colegas ex-prisioneiros - aqueles que conseguiam andar - saírem pelos portões da prisão e, momentos depois, voltarem para se sentar na grama encharcada ou no chão sujo dos barracões, incapazes de seguir adiante. Viktor Frankl percebeu o mesmo fenômeno quando as forças soviéticas libertaram Auschwitz. Não estávamos mais presos, mas muitos não conseguiam reconhecer, física ou mentalmente, a liberdade. Corroídos por doenças, pela fome e pelo trauma, não tínhamos capacidade de assumir a responsabilidade por nossa vida. Mal conseguíamos nos lembrar de como ser nós mesmos.

Tínhamos finalmente sido libertados dos nazistas. Mas ainda não estávamos livres.

Hoje reconheço que a prisão mais nociva está em nossa mente, mas sei que a chave está em nosso bolso. Não importa o tamanho do sofrimento ou do portão das celas, é possível nos libertarmos de qualquer coisa que esteja nos aprisionando.

Não é fácil, mas vale muito a pena.     

EGER, Edith Eva. A Liberdade é uma Escolha. Tradução de Débora Chaves. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2021, Introdução. 

A Descristianização da França

domingo, 19 de maio de 2024

                     Desenho do aprisionamento do Papa Pio VI, em Roma.

Infelizmente, os novos cultos [cívicos, da Revolução] não podiam ser separados da descristianização e da guilhotina, que servia, por assim dizer, para eliminar argumentos inconvenientes de forma perfeitamente racionalista. Em 7 de outubro de 1793, celebrou-se uma cerimônia em Rheims em que um ferreiro local esmagou o frasco miraculoso de óleo sagrado utilizado na coroação. Muitos dos descristianizadores eram renegados, como nos primeiros movimentos milenaristas - Fouché fora oratoriano, Laplanche, beneditino, e Charles, cônego em Chartres. Alguns eram comunistas, como outro ex-oratoriano, Joseph Lebon: "se, quando a Revolução chegar ao fim, ainda houver pobres entre nós, nossos esforços revolucionários terão sido em vão." Ele declarou, em seu julgamento, que derivava todas as suas máximas revolucionárias dos evangelhos, "que, do princípio ao fim, pregam contra os ricos e sacerdotes." Algumas igrejas foram depredadas. Em Paris, as fileiras dos descristianizadores eram compostas pelos muito pobres; nas províncias, estes geralmente eram a linha de frente. Arrasaram tumbas aristocráticas e demoliram o mausoléu funerário em St. Denis. (Descobriram o coração encolhido e preservado de Luís XIV, que acabou sendo comido por engano.) Cerca de vinte a quarenta mil sacerdotes que não juraram foram exilados; algo entre dois e cinco mil foram executados. A Igreja "constitucional" foi arruinada quando cerca de vinte mil padres juradores - a maioria sob pressão - concordaram em ser descristianizados; quarenta e dois bispos abdicaram de sua posição, conquanto somente vinte e três tenham incorrido em apostasia de fato. Alguns padres casaram-se para salvar suas vidas, outros fizeram-no voluntariamente; porém, havia casamentos clericais, celebrados por bispos, antes do início do processo de descristianização. (Mais tarde, quando a Igreja retomou o celibato, sob Napoleão, milhares solicitaram a absolvição.) A separação formal entre a Igreja e o Estado foi decretada em 1795, o país tornou-se uma República em 1798 e o Papa Pio VI foi declarado prisioneiro francês, morrendo em Valência em agosto de 1799; a municipalidade registrou o falecimento de "Jean-Ange Braschi, exercendo a profissão de pontífice".     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 437. 

Fome no Pós-Guerra

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Mapa da fome, ao final da Primeira Guerra Mundial. Em 1945, várias dessas regiões voltariam a ser assoladas pela escassez de alimentos.

Milhões tinham morrido de fome em certas regiões da União Soviética. Mas havia algo de particular no caso da desnutrição na Holanda: foi o único país da Europa Ocidental submetido à fome como forma deliberada de castigo coletivo. Os eslavos haviam sido submetidos a esse tratamento, mas não europeus ocidentais. 

Fazendo sua parte para ajudar Montgomery em seus desastrosos esforços para construir uma ponte sobre o Reno em Arnhem, em setembro de 1944, trabalhadores ferroviários holandeses entraram em greve. Em retaliação, os alemães cortaram o fornecimento de comida na parte ocidental do país, ainda sob ocupação. Também desligaram a eletricidade, inundaram terras férteis e proibiram cidadãos holandeses de utilizar trens. Para completar, o "inverno de fome" de 1944-45 foi de um frio fora do comum. Dezoito mil pessoas morreram de fome ou foram vítimas de doenças causadas por desnutrição. Os sobreviventes queimavam sua mobília para se aquecer e sobreviviam comendo animais de estimação, se ainda conseguissem encontrá-los, ou cavalos mortos, retalhados assim que desabavam nas ruas, ou sopas feitas de urtigas espinhentas e bulbos de tulipa fritos.

O problema da inanição é que comida demais, ou o tipo errado de alimento, também pode matar uma pessoa. Mesmo os biscoitos distribuídos pelas amistosas tropas canadenses podiam ser catastróficos. Provocavam sede intensa, aliviada com goles de água gelada, o que fazia com que a massa ainda não digerida inchasse, resultando em estômagos perfurados e morte rápida.

Havia fome em quase todas as partes do mundo, nos países libertados e nos derrotados também, onde todos os serviços tinham entrado em colapso, e os dispositivos econômicos normais tinham parado de funcionar. Houve outros lugares, além da Holanda, nos quais a comida teve de ser lançada dos céus. O adolescente no livro de Akiyuki Nosaka Amerika Hijiki vê um bombardeiro americano lançar de paraquedas um tambor de aço. Primeiro os japoneses do vilarejo pensam que poderia ser mais uma bomba devastadora. Eles tinham ouvido falar de Hiroshima. Diziam que lá também a bomba estava presa a um paraquedas. No entanto, quando o recipiente não explodiu, a fome e a curiosidade venceram o medo. Os aldeões o abriram e encontraram pacotes de comida, que presumiram ser destinados aos presos de guerra que estavam em um campo de prisioneiros próximo. Mas esperar caridade de estranhos é pedir demais em áreas de desespero. Os pacotes contêm pão, chocolate e goma de mascar, que as crianças mastigam durante dias, passando os pedaços endurecidos e já sem gosto de boca em boca. Há também um pacote cheio de uma coisa amarronzada, que os aldeões supõem ser alga marinha, ou hijiki, uma iguaria muito apreciada no Japão. Tem um gosto tão ruim, mesmo depois de cozida, e é de tão difícil digestão, que eles se admiram de que os americanos possam tolerá-la. Ainda na suposição de que as folhas escuras de chá fossem "algas americanas", eles acabam por devorar o suprimento inteiro.     

BURUMA, Ian. Ano Zero - Uma História de 1945. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, Cap. 2.

Doutrinação durante a Guerra Fria

quarta-feira, 24 de abril de 2024

"As faculdades devem contratar professores vermelhos?" Capa da revista American Legion, 1951. A partir da Guerra Fria, a educação tornou-se um dos espaços privilegiados da guerra cultural promovida pelo marxismo cultural.

A noção de "corrida armamentista", como caracterização negativa no uso da dissuasão militar, foi apenas uma dentre muitas ideias das décadas de 1920 e de 1930 que foram ressuscitadas durante o período da Guerra Fria. Da mesma forma que os sindicatos dos professores franceses tornaram as escolas francesas centros de doutrinação para promoção das agendas pacifistas durante as décadas de 1920 e de 1930, enfatizando os horrores da guerra, também nos Estados Unidos, durante o período da Guerra Fria, as salas de aula norte-americanas se tornaram lugares para doutrinação sobre os horrores da guerra. Dramatizações dos bombardeios nucleares às cidades japonesas foram, por exemplo, encenadas:

Expostas aos detalhes mais medonhos, essas crianças, em geral de classe média alta, eram obrigadas a observar mulheres e crianças japonesas sendo incineradas pela tempestade de fogo acionada pelo bombardeio atômico. Os jovens colavam na cadeira. Soluços podiam ser ouvidos. O ânimo geral provocado na classe pode ser resumido e bem expresso por uma jovem emotiva que perguntou: "Por que nós fizemos isso?". A professora respondeu dizendo: "Fizemos uma vez, podemos fazer novamente. Se essas armas de destruição serão ou não usadas, depende de vocês." E assim se iniciava uma unidade de estudo sobre as armas nucleares.

Levar as crianças às lágrimas nas salas de aula, como parte do processo de doutrinação, já havia feito parte também do modus operandi na França entre as duas Guerras Mundiais:

Por exemplo, numa escola para rapazes em Amiens, os professores perguntavam aos meninos cujos pais haviam sido mortos em combate para que falassem sobre o assunto para a classe. "Mais do que uma lágrima era derramada", relatou o diretor. De forma parecida, uma professora de outra escola primária em Amiens notou que em sua escola uma aluna, em cada seis, perdera o pai entre 1914 e 1918: "A lembrança dos mortos era encenada com a mais comovente reverência", a professora relatou, "e tanto professoras quanto alunas eram unidas pela emoção criada". Outra professora, agora de uma escola para garotas em Pont de Metz, relatou o silêncio solene que, gerado durante a lembrança dos mortos, "era quebrado com os soluços de muitas crianças cujos pais morreram na guerra.

É importante observar que nesse caso, assim como em outros contextos, o erro fatal dos professores esteve em conduzir situações que estavam além de sua competência, uma vez que os professores não têm nenhuma qualificação profissional que os habilite compreender os perigos de manipular as emoções das crianças, nem quaisquer qualificações especiais para compreender as complicações políticas no âmbito internacional, ou quais fatores aumentam e quais diminuem a probabilidade das guerras, muito menos que fatores tendem a levar ao colapso e à derrota, como aconteceu com a França em 1940.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 411-412.

Intelectuais vs "Corrida Armamentista"

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Protesto de alemães ocidentais contra a corrida nuclear, durante a Guerra Fria.

A futilidade de uma "corrida armamentista" foi mais uma característica marcante da década de 1930 que voltou a vigorar na década de 1960, mesmo que um desarmamento unilateral - tanto moral quanto militar - , adotado pelas nações democráticas após o término da Primeira Guerra Mundial, tenha tornado muito favorável, para os poderes do Eixo, a perspectiva de vitória em outra guerra, o que desembocou na Segunda Guerra Mundial. A noção de que uma "corrida armamentista" fomentaria a guerra, que fora o tom dominante entre os intelectuais durante o período entre-guerras, o qual acabou influenciando a condução política, principalmente na figura de Neville Chamberlain, foi restaurada a partir da segunda metade do século XX. Seja qual for a plausibilidade dessa noção, o que parece crucial é que poucos intelectuais sentiram qualquer necessidade de ir além da mera plausibilidade em busca de evidências concretas, a fim de aferir suas suposições, colocando-as sob o crivo da verificação empírica, mas, em vez disso, trataram a questão como um axioma inquestionável.

Assim que a Segunda Guerra Mundial demonstrara, de forma trágica, os perigos das insuficientes políticas de desarmamento e de rearmamento, a ideia sobre a alegada futilidade da corrida armamentista foi descartada. Porém, quando o presidente John F. Kennedy invocou essa lição da Segunda Guerra Mundial ao dizer em seu discurso de posse em 1961 que "não ousaremos tentá-los mostrando fraqueza", apesar de sua juventude ele falava em consonância como uma geração que estava passando, defendendo ideias que seriam, em breve, substituídas por ideias opostas, adotadas ironicamente anos mais tarde por seu irmão mais jovem no Senado dos Estados Unidos. A ideia de força militar como fundação para a paz, a partir do poder dissuasivo para conter potenciais inimigos, caiu em desuso rapidamente a partir da década de 1960, ao menos entre os intelectuais. Em vez disso, durante os longos anos de Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos, acordos para limitação de arsenais foram defendidos por muitos, senão pela maioria, da intelligentsia ocidental.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 399-400.

O "Desarmamento Moral" da França

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Livro didático francês de 1948: instrumento de "desarmamento moral".

Um papel central na disseminação do movimento pacifista na França foi desempenhado pelas escolas ou, mais especificamente, pelos sindicatos de professores franceses, que na década de 1920 deram início a uma série de campanhas organizadas que se opunham aos livros escolares do pós-guerra que retratassem favoravelmente os soldados franceses, os quais haviam defendido seu país contra os invasores alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Tais textos foram cunhados de "belicosos", uma tática verba ainda comum entre os integrantes da visão do intelectual ungido, tratando as visões divergentes como se fosse meras emoções, como se nesse caso apenas o estado mental de beligerância explicasse a resistência aos invasores ou se associasse àqueles que arriscaram a vida para defender a nação. O líder do sindicato dos professores, o Syndicat National des Instituteurs (SN), lançou uma campanha contra esses livros escolares de "inspiração belicosa", os quais foram caracterizados como "um perigo para a implantação da paz". Já que era dito que o nacionalismo era uma das causas da guerra, o internacionalismo ou a "imparcialidade" entre as nações foi considerado uma característica necessária a ser adotada nos livros escolares.

Isso não era tido como contrário ao espírito patriótico, mas no mínimo acabou esvaziando o senso de dever perante os que tinham morrido para proteger a nação, com sua obrigação implícita sobre as gerações seguintes para que fizessem o mesmo se e quando isso tornasse novamente necessário.

Os líderes com inclinação para reescrever os livros escolares de história chamaram seu objetivo de "desarmamento moral", o que abriria o caminho para o desarmamento militar, o qual muitos consideravam outro ponto central para a conquista da paz. As listas dos livros censurados nas escolas foram organizados por Georges Lapierre, um dos líderes do SN. Por volta de 1929 ele se gabava de ter removido todos os livros "belicosos", os quais a campanha encabeçada pelo SN tinha retirado das escolas. Esses livros haviam sido reescritos ou substituídos. Diante da ameaça de perder uma boa parte do mercado editorial escolar, os editores franceses submeteram-se às exigências dos sindicatos, determinando que os livros sobre a Primeira Guerra Mundial deveriam ser revisados a fim de refletir a "imparcialidade" entre as nações e promover o pacifismo.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 344-345.

A Falácia do Separatismo

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Europa, 1921. Destaque para os novos países (cor amarela).

A ideia de fazer com que cada "povo" tenha sua própria terra ignora tanto a história quanto a demografia, para não falar de economia e segurança militar. As localizações dos povos e das fronteiras nacionais já haviam mudado repetida e drasticamente por toda a história. Boa parte dos territórios no mundo, assim como a maior parte dos territórios desmembrados impérios Habsburgo e Otomano, pertenceram a diferentes soberanias, em diferentes períodos da história. Nesses impérios, o número de cidades com múltiplos nomes provindos de línguas distintas deveria ter funcionado como indicação clara sobre a realidade histórica, assim como as mesquitas convertidas em igrejas convertidas em mesquitas.

A ideia de resgatar minorias oprimidas ignorava o prospecto - até se tornar realidade - de que as minorias oprimidas, ao se tornarem grupo governante de suas próprias nações, iniciariam imediatamente o processo de opressão de outras minorias agora sob seu controle. A solução encontrada por Wilson e aplaudida pelos outros intelectuais se fazia tão ilusória quanto perigosa. Estados pequenos e vulneráveis criados a partir do desmembramento do Império Habsburgo foram posteriormente arrebanhados, um por um, por Hitler durante a década de 1930; uma operação que teria sido muito mais difícil e temerosa caso ele tivesse que enfrentar um Império Habsburgo unido. O dano causado estendeu-se para além dos pequenos estados, pois mesmo um estado maior como a França ficou muito mais vulnerável depois que Hitler tomou controle dos recursos militares e materiais da Tchecoslováquia e da Áustria. Hoje em dia, a Otan é, de fato, uma tentativa de proteger Estados individualmente vulneráveis, agora que os impérios dos quais alguns deles faziam parte foram dissolvidos.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 329-330.

Hitler define o Nacional-Socialismo

domingo, 20 de agosto de 2023

Hitler admira um modelo do carro Volkswagen. À esquerda, o designer Ferdinand Porsche.

Hitler confidenciou então a seus auxiliares mais chegados que não pensava de nenhum modo em promover a extinção, como se fizera na Rússia, dos grandes proprietários; ao contrário, queria levá-los a construir uma nova economia com todas as possibilidades por ela implicadas. Essa classe ainda se consideraria feliz por ver sua existência mantida e suas riquezas poupadas, mesmo que viesse a perder sua independência. Devia ele, pois, modificar essa vantajosa relação de forças, o que traria como único resultado a necessidade de lutar em seguida contra os "primeiros combatentes" e membros muito zelosos do partido, que não cessavam de gabar seus próprios méritos? O problema do título formal de posse dos meios de produção resultava numa simples questão de detalhe: "Por que eu iria forçar essas criaturas a se submeterem a uma disciplina rígida, da qual não conseguem escapar? Eles podem ter tantas terras ou usinas quanto queiram, o importante é que o estado, por intermédio do partido, decida quanto às suas ações e atitudes, pouco importando, assim, que sejam proprietários ou operários. Compreendem agora que tudo isso não significa mais nada? Nosso socialismo tem uma forma de agir muito mais profunda. Não modifica a ordem das coisas, não faz senão mudar as relações dos homens com o estado (...) Que significado têm a partir de agora as expressões 'propriedade' e 'renda'? Por que teremos a necessidade de socializar os bancos e as usinas? Nós socializamos os homens."

FEST, Joachim C. Hitler. Tradução de Analúcia Teixeira Ribeiro [et. al.]. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2010, p. 350-351.

Viena na Belle Époque

domingo, 18 de junho de 2023

 

Viena, capital do Império Austro-Húngaro, em 1900. 

A lista de grandes nomes associados com a Viena do fim do século XIX e do início do século XX parece infinita. A relação inclui:

1. Filósofos: Ludwig Boltzmann, Franz Brentano, Rudolph Camap, Edmund Husserl, Ernst Mach, Alexius Meinong, Karl popper, Moritz Schlick e Ludwig Wittgenstein.

2. Matemáticos: Kurt Godel, Hans Hahn, Karl Menger e Richard von Mises.

3. Economistas: Eugen von Böhm-Bawerk, Gottfried von Haberler, Friedrich A. von Hayek, Carl Menger, Fritz Machlup, Ludwig von Mises, Oskar Morgenstern, Joseph Schumpeter e Friedrich von Wieser. 

4. Advogados e juristas: Rudolph Jhering, Hans Kelsen, Anton Menger e Lorenz von Stein.

5. Psicologistas: Alfred Adler, Joseph Breuer, Karl Bühler e Sigmund Freud.

6. Historiadores e sociólogos: Max Adler, Otto Bauer, Egon Friedell, Heinrich Friedjung, Paul Lazarsfeld, Gustav Ratzenhofer e Alfred Schutz.

7. Escritores e críticos literários: Hermann Broch, Franz Grillparzer, Hugo von Hofmannsthal, Karl Kraus, Fritz Mauthner, Robert Musil, Arthur Schnitzler, Georg Trakl, Otto Weininger e Stefan Zweig.

8. Artistas e arquitetos: Gustav Klimt, Oskar Kokoschka, Adolf Loos e Egon Schiele.

9. Compositores: Alban Berg, Johannes Brahms, Anton Bruckner, Franz Lehar, Gustav Mahler, Arnold Schonberg, Johann Strauss, Anton von Webern e Hugo Wolf.

As Sociedades Modernas

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Elon Musk e Donald Trump: dois dos homens mais poderosos do mundo apresentam-se como típicos americanos de classe média.

As sociedades modernas têm fazendeiros, e não camponeses: a agricultura é uma ocupação como qualquer outra, que pode ser assumida ou abandonada sem cruzar legal ou ritualmente os limites santificados de uma casta ou propriedade. Essas sociedades têm soldados, mas não uma casta de guerreiros. O mesmo é verdade para os políticos e a profissão das armas: os Negros e os Vermelhos não são legal ou sacramentalmente distintos do resto da sociedade. Quando não estão em serviço, geralmente se vestem à maneira civil. Dificilmente é possível distingui-los. O comandante da vitoriosa expedição britânica às Falklands se orgulhava do fato de que era o realizador de uma tarefa. Não era um aristocrata militar nem um membro da classe guerreira.    
  
GELLNER, Ernest. Condições da Liberdade - a sociedade civil e seus rivais. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 71. 

A Patologia do Jacobinismo

domingo, 28 de maio de 2023

 

Celebração do Culto ao Ser Supremo, na França revolucionária.

Muitos líderes da revolução seguiram o que viram como apelo de Rousseau para uma nova mitologia, uma nova religião civil, para substituir tanto as superstições do cristianismo tradicional quanto o árido racionalismo do Iluminismo. No auge do seu poder, Robespierre montou um espetáculo particularmente extravagante. Os deputados da Assembleia Nacional eram "cercados por grupos de meninos com grinaldas de violetas nas cabeças, por rapazes com coroas de murta, por homens mais velhos usando folhas de carvalho, hera e oliveira... Uma orquestra começava a tocar; os vários grupos começavam a cantar; os rapazes sacavam espadas e juravam aos mais velhos defender a pátria...".

Essas cenas fortemente contrastantes - donzelas de branco carregando feixes de trigo alternando com turbas urrando diante de uma guilhotina encharcada de sangue - ilustram a patologia do jacobinismo e de todas as revoluções milenaristas subsequentes. As pessoas devem ser subjugadas e esmagadas, todas as suas tradições e vínculos habituais destruídos, para serem reconstruídos num coletivo mais puro, mais harmonioso. Selvageria e sadismo correm em contraponto a explosões de emoção e afeto, já que os defeitos das pessoas são purgados pelo terror para permitir que sua subjacente bondade natural venha à tona.      

NEWELL, Waller R. Tiranos - Uma História de Poder, Injustiça e Terror. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Cultrix, 2019, p. 171.

Mao e a Destruição Mútua Assegurada

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

 

Caricatura de Mao Zedong por Herb Block, 1º de abril de 1965, publicada no Washington Post.  

Mao Zedong interpretava a dependência norte-americana da Destruição Mútua Assegurada como um reflexo da falta de confiança em suas próprias forças armadas. Isso foi tema de um diálogo em 1975, em que Mao penetrou no cerne de nosso dilema da Guerra Fria: "Vocês confiam, vocês acreditam nas armas nucleares. Vocês não confiam em seus próprios exércitos."

E quanto à China, exposta a ameaça nuclear sem ter, por algum tempo, meios adequados de retaliação? A resposta de Mao era de que isso criaria uma narrativa baseada na performance histórica e paciência bíblica. Nenhuma outra sociedade podia imaginar que ela seria capaz de conquistar uma política de segurança digna de crédito mediante uma disposição a prevalecer após a morte de centenas de milhões e a devastação ou ocupação da maioria de suas cidades. Só essa disparidade de ponto de vista já definia a brecha existente entre os conceitos ocidental e chinês de segurança. A história chinesa era um testemunho da capacidade de superar destruições inconcebíveis em qualquer outro lugar e, no fim, prevalecer pela imposição de sua cultura ou sua vastidão sobre o pretenso conquistador. Essa fé no próprio povo e na própria cultura era o lado reverso das reflexões por vezes misantrópicas de sua performance cotidiana. Não era apenas o fato de haver tantos chineses; era também a tenacidade de sua cultura e a coesão de seus relacionamentos.

Mas os líderes ocidentais, mais sintonizados e responsáveis para com suas populações, não estavam preparados para ofertá-las de uma maneira tão categórica (embora o fizessem indiretamente, mediante sua doutrina estratégica). Para eles, a guerra nuclear tinha de ser um último recurso demonstrado, não um procedimento operacional padrão.

A China não partilhava da visão estratégica norte-americana das armas nucleares, muito menos de sua doutrina de segurança coletiva; ela aplicava a máxima de "usar bárbaros contra bárbaros" a fim de obter uma periferia dividida. O pesadelo histórico chinês havia sido de que os bárbaros se recusariam a ser "usados" dessa maneira, se uniriam e então usariam a força superior para ou conquistar a China completamente ou dividi-la em feudos separados. Da perspectiva chinesa, esse pesadelo nunca desapareceu plenamente, travada como a China estava em uma relação antagônica com União Soviética e Índia e não sem suas próprias suspeitas quanto aos Estados Unidos.

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 285-87.

Mao, Khrushchev e Nixon

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

 

Mao Zedong e Nikita Khrushchev, em agosto de 1958.

Em 1958, o ditador soviético Nikita Khrushchev fez uma calamitosa visita a Pequim. Na ocasião, houve um rol aparentemente interminável de queixas de parte a parte entre os mandatários das duas maiores potências socialistas do mundo. Mao Zedong, de forma especial, induziu Khrushchev a dar declarações cada vez mais absurdas e humilhantes a fim de, provavelmente, demonstrar aos quadros chineses a inconfiabilidade do líder que presumivelmente desafiara a imagem de Stalin.

Mao também buscou a oportunidade de comunicar a profundidade da conduta opressiva de Moscou anteriormente. Mao se queixou do comportamento condescendente de Stalin durante sua visita a Mosco no inverno de 1949-50:

Mao: [...] Após a vitória de nossa Revolução, Stalin teve dúvidas sobre o caráter dela. Ele acreditava que a China era outra Iugoslávia.

Khrushchev: Sim, ele considerava isso possível.

Mao: Quando estive em Moscou [dezembro de 1949], ele não quis concluir um tratado de amizade conosco e não quis anular o antigo tratado com o Kuomintang. Lembro que [o intérprete soviético Nikolai] Fedorenko e [o emissário de Stalin para a República Popular, Ivan] Kovalev me transmitiram o conselho [de Stalin] de empreender uma viagem pelo país para dar uma olhada. Mas eu disse a eles, tenho apenas três tarefas: comer, dormir e cagar. Não vim a Moscou apenas para dar os parabéns a Stalin por seu aniversário. Então eu disse, se vocês não estão interessados em concluir um tratado de amizade, que seja. Vou cuidar das minhas três tarefas.

Em fevereiro de 1972, era a vez do representante maior do mundo livre, Richard Nixon, visitar a nação asiática. Na visita histórica, Mao frisou sua boa vontade pessoal em relação ao presidente americano. Ele afirmava que preferia lidar com governantes de direita, alegando que eram mais confiáveis. O autor do Grande Salto Adiante e da Campanha Antidireitista fez, então, o comentário espantoso de que "votara" em Nixon, e que ficava "relativamente feliz quando essas pessoas de direita chegam ao poder" (pelo menos no Ocidente). "Gosto de direitistas", assinalou o Grande Timoneiro, Mao Zedong. 

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 175-76 e 260-61.

Como os armênios foram dizimados

terça-feira, 25 de outubro de 2022

 

Em 1915, no então Império Otomano, a população armênia, cristã, foi vítima de um genocídio. No mapa acima, é possível verificar como os armênios foram dizimados, limitando-se praticamente ao território da atual Armênia.

O Mito da Ação Estrangeira na Rússia

terça-feira, 10 de maio de 2022

 

Desfile das tropas americanas em Vladivostok, em agosto de 1918.

Nunca houve uma ação estrangeira conjunta em solo russo durante a Guerra Civil (1917-1922); cada nação perseguia interesses próprios. Exceto pelo Reino Unido, em 1919, as potências estrangeiras não tencionavam derrubar o governo comunista. Ao longo do primeiro ano da Guerra Civil, intervieram simplesmente para reativar a frente oriental - com a ajuda dos bolcheviques, se possível, ou sem eles, se necessário. No período decisivo, quando os canhões silenciaram, a oeste, a intervenção perdeu o sentido. Não demorou e os Estados Unidos e a França se retiraram. Os japoneses permaneceram, para anexar as províncias da Rússia banhadas pelo Pacífico. Restaram os britânicos, emprestando seu apoio aos exércitos Brancos até o outono de 1919.Enfim, cabe destacar que a Guerra Civil foi uma luta fratricida - enquanto milhões de russos morreram (entre civis e militares), o Reino Unido, único país a permanecer em combate, teve cerca de quatrocentas baixas.

Em 1918, teve início a intervenção norte-americana. Ela se deu relutantemente e sob pressão britânica, em parte para evitar que valiosas provisões militares, nos portos ao norte da Rússia, caíssem em poder da Alemanha, e em parte para dar cobertura à retirada da Legião Tchecoslovaca, e em parte, ainda, visando impedir a invasão da Sibéria oriental pelos japoneses. As tropas norte-americanas em solo russo jamais se envolveram em combate. 

Adaptado de PIPES, Richard. História Concisa da Revolução Russa. Tradução de T. Reis. Rio de Janeiro: BestBolso, 2018, p. 266-267 e 270.