Nova Onda da Cocaína na Colômbia
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Os rebeldes de esquerda que assinaram o acordo de paz em 2016, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), agora foram substituídos por grupos armados cujo foco é traficar drogas para ganhar dinheiro, em vez de lutar pelo marxismo.
Eles promoveram um enorme aumento na produção de cocaína e criaram novos mercados para a droga. O resultado é que o crime organizado e a violência estão se tornando problemas cruciais em cidades que vão desde Antuérpia e Dubai até Rio de Janeiro.
O mesmo padrão tem se repetido em grandes partes da Colômbia, onde a produção de cocaína mais do que triplicou nos últimos dez anos. Grande parte dessa produção tem como destino a Europa.
No que se refere à própria Colômbia, esse aumento demonstra como os antigos conflitos civis do país estão sendo movidos por exércitos privados em busca de lucro, financiados pelo vício mundial em cocaína. O processo se agravou sob o governo do presidente do país, Gustavo Petro, em fim de mandato, ele próprio um ex-guerrilheiro de esquerda, que lançou uma nova iniciativa de negociações em 2022 com todos os grupos armados.
A nova geração de gangues armadas na Colômbia trouxe um maior profissionalismo para a produção de cocaína, agora uma operação em escala muito maior. A nova cadeia de suprimentos agora é bem mais fragmentada e especializada, com operações de nicho fornecendo trabalhos especializados, mas três grupos emergiram como as fontes dominantes.
Um deles é outro grupo guerrilheiro, o Exército de Libertação Nacional (ELN), cujas raízes também estão na violenta política de esquerda dos anos 1960 e que agora também tem presença considerável na Venezuela. O segundo é composto por ex-integrantes linha-dura das Farc que rejeitaram o acordo de 2016 e estabeleceram organizações dissidentes que agora têm papéis importantes no tráfico de cocaína.
Há ainda o Clã do Golfo, fundado por membros dos grupos paramilitares de direita que surgiram na década de 1990 para combater as guerrilhas de esquerda, mas que se transformou em um grupo de crime organizado. Esse é o maior beneficiário do acordo de 2016. Sua estrutura de gestão é como a de uma multinacional, como divisões específicas para atividades como recrutamento ou supervisão de laboratórios de refino.
Adaptado de Valor Econômico, 18 de junho de 2026.
Sobre a Guerra Civil em El Salvador
sexta-feira, 1 de dezembro de 2023
Anne van der Bijl (1928-2022), internacionalmente conhecido como Irmão André, foi um missionário neerlandês que fundou a Portas Abertas. Seu ministério teve início em 1955, quando ele começou a contrabandear Bíblias para os países da então Cortina de Ferro. Anos depois, o Irmão André e seus apoiadores expandiram as suas atividades para além do Leste Europeu e da União Soviética, alcançando países do então chamado "Terceiro Mundo", na África, Ásia e América Latina. O testemunho abaixo é relativo à Guerra Civil de El Salvador, travada entre 1979 e 1992. O encontro entre o Irmão André e Alberto, um dos líderes guerrilheiros, ocorreu no início dos anos 1980.
***
Um dos meus encontros mais memoráveis foi com Alberto, o comandante de um grupo de rebeldes que havia tomado totalmente determinada cidade. De boa aparência, extremamente carismático, ele usava uma boina preta, camisa cáqui, calça jeans azul enfiada nas botas militares e uma pistola na coxa. Dois guarda-costas não desgrudavam dele, com metralhadoras calibre cinquenta e bandoleiras trançadas no peito.
Também reparei que Alberto usava dois relógios. "Se um para, ainda tenho o outro para saber as horas", disse. Obviamente era uma pessoa bem treinada e disciplinada.
Primeiro ele nos contou seu passado e sua "juventude perdida", e como ele encontrou nova esperança nos ensinamentos marxistas. Depois do treinamento em Cuba, com direito até a um encontro com Fidel Castro, voltou a seu país com verdadeiro senso de propósito, pois, acreditava ele, a revolução traria justiça à vida em El Salvador. Impressionou-me esse jovem inteligente, e achei que seu zelo revolucionário daria um trecho interessante do vídeo.
- Alberto - disse eu -, gostaria de entrevistá-lo diante das câmeras, mas sob uma condição importante: você precisa falar a verdade. Vou lhe fazer uma pergunta, e quero que você me olhe bem nos olhos e me diga a mais absoluta verdade, de homem para homem. Concorda?
Ele refletiu por um momento e olhou em volta.
- Certo, vou lhe dizer a verdade - disse.
Algo em mim dizia que ele estava sendo sincero.
A equipe ligou o equipamento de filmagem. Então, encarando Alberto, fiz minha primeira pergunta.
- Esta revolução é de vocês ou importada?
Não creio que ele estivesse preparado para pergunta tão direta. O modo como ele me responderia teria importância crucial, e ele sabia disso. Veio um silêncio constrangedor. Ele olhou em torno, talvez para ver quanta gente podia ouvi-lo.
Continuei a encará-lo, e as câmeras continuaram gravando. O homem que um instante antes transpirava tamanha força e confiança, parecia agora bem vulnerável.
Finalmente ele se voltou e me olhou bem nos olhos, como havia prometido, respondendo:
- É importada.
Que tremenda confissão, especialmente para alguém de posto tão elevado na hierarquia da guerrilha. Por alguma razão, quando ele se viu confrontado com uma espécie de prova dos nove, não pôde mentir. Com essas duas palavras, ele revelara a verdadeira essência da revolução. Era fabricada, e estava sendo imposta às pessoas.
ANDRÉ, Irmão. O Contrabandista de Deus - desafiando os limites da fé: a missão continua além da cortina de ferro. Tradução de Eduardo Pereira E. Ferreira. São Paulo: Missão Portas Abertas, 2020, p. 174-175.
Notas sobre José Martí (1853-1895)
segunda-feira, 7 de junho de 2021
José Julián Martí Pérez foi considerado herói e mártir da independência cubana, antes e depois da Revolução castrista de 1959. Pouco antes de morrer, escreveu uma carta a Manuel Mercado, onde registrou uma frase célebre: "Vivo no monstro [EUA] e lhe conheço as entranhas: - e minha funda é a de Davi". Foi ele quem cunhou a expressão Nuestra América, para se opor à "outra" América Anglo-Saxônica.
Em seus textos, o cubano apresentava a América Latina como uma unidade com passado e destino comuns, dos quais todos deviam se orgulhar: "E em que Pátria pode o homem ter mais orgulho do que em nossas repúblicas da América? [...] De fatores tão desordenados, jamais, em menos tempo histórico, criaram-se nações tão adiantadas e compactas." A perspectiva de que tínhamos uma história tão rica, mas desvalorizada, era uma de suas constantes reiterações: "A história da América, desde a dos incas, deve ser ensinada minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia."
Diferentemente da maioria dos escritores elitistas seus contemporâneos, olhava para as sociedades latino-americanas e as aceitava em sua mistura étnica. Criticava as teorias raciais e não via qualquer traço de inferioridade na composição étnica da América hispânica. Além disso, se compadecia dos "pobres da terra" e com eles se solidarizava.
Adaptado de PELLEGRINO, Gabriela & PRADO, Maria Ligia. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2016, p. 99-100.
José de San Martín (1778-1850)
sábado, 22 de maio de 2021
José de San Martín nasceu em Yapeyú, povoado da atual província de Corrientes, em 1778. Seu pai era um militar espanhol e, aos seis anos de idade, a família de San Martín retornou à Espanha. Ali, San Martín estudou, ingressando na carreira militar. Ganhou experiência ao participar de batalhas no norte da África e no território espanhol, lutando contra as tropas de Napoleão.
Em Buenos Aires, o movimento de independência começou em 1810. San Martín recebia notícias de lá regularmente, interessando-se pelo assunto por ser membro de uma sociedade secreta que defendia as ideias liberais. Cada vez mais envolvido, em 1812 decidiu abandonar sua carreira na Espanha; dirigiu-se então ao Prata. No próprio ano de sua chegada, assumiu o comando de um regimento com a patente de tenente-coronel. Tal regimento derrotou os espanhóis na batalha de São Lourenço. A independência das Províncias Unidas do Rio da Prata foi proclamada em Tucumán, em 9 de julho de 1816.
San Martín tinha uma ampla visão do quadro geral da América do Sul e, desse modo, entendia que a consolidação da vitória sobre os espanhóis só seria alcançada se o Peru, baluarte das forças realistas, fosse libertado. Seu plano era chegar a Lima passando pelo Chile. Mas, para tanto, precisava conseguir a façanha de cruzar os Andes. Durante três anos, preparou uma expedição que contou com a mobilização de 5.500 homens, entre eles um significativo contingente de escravos negros vindos de Buenos Aires. Durante a travessia, houve a baixa de 400 soldados.
Após a passagem pelos Andes, as forças de Martín mostraram-se fundamentais na batalha de Maipu (abril de 1818). Tal vitória consolidou a emancipação do Chile, proclamada por Bernardo O'Higgins, dois meses antes. O objetivo final era libertar o Peru, o que ocorreu em 28 de julho de 1821, com a tomada da capital do Vice-reinado.
San Martín foi um grande comandante, mas não demonstrou ter habilidades políticas suficientes para governar o Peru. Após enfrentar uma grande resistência, e incapaz de contornar os problemas pós-independência, deixou o poder e partiu, em 1824, para a Europa com a sua filha Mercedes Tomasa. Viveu na Bélgica e na França até sua morte, em 1850.
Na Argentina, San Martín é considerado herói nacional. Assim, em 1880 suas cinzas foram trasladas para Buenos Aires e depositadas num mausoléu na catedral da capital.
Bibliografia consultada: PELLEGRINO, Gabriela & PRADO, Maria Ligia. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2016, p. 30-31.
Doenças explicam a queda dos Astecas?
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Não há números precisos sobre a contagem final dos astecas mortos de doença durante os anos de 1519-21. Durante a maior parte do século XVI, o México foi atingido por uma sucessão de doenças europeias - varíola, gripe, peste, caxumba, coqueluche e sarampo - que reduziram sua população nativa de 75 a 95% em relação a seu total antes da invasão. Assim, de 20 a 25 milhões de habitantes antes da invasão europeia, a população indígena caiu para apenas um ou dois milhões de nativos um século depois.
Estudos estimam que algo entre 20 e 40% de toda a população do México central - tanto astecas quanto seus inimigos - sucumbiram à primeira vaga de varíola, em 1520. Apesar disso, não está claro que a varíola tenha tido muito a ver com a destruição final de Tenochtitlán, a capital da Confederação Asteca. Isso porque, após o primeiro impacto da doença, ela quase desapareceu no momento do grande cerco (de abril a agosto de 1521). Quando Cortés se aproximou da cidade para sua segunda campanha, em abril de 1521, ela estava livre da doença por quase seis meses. A varíola também matou milhares de aliados de Crotés em números ainda maiores do que os astecas, já que os totonacas, os chalcatecas e os tlaxcaltecas estavam em contato mais estreito com a sucessão de desembarques europeus em Vera Cruz, onde a epidemia originou. Além disso, a doença parece ter sido mais virulenta na costa. Em um grau limitado, o isolamento insular de Tenochtitlán, sua altitude e a terra de ninguém do campo de batalha proporcionavam uma barreira inicial contra focos diretos de infecção.
O argumento da doença tem um outro lado: havia uma variedade de doenças tropicais com as quais os europeus não tinham quase nenhuma experiência e contra as quais praticamente não tinham imunidade. Os relatos mencionam males constantes nos brônquios e febres que enfraqueciam seriamente, e algumas vezes matavam, os soldados de Cortés. As malárias e disenterias do Novo Mundo eram muito virulentas. Alguns também sofriam de úlceras do tipo sifilítico. Devido ao pequeno número de homens em seu exército, até mesmo poucas dúzias de espanhóis com a doença poderiam ter tido um efeito tão grande na eficácia militar relativa dos conquistadores quanto os milhares de índios infectados em um império asteca de mais de um milhão de pessoas. Além disso, a varíola, embora mencionada, nunca é caracterizada como um fator predominante em qualquer dos dois lados do combate.
Como consequência do legado de Hipócrates e Galeno, os espanhóis se deram conta de que o contato próximo com os doentes espalhava a infecção. Assim, além de enfatizarem uma quarentena adequada, eles seguiam dietas medicinais, sono e incineração cuidadosa dos mortos. Os nativos, por outro lado, acreditavam que as doenças internas eram obra de deuses ou adversários maus, e poderiam ser vencidas por feitiços e sortilégios. A ideia de dormir e tomar banho em grupo, frequentar saunas públicas, comer no chão, vestir peles humanas, praticar o canibalismo ou não enterrar e eliminar imediatamente os mortos tinha algo a ver com a disseminação da doença entre os indígenas.
Qual foi a importância da varíola para a conquista espanhola? Como os espanhóis não morriam com a mesma frequência que os indígenas, difundiu-se a ideia - em grande parte esquecida durante algum tempo depois da Noche Triste - de que os europeus eram mais do que mortais. À medida que a varíola se espalhava pela população mesoamericana e dizimava sua elite, os castelhanos tomavam cuidado para apoiar e ajudar apenas os novos líderes que fossem favoráveis à sua causa. A varíola aumentou a reputação de força sobre-humana dos espanhóis e solidificou seu apoio entre os aliados indígenas, apesar de a doença ter vitimado tanto aliados quanto inimigos.
Adaptado de HANSON, Victor Davis. Por que o Ocidente Venceu - Massacre e cultura, da Grécia antiga ao Vietnã. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, p. 306-310.
#15Fatos A Argentina de Perón
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Bibliografia consultada: PELLEGRINO, Gabriela & PRADO, Maria Ligia. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2016, p. 142-149.
A Guerra Fria na América Latina
sexta-feira, 27 de março de 2020
1. Ernesto Che Guevara de la Serna (1928-1967), ao seu modo, é até hoje um símbolo das lutas revolucionárias que marcaram a América Latina no período da Guerra Fria. Médico de formação, partiu de sua terra, a Argentina, em 1953. Visitou a Guatemala e, após o golpe de 1954, teve que deixar o país. De lá seguiu para a embaixada da Argentina no México, onde conheceu Raúl (1931- ) e Fidel Castro (1926-2016). Estes haviam iniciado uma luta revolucionária em 26 de julho de 1953, com o ataque ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba. Eles então planejaram derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista, iniciada por meio de um golpe em 1952. Com o fracasso da tentativa, os irmãos Castro passaram uma temporada na prisão e, a seguir, o exílio no México.2. Em fins de 1956, todavia, Che Guevara e cerca de oitenta homens acompanharam os Castro, que voltaram à porção oriental de Cuba a bordo do iate Granma. De lá eles se espalharam pelas montanhas da hoje lendária Sierra Maestra, onde organizaram uma guerrilha. Camilo Cienfuegos seria um dos principais líderes revolucionários do Movimento 26 de Julho, responsável por levar o exército de Batista a amargar duras derrotas. Para seu sucesso, o apoio de camponeses foi fundamental, o que era assegurado por meio da reforma agrária nas regiões controladas pelos revolucionários; foi importante também o apoio do Partido Ortodoxo (anticapitalista e populista), de Eduardo Chibás. O Partido Comunista Cubano só aderiu aos rebeldes em fins de 1958, uma vez que defendia a via pacífica para o socialismo, conforme orientação do XX Congresso do Partido Comunista da URSS.
3. Em 31 de dezembro de 1958, Fulgêncio Batista e seus principais ministros abandonaram o país. No dia seguinte, os rebeldes convocaram uma greve geral e, no dia 8 de janeiro de 1959, Fidel Castro entrou triunfante em Havana. No mês de maio, promulgou-se a Lei de Reforma Agrária e, no ano seguinte, empresas e bancos estadunidenses foram nacionalizados. Os Estados Unidos, em resposta, restringiram o seu mercado para a compra do açúcar cubano e cortaram o fornecimento de petróleo ao país. A União Soviética então se propôs a comprar o açúcar cubano e a fornecer petróleo ao regime de Castro. Em abril de 1961, cubanos exilados na Flórida e treinados pela CIA tentaram desembarcar na Playa Girón (baía dos Porcos) para derrubar o governo de Castro, mas foram derrotados.
4. Temendo pela vulnerabilidade da Revolução, no dia 16 de abril do mesmo ano, Fidel Castro declarou que o regime cubano passava a ser socialista. Cuba alinhou-se à União Soviética e aceitou sua ajuda e ingerência. Consequentemente, passou a sofrer o embargo dos Estados Unidos e foi expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Valendo-se da posição estratégica de Cuba, os soviéticos instalaram mísseis em seu território, apontando-os para os Estados Unidos. Em outubro de 1962, no entanto, o governo de John Kennedy soube da operação e teve início uma das piores crises da Guerra Fria (a dos Mísseis de Cuba). Os mísseis acabaram removidos do país caribenho, sem que o governo da ilha fosse informado.
5. Apesar disso, Castro permaneceu leal a Moscou, de quem recebia generosos subsídios. Che Guevara, após exercer algumas funções de Estado em Cuba e no exterior, partiu para se envolver em guerrilhas na África e na América do Sul. Em 9 de outubro de 1967, Che foi assassinado pelos soldados que o capturaram nos rincões da Bolívia. Logos nos primeiros anos, as liberdades individuais e a produção cultural em Cuba foram progressivamente cerceadas por instâncias oficiais de controle, censura e punição. Dentre as principais ações de repressão, destaca-se El Paredón, os fuzilamentos dos "inimigos da Revolução". O próprio Che Guevara conduzia as execuções sumárias; saiba mais através do documentário Che Guevara: Anatomia de Um Mito.
6. No Chile, nas eleições de 1964, Eduardo Frei, do Partido Democracia Cristã, venceu Salvador Allende, de linha socialista. Frei deu continuidade às reformas modernizantes, desenvolvimentistas e antioligárquicas em curso no Chile desde 1938. Nas eleições de 1970, no entanto, a Democracia Cristã e o Partido Nacional se antagonizaram, o que facilitou a vitória eleitoral de Salvador Allende, da Unidade Popular (UP). A UP reunia os partidos Socialista, Comunista, Radical e o Mapu (Movimento da Ação Popular Unitário), coligados em torno da via chilena ao socialismo.
7. O programa da UP visava promover o desenvolvimento nacional, emancipando a economia da subordinação ao capital estrangeiro e, ao mesmo tempo, promover a justiça social, melhorando a oferta de emprego e os patamares salariais. Nesse sentido, algumas empresas foram expropriadas, terras no campo foram ocupadas, foi lançado um projeto de nacionalização do cobre e ações de bancos foram compradas. A direita reagiu. Desde o início, o Partido Nacional procurou boicotar o governo da UP. Em 1973, o Partido Nacional e os democratas cristãos se reaproximaram, isolando a UP. Por outro lado, grupos políticos mais radiciais que integravam a UP formaram focos de guerrilha; ao combatê-los, Allende descontentou muitos aliados.
8. Assim, a partir de fins de 1971, o cenário era de aguda polarização, o que levou a experiência socialista chilena a ser breve. Allende ainda tentou contornar o problema da escassez de produtos através das Japs (Juntas de Abastecimento e Preço); além disso, convidou as Forças Armadas para assumirem o Ministério da Defesa. Paralelamente, as relações com o Poder Legislativo se deterioraram. Em meados de 1973, já era forte o discurso em favor de um governo forte para salvar o país do caos. Finalmente, no dia 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet, ordenou o bombardeio do Palácio La Moneda. Allende procurou resistir, mas cometeu suicídio ao se ver derrotado. A feroz ditadura de Pinochet se estenderia até 1990.
9. Na Nicarágua, em 1933, Anastásio Somoza García chegou ao poder com o apoio norte-americano. Ele ordenou a morte de Sandino, um líder popular, em 1934. Assim começava o "reinado" da família Somoza no país - ele duraria 43 anos, e seria marcado pela violência, pela exclusão social, pela censura e pela corrupção. Em 1961, Carlos Fonseca criou a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que promoveria guerrilhas até 1979, quando conquistou o poder. A atuação de padres e freiras ligados à Teologia da Libertação foi fundamental para aproximar a guerrilha da população pobre. Apesar de revolucionária, a vanguarda da FSLN se aliou a Alfonso Robelo, importante nome da comunidade empresarial, e a Violeta Chamorro, da tradicional elite política.
10. Assim que chegaram ao poder, os sandinistas procuraram promover a reforma agrária, estabelecer uma economia mista, nacionalizar as minas e estatizar as fazendas e fábricas da família Somoza. No campo da cultura, os Centros Populares de Cultura e a Associação Sandinista de Trabalhadores da Cultura tornaram-se grandes organizadores de eventos culturais com fins a afirmar uma identidade coletiva e revolucionária. Mas o governo sandinistas encontrou um país arrasado por longos anos de ditadura e guerra civil, carente de recursos e, além de tudo, a partir de 1981 passou a ser duramente fustigado pelas ações dos "contras", contrarrevolucionários financiados pelo governo de Ronald Reagan. Desgastado, em 1990, Daniel Ortega perdeu as eleições para Violeta Chamorro, sua antiga aliada e agora apoiada pelos Estados Unidos. Em 2006, Ortega voltaria a se eleger presidente da Nicarágua.
11. Paralelamente a essas revoluções e vitórias eleitorais da esquerda, os Estados Unidos e grupos estratégicos das elites nacionais latino-americanas, temendo o "efeito dominó" na expansão internacional do comunismo, respaldaram intervenções militares na esfera política. Centros de inteligência criados nessa época, em diferentes países, passaram a definir os contornos da chamada Doutrina de Segurança Nacional, voltada ao inimigo interno e suas ações subversivas. A defesa nacional começou a se confundir com a "política geral do Estado". Até os golpes militares, existia um alto grau de mobilização política em países como a Argentina, a Bolívia, o Brasil, o Chile, o Equador, o Peru e o Uruguai (o que envolvia sindicatos, partidos de esquerda, ligas camponesas, guerrilhas indígenas, movimentos estudantis, etc.). Os regimes militares então desarticularam violentamente esses setores, e somaram-se a isso políticas socialmente "excludentes".
12. No Peru, não haviam sido implementadas muitas das reformas sociais e políticas que, em países como a Argentina e o Brasil, haviam sido levadas a cabo por Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas. Assim, a ditadura militar peruana, que teve início em 3 de outubro de 1968, com a deposição de Fernando Belaúnde Terry, teve uma estrutura política diferente das demais ditaduras latino-americanas. A transformação almejada pelas Forças Armadas do Peru passava pelo desenvolvimento integral da nação na realização de reformas sociais. Os militares se consideravam politicamente neutros e se amparariam num corpo de tecnocratas. Em junho de 1969, sob o governo do general Juan Velasco Alvarado (1968-1975), aprovou-se a Lei de Reforma Agrária; no ano seguinte, foi aprovada a Lei Geral de Indústrias, que estabelecia o papel dirigente do Estado no desenvolvimento fabril e o seu controle sobre a indústria básica.
13. As resistências às reformas desgastaram o governo de Velasco. Sob o seu comando foram levadas a cabo ações de grande impacto, como a desapropriação da empresa mineradora Marcona Mining e a expropriação das grandes fazendas açucareiras da região norte do Peru. Em 1975, o general Velasco foi destituído do governo, sendo sucedido pelo general Morales Bermúdez, que governou até 1980. Nesses anos, muitas das plataformas reformistas perderam força. A frustração que então se instalou em parcelas da população ajuda a explicar o surgimento, nos anos 1980, do grupo guerrilheiro de orientação maoísta Sendero Luminoso, o qual promoveu ações extremamente violentas em amplas áreas do território nacional.
14. Na Argentina, o golpe militar de 1930 marcou a entrada das Forças Armadas na esfera política. Em 1943 e em 1955, facções militares voltaram a intervir, abrindo caminho para o peronismo e, depois, ceifando-o do poder. Em 1962, voltaram a depor um presidente democraticamente eleito, Arturo Frondizi, e estabeleceram um governo de fachada civil que se estendeu até 1963. Neste ano, Arturo Illia, da União Cívica Radical del Pueblo, venceu as eleições. Em 28 de junho de 1966, o general Juan Carlos Onganía depôs Arturo Illía, na chamada "Revolución Argentina". Embora tivesse se cristalizado a imagem do governo democrático como passivo e inoperante, o novo regime logo frustrou as expectativas daqueles que aprovaram inicialmente a intervenção autoritária.
15. O governo de Onganía não pareceu querer conduzir a fundo um projeto desenvolvimentista e, em 1970, foi deposto por outra facção militar. Em fins desse ano, sem condições de estabelecer um novo consenso nacional, o governo permitiu que Perón retornasse de seu exílio na Espanha franquista. Ele retornou em 20 de junho de 1973, quando houve o Massacre de Ezeiza. Na presidência pela última vez, Perón inclinou-se ao conservadorismo. Morreu em 1º de julho de 1974. A presidência passou à sua vice e viúva, Maria Estela Martínez de Perón, deposta em 24 de março de 1976, pelas Forças Armadas. Nos cinco anos seguintes, a Junta Militar foi presidida pelo general Jorge Rafael Videla, condenado à prisão perpétua em 2010 por "terrorismo de Estado" (morreu na prisão em 2013). Videla foi sucedido pelos generais Roberto Marcelo Viola (março de 1981) e Leopoldo Fortunato Galtieri (final de 1981). Galtieri renunciou em 1982, abrindo caminho para a redemocratização, em 1983.
Bibliografia consultada: PELLEGRINO, Gabriela & PRADO, Maria Ligia. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2016, p. 151-175.
Cuba Policialesca
terça-feira, 17 de março de 2020
Nas ruas das grandes cidades, e especialmente em Havana, a polícia tornou-se onipresente e procede a controles de identidade sistemáticos. Estes não escapam, aliás, à síndrome do delito de má aparência, que faz dos negros os alvos preferenciais das batidas. Essa mácula pública ao dogma oficial da igualdade racial não surpreende ninguém.
A população sente o incômodo. Casais cuja única distração é o passeio vespertino não suportam mais as abordagens constantes da polícia. As prostitutas da Quinta Avenida refugiam-se nas avenidas paralelas, menos chamativas e nas quais jamais passa o comboio de limusines da elite do regime.
O que é mais grave: pequenos expedientes de sobrevivência são agora ameaçados pelo endurecimento policial. O vendedor de ovos desviados, o encanador, o entregador de leite clandestino, o comerciante de carne contrabandeada, o traficante de charutos roubados... as mil e uma ocupações da malandragem, os sobreviventes da miséria, os ases da penúria, os que descobrem uma utilidade para quase tudo, os que revendem o que cai do caminhão, todos devem se enfiar na toca e ficar privados de seu ganha-pão, do acesso ao mercado clandestino e seus clientes terão de apertar os cintos.
Mal remunerado, mal-amado, caçoado, o policial cubano não é bem-visto na capital. O regime precisou recorrer às províncias mais fidelistas e mais deserdadas para reforçar as fileiras de sua polícia. À guisa de vingança popular, as piadas multiplicam-se: a cor dos uniformes dos policiais sugere a "loucura azul", título de um filme cubano de grande sucesso. Uma charada também:
Por que os policiais andam sempre em dois? Porque Fidel disse que eles devem ter pelo menos doze anos de escolaridade. Os coitados precisam andar em dupla para cumprir a ordem.
O regime foi logo obrigado a afrouxar o controle sobre o mercado informal, mas a pressão sobre a dissidência continuou. As celas da Segurança do Estado em Villa Marista, por exemplo, não conseguem conter o afluxo de opositores detidos. Cada vez em maior número, são levados, em detenção provisória, aos cárceres da polícia criminal, na esquina das ruas 100 e Aldabo, no bairro de Boyeros.
No ano 2000, estavam aprisionados cerca de 350 prisioneiros políticos. Os jornalistas independentes estão especialmente na mira do poder.
A Crise Global de Cuba
quinta-feira, 12 de março de 2020
A crise que Cuba atravessa não é somente de ordem econômica, política ou social; ela atinge cada indivíduo no mais profundo de sua existência.Segundo Oswaldo Payá, representante do Movimento Cristão Liberação, "a maioria das pessoas se queixa, mas ninguém age. Como se todos estivessem anestesiados..."
Até quando? Essa é a única questão que incomoda os cubanos. Na ilha enganosa, o tempo parou. Os turistas adoram: os velhos Cadillac, os palácios decrépitos, etc. Quanto aos cubanos, eles trabalham sem parar, inventando o cotidiano para não sucumbir à desesperança.
Resignados, agarrados às lembranças do socialismo dos anos 1980, quando o carnê de racionamento ainda dava direito a algumas roupas e lençóis para a casa, quando o óleo não faltava, quando os hospitais podiam oferecer lençóis limpos, quando havia lâmpadas e ventiladores nas salas de aula das crianças, os cubanos esperam.
Até no discurso moralista a revolução é derrotada pela realidade. Os barbudos de Sierra Maestra acreditavam ter fechado o "bordel dos Estados Unidos". Sessenta anos mais tarde, os clientes não são norte-americanos; eles vêm de todos os países da Europa a fim de sentir um pouco de volúpia nesse Éden socialista que possui os três "S" famosos que movem os turistas: sable, sexe et soleil [areia, sexo e sol]. O problema persiste, apesar da repressão ao proxenetismo, à corrupção de menores e à prostituição em si (reenvio das prostitutas da capital às suas regiões de origem; prisão domiciliar por um ano; trabalho em campos de limões e batatas para as reclacitrantes; e internação, por três anos, nos "centros de reeducação" para as reincidentes).
Sinal do pessimismo imperante, o final dos anos 90 em Cuba registrou a taxa de fecundidade mais baixa desde cerca de um século. Em 1950, a população cubana representava pouco mais de 3% do conjunto da América Latina e do Caribe. Em 2010, esse percentual terá se reduzido a 1,9%. Em 2020, a população da ilha começará a decrescer.
Quarenta por cento das gestações terminam em abortos, um índice tão elevado que incomoda as próprias autoridades cubanas. O país, que se apresenta como grande potência farmacêutica, precisou receber, no final de 1998, do Fundo das Nações Unidas para a população, uma ajuda de mais de 2 milhões de dólares para produzir as primeiras pílulas anticoncepcionais cubanas. Tal ajuda, no entanto, corresponde a apenas 5% das necessidades mais prementes da população.
A idade em que se dão as primeiras relações sexuais é cada vez mais precoce, inquieta-se também o jornal Juventud Rebelde, assinalando a progressão dos abortos praticados em jovens com menos de vinte anos.
Cuba detém outro recorde pouco invejável: o país possui um dos índices de suicídios mais elevados da América Latina (cerca de 20 para cada 100 mil habitantes; a média no resto do continente oscila entre 8 e 12 para cada 100 mil habitantes).
A um membro da guarda costeira norte-americana que perguntava a um jovem operário que acabava de fracassar em sua terceira tentativa de chegar à Flórida por que não punha sua energia a serviço de um movimento de oposição na ilha, este respondeu: "Não quero ser herói. Os heróis acabam sempre na prisão e não veem mais o sol."
A Personificação dos Continentes
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
Durante o século XVII, a tradição de associar mapas do mundo (continentes ou regiões) a imagens das cidades mais importantes e dos povos mais "típicos", em geral representadas em pares nas margens, enraizou-se no trabalho dos principais cartógrafos neerlandeses (Jodocus Hondius, Pieter van den Keere, Vischer, Willem Blaue e Frederik de Wit, seguindo Braun e Hogenberg). Os volumes sobre vestuário aproveitavam, ao mesmo tempo que também criavam, muitas das imagens usadas em mapas, atlas e panoramas de cidades do mundo. No longo prazo, surgiram gêneros de livros que unem quase perfeitamente a representação de cidades e a imagem de povos específicos. Destaca-se o livro publicado por Carel Allard por volta de 1695, Orbis habitabilis oppida et vestitus.
Entre 1570 e 1790 foram executadas muitas obras de arte (desenhos, gravuras, pinturas e esculturas) que se serviram de personificação dos continentes. Sabine Poeschel compilou 112 exemplos, com a grande maioria tendo sido criada na Itália. Na impossibilidade de analisar todos esses trabalhos, destaco o significado simbólico da obra-prima de Giambattista Tiepolo, o afresco pintado em 1752-3 no teto do Salão da Escadaria na Residenz de Würzburg (ver detalhe acima), considerado a mais vasta e uma das mais imponentes pinturas da Europa.
Nessa composição, a posição subalterna da Ásia, da África e da América perante a Europa é claramente indicada pela escolha de posições em relação às escadas e pela representação das figuras: a Europa é o único continente coroado, e as figuras restantes olham diretamente o espectador. Os elementos iconográficos estabelecidos são usados na composição: a Europa, com vestes ricas mas com cores e ornamentos sóbrios, é representada com os símbolos da sua origem (o mito da violação por Zeus), da natureza domesticada (o cavalo), da verdadeira religião (o templo, a mitra e a cruz, e a crossa do príncipe-bispo), das artes liberais (música, geografia, arquitetura, pintura e escultura) e da capacidade bélica (um canhão e um oficial).
Entretanto, a África quase nua monta um camelo, com um macaco, um avestruz e um pelicano representados no mesmo friso, completado pela figura do Nilo, ao lado de várias cenas que exibem mercadores orientais e europeus, e homens locais fumando cachimbo. A Ásia, de turbante, está sentada num elefante, cercada por um grupo de escravos, um criado com um turíbulo, caça a tigres e leões, e temos uma seção que indica a falsa religião, representada por um obelisco e um ídolo. Segundo alguns especialistas, na cena asiática, o escravo com a grilheta no pulso direito está agarrando o pulso esquerdo, o que pode significar que está acorrentando a si próprio - uma inovação iconográfica que vai ao encontro da ideia europeia de despotismo e falta de liberdade oriental. Isso também é sublinhado pelas mãos em posição de súplica ao lado do escravo manietado.
A América, nua, com um toucado de penas, está sentada num crocodilo, num cenário amplo com músicos, frutos e um criado com um pote de chocolate, e é contrastada com uma caça a um aligátor e com uma cena de canibalismo observada de modo um tanto bizarro pelo autor europeu com o seu quê de deturpado.
É marcante a oposição entre a Europa e os continentes exóticos, representados com vida selvagem, caça e canibalismo, mas também repletos de elementos comerciais (barris, fardos, troncos), para-sóis, turbantes, chapéus cônicos e estranhos toucados, que criam uma atmosfera orientalizada no friso, mesmo na África e na América.
Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 114-116.
A Administração Colonial Espanhola
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
5. O governo dos novos territórios moldou-se no de Castela. Cada parcela do império formava uma entidade legal independente, sobre a qual o rei espanhol reinava. O Conselho das Índias, formado a partir de 1524, veio a ter completa autoridade sobre todos os aspectos da administração colonial. Só a Inquisição espanhola escapava, de certo modo, da sua jurisdição.
7. A seguir, vinham distritos, governados por um governador, orientado por uma audiencia (tribunal administrativo e judicial). A audiencia constituía o primeiro nível de fiscalização da autoridade do vice-rei; normalmente as relações entre um e outro eram tensas. Outra fiscalização era a residencia, uma revisão judicial da conduta dum funcionário no termo do exercício do seu cargo. A visita não era muito diferente; tratava-se de uma inspeção específica às atividades de qualquer dos agentes da Coroa empreendida por determinação do Conselho das Índias. Existiam ainda corregidores e alcaldes.
8. O espanhol médio considerava degradante o trabalho manual. Assim, o colono espanhol, desde o início, recorreu ao trabalho indígena. A questão que se colocava era: esse trabalho seria assalariado ou escravo? Os Reis Católicos relutaram inicialmente, mas acabaram por permitir o trabalho obrigatório. Contudo, ordenaram que os trabalhadores nativos fossem bem tratados, recebessem um bom salário e fossem em tudo o mais como "pessoas livres".
9. Consequentemente, surgiram duas instituições: encomienda e repartimiento. No primeiro caso, um grupo de aldeias indígenas era "encomendado" a um colono espanhol. Este então se comprometia a fornecer-lhes padres e professores e a proteger os índios. Estes, em troca, deviam-lhe um tributo (normalmente o trabalho forçado). Tal sistema foi duramente criticado desde o início, especialmente pelos frades dominicanos.
10. O repartimiento, por sua vez, referia-se às aldeias "encomendadas" à Coroa. Cada pueblo fornecia semanalmente um certo número de trabalhadores que eram empregados, mediante um salário fixo, pelos colonos espanhóis, sob a fiscalização dum magistrado local. A escravidão era ilegal, mas o trabalho compulsório era um seu equivalente.
11. O campeão da defesa dos índios foi Bartolomeu de las Casas. Em Hispaniola, em 1502, ele recebeu uma encomienda de índios. Foi o suficiente para se indignar contra esse sistema. Em 1521, devido a ataques de índios, fracassou ao tentar estabelecer uma colônia modelo em Cumana, Venezuela. Depois disso, tornou-se frade dominicano e passou a defender os índios junto à Coroa. Sua influência apareceu nas "Leis Novas" (1542), mas protestos de colonos e uma guerra civil no Peru fez com que algumas de suas medidas mais importantes fossem revogadas.
12. A partir de meados do século XVII, o governo central espanhol se tornou cada vez mais ineficaz, embora sempre continuasse vigilante e cioso da sua autoridade. Embora inspecionasse tudo, não possuía meios para obrigar que as suas instruções fossem fielmente executadas. Desconfiados de ideias originais, os seus funcionários tendiam a tornar-se meros burocratas, frequentemente incapazes e corruptos.
14. A cultura e a sociedade do Império colonial espanhol eram estáticas, o que se refletiu numa hierarquia social impregnada de distinções de classes. No topo, espanhóis europeus (os chapetones) detinham todos os principais cargos seculares e eclesiásticos; a seguir, vinha a nobreza colonial e também os comerciantes; os criollos, descendentes de espanhóis nascidos na América, eram abastados mas não tinham acesso aos cargos mais elevados; na base da sociedade estavam os mestizos, os índios, os negros e os zambos (mestiços de índio e negro).
15. Apesar de suas belas igrejas, seus nobres palácios e suas universidades ilustres, a sociedade colonial espanhola não estava à altura de forjar uma civilização realmente progressista. Bem antes da morte de Filipe IV, em 1665, o império espanhol já estava em declínio.

















