“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Varões Armados no Centro de Vitória

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

 

Em fevereiro de 2017, no último fim de semana antes do início do ano letivo, a Polícia Militar do Espírito Santo entrou virtualmente em greve. No primeiro domingo da paralisação, ocorreu um fato no mínimo inusitado no Centro de Vitória. Assista ao vídeo acima e confira. Ouça também os comentários do Caio Fábio, aqui (não reflete a minha opinião).

A Utopia de Oneida

segunda-feira, 3 de junho de 2024

A Comunidade Oneida, em 1863. Fonte: Wonderley (2017: p. 77).

A Comunidade Oneida foi fundada em Nova York, por John Humphrey Noyes, sendo uma utopia de pessoas que sonhavam em viver altruisticamente como um só família. Durante pouco mais de trinta anos (1848-1880), cerca de 250 membros partilharam as propriedades, o trabalho e o amor. Noyes acreditava ter sido nomeado por Deus para esse propósito, e a comuna aditou um tipo não denominacional de protestantismo chamado de perfeccionismo - a crença de que se a fé em Cristo for forte o suficiente o indivíduo poderia se livrar do pecado ("perfeito"), nesta vida, e de uma vez por todas. Esses perfecionistas estavam determinados a trazer o céu à Terra, neutralizando o pecado com atos altruístas. O paraíso seria o lugar onde todas as propriedades e relações (sociais e sexuais) seriam compartilhadas. Isso seria o "comunismo bíblico".

Esperava-se que aqueles que aderissem à Comunidade Oneida ingressassem na ordenança sagrada do matrimônio grupal ou pantogamia. Nesse tipo de relacionamento heterossexual, a monogamia era proibida, o celibato era desencorajado e o amor livre foi fortemente incentivado. Cada indivíduo deveria amar toda a família da comunidade, fazendo sexo com os membros do sexo oposto sem ciúmes ou egoísmo. Não deveria haver exclusividade no amor que encorajasse a formação de casais. Isso não significava que não se pudesse encontrar um prazer especial em um parceiro - desde que tal ligação aumentasse a capacidade de amar mais a todos e fortalecesse o amor por todos. Caso contrário, isso seria considerado um relacionamento exclusivo de dois egos centrados unicamente em si mesmos. Considerado desprezível e egoísta, esse tipo de vínculo era rotulado como um pecado, o chamado "amor especial".

Na utopia comunista da Comunidade Oneida, os homens evitavam a ejaculação como controle de natalidade e como meio de libertar as mulheres do trabalho penoso da gestação. O coitus reservatus pode não ser uma boa prática contraceptiva, mas parece ter funcionado razoavelmente bem em Oneida. Ao longo dos primeiros vinte anos da comunidade (1848-1868), as mulheres comunitárias tiveram cerca de 35 filhos, uma taxa de natalidade considerado muito baixa. Muitas dessas crianças, e talvez a maioria, foram intencionalmente concebidas. Noyes, por exemplo, afirmou em novembro de 1849 que nenhuma gravidez não planejada havia ocorrido em dois anos, um período em que nasceram pelo menos nove bebês em Oneida. Alguns dessas gestações podem ter sido autorizadas para mulheres que desejavam ser mães, mas se aproximavam da menopausa.

Oneida foi também uma das utopias mais bem-sucedidas do ponto de vista econômico de todos os tempos. A sua prosperidade não se baseava na agricultura, mas na manufatura. Seu produto mais lucrativo foi uma armadilha de metal idealizada por um ferreiro local chamado Sewell Newhouse.     

Bibliografia consultada: WONDERLEY, Anthony. Oneida Utopia - a community searching for human happiness and prosperity. New York: Cornell University Press, 2017, p. 100-101. 

Os Intelectuais e a pobreza

terça-feira, 7 de maio de 2024

Os intelectuais dão às pessoas que já têm a desvantagem da pobreza outra desvantagem adicional: a de que são vítimas.

Eles agem como se fossem sujeitos ungidos, detentores do privilégio exclusivo de decidir quais segmentos da sociedade devem ser favorecidos, quais seriam as pessoas autorizadas a realizar associações e quais não estariam autorizadas, quais pequenos riscos as pessoas estariam proibidas de contrair e a quais riscos bem maiores estão liberadas.

Eles romantizaram culturas que deixaram seus povos atolados na pobreza, na violência, na doença e no caos, ao mesmo tempo que vilipendiam culturas que trouxeram prosperidade, avanços médicos, lei e ordem ao mundo. Ao fazer isso eles frequentemente desconsideram ou filtram o fato de que multidões de pessoas fugiam das sociedades romantizadas pelos intelectuais, indo viver nas sociedades que eles condenavam.

A intelligentsia é muito hábil em encontrar todo tipo de desculpas para o comportamento criminoso, ao mesmo tempo que é igualmente apta para imputar má conduta à polícia, mesmo quando discutindo questões sobre as quais não têm qualquer conhecimento técnico nem experiência, como acontece com o problema das trocas de tiro.

Eles encorajam os pobres a acreditarem que sua pobreza é culpa dos ricos, uma mensagem que pode representar um incômodo passageiro para o rico, mas que se torna desvantagem duradoura para o pobre, que pode, com isso, não ver a necessidade de fazer mudanças fundamentais em sua própria vida, as quais poderiam melhorar sua condição socioeconômica, em vez de focar seus esforços para prejudicar os outros.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 483-484.

Os Intelectuais e as Fundações

segunda-feira, 6 de maio de 2024

De forma semelhante ao que acontece quando as tartarugas recém-nascidas se dirigem instintivamente para o mar, aquelas pessoas cujos produtos finais são ideias tendem a gravitar em torno de instituições onde suas ideias ficarão menos sujeitas aos perigos do descrédito factual. Somando-se às instituições acadêmicas e à mídia, a intelligentsia tende a gravitar em direção às organizações não lucrativas em geral e a fundações em particular. O dinheiro necessário para sustentar essas fundações depende, em primeiro lugar, de discursos convincentes - um dos talentos fundamentais da intelligentsia - que permitem que as doações continuem a afluir, seja por meio de alarmes sobre iminentes desastres, seja por meio de promessas de "soluções" sociais.

Fundações com fundos próprios não precisam sequer da modesta obrigatoriedade de atrair doações para sua sobrevivência, de forma que podem perseguir a visão dos que comandam essas fundações, sem precisar se preocupar com mais nada além de influenciar o público da forma que mais agrade seus agentes e a fim de conquistar a aprovação de seus pares.

Esses lugares nos quais os intelectuais gravitam com grande frequência tendem a ser locais onde o puro intelecto faz toda diferença e onde a sabedoria não se faz necessária, uma vez que são poucas as consequências a serem enfrentadas ou os preços a serem pagos toda vez que ideias promissoras se tornam verdadeiros desastres para a sociedade em geral.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 488-489.

A Arrogância dos Intelectuais Ungidos

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Ninguém gosta de admitir que esteve errado, mas poucos são aqueles que se comprometeram tão completamente com um conjunto de crenças, como é o caso do intelectual ungido, e que têm tão poucos incentivos para reconsiderar as questões adotadas. Por exemplo, a brutalidade com que o intelectual ungido ataca seus adversários e a virulência com que eles se prendem às suas crenças, em desafio à crescente evidência contras as "causas de base" da criminalidade e outras teorias sociais, são claras evidências sobre esse grande investimento pessoal em um conjunto de opiniões sociais e políticas.

Os intelectuais não têm o monopólio do dogmatismo e do ego ou do poder em racionalizar. Mas as restrições institucionais que se colocam diante das pessoas nos campos dos negócios, da ciência, dos esportes, dentre muitas outras áreas, confrontam-nas com altos e geralmente ruinosos custos em se persistir em ideias que não funcionam na prática.

De forma semelhante, a história de crenças predominantes entre cientistas que se viram obrigados a abandoná-las diante de evidências contrárias tem um papel central em toda a história da ciência. No mundo dos esportes, seja profissional ou colegial, nenhuma teoria ou crença pode sobreviver a derrotas incessantes e nem sobreviverá a elas qualquer diretor de clube ou treinador.

Tais restrições inescapáveis não fazem parte do repertório das pessoas cujos produtos são ideias que encontram apenas a validação de seus pares ideológicos. Isso vale especialmente para os intelectuais acadêmicos, os quais controlam suas próprias instituições e selecionam, seus colegas e seus sucessores. Nenhum professor que goza de estabilidade profissional pode ser demitido porque votou na implantação de políticas para o campus universitário, que se verificaram econômica ou educacionalmente desastrosas para sua faculdade ou para toda a universidade, ou defendeu políticas que se tornaram catastróficas para a sociedade como um todo.

Essa falta de prestação de contas para com o mundo real não é fruto do acaso, mas compreende um princípio profundamente enraizado cujo santuário recebe o nome de "liberdade acadêmica". Da falta de prestação de contas para o comportamento irresponsável é preciso apenas um pequeno passo. Outros membros da intelligentsia, incluindo tanto a mídia de noticiário quanto a mídia do entretenimento, da mesma forma também dispõem de uma ampla latitude em relação à validação do que dizem, tendo como sua principal restrição a capacidade de atrair público e audiência, seja com verdades ou falsificações, seja produzindo efeitos construtivos ou destrutivos sobre a sociedade como um todo.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 487-488.

Os Intelectuais e a Desintegração Social

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Imperfeições ou ineficiências raramente destroem uma nação. Mas a desintegração de seus laços sociais e a desmoralização da confiança e da aliança de seu povo podem, no entanto, ocasionar sua destruição. Os intelectuais contribuem em grande parte para ambos os processos. Ao colocarem grupo contra grupo e ao verem arbitrariamente inumeráveis situações sob o prisma de "raça, classe e gênero", estabelecendo padrões inalcançáveis de "justiça social" e impondo objetivos de reparação histórica, os intelectuais garantem a criação de uma situação interminável de conflito interno, prefigurando o desmantelamento de qualquer sociedade, a qual é sequestrada por uma intelligentsia e sua cruzada, submetendo um público que aceita, passivo, a visão que os intelectuais têm da sociedade e de si mesmos. Enquanto pressuposições apressadas forem aceitas como conhecimento e a pura retórica for considerada idealismo, os intelectuais continuarão a triunfar em se projetarem como vanguardistas de uma "mudança" genérica - de cujas consequências eles continuarão a não prestar contas.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 482.

O Poder dos Burocratas

terça-feira, 30 de abril de 2024

Burocratas federais não têm a mesma permanência dos juízes federais nem a amplitude de autoridade decisória dos membros do Congresso, mas têm uma combinação das duas coisas que os torna um poderoso "quarto poder do governo". E um poder do governo que não se situa apenas fora da estrutura de poder estabelecida pela Constituição, mas um que com frequência combina poderes legislativos, judiciários e executivos, os quais são tão cuidadosamente separados da Constituição. Embora as políticas, as regulamentações e os gastos públicos promovidos pelas burocracias não sejam tecnicamente legislação, têm, contudo, quase sempre o mesmo efeito de uma legislação sem sofrerem as restrições constitucionais que afetam o Congresso. Expulsar um membro do Congresso requer muito menos esforço dos cidadãos comuns do que tentar reverter uma decisão da burocracia federal valendo-se dos tribunais federais.

Grandes quantidades de dinheiro à disposição dos burocratas também lhes dão grande influência sobre os especialistas em suas áreas particulares de operação. As escolhas arbitrárias da burocracia, as quais financiam certos pesquisadores e acadêmicos, não apenas permitem que eles influenciem a opinião pública em direção às políticas favorecidas pelos burocratas, mas podem ter um efeito assustador sobre especialistas que sabem que expressar visões opostas àquelas dos donos do dinheiro público, seja sobre autismo, seja sobre aquecimento global ou outros numerosos assuntos, prejudica seu próprio acesso às grandes quantias de dinheiro necessárias para se financiar pesquisas de grande porte.

Uma vez que os financiamentos para pesquisa são em geral fatores cruciais na carreira dos próprios especialistas e de seus colegas, um silêncio discreto pode ser muito útil sempre que um especialista se revela incapaz de acreditar ou de defender a posição tomada pela burocracia. Um ceticismo abertamente declarado, para não falar de uma franca oposição, não apenas reduz as chances de obter os fundos para pesquisa sobre aquele assunto em particular, mas pode afetar, ao se posicionar de forma contrária aos objetivos da burocracia, toda a instituição, que pode ser um departamento acadêmico ou uma empresa de consultoria. O especialista poderá então se tornar desagradável (com todas as consequências que isso acarreta) para a instituição e diante de seus colegas.

Resumindo, as burocracias são frequentemente capazes de manipular as visões da intelligentsia para seus próprios interesses, ao menos dentro das jurisdições em que atuam, as quais estarão sujeitas a pequenas correções de percurso por parte daqueles que sabem mais ou pela população que sofre as consequências. Na medida em que a mídia pensa e atua dentro da mesma estrutura de visão de mundo, pode haver realmente poucos alertas transmitidos para o público em geral de que existem outras visões e outras possibilidades sobre as questões tratadas, e uma quantidade ainda menor de postura crítica. Em vez disso, o público provavelmente ouvirá que "existe um consenso entre os especialistas" sobre a questão.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 466.

As "Causas Sociais" da Criminalidade

terça-feira, 16 de abril de 2024

A teoria sobre as "causas sociais" da criminalidade tem se mostrado igualmente imune às evidências em ambos os lados do Atlântico. Tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra os índices de criminalidade subiam vertiginosamente bem na mesma época em que as supostas "causas sociais do crime" - pobreza e falta de oportunidades - estavam diminuindo aos olhos de todos. A fim de ridicularizar por completo a teoria das "causas sociais", os distúrbios nos guetos, que varreram muitas cidades nos Estados Unidos na década de 1960, foram muito menos comuns nas cidades dos estados do Sul, onde a discriminação racial ainda era visível. Além disso, o distúrbio mais letal daquela época ocorreu em Detroit, onde o índice de pobreza da população negra estava 50% abaixo da média nacional, ao mesmo tempo que essa cidade apresentava o mais alto índice de conquista de casa própria entre a população negra, considerando todas as cidades dos Estados Unidos, além de o índice de desemprego estar, na época, em Detroit, em apenas 3,4%, um número menor do que o índice nacional de desemprego da população branca do período.

Os distúrbios urbanos fizeram-se mais frequentes durante a administração do presidente Lyndon Johnson, quando foram marcados pela promulgação marcante de uma legislação de direitos civis e uma expansão maciça de programas sociais chamados "guerra contra a pobreza". Por outro lado, tais distúrbios praticamente desapareceram durante os oitos anos de administração Reagan, um período de esvaziamento dos programas sociais.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 303.

Os Intelectuais e o Ativismo Judicial

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Por vezes, a "dificuldade" em se mudar as leis e especialmente a dificuldade em se criar emendas constitucionais é invocada como razão para justificar por que os juízes devem se tornar os agentes que aceleram as mudanças. Por exemplo, Herbert Croly, o editor-chefe da revista New Republic, disse, em seu clássico da era progressista, The Promise of American Life, o seguinte: "No final, todo governo popular deveria, depois de uma deliberação necessariamente estudada, consolidar o poder para ser capaz de tomar qualquer ação necessária, sempre que o bem-estar público está em jogo, segundo a maioria da população". Ele completou: "Isso não é possível com um governo subordinado ao controle da Constituição Federal". Ele deplorava o que chamava de "a imutabilidade da Constituição". Muitos outros, depois dele, avançaram na tese sobre a dificuldade de se criar emendas constitucionais. Mas dificuldade não é algo que seja determinado pela frequência. Se as pessoas não querem uma coisa em particular, mesmo que a intelligentsia a considere desejável ou até imperativa, isso não é uma dificuldade. Isso é democracia.     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 250.

Os Intelectuais e a Justiça

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Durante a segunda metade do século XX, a visão sobre a justiça como algo a ser deliberadamente moldado segundo o espírito dos tempos, da forma como é interpretado pelas elites intelectuais, tornou-se muito comum entre juízes e nas principais escolas de direito. O professor Ronald Dworkin, da Universidade de Oxford, condensou essa abordagem quando descartou a evolução sistêmica do direito como uma "crença tola" baseada no "caótico e no desordenado andamento da história". Ao fazer isso, o professor iguala processos sistêmicos ao caos, da mesma forma que fazem aqueles que promovem o estabelecimento de um planejamento econômico centralizado, em vez de confiarem nas interações sistêmicas dos mercados. Em ambos os casos, a preferência é pela imposição da visão da elite, passando por cima, se necessário, das visões que abarcam e integram o conjunto da sociedade, mas como o professor Dworkin também disse, "uma sociedade mais igual é uma sociedade melhor, mesmo quando seus cidadãos preferem a desigualdade".     

SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 250.

Edmund Burke e Adam Smith

terça-feira, 26 de março de 2024

Edmund Burke (1729-1797) e Adam Smith (1723-1790): intelectuais à frente de seu tempo na defesa da liberdade.

Na Inglaterra do século XVIII, tanto Edmund Burke quanto Adam Smith foram defensores de medidas drásticas. Eles chegaram a defender a libertação das colônias da América do Norte, em vez de apoiar a guerra para mantê-las no Império Britânico. Isso contrariava a posição do governo de seu próprio país. Além disso, ambos se opuseram à escravidão. Isso, numa época em que poucos eram abolicionistas no Ocidente, e praticamente ninguém o era fora dele. Burke elaborou um plano que preparava os escravos para viver em liberdade, fornecendo-lhes propriedade para que iniciassem a vida como livres. Adam Smith apenas se opunha à escravatura como descartava, com imenso desprezo, a teoria que afirmava que os escravos negros eram inferiores aos brancos que os escravizavam.     

Bibliografia consultada: SOWELL, Thomas. Os Intelectuais e a Sociedade. Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 163.

Doc. 'Febem 1990'

terça-feira, 12 de março de 2024

 

Mito sobre a formação do Estado

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Quando examinadas em detalhe, as datas históricas ou arqueológicas não conseguem sustentar a ideia de que a irrigação foi a força motriz da formação do Estado. Na Mesopotâmia, na China setentrional, no México e em Madagascar, os sistemas de irrigação em pequena escala já existiam antes do surgimento dos Estados. A construção dos grandes sistemas de irrigação não acompanhou o surgimento dos Estados, e só muito mais tarde eles apareceram em cada uma dessas áreas. Na maioria dos Estados formados na região dos maias na Mesoamérica e nos Andes, os sistemas de irrigação sempre foram pequenos, num tamanho que as comunidades locais podiam construir e manter. Assim, mesmo nas áreas onde os sistemas complexos de controle hidráulico surgiram, eles eram uma consequência secundária dos Estados, que devem ter-se formado por outras razões.  

DIAMOND, Jared. Armas, Germes e Aço - os destinos das sociedades humanas. Tradução de Cynthia Cortes [et. al.]. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 283-284.

«Conspiracy - A Ativação do Homem»

terça-feira, 27 de junho de 2023

 

Documentário disponível aqui.

A Sociedade Civil contra a Tirania

quarta-feira, 21 de junho de 2023

 

Salman Rushdie, autor de Os Versos Satânicos (1988), viveu escondido por muitos anos, após o aiatolá Ruhollah Khomeini ordenar a sua morte. Em 12 de agosto de 2022, foi esfaqueado em Nova York - ele sobreviveu, mas perdeu a visão de um olho e os movimentos de um dos braços. 

A Sociedade Civil é um grupo de instituições e associações suficientemente fortes para impedir a tirania, nas quais, entretanto, se entra e das quais se sai livremente, e não por imposição do nascimento ou de um ritual impressionante. Pode-se, por exemplo, aderir ao Partido Trabalhista sem ter que matar uma ovelha - na verdade, dificilmente seria permitido que se fizesse isso - e sair sem correr o risco de ser condenado à morte por apostasia. Quando os partidos políticos modernos se estabeleceram no recém-independente Marrocos em 1956, as tribos das montanhas aderiram a eles no velho estilo, como estavam habituadas a fazer nos movimentos religiosos: fizeram-no como coletividades, com um juramento e um sacrifício. Um clã, não um indivíduo, se filiaria ao Partido Socialista, e um touro pereceria nesse processo. Era a curiosa confluência de dois códigos sociais distintos. A comunidade carismática que penaliza a apostasia com a morte é uma outra questão, e não pode conviver facilmente com a Sociedade Civil. A verdadeira Umma foi e é completamente diferente em suas instituições morais, como o público ocidental ficou sabendo, para seu horror, através do caso Rushdie.

GELLNER, Ernest. Condições da Liberdade - a sociedade civil e seus rivais. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 93.

Centralização e Descentralização

terça-feira, 13 de junho de 2023

 

Em 1999, torcedor exibiu camisa do Manchester United e do Corinthians: nas sociedades modernas, é possível demonstrar lealdade a um time estrangeiro, sem ser estigmatizado na comunidade local. 

Centralização Política e Descentralização Econômica

Há duas razões principais pelas quais a descentralização econômica é essencial na sociedade industrial e constitui certamente um pré-requisito de qualquer coisa que se assemelhe a uma Sociedade Civil.

Essa sociedade só pode ser plural - e contendo forças e mecanismos que contrabalancem o poder, que estejam situados na esfera econômica ou funcionem através do poder econômico - precisamente porque uma efetiva centralização política coercitiva é um pré-requisito necessário para seu funcionamento; assim não pode haver muito equilíbrio na esfera coercitiva. As sociedades tradicionais podem ter pluralismo na esfera da manutenção da ordem, e algumas vezes o têm. Como as estruturas econômicas e sociais não são separadas das políticas, devem tê-lo nessa esfera conjunta, se é que devem tê-lo em algum lugar.

Na medida em que esse pluralismo político pressupõe eventuais ou ocasionais conflitos violentos, as unidades que se opõem entre si e que de tempos em tempos entram em conflito devem assegurar-se da lealdade de seus membros, suficiente para levá-los a lutar e a arriscar suas vidas. Consequentemente, como já dissemos, devem ser altamente ritualizadas.

Na moderna sociedade industrial, essa profunda aura adere apenas à comunidade total, o Estado Nacional, e talvez à preservação da sua ordem política básica. Não adere às subunidades, que são opcionais e superficiais. Não se espera que um homem morra pela sua região, seu burgo ou sua comunidade de trabalho. Não é obrigado a usar roupas que indiquem sua condição de membro de um grupo, nem é obrigado a torcer pela equipe esportiva local. Pode, sem ser insultado ou agredido, torcer pela rival. Há torcidas da Inter de Milão fora de Milão, ou do Manchester United fora de Manchester, e seus membros não são excluídos dos ritos e da vida social de suas comunidades locais - podem frequentar as festas locais tranquilamente. Isso deve ter sido difícil na cidade antiga, mas é aceito na moderna. Um homem pode modificar laços desse tipo sem sentir-se envergonhado ou estigmatizado. O que George Santayana disse sobre nossa nacionalidade e sobre nossas relações com as mulheres - não podem ser honrosamente modificadas, e são muito acidentais para merecer mudanças - aplica-se ao país, mas não à região. Podemos mudar de região sem formalidades, rituais, trauma ou traição. Não era assim nos dias de clãs e linhagens. A comunidade total nacional ainda é muito significativa - ou antes, é mais significativa do que jamais foi - mas suas subunidades perderam sua potência.

Por essas várias razões, o pluralismo político, em termos de unidades coercivas independentes ou autônomas, está "fora de moda". As unidades locais não têm o peso adequado. Por outro lado, a liberdade é impossível sem pluralismo, sem um equilíbrio de poder. Como não pode ser política, tem que ser econômica. (O pluralismo ideológico ainda deve ser discutido; por enquanto, a argumentação supõe apenas duas opções.)   

GELLNER, Ernest. Condições da Liberdade - a sociedade civil e seus rivais. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 80-84.  

Virtude, companheira da Sociedade Civil

segunda-feira, 12 de junho de 2023

 

A virtude como objetivo de Estado ou como política pública é provavelmente desastrosa para a liberdade. A virtude, livremente praticada entre adultos, pode ser uma boa companheira da Sociedade Civil, ou até o seu pré-requisito essencial. A preocupação com a virtude levou os homens a uma desinteressada procura do interesse - acumulação sem gozo, daí reinvestimento, daí crescimento contínuo - mais do que a uma transformação da riqueza em poder, status, prazer ou salvação, como é mais comum entre os homens. Foi o interesse desinteressado que estava na base do capitalismo, segundo Max Weber; e foi uma vocação mais individualmente escolhida do que socialmente imposta que produziu uma sociedade móvel e inovadora.
  
GELLNER, Ernest. Condições da Liberdade - a sociedade civil e seus rivais. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 72. 

As Sociedades Modernas

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Elon Musk e Donald Trump: dois dos homens mais poderosos do mundo apresentam-se como típicos americanos de classe média.

As sociedades modernas têm fazendeiros, e não camponeses: a agricultura é uma ocupação como qualquer outra, que pode ser assumida ou abandonada sem cruzar legal ou ritualmente os limites santificados de uma casta ou propriedade. Essas sociedades têm soldados, mas não uma casta de guerreiros. O mesmo é verdade para os políticos e a profissão das armas: os Negros e os Vermelhos não são legal ou sacramentalmente distintos do resto da sociedade. Quando não estão em serviço, geralmente se vestem à maneira civil. Dificilmente é possível distingui-los. O comandante da vitoriosa expedição britânica às Falklands se orgulhava do fato de que era o realizador de uma tarefa. Não era um aristocrata militar nem um membro da classe guerreira.    
  
GELLNER, Ernest. Condições da Liberdade - a sociedade civil e seus rivais. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 71. 

Os Direitos Trabalhistas no Mundo

domingo, 30 de abril de 2023

 

Como podem ver nesse mapa (compartilhado no Twitter por @AddictMap), não há garantia dos direitos trabalhistas no Brasil, na Venezuela e outros países sul-americanos. O paradoxo é que esses mesmos países possuem uma inchada legislação trabalhista - no caso brasileiro, é a CLT.

Notem que nos Estados Unidos e na Austrália os direitos dos trabalhadores também estão seriamente ameaçados, embora nesses países o IDH seja bem elevado e praticamente não exista legislação trabalhista por lá.

'Admirável' Promiscuidade

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

 

Admirável Mundo Novo é uma obra classificada como "distopia". O autor, Aldous Huxley (1894-1963), lançou-a em 1932 e, no prefácio de 1946, reconheceu: "... a promiscuidade sexual de Admirável Mundo Novo não parece tão distante. Já existem cidades norte-americanas em que o número de divórcios é igual ao de casamentos. Dentro de poucos anos, sem dúvida, licenças para casamento serão vendidas como as licenças para a posse de cães, válidas por um período de doze meses, sem nenhuma lei que proíba a troca de cães ou a posse de mais de um cão de cada vez. À medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar como compensação. E o ditador (a não ser que precise de massa de manobra e de famílias para colonizar territórios despovoados ou conquistados) agirá prudentemente estimulando essa liberdade." (p. 17)

Promiscuidade. Vazio existencial. Controle de massas. Eis o nosso mundo, nu e cru. Nesse sentido, separei um trecho do romance bem revelador da nossa triste realidade distópica. Resta saber se os portadores de boas novas, os únicos que realmente têm algo a oferecer àqueles que sofrem com a falta de sentido na vida, estarão à altura de sua elevada missão. 

*** 

Lenina meneou a cabeça.

- Não sei por que - disse, pensativa -, mas já faz algum tempo que não me sinto muito inclinada à promiscuidade. Há ocasiões em que isso acontece. Você nunca sentiu a mesma coisa, Fanny?

A outra inclinou a cabeça num gesto de simpatia e compreensão.

- Mas é preciso fazer o esforço necessário - disse em tom sentencioso. - É preciso portar-se convenientemente. Afinal, cada um pertence a todos.

- Sim, cada um pertence a todos - Lenina repetiu lentamente a fórmula e, suspirando, calou-se um momento; depois, tomando a mão de Fanny e apertando-a de leve:

- Você tem razão, Fanny. Como sempre. Farei o esforço necessário.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Vidal de Oliveira. São Paulo: Globo, 2014, p. 65.