“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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II Simpósio Paisagens Ribeirinhas

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 

Ontem, no II Simpósio Paisagens Ribeirinhas, eu apresentei a comunicação A estátua do deus Hermes: a reconfiguração da paisagem no Centro de Vitória. O evento foi organizado pelo LEENA e pelo NAU, da Ufes, e teve o apoio da FAPES, com o objetivo de promover reflexões sobre as interfaces entre arte, arquitetura, paisagens e territórios ribeirinhos.

Entre a História e a Eternidade

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Um dos projetos mais memoráveis que desenvolvi com os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental chamava-se Faces da Perseguição. Realizado em parceria com os professores de Ensino Religioso, Artes e idiomas (inglês ou espanhol), tinha como objetivo conscientizar os estudantes acerca do drama da perseguição anticristã no mundo. Além da introdução teórica sobre os países assolados pela intolerância, o projeto envolvia a elaboração de cartões, que eram enviados para a organização Portas Abertas. Esta, por sua vez, os despachava para cristãos perseguidos, na Colômbia, em países africanos ou em outros da Lista Mundial da Perseguição.

O belíssimo cartão acima foi feito pela Laura Storch, em 2020. Outros trabalhos maravilhosos e profundos foram produzidos pelos estudantes. Por razões de segurança, desconhecemos a identidade das crianças e dos adultos que os receberam. Quais teriam sido as suas reações? Ficaram felizes, consolados ou, pelo menos, aliviados? Tudo é um mistério, tamanhos são os traumas que se abateram sobre as suas vidas.  

Como professor, para sempre serei grato aos estudantes que se engajaram nesse projeto. Os melhores frutos desse trabalho de História serão colhidos na Eternidade.   

Entrevista: Jacques Barzun

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Há exatos 22 anos, a revista Veja, em sua edição 1746, publicava uma entrevista inesquecível. Em quatro páginas, que disponibilizo aqui, o historiador franco-americano Jacques Barzun Martin (1907-2012) nos brinda com sua erudição, contundência e coragem para enfrentar o politicamente correto. Tive a oportunidade de ler a entrevista quando cursava o 1º ano do Ensino Médio e, depois, na graduação, pude ler Da Alvorada à Decadência. A propósito, essa tem sido uma obra que amo tanto que, mais tarde, comprei a edição portuguesa (Gradiva, 2003), superior em todos os aspectos à edição publicada pela editora Campus.   

Filme «Crimes Ocultos»

terça-feira, 19 de março de 2024

 

Raíssa:

- Leo, você sabe o que as pessoas obtêm quando buscam a verdade? Sabe? Elas obtêm terror.

Leo:

- Raíssa, nós já estamos mortos.

***

Sinopse: Crimes Ocultos, um filme de 2015, registra a crise consciência do agente secreto da polícia soviética Leo Demidov, que perde status, poder e sua casa ao recusar denunciar sua própria mulher, Raíssa, como traidora. Leo e Raíssa unem forças ao General Mikhail Nesterov para encontrar um assassino serial que captura jovens garotos. Sua busca por justiça ameaça o acobertamento de todo um sistema imposto pelo rival de Leo, o psicopata Vasili, que insiste em dizer: "Não existem crimes no paraíso."

Crimes Ocultos foi dirigido por Daniel Espinosa. É inspirado na história real do assassinato em série de 53 crianças e jovens por Andrei Romanovich Chikatilo, entre 1978 e 1990. O filme foi proibido na Rússia de Putin, mas está disponível na plataforma Brasil Paralelo.   

Filme «O Álamo»

domingo, 29 de janeiro de 2023

 

Filme disponível na plataforma Brasil Paralelo.


John ("Duke") Wayne foi o diretor, produtor e astro desse filme, que levou nada menos do que dez anos para ser rodado. Anticomunista virulento, Wayne não separava sua aura pública da particular, e O Álamo não só é um filme, mas uma verdadeira convocação às barricadas em defesa da América. Tal como a maioria dos seus concidadãos, Wayne se deixou fascinar pelo Álamo da lenda, não pelo Álamo da história.

As divergências entre os colonos americanos do Texas e o distante governo do México eram inconciliáveis: diziam respeito a educação, impostos, religião, leis civis e escravidão (os texanos eram favoráveis a ela). A situação ficou ainda pior quando o generalíssimo Antonio López de Santa Anna chegou ao poder, governando de forma despótica e prometendo tratar os rebeldes do Texas como criminosos comuns. De outubro de 1835 a abril de 1836, seriam travados confrontos que ficariam conhecidos como a Revolução do Texas.

Os primeiros articuladores da revolução eram americanos que haviam emigrado para o sul para tirar vantagens das generosas ofertas de terras do governo mexicano. Um dos primeiros colonos foi Stephen F. Austin, que chegou em 1822. Seguiram-se milhares de outros pioneiros, de quem se exigiam a cidadania mexicana e a conversão ao catolicismo. Mas a sua lealdade estava mesmo ao norte da fronteira, o que suscitou a agitação para se separarem do México e anexar o Texas aos Estados Unidos. 

No início de 1836, Santa Anna marchou com seu homens rumo ao norte. A maior cidade do Texas, San Antonio, ficava na rota (aliás, ela não fica no rio Grande, e sim cerca de 200 km ao norte; este é um dos muitos erros geográficos que infestam o filme). O ditador havia jurado matar todo texano que lhe resistisse. Havia 184 deles em San Antonio, dentro do Álamo, protegidos pelas barricadas. É o seu martírio que há quase dois séculos atrai a imaginação das pessoas.

No filme, é apresentado o cel. James Bowie, outra lenda viva do Texas. Na definição do comando de San Antonio, ele foi preterido por Sam Houston, o comandante do exército texano, que destinou a função ao cel. William Travis. A animosidade entre eles é um tema que se repete ao longo de todo o filme, e é historicamente fiel. Só que a verdadeira divergência era em torno de comando, e não de estratégia: ambos estavam de acordo que o Álamo precisava ser defendido.

Logo chegam Davy Crockett (interpretado por John Wayne) e seus voluntários do Tenesse, aparentemente para caçar e fazer algazarra. Ele dá a entender a Travis (Lawrence Harvey) que compreende de fato o problema (o que era verdade): a maioria dos voluntários sabe perfeitamente o que foi fazer no Texas. Stephen F. Austin havia retornado aos Estados Unidos em dezembro, para obter apoio, e seus calorosos apelas, invocando a Revolução Americana, encontraram grande receptividade. E, claro, tudo era azeitado com uma ótima promessa de terras: 640 acres para cada alistado. 

Após se estabelecer o cerco de Santa Anna, um salvo-conduto é oferecido aos civis (embora, na realidade, eles nunca estivessem em Álamo, com exceção de Suzannah e Angelina Dickinson, esposa e filha do ajudante de Travis, o tenente Almaron Dickinson). Após sua saída, ocorre o primeiro ataque mexicano, que é rechaçado (na verdade, os ataques de infantaria, num total de três, ocorreram todos na manhã final).

Um ponto historicamente positivo dessa parte final do filme coube ao roteirista, James Edward Grant. Convencido de que a história famosa da "linha na areia", supostamente traçada por Travis, só era conhecida no Texas, decidiu deixá-la de lado. No lugar, deu a Lawrence Harvey o melhor discurso do filme, exaltando a bravura das tropas prestes a partir do forte. A começar por Bowie, todos os que estavam prestes a desistir do combate final mudam de ideia e permanecem por lá. Quanto aos reforços de James Walker Fannin (que, na verdade, não passariam de 400 homens), massacrados antes de chegar ao Álamo (segundo o filme), foram aniquilados, na realidade, três semanas após a queda do Álamo.

Daí para a frente, quase tudo está errado. Santa Anna não dispunha da artilharia que aparece no filme, Bowie passou todo o tempo do cerco de cama, com febre tifoide, e Travis morreu no início do ataque, caindo do muro com uma bala na cabeça. E Crockett, segundo os relatos mexicanos, se rendeu. Como Santa Anna havia jurado não poupar nenhum prisioneiro, ordenou sua execução sumária, junto com os demais sobreviventes. 

Bibliografia consultada: CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito - a história no cinema. Tradução de José Guilherme Correa. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 116-119.

Filme «Lawrence da Arábia»

domingo, 27 de novembro de 2022

 

Filme disponível na plataforma Brasil Paralelo. 


Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o Lawrence da Arábia, foi um piloto-mecânico reformado da Royal Air Force. Antes de sua carreira militar, ele atuou como arqueólogo na Síria e na Palestina (1909), então territórios do Império Otomano. Em 1911, ganhou uma bolsa de estudos, e então partiu para as margens do Eufrates, a fim de desenvolver uma pesquisa arqueológica num antigo povoado hitita. Na ocasião, Lawrence aproveitou para, em seu tempo livre, viajar e aprender o árabe. Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, os mapas que ele e seus colegas elaboraram foram cruciais para o conflito entre o Reino Unido e o Império Otomano.

Devido à sua perícia em assuntos árabes, Lawrence foi enviado ao Cairo, onde atuou como oficial de inteligência. Em 1916, acompanhou um diplomara inglês à Arábia, onde Hussein ibn Ali, o emir de Meca, havia proclamado uma revolta contra o governo turco. Lawrence convenceu seus superiores a apoiar a rebelião de Hussein, juntando-se ao exército árabe comandado por Faiçal, filho de Hussein.

Sob a orientação de Lawrence, os árabes promoveram guerrilhas contra as linhas turcas. Ele se revelou como um talentoso estrategista militar e passou a ser admirado pelos beduínos. Em julho de 1917, as forças árabes capturaram Aqaba, perto da península do Sinai, unindo-se às tropas britânicas em marcha contra Jerusalém. Em novembro, enquanto estava numa missão de reconhecimento, foi capturado pelos turcos, sendo torturado e abusado sexualmente, antes de fugir. A seguir, voltou a juntar-se ao seu exército, que avançava em direção a Damasco. A capital síria capitulou em outubro de 1918.

A Arábia foi libertada, mas o sonho de Lawrence de que os árabes de unissem numa só nação foi por água abaixo. Decepcionado, Lawrence retornou ao Reino Unido e recusou as medalhas que o rei Jorge V lhes ofereceu.

Adaptado de Opera Mundi.  

Edifício do Parlamento Húngaro

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

 

O edifício foi construído entre 1885 e 1904, em estilo neogótico. Também é conhecido como Parlamento de Budapeste.

A Beleza importa. 

Filme «Khartoum»

domingo, 23 de outubro de 2022

Filme disponível na plataforma Brasil Paralelo. 


A Inglaterra vitoriana viu no martírio de Charles George Gordon (1883-1885) um gesto a mais de grandeza legitimando o fardo do império. O diretor Basil Dearden, de Khartoum (1966), viu no sacrifício de Gordon (interpretado por Charlton Heston) uma mensagem reconfortante para o mundo europeu do final dos anos 1960: a civilização, tal como a conhecemos, dependia profundamente dos valores europeus emblemáticos e correlatos. Mas, em última análise, a verdade histórica subjacente deste filme subverte a premissa eurocêntrica, pois a saga cinematográfica de Khartoum, assim como a saga histórica em que se baseou, recorreu, ao nível de mediação, às crenças dogmáticas e à força carismática de dois homens notáveis.

Gordon era segundo-tenente durante a Guerra da Crimeia (1853-1856) e distinguiu-se por sua coragem inexcedível, tornando-se herói nacional na Grã-Bretanha e ganhando o apelido de Gordon chinês por seu papel na repressão à rebeião de 1864 em Taiping. O Gordon da vida real, se aceitarmos como fiel o famoso retrato pintado por Lytton Strachey, era um pedófilo reprimido sujeito a crises de depressão profunda e paralisante, seguida de transes de inspiração misteriosa e realizações de rara concentração, durante as quais o conhaque com soda e a Bíblia eram consumidos em quantidades mais ou menos iguais.

O produtor de Khartoum, Julian Blaustein, era um fanático pela autenticidade, e muita coisa no filme, desde as armas até as roupas, é exata. Nas areias do deserto, a contrapartida de Gordon chamava-se Muhammad Ahmad (Laurence Olivier), um árabe Dunqulawi de 37 anos de idade. Ahmad conclamara uma guerra santa a fim de expulsar do Sudão os britânicos e seus aliados egípcios. Em novembro de 1881, os egípcios enviaram uma guarnição de infantaria para prender Ahmad na ilha em que se escondia no Nilo, mas as forças de Ahmad massacraram os atacantes, abatendo os egípcios e intrigando os paladinos do Império Britânico. Um asceta que se tornou cada vez mais exaltado pelo seu baraka (poder sobrenatural), Ahmad audaciosamente se proclamou o mádi, o Guia Aguardado, alegando ter sido enviado pelo Profeta, para devolver aos ansar (os fiéis) os verdadeiros mandamentos de Alá - e, acima de tudo, para livrar o Sudão da exploração voraz dos egípcios e, em última análise, dos britânicos. Nos dois anos seguintes, o mádi e suas hordas varreram todo o Sudão conquistando, uma após outra, vitórias impressionantes contra os infiéis, e obrigando os egípcios a cederem territórios aos sudaneses.

Em 1884, quando Cartum, a capital administrativa do Sudão dominado pelo Egito, é ameaçada pelas forças do mádi, o governo de Sua Majestade despacha Gordon para evacuar as populações europeias e egípcias da cidade. O general Gordon jamais pretendeu obedecer àquelas ordens. Ao contrário, Gordon apostou a sua vida e a vida de milhares de cidadãos de Cartum num jogo de lances altos para preservar a influência britânica no Sudão. Decidiu manter a cidade em vez de evacuá-la. A queda de Cartum em 26 de janeiro de 1885 levou a uma reversão sem precedentes do imperialismo britânico - dois dias depois chegaram dois canhoneiros enviados à frente do vasto exército que se aproximava sob o comando do general Garnet Wolseley.

No final de Khartoum, Gordon está sozinho no alto da escadaria do seu palácio. Com seu sabre desembainhado, o governador-geral do Sudão observa impassível os invasores fiéis ao mádi sudanês escalarem as muralhas do forte e passarem pelos defensores egípcios para atacá-lo pessoalmente. Eles hesitam por um instante. Este confronto de alta tensão entre o eminente vitoriano e os dervixes sudaneses torna-se então o clímax esplêndido de um clichê do cinema ocidental: o homem branco solitário que tenta apaziguar, com sua simples presença os perigosos tumultos provocados pelos povos de pele escura. Os dervixes atravessam o peito do comandante branco com uma lança. Arrancam-lhe a cabeça, fincam-na numa estaca de dois metros. Ouve-se uma voz sepulcral que adverte: "Um mundo sem Gordons seria um retorno às areias", enquanto o sol poente perpassa uma estátua equestre de bronze do general e os créditos se desenrolam na tela que escurece.

Bibliografia consultada: CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito - a história no cinema. Tradução de José Guilherme Correa. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 162-165.

Filme «Doutor Gama»

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 

Acesse gratuitamente aqui.

«O Homem Que Não Vendeu Sua Alma»

domingo, 4 de setembro de 2022

 

Assista aqui.

A peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt, estreou em Londres em 1960 e, por várias razões, repetiu o sucesso em Nova York, no ano seguinte. Na época, a combinação de tolerância, indiferença religiosa e a generosa personalidade do papa João XXIII colocaram o catolicismo no centro das atenções. As plateias estavam prontas para a história de um mártir heroico consciencioso lutando contra o poder de um tirano, e Bolt lhes deu isso. De Paul Scofield, no papel de Thomas More, transpirava uma veemente integridade e uma presença impressionante - para não falar de sua voz irresistível.

Em 1966, a versão cinematográfica da peça, admiravelmente dirigida por Fred Zinnemann, correu o mundo, ganhou vários prêmios da Academia de Hollywood e popularizou o nome de More (outra vez interpretado por Paul Scofield). O filme dava ao espectador a confortável sensação de ficar sabendo tudo sobre More. Ele tornou-se um Abraão Lincoln católico, um ícone de pureza e de princípios capaz de provocar reverência e afeição. Porém, Bolt nos deu um More que a sua própria época mal reconheceria, um More escandaloso demais talvez para o próprio More.

Alguns erros e distorções do filme são concessões inofensivas ao seu conteúdo teatral, outros inferências plausíveis do Life of More escrita por seu genro, William Roper, cerca de vinte anos após a decapitação do prelado. Aquele que eventualmente traiu More, Richard Riche (John Hurt), compõe um vilão incrivelmente asqueroso (é verdade que, de fato, ele morreu rico, como barão, em 1567). Não há dúvidas de que Riche foi um carreirista e sem dúvida conquistou favores reais com o seu depoimento, mas o exame dos fragmentados registros históricos da época mostra que o papel verdadeiro de Riche foi muito mais ambíguo: o seu testemunho no julgamento de More foi muito menos malicioso.

O filme, da mesma forma, avilta Cromwell, cujo papel em toda a questão fica contudo menos claro. Outros erros históricos, embora abundantes, constituem uma aceitável licença dramática. Menos fácil é desculpar a idolatria de Bolt à personalidade de More. O filme adere ao argumento de Roper de que More se opunha ao então ministro da Justiça, o cardeal Thomas Wolsey (Orson Welles), inclusive dentro do Parlamento. Porém, evidências da época mostram que More não passava de um dócil servo de Wolsey. Ele contava com Wolsey para progredir, e nunca fez nada que ofendesse o cardeal, até que Wolsey caiu em desgraça por não conseguir a aceitação do papa para o divórcio do rei. O filme também silencia sobre o primeiro discurso de More no Parlamento como titular da Justiça, quando atacou o cardeal de forma cruel e vingativa.

O More de Bolt recusa-se a deixar que a filha Margaret se case com Roper até mesmo depois de o noivo renegar seu ligeiro flerte com o luteranismo (embora isso, quase com certeza, aconteceu após o seu casamento). De resto, o filme pinta um retrato açucarado da religião de More e do seu ódio insano contra os protestantes. O More histórico chegou a produzir centenas de páginas clamando de maneira ofensiva e polêmica pelo sangue dos protestantes. Quando algum herege era queimado, More exultava.

Em nenhum momento do filme aparece o More que continuou produzindo obras contra a heresia até mesmo quando o rei tentava negociar uma aliança com os protestantes. Os conselheiros do rei tiveram que fazer More desistir à força de suas ominosas exigências para que Henrique VIII exercesse o seu dever contra os hereges.

Em nenhum momento do filme aparece o More que queria ver o ódio que tinha aos hereges inscrito em seu próprio túmulo. E, a propósito, More não era um papista como o filme mostra. Ele achava que os papas haviam errado, que melhor que o papa seria um conselho geral de bispos, que esse conselho devia ter autoridade para depor o papa pelas razões que bem entendesse e que a Igreja podia até, talvez, passar sem papa.

Henrique VIII, monarca inglês de 1509 a 1547, era, sem dúvida, extremamente egoísta. Contudo, nem de longe foi o maníaco esbravejante retratado na obra de Zinnemann. Nos seus últimos anos de vida, incapaz de curar uma ferida na perna, ele perdia às vezes o autocontrole, e gritava com os outros. Quando frustrado, às vezes chorava. Mas, em público, especialmente na juventude, sabia ser viperino na sua astúcia. Henrique permaneceu amigo pessoal, até quase a morte, de muitos daqueles que destruiu - entre eles, Cromwell e o cardeal Thomas Wolsey. 

O homem que não vendeu sua alma nos mostra um More que morreu heroicamente em nome da sua consciência. O filme extrai dessa consciência o conteúdo mais duvidoso e nos priva assim da tragédia - e da catarse - representada pelo verdadeiro Thomas More. Deixa-nos não purificados e pensativos, mas sim radiantes e confiantes de que qualquer um de nós teria votado a favor do herói. Na verdade, a maioria de nós teria seguido a família de More e prestado o juramento que ele se recusou a prestar. Também teríamos votado - talvez forçosamente - em favor da morte dele, para que a Inglaterra continuasse a prosperar sem ameaça de invasões estrangeiras ou de guerra civil.  

Bibliografia consultada: CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito - a história no cinema. Tradução de José Guilherme Correa. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 70-73.   

Davi, de Michelangelo

quarta-feira, 20 de abril de 2022

 

A anatomia do Davi não é totalmente realista, mas decorre da observação minuciosa de corpos reais, vivos e mortos. É obra de alguém que prestou muita atenção, por exemplo, na estrutura dos mamilos, no umbigo que adentra a parede muscular do abdome com uma delicada reentrância da pele à sua volta, a arquitetura delicada da pele, os músculos do peito e as costelas - não claramente destacadas, como nos nus de artistas mais velhos, como Pollaiuolo e Signorelli, mas delicadas e vivas -, o modo como as veias sobressaem sobre os ligamentos e ossos da mão.    

GAYFORD, Martin. Michelangelo - Uma Vida Épica. Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 170.

Hino dos Pitagóricos ao Sol

domingo, 15 de agosto de 2021


 Hino dos pitagóricos para o Sol Nascente, 1869, óleo sobre tela de Fyodor A. Bronnikov (1827-1902).

Série «Civilisation» (BBC)

terça-feira, 6 de abril de 2021

 

Lançada em 1969, essa série apresentada por Kenneth Clark traça a história da arte e da filosofia ocidental.

Ep 1/13: A Personal View by Kenneth Clark - 1. A pele dos nossos dentes
https://t.me/tradutores_patriotas/283

Ep 2/13: O Grande Despertar
https://t.me/tradutores_patriotas/340

Ep 3/13: Romance e Realidade
https://t.me/tradutores_patriotas/491

Ep 4/13: Homem: a medida de todas as coisas
https://t.me/tradutores_patriotas/615

Ep 5/13: O herói como artista
https://t.me/tradutores_patriotas/711

Ep 6/13: Protesto e Comunicação
https://t.me/tradutores_patriotas/805

Ep 7/13: Grandeza e Obediência
https://t.me/tradutores_patriotas/901

Ep 8/13: A Luz da Experiência
https://t.me/tradutores_patriotas/961

Ep 9/13: A Busca da Felicidade
https://t.me/tradutores_patriotas/1014

Ep 10/13: O Sorriso da Razão
https://t.me/tradutores_patriotas/1059

Ep 11/13: A Adoração da Natureza
https://t.me/tradutores_patriotas/1112

Ep 12/13: As Falácias da Esperança
https://t.me/tradutores_patriotas/1166

Michelangelo e a Cabeça do Fauno

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O dia em que o adolescente Michelangelo entrou no jardim das esculturas de Lourenço de Medici (1449-92), na Piazza San Marco, mudou sua vida e o curso da arte ocidental. Era apenas um dos diversos lugares onde se guardava a enorme coleção de obras de arte dos Medici. Lourenço tinha mais de quarenta esculturas clássicas, um número ainda maior de fragmentos arquitetônicos, 5527 moedas, sessenta e três jarros de pedra, 127 gemas, além de obras de todo tipo, entre elas esculturas de Donatello, Verrochio e Bertoldo di Giovanni, este o especialista particular de Lourenço em arte escultórica.

Michelangelo, em algum momento, deparou-se com a cabeça de um velho fauno, risonho e barbudo, na coleção do jardim. Estava desgastada e danificada, mas mesmo assim, ela lhe agradou muito. Ele resolveu então imitar o trabalho que o fascinara e, ao mesmo tempo, tentar aperfeiçoá-lo.

Havia no jardim alguns pedreiros preparando blocos de pedra para um novo edifício que abrigaria a Biblioteca Medici (só efetivamente construída décadas mais tarde, segundo um projeto de Michelangelo). O adolescente pediu uma sobra de mármore aos pedreiros que ali trabalhavam e tomou-lhes emprestado um jogo de ferramentas. Com isso lançou-se ao trabalho de copiar o fauno, com tanta atenção e esmero que em poucos dias levou-o à perfeição, suprindo com sua imaginação o que faltava à peça antiga, sobretudo a boca aberta, como um homem rindo.

De tempos em tempos, Lourenço aparecia para inspecionar a construção da Biblioteca. Segundo uma fonte, "encontrou o moço ocupado com o polimento da cabeça do fauno; e, chegando mais perto, primeiro considerou como era bom o trabalho, e, tendo em conta a idade do menino, ficou maravilhado". Mas Lourenço, tão brincalhão quanto intelectual, disse-lhe: "Fizeste esse fauno velho, mas lhe deixaste todos os dentes. Não achas que a criaturas dessa idade devem faltar alguns dentes?"

Michelangelo, competitivo e perfeccionista como era, não achou graça. Assim que Lourenço saiu, lançou-se ao trabalho e tirou um ou outro dente da boca de sua escultura, fazendo um buraco na gengiva para dar a impressão de que tinha saído pela raiz. Depois desse trabalho odontológico no mármore, "aguardou ansiosamente pela chegada do Magnífico" no dia seguinte.

Lourenço achou graça na reação do rapaz, mas impressionou-se com o fato de ele ter realizado uma obra daquela em tão tenra idade; então decidiu ajudá-lo e favorecê-lo, levando-o para sua própria casa. Assim, Michelangelo deixou o ateliê de um artista (Domenico Ghirlandaio) e se instalou na corte não oficial de Florença.    

Adaptado de GAYFORD, Martin. Michelangelo - Uma Vida Épica. Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 83-84 e 92-94.

"Kameradschaft", de Josef Thorak

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Para a Feira Mundial de Paris de 1937, a Alemanha nazista enviou estátuas monumentais, masculinas, marciais e abusivamente físicas. A intenção era fazer um contraponto à estátua de trabalhadores-heróis comunistas do pavilhão soviético, precisamente defronte ao pavilhão alemão.

Nesse sentido, Josef Thorak criou Kameradschaft ("Camaradagem"), uma das estátuas alemãs mais famosas e escolhida para ficar diante do pavilhão germânico. Mais tarde, tal estátua passou a decorar o novo Museu de Arte Alemã de Munique, inaugurado no mesmo ano da exposição parisiense. Duas enormes figuras masculinas nuas, modelos do chamado homem "ariano", com músculos protuberantes e rostos cinzelados, erguem-se desafiadores lado a lado, apertando a mão um do outro. Trata-se de uma expressão de elo de camaradagem sem igual entre irmãos de raça e companheiros soldados. Têm os semblantes implacáveis, inflexíveis e orgulhosos; aqui não se vê movimento para a frente (como no caso das estátuas do "realismo socialista"), só defesa inexorável. Essa estátua de guerreiros raciais tem um cariz homoerótico poderoso. 

Bibliografia consultada: OVERY, Richard. Os Ditadores - a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 272.

A "Mancha Negra" da França

domingo, 27 de dezembro de 2020


A obra acima, datada de c. de 1887, chama-se A Aula de Geografia ou a "Mancha Negra" e é do pintor Albert Bettanier (1851-1932).

A tal "Mancha Negra" - apontada no mapa da França por professor de alunos super atentos - corresponde aos territórios da Alsácia-Lorena, amargamente perdidos pela França ao final da Guerra Franco-Prussiana (1870-71). O Tratado de Frankfurt (1871) foi o instrumento mediante o qual o Império Alemão anexou formalmente essas províncias de maioria germânica. Além da perda desses territórios, a França teve que pagar uma indenização de 5 bilhões de francos de ouro e arcar com os custos da ocupação das tropas alemãs em suas províncias setentrionais. Tal ocupação se estendeu até setembro de 1873, quando a indenização foi finalmente paga.

A perda da Alsácia-Lorena representou uma dura humilhação aos franceses, que até então eram governados por Napoleão III, sobrinho do grande Napoleão Bonaparte. Meses antes da assinatura do Tratado de Frankfurt, o rei Guilherme I havia sido coroado kaiser (imperador) na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, antigo centro da realeza francesa. Em tal ocasião, o chanceler germânico, Bismarck, proclamou o Império Alemão.

Tudo isso levaria os franceses a alimentarem um intenso desejo de revanche. Tal sentimento foi uma das causas da Primeira Guerra Mundial e, como se vê na pintura acima, foi devidamente alimentado nas aulas de geografia e de história das escolas francesas da Terceira República. 

Arte Romântica Russa

domingo, 2 de agosto de 2020


Caravana no Oásis, 1871, óleo sobre tela de Ivan Aivazóvski (1817-1900).

A Beleza Natural

sábado, 27 de junho de 2020

Belo crepúsculo, visto do meu apartamento: a apreciação da natureza é o principal exercício do juízo.

Ao longo do século XIII, quando os filósofos e escritores começaram a atentar para o tema da beleza, não foi a arte nem as pessoas o que dominou seu pensamento, e sim natureza e as paisagens. Em certa medida, isso refletia as novas circunstâncias da vida no campo. Os literatos viam com nostalgia uma relação mais simples e, segundo criam, inocente com o mundo natural do que aquela de que desfrutavam em seus gabinetes isolados. Além disso, a ideia da natureza como objeto a ser contemplado, e não utilizado ou consumido, propiciava certo consolo àqueles para quem os lenitivos da religião se tornavam cada dia mais implausíveis e remotos.

No entanto, havia ainda uma razão filosófica a motivar esse interesse pela beleza natural. Se ela deveria ter lugar entre os objetos da filosofia, a beleza - ou sua busca - deveria ser então um universal humano. Kant estava de acordo com Shaftesbury ao pressupor que o gosto é comum a todos os homens (...). Todos os seres racionais, cria ele, são capazes de emitir juízos estéticos; e, numa vida adequadamente vivida, o gosto é um componente crucial. 

Contudo, muitos parecem viver num vácuo estético, preenchendo seus dias com cálculos utilitários e ignorando que estão deixando de lado a vida superior. Kant negaria isso. As pessoas, afirmou, só parecem viver num vácuo estético para aqueles que acreditam que o juízo estético deve ser exercido numa área específica, como a música, a literatura ou a pintura. A avaliação das artes, porém, nada mais é do que um exercício secundário do interesse estético. O principal exercício do juízo é a apreciação da natureza. Disso cada um de nós participa igualmente - e, embora possamos diferir em nossos julgamentos, todos consentimos em fazê-lo.

SCRUTON, Roger. Beleza. Tradução de Hugo Langone. São Paulo: É Realizações, 2013, p. 67-68.

European Beauty

sábado, 6 de junho de 2020


Noruegueses com roupas típicas do seu país. Conheça outras culturas tradicionais europeus e também as belezas naturais e arquitetônicas do Velho Mundo através do perfil @MagicalEurope no Twitter.

A Personificação dos Continentes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Afresco dos quatro continentes, seção sobre a Ásia. Teto do salão da Escadaria na Residência de Würzburg, 1752-3, de Giambattista Tiepolo.

Durante o século XVII, a tradição de associar mapas do mundo (continentes ou regiões) a imagens das cidades mais importantes e dos povos mais "típicos", em geral representadas em pares nas margens, enraizou-se no trabalho dos principais cartógrafos neerlandeses (Jodocus Hondius, Pieter van den Keere, Vischer, Willem Blaue e Frederik de Wit, seguindo Braun e Hogenberg). Os volumes sobre vestuário aproveitavam, ao mesmo tempo que também criavam, muitas das imagens usadas em mapas, atlas e panoramas de cidades do mundo. No longo prazo, surgiram gêneros de livros que unem quase perfeitamente a representação de cidades e a imagem de povos específicos. Destaca-se o livro publicado por Carel Allard por volta de 1695, Orbis habitabilis oppida et vestitus.

Entre 1570 e 1790 foram executadas muitas obras de arte (desenhos, gravuras, pinturas e esculturas) que se serviram de personificação dos continentes. Sabine Poeschel compilou 112 exemplos, com a grande maioria tendo sido criada na Itália. Na impossibilidade de analisar todos esses trabalhos, destaco o significado simbólico da obra-prima de Giambattista Tiepolo, o afresco pintado em 1752-3 no teto do Salão da Escadaria na Residenz de Würzburg (ver detalhe acima), considerado a mais vasta e uma das mais imponentes pinturas da Europa.

Nessa composição, a posição subalterna da Ásia, da África e da América perante a Europa é claramente indicada pela escolha de posições em relação às escadas e pela representação das figuras: a Europa é o único continente coroado, e as figuras restantes olham diretamente o espectador. Os elementos iconográficos estabelecidos são usados na composição: a Europa, com vestes ricas mas com cores e ornamentos sóbrios, é representada com os símbolos da sua origem (o mito da violação por Zeus), da natureza domesticada (o cavalo), da verdadeira religião (o templo, a mitra e a cruz, e a crossa do príncipe-bispo), das artes liberais (música, geografia, arquitetura, pintura e escultura) e da capacidade bélica (um canhão e um oficial).

Entretanto, a África quase nua monta um camelo, com um macaco, um avestruz e um pelicano representados no mesmo friso, completado pela figura do Nilo, ao lado de várias cenas que exibem mercadores orientais e europeus, e homens locais fumando cachimbo. A Ásia, de turbante, está sentada num elefante, cercada por um grupo de escravos, um criado com um turíbulo, caça a tigres e leões, e temos uma seção que indica a falsa religião, representada por um obelisco e um ídolo. Segundo alguns especialistas, na cena asiática, o escravo com a grilheta no pulso direito está agarrando o pulso esquerdo, o que pode significar que está acorrentando a si próprio - uma inovação iconográfica que vai ao encontro da ideia europeia de despotismo e falta de liberdade oriental. Isso também é sublinhado pelas mãos em posição de súplica ao lado do escravo manietado.

A América, nua, com um toucado de penas, está sentada num crocodilo, num cenário amplo com músicos, frutos e um criado com um pote de chocolate, e é contrastada com uma caça a um aligátor e com uma cena de canibalismo observada de modo um tanto bizarro pelo autor europeu com o seu quê de deturpado.

É marcante a oposição entre a Europa e os continentes exóticos, representados com vida selvagem, caça e canibalismo, mas também repletos de elementos comerciais (barris, fardos, troncos), para-sóis, turbantes, chapéus cônicos e estranhos toucados, que criam uma atmosfera orientalizada no friso, mesmo na África e na América.  

Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 114-116.