“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

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Villa Borghese, Roma, Itália.
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Robert Mugabe, o sortudo

domingo, 16 de abril de 2023

 

Era janeiro de 2000 em Harare, no Zimbábue. O mestre de cerimônias Fallot Chawawa estava encarregado de sortear o bilhete vencedor da loteria nacional organizada por um banco parcialmente estatal, o Zimbank. A loteria estava aberta a todos os clientes que tivessem mantido 5 mil dólares de Zimbábue ou mais nas contas durante o mês de dezembro de 1999. Quando sorteou o bilhete, Chawawa ficou perplexo. Ele mal pôde acreditar no que via quando recebeu o bilhete sorteado com o prêmio de 100 mil dólares de Zimbábue e viu escrito o nome de Sua Excelência R G Mugabe.

O presidente Robert Mugabe, que governava o Zimbábue desde 1980 usando todos os métodos possíveis, geralmente com mãos de ferro, ganhara um prêmio mais ou menos cinco vezes a renda per capita anual do país. O Zimbank afirmou que o nome do ditador foi sorteado dentre milhares de apostadores aptos para concorrer ao prêmio. Que homem sortudo! E olha que ele nem precisava do dinheiro: algum tempo antes do sorteio, Mugabe concedera aumentos salariais de até 200% a si mesmo e a seu gabinete.

"As regras são simples: eles mentem para nós, nós sabemos que eles estão mentindo, eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo, mas eles continuam mentindo de qualquer maneira, e nós continuamos fingindo que acreditamos neles." Elena Gorokhova, "A Mountain of Crumbs" (2010)

O bilhete de loteria era apenas mais um indício das instituições extrativistas do Zimbábue. Isso poderia ser taxado simplesmente de corrupção, mas é apenas mais um sintoma da doença institucional do país. O fato de Mugabe poder ganhar na loteria, se quisesse, mostrava o tamanho de seu controle sobre a vida da nação africana e deu ao mundo uma noção da dimensão de suas instituições extrativistas.

Bibliografia consultada: ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 411-412.

Como Serra Leoa foi sabotada

terça-feira, 11 de abril de 2023

 

Freetown, a capital de Serra Leoa, foi fundada no fim do século XVIII como um lar para escravizados repatriados e libertos. Gradualmente, a partir da segunda metade do século XIX, os britânicos estenderam seu domínio para o interior de Serra Leoa por meio de uma longa série de tratados com governantes locais. Em 31 de agosto de 1896, o governo britânico declarou a colônia africana um protetorado com bases nesses tratados. Os britânicos identificaram governantes importantes e deram a eles um novo título: chefe supremo. Em Serra Leoa oriental, por exemplo, no atual distrito de mineração de diamantes de Kono, encontraram Suluku, um poderoso rei guerreiro. O rei Suluku foi transformado em chefe supremo Suluku, e a região de Sandor foi criada como unidade administrativa do protetorado.

Embora tivessem assinado tratados com a administração britânica, reis como Suluku não haviam compreendido que isso lhes daria carta branca para a implantação de uma colônia. Quando os britânicos tentaram cobrar um imposto domiciliar - um tributo de cinco xelins por casa -, em janeiro de 1898, os chefes deram início ao que se tornou conhecido como Rebelião do Imposto Domiciliar. Tal rebelião logo foi suprimida, mas os britânicos perceberam que dominar o interior de Serra Leoa seria desafiador. Eles já haviam começado a construir uma ferrovia de Freetown para o interior, mas o trajeto precisou ser alterado.

Quando Serra Leoa conquistou sua independência, em 1961, os britânicos passaram o poder para Sir Milton Margai e seu Partido do Povo de Serra Leoa (PPSL). O primeiro-ministro que lhe sucedeu foi Sir Albert Margai, em 1964. Em 1967, o PPSL perdeu por pouco para o Partido do Congresso de Todos os Povos (PCTP), da oposição. Seu líder era Siaka Stevens, um limba do norte.

Embora a ferrovia rumo ao sul tivesse sido planejada pela ex-metrópole para facilitar seu domínio sobre Serra Leoa, em 1967, seu papel era econômico, transportando a maior parte das exportações do país: café, cacau e diamantes. Os fazendeiros que plantavam café e cacau eram mendes, e a ferrovia era a janela Mendeland para o mundo. A Mendeland votou em massa em Albert Margai nas eleições de 1967, pois Stevens estava muito mais interessado em manter o poder do que em promover as exportações da região. O raciocínio de Stevens era de que tudo que fosse bom para os mendes beneficiaria o PPSL e ruim para seu projeto político. Portanto, bloqueou a linha ferroviária para a Mendeland. Depois disso, vendeu os trilhos e os trens. Ainda hoje, viajando de carro, é possível avistar as estações ferroviárias dilapidadas de Hastings e Waterloo. Não há mais trens para Bo.

O gesto drástico de Stevens prejudicou parte dos setores mais vibrantes da economia de Serra Leoa. Mas, como aconteceu com muitos outros líderes da África pós-independência quando tiveram que optar entre consolidar o poder e incentivar o crescimento econômico, Stevens ficou com a primeira opção e deu o assunto por encerrado.

Num primeiro momento, a decisão de Stevens parece contrastar com a estratégia dos britânicos. Na verdade, porém, existe um grande grau de continuidade entre o governo metropolitana e o regime de Stevens que serve de exemplo da lógica dos círculos viciosos. Stevens governou Serra Leoa extraindo recursos de seu povo por meio de métodos semelhantes. Ele ainda estava no poder em 1985, não por ter sido reeleito pela população. A partir de 1967, ele estabeleceu uma ditadura violenta, matando e assediando adversários políticos, em especial os membros do PPSL. A partir de 1978, Serra Leoa passou a ter apenas um partido político, o PCTP do ditador. Dessa forma, Stevens foi bem-sucedido na consolidação de seu poder, ainda que ao custo de empobrecer grande parte do interior do seu país.

ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 374-377. Adaptado. 

A África e o comércio escravagista

domingo, 26 de março de 2023

 

Antes do início da era moderna, as sociedades africanas eram politicamente menos centralizadas do que as da Eurásia. A maioria das sociedades era pequena, com chefes tribais e talvez reis que controlavam a terra e os recursos. Muitas, como mostramos com o caso da Somália, não tinham qualquer estrutura hierárquica de autoridade política. O comércio escravagista deu início a dois processos políticos adversos. Em primeiro lugar, muitas sociedades se tornaram mais absolutistas de início, organizadas em torno de um único objetivo: escravizar e vender outros povos para os escravizadores europeus. Em segundo lugar, como consequência, mas paradoxalmente em oposição ao primeiro processo, as guerras e a escravidão destruíram qualquer tipo de ordem e de autoridade estatal na África subsaariana. Além de guerras, escravos também eram raptados e capturados em pequenas incursões. A lei também se transformou em uma ferramenta de escravização. Independentemente do crime que se cometesse, a pena era a escravidão. 

ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 282. 

Mao, Khrushchev e Nixon

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

 

Mao Zedong e Nikita Khrushchev, em agosto de 1958.

Em 1958, o ditador soviético Nikita Khrushchev fez uma calamitosa visita a Pequim. Na ocasião, houve um rol aparentemente interminável de queixas de parte a parte entre os mandatários das duas maiores potências socialistas do mundo. Mao Zedong, de forma especial, induziu Khrushchev a dar declarações cada vez mais absurdas e humilhantes a fim de, provavelmente, demonstrar aos quadros chineses a inconfiabilidade do líder que presumivelmente desafiara a imagem de Stalin.

Mao também buscou a oportunidade de comunicar a profundidade da conduta opressiva de Moscou anteriormente. Mao se queixou do comportamento condescendente de Stalin durante sua visita a Mosco no inverno de 1949-50:

Mao: [...] Após a vitória de nossa Revolução, Stalin teve dúvidas sobre o caráter dela. Ele acreditava que a China era outra Iugoslávia.

Khrushchev: Sim, ele considerava isso possível.

Mao: Quando estive em Moscou [dezembro de 1949], ele não quis concluir um tratado de amizade conosco e não quis anular o antigo tratado com o Kuomintang. Lembro que [o intérprete soviético Nikolai] Fedorenko e [o emissário de Stalin para a República Popular, Ivan] Kovalev me transmitiram o conselho [de Stalin] de empreender uma viagem pelo país para dar uma olhada. Mas eu disse a eles, tenho apenas três tarefas: comer, dormir e cagar. Não vim a Moscou apenas para dar os parabéns a Stalin por seu aniversário. Então eu disse, se vocês não estão interessados em concluir um tratado de amizade, que seja. Vou cuidar das minhas três tarefas.

Em fevereiro de 1972, era a vez do representante maior do mundo livre, Richard Nixon, visitar a nação asiática. Na visita histórica, Mao frisou sua boa vontade pessoal em relação ao presidente americano. Ele afirmava que preferia lidar com governantes de direita, alegando que eram mais confiáveis. O autor do Grande Salto Adiante e da Campanha Antidireitista fez, então, o comentário espantoso de que "votara" em Nixon, e que ficava "relativamente feliz quando essas pessoas de direita chegam ao poder" (pelo menos no Ocidente). "Gosto de direitistas", assinalou o Grande Timoneiro, Mao Zedong. 

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 175-76 e 260-61.

«História da África», José R. Macedo

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Baixe essa obra gratuitamente aqui.

A Personificação dos Continentes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Afresco dos quatro continentes, seção sobre a Ásia. Teto do salão da Escadaria na Residência de Würzburg, 1752-3, de Giambattista Tiepolo.

Durante o século XVII, a tradição de associar mapas do mundo (continentes ou regiões) a imagens das cidades mais importantes e dos povos mais "típicos", em geral representadas em pares nas margens, enraizou-se no trabalho dos principais cartógrafos neerlandeses (Jodocus Hondius, Pieter van den Keere, Vischer, Willem Blaue e Frederik de Wit, seguindo Braun e Hogenberg). Os volumes sobre vestuário aproveitavam, ao mesmo tempo que também criavam, muitas das imagens usadas em mapas, atlas e panoramas de cidades do mundo. No longo prazo, surgiram gêneros de livros que unem quase perfeitamente a representação de cidades e a imagem de povos específicos. Destaca-se o livro publicado por Carel Allard por volta de 1695, Orbis habitabilis oppida et vestitus.

Entre 1570 e 1790 foram executadas muitas obras de arte (desenhos, gravuras, pinturas e esculturas) que se serviram de personificação dos continentes. Sabine Poeschel compilou 112 exemplos, com a grande maioria tendo sido criada na Itália. Na impossibilidade de analisar todos esses trabalhos, destaco o significado simbólico da obra-prima de Giambattista Tiepolo, o afresco pintado em 1752-3 no teto do Salão da Escadaria na Residenz de Würzburg (ver detalhe acima), considerado a mais vasta e uma das mais imponentes pinturas da Europa.

Nessa composição, a posição subalterna da Ásia, da África e da América perante a Europa é claramente indicada pela escolha de posições em relação às escadas e pela representação das figuras: a Europa é o único continente coroado, e as figuras restantes olham diretamente o espectador. Os elementos iconográficos estabelecidos são usados na composição: a Europa, com vestes ricas mas com cores e ornamentos sóbrios, é representada com os símbolos da sua origem (o mito da violação por Zeus), da natureza domesticada (o cavalo), da verdadeira religião (o templo, a mitra e a cruz, e a crossa do príncipe-bispo), das artes liberais (música, geografia, arquitetura, pintura e escultura) e da capacidade bélica (um canhão e um oficial).

Entretanto, a África quase nua monta um camelo, com um macaco, um avestruz e um pelicano representados no mesmo friso, completado pela figura do Nilo, ao lado de várias cenas que exibem mercadores orientais e europeus, e homens locais fumando cachimbo. A Ásia, de turbante, está sentada num elefante, cercada por um grupo de escravos, um criado com um turíbulo, caça a tigres e leões, e temos uma seção que indica a falsa religião, representada por um obelisco e um ídolo. Segundo alguns especialistas, na cena asiática, o escravo com a grilheta no pulso direito está agarrando o pulso esquerdo, o que pode significar que está acorrentando a si próprio - uma inovação iconográfica que vai ao encontro da ideia europeia de despotismo e falta de liberdade oriental. Isso também é sublinhado pelas mãos em posição de súplica ao lado do escravo manietado.

A América, nua, com um toucado de penas, está sentada num crocodilo, num cenário amplo com músicos, frutos e um criado com um pote de chocolate, e é contrastada com uma caça a um aligátor e com uma cena de canibalismo observada de modo um tanto bizarro pelo autor europeu com o seu quê de deturpado.

É marcante a oposição entre a Europa e os continentes exóticos, representados com vida selvagem, caça e canibalismo, mas também repletos de elementos comerciais (barris, fardos, troncos), para-sóis, turbantes, chapéus cônicos e estranhos toucados, que criam uma atmosfera orientalizada no friso, mesmo na África e na América.  

Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 114-116.

Um "Selvagem" nas Cortes Europeias

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Arrigo peloso, Pietro matto, Amon nano, 1598-9, óleo sobre tela de Agostino Carracci, 97 X 130 cm. Nápoles, Museo di Capodimonte, n. inv. Q369.

Desde os tempos gregos e romanos, o continente africano foi identificado como a fronteira entre as sociedades policiadas e as bárbaras, exposto a ermos e a regiões inóspitas. As condições supostamente extremas de clima e de solo sustentavam a ideia europeia de monstros e selvagens usada para refletir sobre as fronteiras entre a cultura e a natureza, o humano e o animal, as sociedades controladas e a selvageria. O caso de um suposto "homem selvagem" também surge na sociedade cortesã europeia do século XVI.

Trata-se de um guanche, um nativo das ilhas Canárias, certamente não negro, mas ainda assim ligado à África segundo a percepção europeia. Pedro Gonzalez, nascido por volta de 1537 em Tenerife, nas ilhas Canárias, afirmava ser de ascendência principesca. Sofria de um distúrbio genético particular, hypertrichosis universalis congenita, que o destacou ao longo de toda a vida: tinha pelos que lhe cresciam por todo o rosto, orelhas, costas, peito, braços, mãos, dedos, coxas e pernas. Só a palma das mãos, a planta dos pés e os lábios não eram cobertos de pelos. A aparência de Gonzalez correspondia à imagem mítica do homem selvagem (homo silvestris ou silvaticus, a origem etimológica de selvagem) criada na Antiguidade Clássica para servir de apoio à reflexão sobre a diferença entre cultura e natureza, seres humanos que viviam em comunidade e humanos que viviam nas regiões selvagens. A imagem do selvagem nu, de corpo coberto de pelos compridos, o espírito entregue aos instintos e sentimentos mais básicos, uma figura próxima do estereótipo medieval do gigante, fora renovada no século XV, por coincidência, quando da conquista das ilhas Canárias. A recuperação do tema foi claramente expressa pelas enormes esculturas colocadas na entrada da faculdade de San Gregorio, em Valladolid.

A aparência de Gonzalez suscitou uma enorme curiosidade na corte real francesa, quando ele foi oferecido a Henrique II, com dez anos de idade. "Pierre sauvage", como era conhecido à época, foi educado. Aprendeu latim e saiu-se tão bem que alcançou uma boa posição na corte como escanção (perito em vinho). Após a morte infeliz de Henrique II, Gonzalez provavelmente passou para a casa de Catarina de Médici. Por volta de 1573, casou-se com uma francesa, Catarina, com quem teve cinco filhos (os quais, talvez com a exceção do último, herdaram o seu problema genético).

Em 1589, com a morte de Catarina de Médici, Gonzalez seguiu para Parma, onde Alexandre Farnese passou a ser o seu novo patrono. Gonzalez foi registrado como "Don Pietro Gonzales Selvaggio" na corte de Parma. Isso significa que o título aristocrático espanhol "don" ficaria associado à vida de Gonzalez junto com a palavra "selvagem". Em 1592, nasceu o seu sexto filho (também ele peludo). Mais uma vez, Gonzalez foi exibido como caso curioso e valioso, resgatado de uma condição quase animalesca.

A família Gonzalez tornou-se uma das mais representadas na Europa de finais do século XVI. No entanto, o extraordinário quadro de Agostino Carracci, executado em 1598-9 e intitulado Arrigo peloso, Pietro matto, Amon nano (Henrique peludo, Pedro louco, Amon anão) no inventário de 1644 explicava a função do "selvagem" peludo na corte: Arrigo era representado com um tamarco (um sobretudo de pele de cabra usado nas ilhas Canárias), junto com um anão, um bobo, dois macacos, dois cães e um papagaio. Resumidamente, surgia ao lado de seres humanos identificados (e troçados) pelas suas "deformidades" físicas e mentais - todos usados como acessórios de luxo na corte e exibidos como fenômenos bizarros do mundo natural.  

Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 136-139.

Doc. 'Escravidão Islâmica em África'

terça-feira, 16 de abril de 2019

#15Fatos A Escravidão na África

sexta-feira, 29 de março de 2019

1. A escravidão era disseminada e inata na sociedade africana, como era, naturalmente, o comércio de escravos. Os europeus simplesmente entraram nesse mercado já existente, e por séculos os africanos responderam ao aumento da demanda, fornecendo mais escravos. Não se deve aceitar a teoria de que os africanos foram compelidos a participar desse comércio infame.  

2. A escravidão era amplamente difundida na África (o que nada tem a ver com o subdesenvolvimento econômico da região), e seu crescimento foi muito independente do comércio atlântico. O comércio atlântico de escravos foi o resultado dessa escravidão interna. Seu impacto demográfico, no entanto, mesmo nos estágios iniciais foi significativo. 
  
3. A escravidão era difundida na África atlântica porque os escravos eram a única forma de propriedade privada que produzia rendimentos reconhecida nas leis africanas. Nesse sentido, foi a ausência de propriedade privada de terras que levou a escravidão a ser tão difundida na sociedade africana. Em contraste, nos sistemas legais europeus a terra era a principal forma de propriedade privada lucrativa, e a escravidão ocupava uma posição relativamente inferior.    

4. Observadores europeus nos séculos XVI e XVII estavam bem conscientes de que as sociedades africanas eram política e economicamente desiguais e que essas desigualdades refletiam-se nas estruturas sociais e legais. Mas, apesar de alguns reconhecerem a ausência da propriedade privada de terras, muitos transformaram os africanos em proprietários a despeito deles.    

5. Partindo desse cenário, a descrição das terras na África por europeus como pertencendo ao rei foi o modo mais comum para reconciliar a lei africana e o conceito de que a posse de terras era uma parte natural e essencial da civilização. Mas, na África, as pessoas é que eram taxadas em vez das terras, outra indicação da ausência de propriedade privada territorial.    

6. Sob certas premissas ideológicas, os reis podiam requerer o direito de taxar a partir do direito de conquista. As tradições do Congo, por exemplo, enfatizam que o fundador do Estado conquistou a população do país, e seus direitos para governá-los e taxá-los provêm desse fato, direitos partilhados com "capitães" designados por ele.     

7. Alguns viajantes mencionavam frequentemente os "nobres" ocasionalmente como "proprietários" de terras ou pelo menos exercendo controle sobre eles. Por exemplo, John Hawkins, ao descrever Serra Leoa em 1562-8, citou que os nobres "possuíam" terras, e todos os outros lhes pagavam um aluguel para poder utilizá-las. Mas, em Serra Leoa, como em outros lugares, o verdadeiro proprietário era o Estado, e os rendimentos auferidos eram na verdade encargos ou tributações estatais.   

8. Assim, a aparente propriedade privada, ou o que os historiadores especialistas no início da Europa moderna algumas vezes chamam de "grande propriedade", não tinham de modo algum essa característica. Em cada caso, os detentores de títulos e os que usufruíam dos rendimentos provenientes da propriedade dependiam dos grandes grupos corporativos, algumas vezes das linhagens, mas em geral do Estado, para suas remunerações.  

9. No Congo, um filho ou irmão do rei era frequentemente seu sucessor, mas a escolha final recaía em um grupo de eleitores depositários do Estado. Na África central, e também no Dongo, a eleição era definida por um grupo de funcionários. Em Benin, segundo testemunhas do século XVII, a sucessão era considerada hereditária, mas o acesso do governante ao trono precisava ser confirmado e ratificado por dois funcionários mais graduados. Um sistema semelhante era adotado em Warri.         

10. O pouco que se sabe sobre a ocupação de terras por camponeses nos séculos XVI e XVII na África sugere que aqueles que as cultivavam tinham direitos de explorá-la mas não de vendê-la, aliená-la ou arrendá-la. Assim, os africanos possuíam produtos advindos da terra, mas não a terra em si. Em Loango, por exemplo, os terrenos eram mantidos como uma propriedade comunitária e, para assegurar o direito de cultivá-los, só era preciso começar a cultivar terras desocupadas; se o cultivo fosse interrompido, o lavrador perdia os direitos.  

11. Se os africanos não eram proprietários de um fator de produção (a terra), eles poderiam possuir outro, o trabalho (o terceiro fator, o capital, era relativamente insignificante antes da Revolução Industrial). O casamento era outra instituição de dependência. Em meados do século XVII, o governante de Warri tinha um grande harém de esposas que produziam tecido para vender. Algo análogo ocorria em Ajudá. A riqueza na África, portanto, media-se pelas esposas, pois a poligamia indicava o prestígio e as esposas constituíam com frequência forças de trabalho. 

12. A escravidão era, possivelmente, o caminho mais importante para a riqueza privada geradora de recursos para os africanos. Portanto, não é surpreendente que fosse tão disseminada. Na prática, na África os escravos tinham mais utilidades do que os escravos europeus ou euro-americanos. Na Europa, as pessoas ricas que queriam investir em algo seguro e com retorno financeiro provavelmente comprariam terras. Na África, por outro lado, não existia propriedade privada da terra; assim, o último recurso era adquirir escravos. Como propriedade pessoal, eles poderiam ser herdados ou gerar riqueza. 

13. Os escravos africanos, em geral não recebiam um tratamento diferente dos camponeses agrícolas. Na África central, segundo um testemunho, eles possuíam liberdade relativa e eram postos em ampla variedade de empregos. No entanto, isso não significa que os escravos nunca recebessem o mesmo tipo de trabalho difícil, perigoso ou degradante dos escravos na Europa, embora na África frequentemente esse trabalho pudesse ser realizado com facilidade por pessoas livres a serviço do Estado.    

14. Os escravos como geradores de riqueza destacaram-se principalmente entre os julas e outros grupos comerciais islâmicos do oeste do Sudão e Senegâmbia. Outra utilização dos escravos, quase da mesma importância que essa (aumento e manutenção da fortuna particular), foi seu uso pela elite política para ampliar seu poder. Os poderosos impérios sudaneses confiavam muito nos exércitos e administrações de escravos para manter sob controle uma nobreza local ascendente e refratária. O desenvolvimento de um exército ou administração compostos de escravos ajudou na centralização do Império Songai e no Dongo. O recolhimento dos escravos em um lugar central conferiu grande poder aos reis do Congo, no final do século XV.  
  
15. Os escravos estavam em todas as partes da África atlântica, desempenhando todo tipo de tarefas. A importância da escravidão na África no desenvolvimento do comércio de escravos pode ser observada claramente na incrível velocidade com que o continente começou a exportá-los. De 1450 em diante, antes mesmo que os seus navios alcançassem o rio Senegal, os portugueses compravam escravos de caravanas na fronteira ao norte do posto de Arguim, estabelecendo relações duradouras com o comércio transaariano. Em suma, podemos concluir que o comércio atlântico de escravos e a participação da África tinham sólidas origens nas sociedades e sistemas legais africanos. A organização social preexistente foi, assim, muito mais responsável do que qualquer força externa para o florescimento do comércio atlântico de escravos.    
  
Bibliografia consultada: THORTON, John Kelly. A África e os africanos na formação do mundo atlântico - 1400-1800. Coordenação editorial de Mary Del Priore e tradução de Marisa Rocha Motta. Rio de Janeiro: Campus, 2004, p. 122-152.

Doc. 'Um Fio de Esperança'

sábado, 2 de março de 2019

Mal dos Séculos: a Tuberculose

terça-feira, 19 de junho de 2018

A bactéria da tuberculose (no caso a M. tuberculosis) foi descoberta e vista em 1882, na Alemanha, por Robert Koch. Trata-se da única bactéria a pertencer a um gênero e a uma espécie, apesar de ter sofrido mutações que diferenciam suas sequências de DNA. As alterações são pequenas e não mudam o comportamento agressivo da doença. Durante a evolução, a bactéria sofre mutações no DNA e seus descendentes originam exércitos geneticamente diferentes apesar de serem da mesma espécie. Alguns podem ser mais agressivos, outros mais resistentes aos antibióticos. Comparando as diferenças do DNA, podemos isolar tipos diferentes de bactérias. 

Pesquisadores obtiveram centenas de amostras de bactérias em tuberculosos nas ilhas de Cuba, Haiti, Martinica e Guadalupe. Recolheram as impressões digitais do DNA dessas bactérias e as compararam com famílias bacterianas presentes em outras regiões. As mesmas famílias de microrganismos dessas ilhas foram encontradas no Mediterrâneo, na África e nos Estados Unidos. As famílias da bactéria da tuberculose presentes hoje no Caribe vieram, provavelmente, com europeus durante a colonização e com africanos durante a escravidão. A extensão dos estudos mostrou que há uma coincidência do DNA dos tipos de bactérias de tuberculose da Europa com os dos Estados Unidos, com regiões do Caribe e com a América do Sul. 

Essa foi a segunda onda de tuberculose no continente. Há na América tipos específicos de bactérias. Elas descendem, provavelmente, das bactérias de tuberculose que aqui vieram com os primeiros homens que atravessaram o Estreito de Bering, no início da ocupação do nosso continente. 

Estudos genéticos também mostram que bactérias da tuberculose transitaram pelo Oceano Índico. O tráfico de escravos e o comércio também a levaram para regiões distantes, como sudeste asiático, províncias chinesas e litoral africano. A partir da segunda metade do século XVIII, época da Revolução Industrial, os cortiços ingleses com seus trabalhadores depauperados e mal alimentados da época da  disseminaram o mal. 

No século XIX, os projetos colonizadores imperialistas na África e na Ásia levaram a M. tuberculosis e outras bactérias a terras distantes. Nessa época, poetas românticos como Castro Alves e Álvares de Azevedo, no Brasil, e John Keats e Lord Byron, na Europa, morreram tuberculosos. No alvorecer do século XX, a tuberculose era uma das principais causas de morte por doença infecciosa. A bactéria da tuberculose foi globalizada pelo homem.         

Bibliografia consultada: UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2013, p. 160-164. 

Saiba mais a partir de uma reportagem da Super.

Egito e Núbia

sábado, 7 de abril de 2018

Escravos núbios, Grande Templo de Abul-Simbel (séc. XIII a.C.), Egito. Na iconografia egípcia, os núbios eram representados com a pele mais escura do que a dos egípcios.

À época do Egito faraônico, a Núbia era a região que separava esse país da África subsaariana. Atualmente, o antigo território núbio encontra-se dividido entre o Egito e o Sudão. As relações entre o Egito e a Núbia começaram muito cedo e foram intensas. Já no Império Antigo (c. 2660 a.C. - 2180 a.C.) foram promovidas na Núbia várias expedições comerciais ou punitivas sob o comando de governadores de Elefantina. Assim, podemos resumir as transações entre o Egito e a Núbia nos seguintes termos:

"Da Núbia o país das Duas Terras [o Egito] obtinha metais, a começar pelo ouro, boas madeiras, como o ébano, pedras semipreciosas, marfim, peles de leopardo, penas e ovos de avestruz e diversos animais exóticos, como as girafas e os macacos, que eram trocados por produtos egípcios de que os núbios muito careciam, tendo estes, com o tempo, adotado usos e costumes egípcios e, a certa altura, a religião, e ainda, para as classes mais elevadas, a língua e a escrita." ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 33.

Além desses vários produtos, contingentes militares núbios eram requisitados pelo exército egípcio, no qual prestaram bons serviços quando foram arrolados como tropas auxiliares. Além disso, os núbios também atuaram como força de polícia para manter a ordem internamente. Nada disso evitou que, ao final do Império Antigo, o Egito fosse mergulhado numa crise de governabilidade que caracterizou o Primeiro Período Intermediário (c. 2180 a.C. - 2040 a.C.).  

No Império Médio (c. 2040 a.C. - 1765 a.C.), os faraós orientaram uma política de ocupação do território, o que implicou a construção de fortalezas e vários templos (forma habitual de impor a presença egípcia). Sobre as construções religiosas, o destaque vai para os grandes templos rupestres de Abu Simbel feitos para Ramsés II (reinou entre 1279 a.C. e 1213 a.C.) e Nefertari (viveu entre 1254 a.C. e 1290 a.C.). Para fins de ocupação e exploração, a Núbia foi dividida em Baixa Núbia (Uauat) e Alta Núbia (Kuch). Após o Império Médio, houve o Segundo Período Intermediário (c. 1765 a.C. - 1550 a.C.). 

No Império Novo (c. 1550 a.C. - 1070 a.C.), as fortalezas egípcias na Núbia passaram a ter uma função mais simbólica do que defensiva, mantendo, todavia, a sua importância estratégica como polos comerciais. 

Embora seja inquestionável que o poder do Egito sobre a Núbia tenha sido preponderante, o inverso também aconteceu. Por exemplo, no Terceiro Período Intermediário (c. 1070 - 664 a.C.), o rei núbio Kashta (770 a.C. - 750 a.C.) fundou a 25ª dinastia egípcia (770 a.C. - 657 a.C.). Taharka (690 a.C. - 664 a.C.), o terceiro faraó etíope, foi mencionado na Bíblia (Isaías 37:9). Apesar da origem núbia, esses reis eram perfeitamente egipcianizados e invadiram o Egito para combater os reis das dinastias líbias que então governavam o país dos faraós. É sintomático que tomaram essa iniciativa em nome do deus Amon e de Maet com a intenção de lá repor a ordem, a maet. 

A Geografia do Egito Antigo

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Embora o Egito possua uma área de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, tendo o rio Nilo como seu eixo fundamental, apenas 4% da sua superfície total é habitável. O clima é quente e seco, com 20 a 100 mm de chuva por ano. Os imensos desertos limítrofes, por entre os quais o grande rio serpenteia, surgiram por volta do final da Pré-História. Face a isso, 

"Foi da aliança entre a água e o homem que veio a nascer a civilização faraônica, que é, antes de mais, uma civilização agrária. Aliás, se foi o rio Nilo que determinou o tipo de vida dos antigos egípcios, com base precípua na agricultura, também era esta que marcava o ritmo do tempo, porque o ano egípcio estava dividido em três estações de quatro meses cada. A primeira estação (Akhet) abrangia a subida, a inundação e o início duma fase de descida das águas, que alguns designam por inverno, depois vinha a segunda estação (Peret), a estação das sementeiras, e uma terceira (Chemu), a estação das colheitas." ARAÚJO, Luís Manuel de. O Egito Faraônico - uma civilização com três mil anos. Revisão de Raul Henriques. Lisboa: Arranha-céus, 2015, p. 18.

Ao longo da sua História, o Egito desenvolveu instituições, religião e cultura bem originais. Em grande medida, sua geografia contribuiu para tal. Ao contrário da Mesopotâmia, "a passarela dos povos", o território egípcio não possui barreiras naturais e, portanto, sofreu relativamente poucas invasões estrangeiras. Assim, sofreu reduzida influência de outros povos (até porque, as fartas colheitas, somadas às dificuldades de contato com outros povos, levou os egípcios a se aproximarem da autossuficiência em termos econômicos). Do ponto de vista geopolítico, o Egito estava ligado ao Oriente Médio, ainda que esteja localizado no Nordeste da África. 

A ocidente, o Egito tinha fronteiras naturais com o deserto líbio; a oriente, estava isolado pelo deserto arábico. No Delta, ao Norte, os terrenos pantanosos e alagadiços eram igualmente uma fronteira natural; no Sul, a zona da primeira catarata era considerada a fronteira com a Núbia, vigiada pelos governadores de Elefantina, capital da primeira província do Alto Egito.

Escravos Brancos em África

domingo, 14 de agosto de 2016

Namouna, 1887, Henri Adrien Tanoux (1865-1923). As mulheres brancas capturadas pelos piratas islâmicos normalmente alimentavam o mercado da escravidão sexual.

Segundo o historiador americano Robert Davis, autor de Christian slaves, Muslim masters, mais de um milhão de europeus foram escravizados por traficantes norte-africanos entre 1530 e 1780. Essa época foi marcada por intensa pirataria costeira no Mediterrâneo e no Atlântico. 

O número é pequeno perto do total de escravos africanos negros levados para as Américas ao longo de quatro séculos - entre 10 e 12 milhões - mas é bem maior do que até então se imaginava. Assim, Davis refuta com a sua pesquisa a ideia de que a escravidão na Idade Moderna tenha sido essencialmente de natureza racial. "Ser escravizado era uma possibilidade muito real para qualquer pessoa que viajasse pelo Mediterrâneo ou que habitasse o litoral de países como Itália, França, Espanha ou Portugal, ou até mesmo países mais ao norte, como Reino Unido e Islândia", afirma. 

Os ataques dos piratas eram tão violentos que cidades costeiras do Mediterrâneo foram abandonados por seus apavorados moradores. Os seus algozes partiam de cidades como Túnis e Argel. As pessoas capturadas eram levadas para trabalhar em pedreiras, na construção pesada e como remadores nas galés dos próprios piratas. 

Fonte: Folha Online

O Tráfico Negreiro

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Trecho do filme Amistad, dirigido por Steven Spilberg e lançado em 1997.


Além de ver esse vídeo, leia o poema O navio negreiro, de Castro Alves. 

A África antiga em documentários

domingo, 31 de maio de 2015

A Núbia - Docs. para o Ensino Fundamental

O Reino de Kush (2 mil a.C - 591 a.C.)


O Reino de Méroe (591 a.C. - 330 d.C.)




Os reinos perdidos da África - Docs. para o Ensino Médio

Núbia (2 mil a.C - 330 d.C.)


Axum (fase imperial: 330 - séc. VII d.C.)


O Grande Zimbábue


A África ocidental


O Reino berbere de Marrocos


O Reino de Ashanti (1701-1896)