domingo, 16 de abril de 2023
Era janeiro de 2000 em Harare, no Zimbábue. O mestre de cerimônias Fallot Chawawa estava encarregado de sortear o bilhete vencedor da loteria nacional organizada por um banco parcialmente estatal, o Zimbank. A loteria estava aberta a todos os clientes que tivessem mantido 5 mil dólares de Zimbábue ou mais nas contas durante o mês de dezembro de 1999. Quando sorteou o bilhete, Chawawa ficou perplexo. Ele mal pôde acreditar no que via quando recebeu o bilhete sorteado com o prêmio de 100 mil dólares de Zimbábue e viu escrito o nome de Sua Excelência R G Mugabe.
O presidente Robert Mugabe, que governava o Zimbábue desde 1980 usando todos os métodos possíveis, geralmente com mãos de ferro, ganhara um prêmio mais ou menos cinco vezes a renda per capita anual do país. O Zimbank afirmou que o nome do ditador foi sorteado dentre milhares de apostadores aptos para concorrer ao prêmio. Que homem sortudo! E olha que ele nem precisava do dinheiro: algum tempo antes do sorteio, Mugabe concedera aumentos salariais de até 200% a si mesmo e a seu gabinete.
"As regras são simples: eles mentem para nós, nós sabemos que eles estão mentindo, eles sabem que nós sabemos que eles estão mentindo, mas eles continuam mentindo de qualquer maneira, e nós continuamos fingindo que acreditamos neles." Elena Gorokhova, "A Mountain of Crumbs" (2010)
O bilhete de loteria era apenas mais um indício das instituições extrativistas do Zimbábue. Isso poderia ser taxado simplesmente de corrupção, mas é apenas mais um sintoma da doença institucional do país. O fato de Mugabe poder ganhar na loteria, se quisesse, mostrava o tamanho de seu controle sobre a vida da nação africana e deu ao mundo uma noção da dimensão de suas instituições extrativistas.
Bibliografia consultada: ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 411-412.



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