“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.
Mostrar mensagens com a etiqueta Ásia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ásia. Mostrar todas as mensagens

Incertezas após a Vitória

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Desde agosto de 1945, o mundo vive uma era de incertezas.

Pela primeira vez na história, o advento das armas nucleares tornou possível para um único ser humano destruir dezenas - talvez centenas - de milhões de vidas, e os avanços tecnológicos possibilitam que isso seja feito em apenas alguns minutos. Nenhuma das figuras mais assustadoras da história - Gêngis Khan; Alexandre, o Grande; Adolf Hitler - tinha qualquer coisa parecida. Se no século XIII Khan decidisse esmagar um império ou Estado, isso levaria algum tempo. Se esse território fosse enorme - como a China -, essa empreitada, provavelmente, levaria décadas. No entanto, se o presidente Richard Nixon, em 1969, decidisse lançar um ataque nuclear no mesmo local, poderia ter aniquilado 100 milhões de chineses em uma tarde.

Se a humanidade tratasse essa nova arma da maneira que tratou todas as outras armas eficazes já inventadas antes, a próxima guerra mundial veria uma capacidade destrutiva quase divina. Muitas das centenas de pessoas que testemunharam o nascimento da era atômica perceberam isso no minuto em que viram o teste da Trinity no deserto. "Agora eu sou a morte, a destruidora de mundos", disse Oppenheimer.

Assim como com os cientistas, as reações dos norte-americanos foram variadas. Se você está envolvido em uma guerra mundial e seu lado adquire uma superarma, isso sem dúvida será visto de maneira positiva. Em seu livro In the Shadow of War, o historiador Michael S. Sherry descreve as reações variadas dos americanos após o anúncio do presidente Truman na televisão informando ao seu povo, e ao mundo, que a bomba havia sido lançada e explicando o que era essa nova arma e por que havia sido usada. "Alguns enfatizaram o orgulho pelas conquistas e a satisfação em obterem vingança contra os japoneses." Certas pessoas lamentaram que mais bombas não fossem jogadas sobre o Japão. "Outros - em especial, soldados que presumiram que a invasão do Japão era a única alternativa ao uso da arma - saudaram a paz que a bomba havia trazido mais depressa, e a própria bomba como uma ferramenta para manter a paz."

Outros viram a questão de maneira completamente diferente - para eles, a bomba era evidência do flagelo da guerra moderna. Houve quem sentisse que era um augúrio sobre o que o futuro nos reserva. O jornalista da CBS, Edward R. Murrow, disse o seguinte: "É raro, senão inédito, uma guerra terminar deixando os vencedores como um sentimento tão intenso de incerteza e medo - com o conhecimento de que o futuro é incerto e que a sobrevivência não é garantida."

CARLIN, Dan. O fim está sempre próximo: momentos apocalípticos, do colapso da Idade do Bronze até ameaças nucleares. Tradução de Flora Pinheiro. Rio de Janeiro: Happer Collins, 2020, p. 168-169.

A Guerra de Troia

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

As principais fontes sobre o conflito entre gregos e troianos, por volta de 1200 a.C., no fim da Idade do Bronze, são as obras de Homero. Há sete anos, fizemos um post, disponível aqui.

Segundo a mitologia, a guerra começou quando Páris, príncipe troiano, raptou (ou seduziu) Helena, esposa do rei espartano Menelau. Em resposta, os gregos (aqueus) organizaram uma grande expedição liderada por Agamenon, irmão de Menelau, para atacar Troia e recuperar Helena.

A guerra durou dez anos e envolveu heróis como Aquiles, Ulisses (Odisseu), Heitor e Ájax. Quando os troianos levaram para dentro de sua cidade um enorme cavalo de madeira deixado como "presente" pelos gregos, que supostamente haviam desistido do cerco e retornado para a sua terra, eles caíram numa armadilha. Achando que haviam levado um cavalo para dentro de Troia, na verdade os troianos abrigaram guerreiros gregos, que saíram de dentro do cavalo e abriram os portões à noite. O restante dos gregos, que haviam se ocultado em ilhas próximas, retornaram, invadiram e destruíram a cidade.

Embora inspirada em fatos históricos do fim da Idade do Bronze (século XII a.C.), a Guerra de Troia, como descrita nos mitos, é sobretudo um episódio épico que envolve história e lenda.

Xerxes e a Brevidade da Vida

domingo, 15 de dezembro de 2024

 

LIVRO VII

XLVI. Artábano, seu tio pelo lado paterno, que havia procurado dissuadi-lo da ideia de uma guerra contra a Grécia, falando-lhe sem rodeios e com toda a franqueza sobre um tal empreendimento, vendo-o a chorar, a ele se dirigiu nestes termos: "Senhor, vossa conduta de agora é bem diferente da de há pouco. Há momentos, vós vos consideráveis feliz, e agora derramais lágrimas." "Quando refleti - volveu Xerxes - sobre a brevidade da vida humana e ao pensar que de tantos milhões de homens não restará um só dentro de cem anos, senti-me tomado de compaixão." "Experimentamos, no decurso de nossa vida - tornou Artábano -, coisas bem mais tristes do que o próprio sentimento da morte. Apesar da brevidade da vida humana, a que vos referistes, não há homem feliz, seja no meio dessa multidão, seja em todo o universo, ao qual não venha ao espírito, já não digo uma vez, mas frequentemente, o desejo de morrer. As vicissitudes por que passamos, as enfermidades que nos perturbam, fazem com que a vida nos pareça bem longa, por mais curta que ela seja. Numa existência tão infeliz, o homem vive a suspirar pela morte, encarando-a como um porto de salvação. Se temperamos a acridez de nossa vida com alguns prazeres, os deuses logo manifestam o seu ciúme."

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 240. 

Os 2.500 anos do Império Persa

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

 

A Queda da Babilônia (539 a.C.)

domingo, 29 de setembro de 2024

LIVRO I

CLXXXIX. Ciro, marchando contra Babilônia, chegou às margens do Gindo. Este rio nasce nos montes Macianos, e depois de atravessar o país dos dardaneus deságua no Tigre, que passa ao longo da cidade de Ópis e desemboca, por sua vez, no mar de Eritréia. Enquanto Ciro procurava atravessar o Gindo (não pôde fazê-lo em barcas), um dos seus cavalos brancos, considerados sagrados, impelido pelo ardor, saltou na água e esforçou-se por ganhara margem oposto; mas a forte correnteza arrastou-o, afogando-o. Ciro, indignado com a afronta do rio, ameaçou-o de torná-lo tão fraco que, dali em diante, até as mulheres poderiam atravessá-lo sem molhar os joelhos. Assim dizendo, suspendeu a expedição contra Babilônia, dividiu o exército em dois corpos, traçou com uma corda, ao longo do rio, cento e oitenta canais em diversos sentidos, fazendo, em seguida, cavá-los pelas tropas. Conseguiu realizar tão vultosa empresa por haver empregado um número imenso de soldados, mas isso lhe ocupou as tropas durante todo o verão.

CXC. Tendo-se vingado do Gindo cortando-o em trezentos e sessenta canais, continuou a marcha para Babilônia ao anunciar-se a segunda primavera. Os babilônios, pondo suas tropas em campo, esperaram de pé firme. Mal o inimigo apareceu nas vizinhanças da cidade, deram-lhe batalha, mas, batidos, encerraram-se atrás das muralhas.

Como sabiam, de longa data, que Ciro não ficaria sossegado e que atacaria igualmente todas as nações, os babilônios haviam reunido de antemão provisões para muitos anos. Por conseguinte, o cerco não os inquietava de maneira alguma. Ciro encontrava-se em grande embaraço: cercava a praça há muito tempo e não tinha conseguido outra vantagem que a do primeiro dia.

CXCI. Finalmente, ou porque concluísse por si mesmo sobre o que devia fazer, ou porque alguém, vendo-o em dificuldades, o aconselhasse, o príncipe tomou a seguinte resolução: colocou o exército, parte no ponto onde o Eufrates penetra na Babilônia, parte no local onde o rio deixa o país, com ordem de invadir a cidade pelo leito do mesmo, logo que se tornasse vadeável. Com o exército assim distribuído, dirigiu-se para o lago, com algumas tropas menos aguerridas. Ali chegando, a exemplo do que fizera a rainha Nitócris, desviou as águas do rio para o lago pelo canal de comunicação. As águas se escoaram, e o leito do rio facilitou a passagem. Sem perda de tempo, os persas postados nas margens entraram na cidade, com as águas do rio dando apenas pelas coxas. Se os babilônios tivessem sido instruídos com antecedência sobre o propósito de Ciro, ou se o percebessem no momento da execução, poderiam ter feito perecer todo o exército, evitando a invasão da cidade; bastaria fechar as portas que conduzem ao rio e atacá-lo do muro marginal; os soldados seriam apanhados como peixes na rede. A verdade é que os persas surgiram quando eram menos esperados, e, a acreditar no depoimento dos babilônios, quando os pontos extremos da cidade já se achavam em poder do inimigo, os defensores que se encontravam na parte central ainda não tinham conhecimento disso, tão grande era ela. No momento em que se deu a invasão, os babilônios estravam realizando um festim, e, longe de imaginar que um perigo iminente os ameaçava, entregavam-se aos prazeres e às danças. Quando se inteiraram da situação, era demasiado tarde. Assim Babilônia foi tomada pela primeira vez.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 81-82. 

Aspectos da Sociedade Persa

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

LIVRO I

CXXXVI. Depois das virtudes guerreiras, encaram como grande mérito o ter muitos filhos. O rei gratifica todos os anos os casais prolíficos. A razão dessa tendência para uma prole numerosa está em considerarem os persas que a força viril é demonstrada pelo grande número de filhos. Estes eles começam a instruir aos cinco anos de idade, e daí até os vinte só lhes ensinam três coisas que consideram as mais importantes: montar a cavalo, atirar com o arco e dizer a verdade. Antes de completar cinco anos, um filho não se apresenta ao pai; permanece sempre junto à mãe e sob os cuidados dela. Adotam esse costume para que, no caso do filho morrer criança, a perda não cause desgosto ao pai.

CXXXVII. Tal costume me parece louvável. Aprovo também a lei que não permite a ninguém, nem mesmo ao rei, mandar matar um homem por um só crime, nem a nenhum persa punir rigorosamente um dos seus escravos por uma só falta. Se depois de refletido exame o senhor achar que as faltas do servo são em maior número e mais consideráveis do que os serviços, pode então dar expansão à sua cólera. Asseguram os persas nunca ter alguém, entre eles, matado o pai ou a mãe, pois todas as vezes que se tem notícia de um tal crime, descobre-se, depois de rigorosas pesquisas, que o filho criminosos, ou era suposto ou adulterino. Isso porque os persas não podem admitir a possibilidade de um homem matar o verdadeiro autor dos seus dias.

CXXXVIII. Não lhes é permitido falar das coisas que não podem fazer. Nada lhes parece mais vergonhoso do que a mentira, e depois da mentira, contrair dívidas; isto por várias razões, mas sobretudo porque quem possui dívidas mente por força. Um cidadão contaminado da lepra branca não pode entrar na cidade e nem ter qualquer espécie de contato com o resto dos persas, pois veem nisso uma prova de haver o indivíduo pecado contra o Sol. Todo estrangeiro atacado desse mal é afastado do país; e, pela mesma razão, não podem tolerar os pombos brancos. Não urinam nem escarram nos rios; ali não lavam nem mesmo as mãos e nem permitem que alguém o faça, pois adotam o culto dos rios.

HERÓDOTO. História. Estudo crítico de Vítor de Azevedo e tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, p. 69. 

Perseguição aos Cristãos no Japão

domingo, 2 de junho de 2024

Tortura com água, nas fontes sulfúreas quentes de Unzen. Cena de Silêncio (2016).

Entre 1614 e 1643, cinco mil cristãos japoneses foram assassinados por ordem judicial, quase sempre em público. O total exato não é conhecido, mas há registro de três mil, cento e vinte e cinco casos individuais, setenta e um deles europeus. Quarenta e seis jesuítas e frades lograram "passar à marginalidade", mas, a longo prazo, isso só serviu para prolongar a agonia, já que não se podia reforçar a missão de forma eficaz e os fugitivos sofreram um acossamento sistemático e incansável. Infligiam-se as torturas mais aterrorizantes àqueles, geralmente japoneses, que se recusavam a cometer perjúrio. Alguns morreram de fome na prisão. Outros foram torturados até a morte. Os europeus eram, por vezes, decapitados. A maioria dos japoneses foi queimada viva - com um dos braços amarrado frouxamente a uma estaca, no meio de um círculo de fogo. Entre eles, havia mães com crianças pequenas nos braços. Os governadores locais desistiram dos horrores quando a simples fogueira mostrou-se incapaz de segurar a apostasia. Muitas vítimas foram mortas por tortura com água, nas fontes sulfúreas quentes de Unzen - a água fervente sendo derramada lentamente em cortes em sua carne. A partir de 1632, os mártires começaram a ser suspensos de cabeça para baixo sobre um poço, alguns deles vivendo até uma semana. Uma jovem japonesa suportou o tormento durante catorze dias, enquanto o velho provincial jesuíta, Christova Ferreira, abjurou após seis horas. Os jesuítas produziram manuais ensinando os fiéis a enfrentar o martírio: "(...) prepare-se com a confissão. (...) Nunca nutra pensamentos malignos com relação ao funcionário que comunica a sentença de morte, nem ao carrasco. (...) Durante a tortura, visualize a Paixão de Jesus". Em 1637, houve uma rebelião, ocasionada pela tortura da filha de um cristão japonês diante deste. Foi suprimida com o auxílio militar dos holandeses, que, assim, lograram pôr um ponto final no comércio português. O cristianismo sobreviveu por algum tempo na marginalidade, ainda que, mesmo se escondendo, os jesuítas e frades continuassem brigando. Em 1657-8, os cristãos foram arrebanhados nas cercanias rurais de Nagasaki: quatrocentos e onze apostataram. Uma menina, presa aos onze anos, continuou cristã até morrer na prisão, em 1722. Em Urakami, uma comunidade criptocristã conseguiu sobreviver até ser revelada em 1865, ainda batizando corretamente e insistindo no celibato clerical. O episódio como um todo, porém, parece indicar que a perseguição, se aplicada com suficiente impiedade, inteligência e pertinácia, acabará bem-sucedida, mesmo contra os mais corajosos. Assim, encerrou-se um capítulo notável e pungente da história cristã.     

JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 511-512. 

Trabalho Infantil no Uzbequistão

segunda-feira, 17 de abril de 2023

 

Crianças eram amplamente forçadas a trabalhar Uzbequistão até 2015, quando a OIT passou a monitorar o problema no país.

O algodão é a cultura mais importante da ex-república soviética do Uzbequistão. Cerca de 45% das exportações do país são do "ouro branco". No período soviético, todas as terras agricultáveis uzbeques estavam sob controle de 2.048 fazendas estatais. Depois da independência, em 1991, essas fazendas foram loteadas, e a terra foi distribuída, mas isso não significava que os agricultores pudessem agir de forma independente. O algodão era valioso demais para Islam Karimov, que governou o país de 1990 até sua morte, em 2016.

Para se ter uma ideia, foram criadas regulações determinando o que os fazendeiros podiam plantar e os preços exatos que podiam praticar. O algodão era um produto de exportação valioso, e os fazendeiros recebiam uma pequena fração dos preços nos mercados internacionais pela sua produção, sendo que o restante ficava com o governo. Ninguém queria cultivar algodão por aqueles preços; então, o governo teve de forçar as pessoas a fazê-lo. Todo fazendeiro tinha a obrigação de destinar 35% de sua terra ao algodão. Isso causou muitos problemas, como dificuldades com o maquinário. À época da independência, 40% da safra era colhida por colheitadeiras. Depois de 1991, sem nenhuma surpresa, dados os incentivos que o regime de Islam Karimov criou, os produtores não estavam dispostos a comprar e manter esses equipamentos. Reconhecendo o problema, Karimov bolou uma solução, mais barata do que colheitadeiras: crianças em idade escolar.

O algodão atinge o ponto de ser colhido no início de setembro, mais ou menos na mesma altura em que as crianças voltam às aulas. Karimov estabeleceu aos governadores que determinassem cotas de algodão para as escolas colherem. No início de setembro, as escolas estavam vazias, sem seus 2,7 milhões de alunos (dados de 2006). Os professores, em vez de ensinar, recrutavam mão de obra. Ninguém pede o consentimento dos pais.

Os alunos/trabalhadores não têm fim de semana durante dois meses - o período da colheita. Crianças da área rural que têm a sorte de serem designadas para fazendas próximas de casa podem ir para o trabalho a pé ou de ônibus. As que moram longe ou são de áreas urbanas têm de dormir nos galpões ou depósitos junto com o maquinário e os animais. Não há banheiro ou cozinha. As crianças têm de levar o próprio almoço.

Os principais beneficiários de todo esse trabalho forçado são as elites políticas, lideradas pelo presidente, que na prática é o rei de todo o algodão do país. As crianças deveriam ser pagas pelo trabalho, mas o pagamento não sai da teoria. Provavelmente 75% do algodão em 2012 era colhido por crianças. Na primavera, a escola fica fechada para que os alunos trabalhem compulsoriamente capinando, tirando ervas daninhas e fazendo o transplante das mudas.

O caminho seguido pelo Uzbequistão é muito parecido com o de muitas outras repúblicas soviéticas. Karimov, que tornou-se primeiro-secretário para o Uzbequistão em 1989, venceu as primeiras eleições presidenciais com o apoio das forças de segurança, em dezembro de 1991. A partir de então, garroteou a oposição política independente. Seus adversários foram parar na cadeia ou no exílio. O ápice da repressão ocorreu em 2005, quando 750 manifestantes, quem sabe um número maior, foram mortos pela polícia e pelo exército em Andijon. Sob o regime de Karimov, o Uzbequistão se tornou um país pobre e com instituições políticas e econômicas muito extrativistas.  

Adaptado de ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 436-440.

O arquipélago das Molucas - Banda

domingo, 5 de março de 2023

 

Os turistas, ao visitarem esse paraíso que são as Ilhas Banda, não imaginam que no século XVII esse mesmo lugar foi transformado num cemitério pelos neerlandeses. 

Os holandeses também assumiram o controle das Ilhas Banda, na intenção de monopolizar a mácide e a noz-moscada. As Ilhas Banda, porém, eram organizadas de modo diferente de Amboína. Elas eram compostas de várias pequenas cidades-Estado autônomas, onde não havia hierarquia social nem estrutura política. Esses pequenos Estados, que na verdade não eram mais do que vilarejos, eram administrados por assembleias compostas pelos cidadãos locais. Não havia autoridade central que os holandeses pudessem coagir a assinar um tratado de monopólio e nenhum sistema de tributos que pudessem assumir para pôr as mãos em todo o suprimento de mácide e noz-moscada. De início, isso significou que os holandeses precisaram concorrer com mercadores ingleses, portugueses, indianos e chineses, perdendo para seus concorrentes quando não pagavam preços altos. Os planos iniciais de estabelecer um monopólio de mácide e noz-moscada naufragaram, e o governador holandês da Batávia, Jan Pieterszoon Coen, propôs um plano alternativo. Coen fundou a Batávia, na Ilha de Java, que em 1618 se tornou a nova capital da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Em 1621, ele navegou até as Ilhas Banda com uma frota e começou um massacre de quase toda a população das ilhas, provavelmente cerca de 15 mil pessoas. Todos os líderes foram executados, e só algumas pessoas foram deixadas vivas, o suficiente para preservar o conhecimento da produção de mácide e noz-moscada. Depois que o genocídio estava completo, Coen criou a estrutura política e econômica necessária para seu plano: uma sociedade de plantations. As Ilhas foram divididas em 68 domínios, que foram entregues a 68 holandeses, quase todos empregados ou ex-empregados da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Esses novos latifundiários aprenderam a produzir especiarias com os poucos habitantes originários sobreviventes e compraram escravizados da Companhia Britânica das Índias Orientais para povoar as ilhas esvaziadas e produzir especiarias, que seriam vendidas a preços fixos para a própria companhia.

As instituições extrativistas criadas pelos holandeses nas Ilhas das Especiarias tiveram os efeitos desejados, mas em Banda isso aconteceu ao custo de 15 mil vidas inocentes e ao estabelecimento de um conjunto de instituições econômicas e políticas que condenariam as ilhas ao subdesenvolvimento. No fim do século XVII, os holandeses haviam reduzido a oferta mundial dessas especiarias em cerca de 60%, e o preço da noz-moscada dobrara.

Os holandeses disseminaram a estratégia aperfeiçoada nas Molucas por toda a região, trazendo consequências profundas para as instituições econômicas e políticas do restante do Sudeste Asiático. A longa expansão comercial de diversos Estados na área, iniciada no século XIV, começou a retroceder. 

ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 276-278. 

O arquipélago das Molucas - Amboína

sexta-feira, 3 de março de 2023

O arquipélago das Molucas, na atual Indonésia, é composto de três grupos de ilhas. No início do século XVII, as Molucas do Norte abrigavam os reinos independentes de Tidore, Ternate e Bacan. As Molucas Médias abrigavam o reino insular de Amboína. No sul havia as Ilhas Banda, um pequeno arquipélago que ainda não havia sido unificado politicamente. Embora hoje pareçam remotas, na época as Molucas eram centrais para o comércio internacional por serem as únicas produtoras das especiarias cravo-da-índia, mácide e noz-moscada. Dessas, a mácide e a noz-moscada só podiam ser encontradas nas Ilhas Banda. Os habitantes das ilhas produziam e exportavam essas especiarias raras em troca de comida e de bens manufaturados que chegavam de Java, do entreposto de Malaca, na península Malaia, e da Índia, da China e da Arábia.

O primeiro contato que tiveram com os europeus com os portugueses, que capturaram Malaca em 1511. Estrategicamente situada na porção ocidental da península Malaia, a região recebia mercadores de todo o Sudeste Asiático que iam vender suas especiarias a outros mercadores - indianos, chineses e árabes -, que depois as enviavam para o Ocidente. Então, com o domínio de Malaca, os portugueses tentaram sistematicamente conquistar um monopólio do valioso comércio de especiarias. Não conseguiram.

Os adversários eram consideráveis. Desde o século XIV, o enorme desenvolvimento econômico no Sudeste Asiático baseado no comércio de especiarias levou cidades-Estado como Aceh, Banten, Malaca, Macáçar, Pegu e Brunei a se expandirem rápido, produzindo e exportando especiarias junto com outros produtos, como madeiras de lei. A partir do século XVI, a presença dos europeus aumentou e passou a ter muito mais impacto com a chegada dos holandeses, que logo se deram conta de que monopolizar a oferta das valiosas especiarias das Molucas seria muito mais lucrativo do que competir contra outros comerciantes locais e europeus. Em 1600, convenceram o governante de Amboína a assinar um acordo de exclusividade que lhes dava o monopólio sobre o comércio do cravo-da-índia na ilha. Com a fundação da Companhia das Índias Orientais, em 1602, as tentativas dos holandeses de dominar o comércio de especiarias e eliminar seus concorrentes lhes renderam bons frutos, prejudicando imensamente o Sudeste Asiático. Graças ao seu poder militar, a companhia permitiu aos holandeses eliminar qualquer possível obstáculo e garantir que seu tratado com o governante de Amboína fosse respeitado. Em 1605, capturaram um forte importante que estava em mãos portuguesas e, a seguir, removeram à força todos os demais comerciantes. Depois, expandiram sua atuação para as Molucas do Norte.

Em Amboína, os súditos deviam tributos ao governante e eram obrigados a fazer trabalhos forçados. Os holandeses assumiram e intensificaram esses sistemas para obter mais mão de obra e mais cravo-da-índia. Os holandeses determinaram que os moradores de cada casa estavam presos a um pedaço de terra e deviam cultivar um certo número de árvores de cravo-da-índia. As famílias também eram obrigadas a prestar trabalhos forçados.

Adaptado de ACEMOGLU, Daron & ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam - as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Rogerio W. Galindo e Rosiane C. de Freitas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022, p. 272-276. 

A China e o Enigma do Século

sábado, 31 de dezembro de 2022

 

Shenzhen, China: no gigante asiático, o "enigma do século" foi resolvido com o mercado, e não com ideologias.

Em uma conferência do Fórum Mundial sobre Estudos Chineses ocorrida em Xangai na sequência das Olimpíadas, Zheng Bijian, autor do conceito de "ascensão pacífica", afirmou a um repórter ocidental que a China finalmente superara o legado da Guerra do Ópio e o século de lutas contra a intromissão estrangeira, e que agora estava engajada em um processo histórico de renovação nacional. As reformas iniciadas por Deng Xiaoping, disse Zheng, haviam permitido à China solucionar o "enigma do século", desenvolvendo-se rapidamente e tirando milhões da pobreza. Conforme emergia como uma grande potência, a China contaria com a atração exercida por seu modelo de desenvolvimento, e relações com outros países seriam "abertas, não exclusivas e harmoniosas", visando "abrir mutuamente o caminho para o desenvolvimento mundial".

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 482.

Mao e a Destruição Mútua Assegurada

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

 

Caricatura de Mao Zedong por Herb Block, 1º de abril de 1965, publicada no Washington Post.  

Mao Zedong interpretava a dependência norte-americana da Destruição Mútua Assegurada como um reflexo da falta de confiança em suas próprias forças armadas. Isso foi tema de um diálogo em 1975, em que Mao penetrou no cerne de nosso dilema da Guerra Fria: "Vocês confiam, vocês acreditam nas armas nucleares. Vocês não confiam em seus próprios exércitos."

E quanto à China, exposta a ameaça nuclear sem ter, por algum tempo, meios adequados de retaliação? A resposta de Mao era de que isso criaria uma narrativa baseada na performance histórica e paciência bíblica. Nenhuma outra sociedade podia imaginar que ela seria capaz de conquistar uma política de segurança digna de crédito mediante uma disposição a prevalecer após a morte de centenas de milhões e a devastação ou ocupação da maioria de suas cidades. Só essa disparidade de ponto de vista já definia a brecha existente entre os conceitos ocidental e chinês de segurança. A história chinesa era um testemunho da capacidade de superar destruições inconcebíveis em qualquer outro lugar e, no fim, prevalecer pela imposição de sua cultura ou sua vastidão sobre o pretenso conquistador. Essa fé no próprio povo e na própria cultura era o lado reverso das reflexões por vezes misantrópicas de sua performance cotidiana. Não era apenas o fato de haver tantos chineses; era também a tenacidade de sua cultura e a coesão de seus relacionamentos.

Mas os líderes ocidentais, mais sintonizados e responsáveis para com suas populações, não estavam preparados para ofertá-las de uma maneira tão categórica (embora o fizessem indiretamente, mediante sua doutrina estratégica). Para eles, a guerra nuclear tinha de ser um último recurso demonstrado, não um procedimento operacional padrão.

A China não partilhava da visão estratégica norte-americana das armas nucleares, muito menos de sua doutrina de segurança coletiva; ela aplicava a máxima de "usar bárbaros contra bárbaros" a fim de obter uma periferia dividida. O pesadelo histórico chinês havia sido de que os bárbaros se recusariam a ser "usados" dessa maneira, se uniriam e então usariam a força superior para ou conquistar a China completamente ou dividi-la em feudos separados. Da perspectiva chinesa, esse pesadelo nunca desapareceu plenamente, travada como a China estava em uma relação antagônica com União Soviética e Índia e não sem suas próprias suspeitas quanto aos Estados Unidos.

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 285-87.

A Política Externa de Mao Zedong

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

 

Quando o Partido Comunista triunfou na Revolução Chinesa, em 1949, regiões substanciais do Império Chinês histórico haviam sido perdidas. A União Soviética mantinha uma esfera de influência no nordeste, incluindo uma força de ocupação e uma frota no porto de Lushun. Em relação aos territórios que Mao Zedong considerava parte da China histórica, ele foi implacável, buscando impor a autoridade chinesa e em geral foi bem-sucedido. Tais territórios incluíam Taiwan, Tibete, Xinjiang e regiões fronteiriças nos Himalaias ou ao norte.

Assim, tão logo a guerra civil terminou, Mao passou a reocupar regiões separatistas como Xinjiang, Mongólia Interior e, finalmente, o Tibete. Nesse contexto, Taiwan era menos um teste para a ideologia comunista do que uma exigência de respeito à história chinesa. Até o território perdido no Extremo Oriente russo nos acordos de 1860 e 1895 foi reivindicado por Mao.

Quanto ao resto do mundo, Mao introduziu um estilo especial que substituía a força física por militância ideológica e a percepção psicológica. Esse estilo se compunha de uma visão de mundo sinocêntrica, um toque de revolução mundial e uma diplomacia que se valia da tradição chinesa de manipulação dos bárbaros. Zhou Enlai, o primeiro-ministro das Relações Exteriores da República Popular da China, deixou claro que a nova China não iria simplesmente entrar em relações diplomáticas existentes. As relações com o novo regime teriam de ser negociadas caso a caso. A China iria encorajar a revolução no mundo em desenvolvimento.

Mao acreditava no impacto objetivo dos fatores ideológicos e, acima de tudo, psicológicos. Uma das histórias clássicas da tradição estratégica chinesa foi o "Estratagema da Cidade Vazia", de Zhuge Liang, encontrada no Romance dos Três Reinos. Na história, um comandante observa um exército se aproximando muito superior ao seu. Resistir resultaria em destruição; render-se, perda do controle do futuro. Logo, o comandante opta por um estratagema. Ele abre os portões da cidade, fica ali numa postura relaxada, tocando um alaúde, e atrás dele exibe a vida normal sem qualquer sinal de pânico ou preocupação. O general do exército invasor interpreta esse sangue-frio como sinal da existência de reservas ocultas, detém seu avanço e se retira.

A notória indiferença de Mao ante a ameaça de guerra nuclear certamente devia algo a essa tradição. Desde o início, a República Popular da China teve de atuar estrategicamente em uma relação triangular com as duas potências nucleares, Estados Unidos e União Soviética, cada uma delas individualmente capaz de oferecer grande ameaça. Mao lidou com esse estado de coisas fingindo que ele não existia. Chegou mesmo a desenvolver uma postura pública de se mostrar disposto a aceitar centenas de milhões de baixas, até mesmo acolhendo-as como a garantia de uma vitória mais rápida da ideologia comunista.

Adaptado de KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 110-112.

Templo de Adriano, Éfeso

sábado, 30 de abril de 2022

 

Conheça o Timor-Leste

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 


Lembre-se de ativar as legendas (português).

Pós-Guerra no Vietnã

domingo, 27 de junho de 2021

Milhares de refugiados vietnamitas se lançaram ao mar para fugir do regime comunista, imposto a todo o país em 1975. Eles ficaram conhecidos como "boat people". Dpa/Koichi Sawada.

Com a retirada das tropas terrestres e do suporte aéreo americano no Vietnã em 1973-74, a derrota final do Vietnã do Sul foi inevitável. O apoio soviético e chinês aumentou sem precisar se preocupar com os bombardeios americanos. Imediatamente após os acordo de paz de 1973, os norte-vietnamitas enviaram quatro vezes mais suprimentos militares para o sul do que o ano de guerra de 1972 - tamanha era sua convicção de que estariam imunes aos ataques aéreos americanos. Ao contrário da Coreia, onde os Estados Unidos deixaram milhares de soldados para garantir o armistício, em março de 1973 praticamente todos os soldados americanos haviam sido repatriados. Saigon caiu diante de uma ofensiva comunista maciça no dia 30 de abril de 1975. No entanto, os norte-vietnamitas haviam pagando um preço terrível pela vitória - pelo menos um milhão de mortos em combate, e talvez o mesmo número de mortos e desaparecidos. No final, os comunistas tinham quatro vezes mais mortos de guerra do que o exército sul-vietnamita sozinho.

Os americanos foram reiteradas vezes acusados de terem matado 50 mil civis em mais de uma década de bombardeios. Se isso for verdade, essa foi uma consequência terrível da guerra. No entanto, como porcentagem da população norte-vietnamita total, esse número desafortunado ainda representava um total de mortes civis bem inferior ao ocorrido na Alemanha e no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, tal número é apenas uma fração dos cerca de 400 mil civis que se acredita que foram mortos em ataques terroristas e por bombardeios e lançamentos indiscriminados de foguetes pelos comunistas nas cidades. Na derrota, 58 mil americanos foram mortos e o gasto total foi de 150 bilhões de dólares.

Uma vitória comunista causou mais mortes e ainda mais êxodo aos vietnamitas do que décadas de guerra. E tais mortes frequentemente eram mortes lentas por inanição, encarceramento e fuga, e não assassinatos em massa diretos. No passado, a ocupação pelos japoneses e franceses levara a êxodos moderados do Vietnã, mas nada na história do país era comparável às partidas em massa do Vietnã do Sul depois da tomada de poder comunista em 1975. Os números exatos são contraditórios, mas a maioria dos estudiosos concorda que bem mais de um milhão de pessoas deixaram o país de barco; e centenas de milhares cruzaram a fronteira por terra para a vizinha Tailândia e mesmo para a China. O número total de vietnamitas que deixaram o país ultrapassava o da migração original para o sul durante a partição do país em 1954, que somara mais de um milhão de pessoas. Só os Estados Unidos acabaram acolhendo 750 mil vietnamitas e asiáticos do sul, e outros países ocidentais, mais de um milhão. Os que morreram em navios naufragados ou em tempestades somaram entre 50 e 100 mil.

Nos dois primeiros anos depois da queda de Saigon (1975-77), havia quase o dobro de vítimas civis no Sudeste Asiático em comparação a todas aquelas mortas durante dez anos de envolvimento americano mais intenso (1965-74). Ao ser interrogado sobre os milhares de médicos, engenheiros e profissionais enviados para os campos de concentração, um oficial norte-vietnamita declarou: "Devemos nos livrar do lixo burguês." Não há estimativas sobre os mortos nos campos de reeducação - quarenta foram criados só no Vietnã do Sul -, mas acredita-se que tenham sido milhares.

A elite do Partido Comunista escolheu as residências americanas e sul-vietnamitas mais luxuosas para morar. Se o governo sul-vietnamita era corrupto, como a imprensa americana tanto divulgava, esses roubos empalideceram quando comparados ao governo comunista que tomou o poder em 1975. A escala da rapina era tão colossal que até mesmo navios chineses e soviéticos precisavam pagar propinas para descarregar suas mercadorias em Haifong.        

Adaptado de HANSON, Victor Davis. Por que o Ocidente Venceu - Massacre e cultura, da Grécia antiga ao Vietnã. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, p. 599-602.

Um Perfil dos Tokkotai

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

"O mais terrível e certamente o mais conhecido símbolo de sacrifício humano nos conflitos armados do século XX é o piloto kamikaze, arremessando-se para a morte a quase mil quilômetros por hora sobre o convés de uma embarcação inimiga. Muitos não atingiram os alvos, e explodiram ou despedaçaram-se no mar. Uma forma alternativa de morte violenta para os kamikazes, ou Tokkotai (Forças Especiais de Ataque), como os japoneses mais usualmente os denominam, era colocar-se num caixão de aço no formato de um charuto e lançar-se de um submarino como um torpedo-humano. (...)

A maioria dos voluntários Tokkotai (sob variados níveis de pressão) era formada por estudantes provenientes dos departamentos de humanidades das melhores universidades. Estudantes de ciências eram considerados menos descartáveis. As cartas revelam que todos leram muito, frequentemente em pelo menos três línguas. Na filosofia alemã, os autores favoritos eram Nietzsche, Hegel, Fichte e Kant. Na literatura francesa: Gide, Romain Rolland, Balzac, Maupassant. Na alemã: Thomas Mann, Schiller, Goethe, Hesse. Muitos refletiam sobre o suicídio de Sócrates e sobre os escritos de Kierkegaard acerca do desespero. Poucos eram cristãos praticantes e um número surpreendentemente tinha uma visão marxista da política e da economia."    

BURUMA, Ian & MARGALIT, Avishai. Ocidentalismo - O Ocidente aos olhos de seus inimigos. Tradução de Sérgio Lopes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 63-64. 

Materialismo Ocidental x Alma Asiática

sábado, 14 de novembro de 2020

 

O cartunista francês Orens representou a cabeça do czar Nicolau II espetada na ponta da lança de um japonês, após a queda de Port Arthur. Créditos: Visualizing Cultures

"Jamais uma grande nação empreendera transformação tão radical quanto o Japão entre as décadas de 1850 e 1910. O principal slogan da era Meiji (1868-1912) era Brunmei Kaika, ou Civilização e Iluminismo, isto é, civilização ocidental e iluminismo. Tudo o que vinha do Ocidente, da ciência natural ao realismo literário, foi vorazmente absorvido pelos intelectuais japoneses. O vestuário ocidental, a lei constitucional prussiana, as estratégias navais britânicas, a filosofia alemã, o cinema americano, a arquitetura francesa e muito, muito mais foi incorporado e adaptado.

A transformação rendeu frutos generosos. O Japão permaneceu imune à colonização e tornou-se rapidamente uma grande potência, a qual, em 1905, conseguiu derrotar a Rússia numa guerra integralmente moderna. De fato, Tolstoi descreveu a vitória japonesa como um triunfo do materialismo ocidental sobre a alma asiática da Rússia."    

BURUMA, Ian & MARGALIT, Avishai. Ocidentalismo - O Ocidente aos olhos de seus inimigos. Tradução de Sérgio Lopes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 9-10. 

A China ameaça a soberania dos países

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A Personificação dos Continentes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Afresco dos quatro continentes, seção sobre a Ásia. Teto do salão da Escadaria na Residência de Würzburg, 1752-3, de Giambattista Tiepolo.

Durante o século XVII, a tradição de associar mapas do mundo (continentes ou regiões) a imagens das cidades mais importantes e dos povos mais "típicos", em geral representadas em pares nas margens, enraizou-se no trabalho dos principais cartógrafos neerlandeses (Jodocus Hondius, Pieter van den Keere, Vischer, Willem Blaue e Frederik de Wit, seguindo Braun e Hogenberg). Os volumes sobre vestuário aproveitavam, ao mesmo tempo que também criavam, muitas das imagens usadas em mapas, atlas e panoramas de cidades do mundo. No longo prazo, surgiram gêneros de livros que unem quase perfeitamente a representação de cidades e a imagem de povos específicos. Destaca-se o livro publicado por Carel Allard por volta de 1695, Orbis habitabilis oppida et vestitus.

Entre 1570 e 1790 foram executadas muitas obras de arte (desenhos, gravuras, pinturas e esculturas) que se serviram de personificação dos continentes. Sabine Poeschel compilou 112 exemplos, com a grande maioria tendo sido criada na Itália. Na impossibilidade de analisar todos esses trabalhos, destaco o significado simbólico da obra-prima de Giambattista Tiepolo, o afresco pintado em 1752-3 no teto do Salão da Escadaria na Residenz de Würzburg (ver detalhe acima), considerado a mais vasta e uma das mais imponentes pinturas da Europa.

Nessa composição, a posição subalterna da Ásia, da África e da América perante a Europa é claramente indicada pela escolha de posições em relação às escadas e pela representação das figuras: a Europa é o único continente coroado, e as figuras restantes olham diretamente o espectador. Os elementos iconográficos estabelecidos são usados na composição: a Europa, com vestes ricas mas com cores e ornamentos sóbrios, é representada com os símbolos da sua origem (o mito da violação por Zeus), da natureza domesticada (o cavalo), da verdadeira religião (o templo, a mitra e a cruz, e a crossa do príncipe-bispo), das artes liberais (música, geografia, arquitetura, pintura e escultura) e da capacidade bélica (um canhão e um oficial).

Entretanto, a África quase nua monta um camelo, com um macaco, um avestruz e um pelicano representados no mesmo friso, completado pela figura do Nilo, ao lado de várias cenas que exibem mercadores orientais e europeus, e homens locais fumando cachimbo. A Ásia, de turbante, está sentada num elefante, cercada por um grupo de escravos, um criado com um turíbulo, caça a tigres e leões, e temos uma seção que indica a falsa religião, representada por um obelisco e um ídolo. Segundo alguns especialistas, na cena asiática, o escravo com a grilheta no pulso direito está agarrando o pulso esquerdo, o que pode significar que está acorrentando a si próprio - uma inovação iconográfica que vai ao encontro da ideia europeia de despotismo e falta de liberdade oriental. Isso também é sublinhado pelas mãos em posição de súplica ao lado do escravo manietado.

A América, nua, com um toucado de penas, está sentada num crocodilo, num cenário amplo com músicos, frutos e um criado com um pote de chocolate, e é contrastada com uma caça a um aligátor e com uma cena de canibalismo observada de modo um tanto bizarro pelo autor europeu com o seu quê de deturpado.

É marcante a oposição entre a Europa e os continentes exóticos, representados com vida selvagem, caça e canibalismo, mas também repletos de elementos comerciais (barris, fardos, troncos), para-sóis, turbantes, chapéus cônicos e estranhos toucados, que criam uma atmosfera orientalizada no friso, mesmo na África e na América.  

Adaptado de BETHENCOURT, Francisco. Racismos - das Cruzadas ao Século XX. Tradução de Luís Oliveira Santos e João Quina Edições. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 114-116.