“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel

“Quem não é capaz de sonhar com a história diante dos documentos não é historiador.” F. Braudel
Villa Borghese, Roma, Itália.

Os 100 Anos da Revolução Russa

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Com os bolcheviques e a Revolução de Outubro, ocorrida há exatos cem anos, a revolução assumiu, com efeito, um papel inédito. Ela não levava mais a bandeira da burguesia e sim a da classe operária. Pelo menos, foi sob essas cores que ela avançou, como a realização da demonstração de Marx sobre a queda da burguesia e do capitalismo. A dificuldade do caso está no fato de que esse capitalismo mal existiu: a revolução proletária estourou no mais atrasado dos países europeus. 

Mas o poder da Revolução Bolchevique sobre as imaginações veio também do reaparecimento, a mais de um século de distância, da mais intensa representação política da democracia moderna: a ideia revolucionária. Esse ressurgimento já havia sido interiorizado há muito tempo pelos bolcheviques, que discutiam desde o início do século XX sobre o precedente jacobino. Lênin e seus correligionários eram, antes de 1914, apenas um pequeno grupo extremista na Internacional Socialista. Quando foram projetados ao primeiro plano das transformações políticas mundiais, no outono de 1917, isso não ocorreu apenas porque foram vitoriosos. Ocorreu porque enfeitaram com o encanto irresistível da vitória um modo de ação histórica em que a esquerda europeia reconheceu seus ancestrais e a direita, seus inimigos. Encontro que se renovou ao longo de todo o século XX, e graças ao qual qualquer território ou país, por mais remoto e exótico, mais improvável que fosse, foi considerado um potencial "soldado da revolução universal". 

Adaptado de FURET, François. O Passado de Uma Ilusão. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 80. 

#15Fatos A Escravidão em Roma

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mosaico com dois escravos servindo vinho a um homem. Data desconhecida. 
Localização: Bardo National Museum, Túnis, Tunísia.

1. O escravo não era degradado pela escravidão até ser convertido em "algo" desumanizado. Na verdade, o cativo criava uma nova ordem vital, um entorno no qual se "humanizava" de novo, desempenhando outro papel social ou cultural. Portanto, os romanos nunca encararam o escravo como uma "coisa": consideravam-no um ser humano. Contudo, esse ser humano era, ao mesmo tempo, um bem e um inferior que devia se socializar no seu papel de escravo.

2. Durante a expansão romana nos tempos da República, os prisioneiros de guerra proporcionavam aos romanos a principal fonte de escravos. Depois, sob o Império, os escravos passaram a ser oriundos fundamentalmente do "rebanho servil", do abandono de crianças e da venda de homens livres em condição de cativeiro (estes  últimos normalmente eram vítimas de piratas, sequestradores ou bandidos, em zonas isoladas ou nas fronteiras do império). Em alguns casos, pessoas livres voluntariamente se convertiam em escravas e, finalmente, a escravatura poderia ser imposta como castigo à gente corrente condenada por delitos particularmente atrozes.  

3. Não é verdade que a sociedade romana sob o Império repousasse sobre a escravidão. O sistema da grande propriedade cultivada por bandos de escravos era peculiar a certas regiões (sul da Itália ou Sicília). Fora dessas regiões, e passada a sua época, a escravidão era apenas uma das relações de produção agrícola, ao lado do sistema de meeiro e de assalariado. Algumas províncias quase desconheciam a escravidão rural (caso do Egito). No setor do artesanato, por outro lado, ao que tudo indica a mão de obra era essencialmente servil.

4. As mais evidentes diferenças entre a escravidão greco-romana e a escravidão no Novo Mundo, na Era Moderna, são a ausência do elemento racial e a diversidade muito maior da vida dos escravos na Antiguidade. Por exemplo, sabemos que muitos escravos eram instruídos e certas obras de ficção colocaram em primeiro plano a vida dos escravos - tal é o caso do Satíricon (60 d.C.), de Petrônio, e do Asno de Ouro (séc. II), de Apuleio.

5. Os escravos com cor de pele e traços faciais radicalmente diferentes eram raros entre entre os romanos ainda que, no mundo greco-romano, africanos subsaarianos e germânicos altos e de pele clara também tenham sido escravizados. Assim, para distinguir os escravos da população livre, às vezes se recorria ao corte de cabelo, tatuagem, colar ou qualquer outro indicador concreto para esse fim.

6. Como foi mencionado acima (fato 4), a condição dos escravos variava bastante, desde rústicos escravos domésticos até grandes administradores. Como não existiam escolas de medicina, muitos médicos eram antigos escravos cujos senhores atuavam na medicina e lhes haviam preparado para a profissão. Posteriormente, esses aspirantes à medicina eram libertados e seguiam os passos dos seus antigos senhores.

7. Contudo, não se engane: o escravo era um inferior por natureza, não importava quem ele fosse ou o que fizesse. O tratamento rude era sinônimo da escravidão - os escravos podiam ser e eram agredidos habitualmente, seja para fomentar o bom comportamento, seja para castigar o mal. Além disso, por exemplo, o escravo poderia ser torturado perante os tribunais públicos para confessar os crimes do amo. Os homens livres, ao contrário, não eram ameaçados de tortura.

8. A legislação oferecia escassa - para não dizer nenhuma - ajuda a um escravo que se encontrasse em situação abusiva. Praticamente todos os cativos olhavam o sistema legal com terror, e não com esperança. Por outro lado, o direito romano possuía uma norma: a do "favor para a liberdade". Isso significa que, na dúvida, um juiz devia decidir em favor da presunção de liberdade. Nesse sentido, se a interpretação de um testamento pelo qual o defunto parecia libertar seus escravos fosse duvidosa, decidia-se pela interpretação mais favorável: a liberdade. Outra norma era que, se alguém libertasse seu escravo, a decisão não poderia ser revertida.

9. Constituíam delitos abrigar conscientemente um escravo fugitivo ou encorajar com palavras seu intento de fugir. Mas, na prática, não existia uma forma evidente de identificar a um fugitivo - o aspecto e a forma de falar da maioria dos escravos não se diferenciavam dos do resto da população. Assim, há relatos de escravos fugidos que conseguiram se infiltrar no exército romano, e passaram desapercebidos.

10. Os escravos participavam da religião. E isso mesmo fora de casa, onde podiam perfeitamente ser aceitos como sacerdotes pelos fiéis de alguma devoção coletiva (como entre os cristãos, que jamais cogitaram pedir o fim da escravatura; além disso, nada indica que cristãos proprietários de escravos tivessem para com estes uma atitude diferente daquela que os politeístas tinham para com os seus escravos). Em Roma, existiam três "festividades de escravos": a Saturnália (no final de dezembro), a festa das escravas (7 de julho) e no dia dos escravos (13 de agosto).

11. Um escravo podia ser recompensado por seu senhor, fazer negócios de forma paralela, cometer furtos ou fabricar coisas e vendê-las para si próprio. Na cidade, os escravos dispunham de muito mais oportunidades, posto que usufruíam de mais tempo livre (nos dias de festa, por exemplo, eles tinham folga do trabalho), além de mais acesso a recursos e pontos de venda. Assim, podiam usar seu peculium para comprar a sua liberdade ou a de algum ente querido. Ou podiam usá-lo para fins diversos. Por exemplo, como qualquer romano, eles também desenvolveram verdadeira paixão pelos espetáculos públicos do teatro, do Circo e da arena.

12. Apesar disso, um escravo devia viver para seu serviço, mais nada. Com os maus tratos físicos e psicológicos, os amos pretendiam impor aos seus escravos o aprendizado da submissão. Esperava-se que todos os escravos obedecessem de boa vontade. O pior de tudo talvez fosse a combinação de agressão física e psicológica: o abuso sexual. 

13. Os romanos viviam com um "medo surdo" dos escravos - sabiam que eles poderiam se voltar contra eles, como, de fato, alguns não hesitaram em fazê-lo. No Egito, há testemunhos que descrevem escravos com atitudes desrespeitosas em relação aos amos. A vida de um proprietário de escravos implicava habitualmente certos riscos, ainda que o assassinato de um amo pelos seus escravos fosse provavelmente excepcional.

14. Na falta de outras perspectivas, os escravos partilhavam os valores do seu senhor, admiravam-no e serviam-no com zelo. Em circunstâncias normais, fosse numa casa grande ou num recinto menor ou em âmbito rural, os escravos sem dúvida criavam vínculos e forjavam relações que davam sentido às suas vidas, apesar da insegurança e da brutalidade subjacente.

15. Não existia violência em grande escala contra os amos; as rebeliões de escravos praticamente cessaram antes da época do Império. Quanto às guerras servis de Espártaco e seus êmulos, os desafortunados não cogitavam em combater para erguer uma sociedade menos injusta, da qual seria banido o escândalo da servidão. Eles queriam apenas estabelecer o seu próprio reino em terras romanas. Aliás, o antigo desenvolvimento orgânico da escravidão (em paralelo com a domesticação de animais) explica o porquê de a escravidão nunca ter sido questionada seriamente na Antiguidade. Considerava-se a escravidão uma forma normal e aceitável de relacionar-se com outros seres humanos. 

Bibliografia consultada: 
KNAPP, Robert C. Los Olvidados de Roma - Prostitutas, forajidos, esclavos, gladiadores y gente corriente. Traducción de Jorge Paredes. Barcelona: Editorial Planeta, 2011, p. 147-198.
VEYNE, Paul. O Império Romano. In: ARIÈS, Philipe & DUBY, Georges (diretores da coleção). História da Vida Privada. Volume 1: Do Império Romano ao ano mil / organização de Paul Veyne. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 61-79.

As Causas da Crise de 1929

domingo, 5 de novembro de 2017

Manchete do London Herald sobre o colapso financeiro de Wall Street.

As causas do "estouro" de outubro de 1929 são muito mais difíceis de serem explicadas do que, por exemplo, a desintegração das principais bolsas de valores do mundo no final de julho de 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Para se ter uma ideia, na página inicial do The New York Times do dia 23 de outubro de 1929 (a véspera da "Quinta-Feira Negra"), foram destacados artigos sobre a queda do premier francês, Aristide Briand, e sobre uma votação no Senado americano a respeito dos impostos sobre produtos químicos importados. Além disso, o jornal exibia também pelo menos quatro reportagens sobre o vendaval que havia castigado a costa leste no dia anterior. 

Alguns historiadores consideram como "gatilhos" da Depressão as reparações financeiras impostas à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e o aumento do protecionismo americano. Por outro lado, muitos culparam a especulação. Dentre eles, o presidente Franklin Delano Roosevelt e o economista John M. Keynes, que insinuaram que a crise fora parcialmente provocada por uma má conduta financeira (enquanto o primeiro espinafrou "os inescrupulosos cambistas" de Wall Street, o segundo comparou a bolsa de valores a um cassino). 

De algum modo, as raízes da Grande Depressão estiveram nos transtornos econômicos globais que surgiram na crise anterior de 1914. Quando a produção europeia reapareceu no mercado após a guerra, houve um excesso crônico de produção de gêneros primários, o que fez despencar os seus preços. Isso ocorreu muito antes de 1929. Essa queda de preços dificultou ainda mais a situação de países com grandes dívidas externas, como a Alemanha. Além disso, a força do trabalho organizado na maioria dos países combatentes aumentou, tornando mais difícil os cortes de salários por causa da queda dos preços. Assim, para evitar a falência, empresas foram forçadas a demitir trabalhadores. Todavia, os Estados Unidos - o epicentro da crise de 1929 -, gozavam de boa situação econômica quando a Depressão eclodiu. No Entreguerras, não havia escassez de produtividade na economia americana e a inovação tecnológica foi intensificada. 

No entanto, aparentemente essas mesmas forças provocaram o deslocamento inicial que colocou em movimento uma clássica bolha da bolsa de valores. Entre 1925 e 1929, por exemplo, as ações da RCA (rádio) subiram incríveis 939%. A euforia encorajou uma corrida nas novas ofertas iniciais públicas (IPOs) e, ainda, a proliferação de consórcios de investimento, concebidas para capitalizar sobre o boom da bolsa de valores.

A política do presidente Herbert Hoover, empossado em 4 de março de 1929, foi desastrosa. Sob influência da "nova economia", que preconizava o planejamento central, ele embarcou em uma política de déficits orçamentários e apelou aos governos locais para que estes se endividassem mais e gastassem seus empréstimos em obras públicas. Meses após a quebra da Bolsa de Valores, foi aprovada a tarifa Smoot-Hawley (junho de 1930), que elevou as tarifas de importação a níveis sem precedentes, o que praticamente fechou as fronteiras dos Estados Unidos a produtos estrangeiros. Isso contribuiria decisivamente para que a crise evoluísse para uma depressão econômica.   

Milton Fridman e Anna Schwartz argumentaram que foi o Federal Reserve System o responsável por induzir a transformação da crise de 1929 numa Grande Depressão. Eles não culparam o Fed pela bolha em si que, verdade seja dita, sob o comando de Benjamin Strong, por ter impedido a bolha de crescer ainda mais. Após sua morte, no entanto, em outubro de 1928, o Federal Reserve Board, em Washington, começou a administrar a política monetária, com resultados desastrosos. Primeiro, por fazer bem pouco para deter os efeitos da quebradeira dos bancos, iniciada vários meses antes do crash da bolsa de Nova York. Depois, por piorar as coisas, ao reduzir a quantidade de crédito pendente (dezembro de 1930-agosto de 1931). 

A incapacidade do Federal Reserve para evitar a falência de 10 mil bancos foi uma catástrofe financeira. Prejudicou os consumidores (que perderam seus depósitos), acionistas e a economia em geral, que se estagnou pela falta do suprimento do dinheiro e de crédito. 

A grande lição que ficou para os economistas é que uma política monetária ineficiente ou inflexível na sequência de um declínio agudo nos preços de ativos pode pode transformar a correção em recessão, e uma recessão em depressão. 

Bibliografia consultada: FERGUSON, Niall. A Ascensão do Dinheiro - A História Financeira do Mundo. Tradução de Cordelia Magalhães. São Paulo: Planeta do Brasil, 2009, p. 150-155. 

Leia um artigo sobre o assunto no site Mises Brasil e assista a um documentário tema aqui. Leia o post As Tarifas Smoot-Hawley.     

Estudo da Sífilis de Tuskegee

sábado, 4 de novembro de 2017

Um médico extrai sangue de um paciente como parte do estudo da sífilis de Tuskegee. Ano de 1932.

A eugenia foi criada pelo cientista inglês Francis Galton (1822-1911), um primo de Charles Darwin (1809-1882). A partir de estudos em Antropologia, Galton passou a defender que a evolução do homem teria dado origem a diferentes raças "inferiores" e "superiores". A genética determinaria o sucesso ou o fracasso, a riqueza ou a pobreza, a saúde ou as doenças, de indivíduos ou de famílias. Assim, Galton propôs uma melhoria da raça com casamentos selecionados entre humanos de gene bom, excluindo os "inferiores". 

Nos Estados Unidos, o biólogo Charles Davenport (1866-1944) abraçou a causa da eugenia. Em boa medida por causa de sua atuação, as primeiras décadas do século XX testemunharam o auge dessa pseudociência. Alguns estados americanos proibiram os casamentos inter-raciais, enquanto outros foram ainda mais radicais e autorizaram a esterilização de pessoas "inferiores" (o que poderia incluir os "idiotas", os "imbecis" e os "débeis mentais"). O perigo de contaminar o gene americano impulsionou o governo estadunidense a adotar uma política anti-imigração (o que afetou povos eslavos, irlandeses, judeus e outros). 

Com base na eugenia, médicos americanos passaram a aventar a possibilidade de que as doenças infecciosas fossem um meio natural de eliminação dos seres humanos inferiores e, portanto, estes tinham a propensão de adquiri-las. Alguns foram mas radicais com esse pensamento, e passaram a utilizar os "inferiores" como cobaias. Um desses foi o Dr. Raymond Vonderlehr, da Universidade de Tuskegee, que recebeu apoio do governo norte-americano através do Serviço de Saúde Pública para iniciar, em 1932, um estudo com quase 400 negros sifilíticos do Alabama. 

Em 1909, um médico alemão chamado Paul Ehrlich (1854-1915) descobriu os poderes do arsênico contra a bactéria da sífilis. Apesar de tóxica a alguns pacientes, a nova droga começou ser usada no tratamento da doença. Porém, os negros que foram usados como cobaias do Dr. Raymond não tiveram acesso a esse tratamento. E isso relaciona-se diretamente às ideias eugênicas em voga nos Estados Unidos. 

Apesar das promessas de tratamento, esses negros eram simplesmente examinados anualmente. A sífilis os consumia, enquanto médicos acompanhavam meticulosamente seu sangue e a propagação da doença em seus organismos. Como disfarce para acreditarem que ingeriam drogas eficazes seu sangue ruim, os negros recebiam aspirinas e tônicos. Os trabalhos do grupo de Tuskegee prosseguiram até 1972, quando reportagens do The New York Times denunciaram a atrocidade praticada contra os negros sifilíticos do Alabama.     

Bibliografia consultada: UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2013, p. 92-98.

Aspectos do Direito Romano

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ruínas do Fórum romano.

O direito romano pode ser qualificado de individualista: a liberdade de divórcio era igual para homens e mulheres, a propriedade poderia ser livremente alienada, a liberdade do testador era muito ampla. Embora as mulheres precisassem de um representante masculino para comparecerem a juízo, isso caiu em desuso, e mesmo antes a regra muitas vezes não era seguida. Nenhuma crença religiosa era imposta, e o braço secular deixava aos deuses o cuidado de vingar as injúrias que lhes eram feitas. O direito de mudar de domicílio e de atividade econômica era incontestado. 

Apesar disso, não mais do que a Grécia, Roma jamais garantiu de modo formal a liberdade em seu direito. Este se considerava antes como o estabelecimento dos deveres piedosos para com as relações da casa, obrigações de fidelidade, responsabilidades patrimoniais e diferenças de legislação pessoal. 

No mundo greco-romano, um legislador podia tentar revolucionar a sociedade por decreto; as leis nem sempre eram prudentes a ponto de não se atrasar muito nem avançar demais com relação aos costumes. A cidade era, antes, como uma instituição nascida da Lei e o cidadão era como um aluno preguiçoso que só respeitava a disciplina sob a palmatória do mestre. 

Em época normal, os costumes romanos eram traduzidos com bastante exatidão pelo direito civil. Numa sociedade tão "desigual, desigualitária e atravessada por redes de clientelas", os direitos mais formais não eram reais e um fraco tinha chances mínimas ao processar os poderosos. O poder público organizava a vendeta privada e não fazia nada para a impedir. 

Só no final da Antiguidade os governantes de província finalmente fizeram triunfar em tudo seu ideal de coerção pública. Até essa época, alguém que tivesse as suas terras invadidas por um vizinho, por exemplo, precisaria garrá-lo e mantê-lo em sua prisão privada até o dia do julgamento. Caso não o levasse à presença do juiz, não haveria processo. Considerando então que o cidadão lesado cumprisse essa exigência, no tribunal ele precisaria da intervenção de um homem poderoso que o aceitou como cliente. A sentença favorável, contudo, não significava a reparação do dano: ele próprio deveria proceder à execução, o que exigiria os meios. O juiz o autorizaria a se apoderar de todos os bens e domínios do condenado, que seriam vendidos em leilão. Uma quantia igual que o juiz atribuiu à propriedade tomada seria retida pelo demandante; o restante seria entregue ao condenado. 

Portanto, o direito entre os romanos era uma estratégia, mas também uma das matérias da velha cultura romana. Esse direito secretamente desconcertante também apresenta resquícios de justiça popular e privada. 

Bibliografia consultada: VEYNE, Paul. O Império Romano. In: ARIÈS, Philipe & DUBY, Georges (diretores da coleção). História da Vida Privada. Volume 1: Do Império Romano ao ano mil / organização de Paul Veyne. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 164-167.

O Significado do Testamento em Roma

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fragmento de um sarcófago romano de mármore de meados do século II d.C. Da esquerda para a direita, são mostrados vários aspectos da vida do falecido (ele aparece numa procissão religiosa, como militar e em seu casamento). 
Localização: Museus Capitolinos, Roma, Itália.

Em certas sociedades, o ritual do leito de morte e as últimas palavras possuíam grande importância. Em Roma, isso foi substituído pelo testamento, no qual se manifestava o "indivíduo social", e também pelo epitáfio, em que se manifestava o "indivíduo público" (apesar disso, as últimas palavras do imperador Augusto foram bem destacadas por Suetônio; conheça-as aqui). Assim, neste dia de finados, selecionei uma citação sobre o significado do testamento entre os romanos. O autor, Paul Veyne (1930- ) é um dos maiores especialistas na civilização romana da atualidade:  

"A leitura pública do testamento era o acontecimento público do momento, pois as disposições e heranças não eram tudo e o testamento adquiria valor de manifesto. O costume de designar 'herdeiros substitutos', que não tocariam num centavo (a não ser que o herdeiro principal recusasse a sucessão), permitia escrever todos os nomes próprios que o testador quisesse, cada qual aquinhoado com uma fração teórica da herança, que dava a medida da estima do defunto em relação a cada um deles. O falecido também podia insultar post mortem aqueles a quem havia detestado secretamente e reconhecer os valores: os nobres tinham o hábito de deixar um legado aos grandes escritores do momento. Plínio, então um orador célebre, que ia a todas as aberturas de testamento, observava com satisfação que sempre lhe legavam a mesma soma destinada a seu rival e amigo, o orador Tácito (ele não mente, e os epigrafistas encontraram um testamento em que é nomeado). A política imiscuía-se: um senador sempre tido como homem sério perdeu tal reputação por causa de seu testamento, no qual tecia loas a Nero (evidentemente para evitar que lhe anulassem o testamento e confiscassem a sucessão); outros, ao contrário, insultavam os todo-poderosos ministros do soberano e até se referiam em termos pouco amenos ao próprio imperador, quer se chamasse este Nero ou Antonino Pio... Um testamento era algo tão grandioso, do qual todos se orgulhavam tanto, que muitos dificilmente resistiam ao desejo de iniciar a leitura depois de beber, para agradar de antemão os legatários e se fazer estimar." 

VEYNE, Paul. O Império Romano. In: ARIÈS, Philipe & DUBY, Georges (diretores da coleção). História da Vida Privada. Volume 1: Do Império Romano ao ano mil / organização de Paul Veyne. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 43.

Fundamentos do Brasil Colônia

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Engenho de Itamaracá, 1647, de Frans Post (1612-1680). 
Leia uma análise dessa obra no blog Ensinar História. No mesmo blog, leia sobre os Aspectos da Vida Social no Brasil Colônia. 

"Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Mudado em São Vicente e em Pernambuco o rumo da colonização portuguesa do fácil, mercantil, para o agrícola; organizada a sociedade colonial sobre base mais sólida e em condições mais estáveis que na Índia ou nas feitorias africanas, no Brasil é que se realizaria a prova definitiva daquela aptidão. A base, a agricultura; as condições, a estabilidade patriarcal da família, a regularidade do trabalho por meio da escravidão, a união do português com a mulher índia, incorporada assim à cultura econômica e social do invasor. 

Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio - e mais tarde do negro - na composição. Sociedade que se desenvolveria menos pela consciência de raça, quase nenhuma no português cosmopolita e plástico, do que pelo exclusivismo religioso desdobrado em sistema de profilaxia social e política. Menos pela ação oficial do que pelo braço e pela espada do particular. Mas tudo isso subordinado ao espírito político e de realismo econômico e jurídico que aqui, como em Portugal, foi desde o primeiro século elemento decisivo de formação nacional; sendo que entre nós através das grandes famílias proprietárias e autônomas: senhores de engenho com altar e capelão dentro de casa e índios de arco e flecha ou negros armados de arcabuzes às suas ordens; donos de terras e de escravos que dos senados de Câmara falaram sempre grosso aos representantes del-Rei e pela voz liberal dos filhos padres ou doutores clamaram contra toda espécie de abusos da metrópole e da própria Madre Igreja. Bem diversos dos criollos ricos e dos bacharéis letrados da América espanhola - por longo tempo inermes à sombra dominadora das catedrais e dos palácios dos vice-reis, ou constituídos em cabildos que em geral só faziam servir de mangação aos reinóis todo-poderosos." 

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique Cardoso. 51ª ed. rev. São Paulo: Global, 2006, p. 65-66.